sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Tamarana

 

Tamarana

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Tamarana
  Município do Brasil  
Salto Apucaraninha.JPG
Símbolos
Bandeira de Tamarana
Bandeira
Brasão de armas de Tamarana
Brasão de armas
Hino
Gentílicotamaranense
Localização
Localização de Tamarana no Paraná
Localização de Tamarana no Paraná
Tamarana está localizado em: Brasil
Tamarana
Localização de Tamarana no Brasil
Mapa de Tamarana
Coordenadas23° 43' 22" S 51° 05' 49" O
PaísBrasil
Unidade federativaParaná
Região metropolitanaLondrina
Municípios limítrofesLondrinaSão Jerônimo da SerraOrtigueiraMauá da Serra e Marilândia do Sul
Distância até a capital341[1] km
História
Fundação1919 (103 anos)
Emancipação13 de dezembro de 1995 (27 anos)
Administração
Prefeito(a)Luzia Harue Suzukawa[2] (PSDB, 2021 – 2024)
Características geográficas
Área total [3]472,155 km²
População total (estimativa IBGE/2021[4])15 277 hab.
Densidade32,4 hab./km²
ClimaSubtropical úmido (Cfa)
Altitude753 m
Fuso horárioHora de Brasília (UTC−3)
Indicadores
IDH (PNUD/2000[5])0,683 — médio
PIB (IBGE/2008[6])R$ 147 157,472 mil
PIB per capita (IBGE/2008[6])R$ 12 030,53
SítioSítio oficial (Prefeitura)
Sítio oficial (Câmara)

Tamarana é um município brasileiro do estado do Paraná. O município está localizado aproximadamente a 340 quilômetros de Curitiba e cerca de 50 quilômetros de Londrina, integrando sua região metropolitana.[7] O município possui uma área de 472,155 km², com uma população estimada em 15 277 habitantes (IBGE/2021).[4]

Etimologia

De acordo com etimologistas, a palavra "tamarana" é um substantivo feminino de origem tupi, sinônimo de "cuidaru", que se trata de uma arma, em forma de clava, com cerca de um metro de comprimento (dicionário Antonio Houaiss, 2007). Sua origem remonta à lenda de uma princesa indígena guerreira que usava como arma uma clava feita de madeira.[8]

História

Desde antes da colonização do Paraná por portugueses e espanhóis, a região de Tamarana já era habitada por indígenas. Entre esses povos nativos, os índios Kaigangues até hoje habitam suas terras na Reserva Indígena de Apucaraninha.[8]

Na região de Tamarana, a colonização do médio rio Tibagi foi resultado do loteamento da Fazenda Três Bocas, pertencente ao engenheiro Joaquim Vicente de Castro, que atraiu safristas vindos do Sul de São Paulo e do Norte Pioneiro do Paraná. O início do povoado foi registrado por volta de 1915, quando o pioneiro Olímpio Moraes se estabeleceu e possibilitou a instalação posterior de safristas, iniciando a criação de porcos na região.[8][9]

A cidade nasceu como Patrimônio de São Roque em 1919, antes do advento do Café no Norte do Paraná, e contou com a participação de vários emigrantes, que vieram para dedicar-se à pecuária e à cana-de-açúcar. Um dos pioneiros a cultivar cana-de-açúcar e a fabricar açúcar foi João Marcondes.[9] Em 1925 foi criada a Companhia de Terras Norte do Paraná que atraiu muitas pessoas de outros estados e intensificou a ocupação de terras na região. Em 1927 várias famílias já haviam se fixado na região de Tamarana, como os Araújo, Marcondes, Vieira, Pinto, Carvalho, Tomé, Aleixo, Barbosa, Maciel e Teixeira.[9]

Mais tarde, a localidade recebeu um influxo de imigrantes japoneses e britânicos. Ainda é visível a toponímia com nomes de família e marcos da época da colonização: Bairro dos Moraes, Bairro dos Moreiras, Bairro dos Fabrícios, Bairro dos Ingleses, Bairro dos Pintos (km 103), Igrejinha do Rio Preto.

O vilarejo de São Roque, em 20 de março de 1930 através do Decreto lei n.º 2.713, passou a a ser Distrito Judiciário de São Roque que pertencia ao município de Tibagi. No dia 6 de janeiro de 1939, através de Decreto Governamental, o Distrito Judiciário de São Roque foi desmembrado de Tibagi anexado ao recém-criado município de Londrina.[10]

Na década de 1930 o povoado viu um crescimento com a chegada do café, tornando-se um micro-polo, mas rapidamente substituída por Londrina, que possuía estrada de ferro. Em 30 de dezembro de 1943, conforme o Decreto-lei Estadual n.º 199, o distrito de São Roque passou a ser denominado de Tamarana. Uma das iniciativas para que houvesse a alteração no nome da localidade, é para que não fosse confundida com a cidade de São Roque, no estado de São Paulo.[9]

Entre as décadas de 1960 e 1970, a região entrou em uma decadência econômica ocasionada pelas queimadas e inverno rigoroso, como nos eventos de 19631965 e 1975. Muitos de seus habitantes migraram para o oeste paranaense, Londrina, Curitiba e Centro-Oeste. A crise acarretou no fim da monocultura do café e do regime de pequenas propriedades familiares. Nos últimos anos, o regime fundiário que predomina são grandes e médias propriedades.

O município foi emancipado através da Lei Estadual nº 11.224 de 13 de dezembro de 1995, sendo desmembrado de Londrina, com o forte apelo da maioria dos moradores. O município foi instalado oficialmente no dia 1º de janeiro de 1997.[9]

Geografia

Vista parcial da região do vale do rio Apucaraninha.
Vista parcial da região do vale do rio Apucaraninha.

Possui uma área de 472,153 km² representando 0,2369% do estado, 0,0838% da região e 0,0056% de todo o território brasileiro. Localiza-se a uma latitude 23°12'22" sul e a uma longitude 51°45'49" oeste, estando a uma altitude de 753 metros. O principal acesso a sede do município se dá pela rodovia PR-445.[7]

Demografia

De acordo com o IBGE, no Censo de 2010 o município contava com 4.094 domicílios, destes 2.601 domicílios eram considerados próprios e estavam ocupados por famílias.[11]

Ainda de acordo com as informações de 2010, o município possuía 12.262 pessoas, sendo 6.276 homens e 5.986 mulheres, bem como, 5.858 moradores da área urbana e 6.404 moradores da área rural.[11] Sua população estimada em 2021 era de 15 277 habitantes,[4] com uma densidade demográfica de 32,28 hab/km².[11]

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M): 0,683

  • IDH-Renda: 0,621
  • IDH-Longevidade: 0,693
  • IDH-Educação: 0,737

Administração

Economia

A base econômica do município são as atividades relacionadas ao agronegócio.[11] Tamarana se consolidou como o maior produtor de gengibre do Paraná, com uma produção média anual de 1,8 milhão de quilos.[12] Em relação as informações dos levantamento do ano de 2020, as principais culturas temporárias no município são soja, trigo, aveia, milho e hortifrutigranjeiros. Outras cultivos menores são o de sorgo, feijão, batata-doce, arroz e tomate. Já as culturas permanentes, o destaque fica para o cultivo de café.[11]

Na pecuária, o destaque fica para os galináceos com 467.658 cabeças, seguido pelo rebanho de bovinos com 15.707 cabeças, rebanho de ovinos com 1.227 indivíduos e rebanho de suínos com 1.202 porcos.[11]

Turismo

Vista do rio Claro, interior do município de Tamarana.

Com uma vasta área rural e com um relevo bastante acidentado, o interior do município de Tamarana apresenta inúmeras cachoeiras.[7] A exploração turística é considerada recente, sendo o município propício para o desenvolvimento de atividades relacionadas ao turismo rural, de natureza, de aventura e esportes radicais.[7][13]

Entre os atrativos turísticos está a Serra do Arreio, com quase mil metros de altitude, proporcionando vistas privilegiadas. O Salto do Apucaraninha, na divisa com o município de Londrina, está localizado ao lado da Terra Indígena Apucaraninha e é um dos principais pontos turísticos da região Norte do Paraná. O rio Apucaraninha deságua no vale do rio Tibagi, outro importante ponto muito procurado por turistas.[7] Ainda em 2020 o município produziu aproximadamente 552 mil litros de leite de origem animal e 4.200 kg de mel de abelha.[7]

Cultura

Festividades

No mês de agosto acontece a principal festividade católica do município é a Festa de São Roque, padroeiro de Tamarana, em homenagem ao santo Roque de Montpellier, considerado protetor contra a peste e padroeiro dos inválidos.[7] Já no mês de dezembro, Tamarana comemora com diversos eventos o aniversário de emancipação do município.[7]

Culinária

A culinária local é marcada com uma forte herança indígena e influências da comida da roça, dando origem a diversos pratos caipiras.[13] É comum ainda o churrasco, como a costela fogo de chão.[7]

Referências

  1.  «Distâncias entre a cidade de Curitiba e todas as cidades do interior paranaense». EmSampa. Consultado em 22 de setembro de 2017
  2. ↑ Ir para:a b c «Candidatos a vereador Tamarana-PR». Estadão. Consultado em 29 de maio de 2021
  3.  IBGE (10 out. 2002). «Área territorial oficial». Resolução da Presidência do IBGE de n° 5 (R.PR-5/02). Consultado em 5 dez. 2010
  4. ↑ Ir para:a b c «Estimativa populacional 2021 IBGE» (PDF). Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 27 de agosto de 2021. Consultado em 16 de junho de 2022
  5.  «Ranking decrescente do IDH-M dos municípios do Brasil»Atlas do Desenvolvimento Humano. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). 2000. Consultado em 11 de outubro de 2008
  6. ↑ Ir para:a b «Produto Interno Bruto dos Municípios 2006-2010». Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Consultado em 11 dez. 2010
  7. ↑ Ir para:a b c d e f g h i Secretaria da Comunicação Social do Paraná (2019). «Tamarana - uma cidade para refrescar a cabeça». Viaje Paraná. Consultado em 16 de junho de 2022Cópia arquivada em 16 de junho de 2022
  8. ↑ Ir para:a b c «História da Cidade». Prefeitura Municipal de Tamarana. 9 de abril de 2019. Consultado em 16 de junho de 2022
  9. ↑ Ir para:a b c d e «História Tamarana Paraná». Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Consultado em 16 de junho de 2022
  10.  «História Tibagi Paraná». Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Consultado em 16 de junho de 2022
  11. ↑ Ir para:a b c d e f Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Sustentável (IPARDES) (junho de 2022). «Caderno estatístico - município de Tamarana». Consultado em 16 de junho de 2022
  12.  G1 Paraná (12 de setembro de 2021). «Tamarana lidera produção de gengibre entre cidades do Paraná». Consultado em 16 de junho de 2022
  13. ↑ Ir para:a b «Turismo de Tamarana marca presença com ações diversificadas na Expo Londrina». Prefeitura Municipal de Tamarana. 9 de abril de 2019. Consultado em 16 de junho de 2022

Ligações externas

1948 Aparecem da esquerda para a direita em pé: Amelia, Anita, Edite, Deoni [criança] e Carlos Zanlorenzi. Em primeiro plano: Maria Zanlorenzi Sovierzoski, Marta Zanlorenzi, Domingos Zanlorenzi, [Sentados] e Eloi José Soviersoski. Marta e Domingos são falecidos. Marli e Eloi sao filhos de Amelia Zanlorenzi Soviersoski

 1948 Aparecem da esquerda para a direita em pé: Amelia, Anita, Edite, Deoni [criança] e Carlos Zanlorenzi. Em primeiro plano: Maria Zanlorenzi Sovierzoski, Marta Zanlorenzi, Domingos Zanlorenzi, [Sentados] e Eloi José Soviersoski. Marta e Domingos são falecidos. Marli e Eloi sao filhos de Amelia Zanlorenzi Soviersoski


Leonardo Wessolovski [1896] e Apolonia Purkot Wessolovski [1898]. Nasceram na Colonia Cristina. Vieram casados para Campo Comprido Ha 53 anos. Foto da decada de 30

 Leonardo Wessolovski [1896] e Apolonia Purkot Wessolovski [1898]. Nasceram na Colonia Cristina. Vieram casados para Campo Comprido Ha 53 anos. Foto da decada de 30


1944 Rua Carlos de Carvalho pavimentada, esquina com Voluntários da Pátria aparece ao lado direito edifício Queiroz Cunha, na esquerda casas com arquitetura eclética, rua com iluminação pública central

 1944 Rua Carlos de Carvalho pavimentada, esquina com Voluntários da Pátria aparece ao lado direito edifício Queiroz Cunha, na esquerda casas com arquitetura eclética, rua com iluminação pública central


Anotação impressa na B.S.:Cascatinha. Rio do Uvu - Arredores de Curitiba - Parana - Brasil / Serie e N.3 Anotação manuscrita na B.S.: 1904

 Anotação impressa na B.S.:Cascatinha. Rio do Uvu - Arredores de Curitiba - Parana - Brasil / Serie e N.3 Anotação manuscrita na B.S.: 1904


Pescaria na década de 1930. Tanque dos Olivetti. Da esquerda para direita: 1. fila: Angelo Olivetti [falecido], Angelin Ransolin, [apelido de Barita, falecido], Joaquim Ransolin [falecido], Olandino Ransolin. 2. fila: Gildo Borgo [falecido], Claudio Olivetti, José Olivetti [falecido] e com a peneira na mão Bernardo Sobienski [sobbe], Augusto Lygmanowski está com o peixe na mão, de colete e chapéu preto. No alto aparece o dono do tanque: Antonio Olivetti. Bairro Campo Comprido

 Pescaria na década de 1930. Tanque dos Olivetti. Da esquerda para direita: 1. fila: Angelo Olivetti [falecido], Angelin Ransolin, [apelido de Barita, falecido], Joaquim Ransolin [falecido], Olandino Ransolin. 2. fila: Gildo Borgo [falecido], Claudio Olivetti, José Olivetti [falecido] e com a peneira na mão Bernardo Sobienski [sobbe], Augusto Lygmanowski está com o peixe na mão, de colete e chapéu preto. No alto aparece o dono do tanque: Antonio Olivetti. Bairro Campo Comprido


Foto da década de 1930, jogo de bocha. A cancha de bocha era de José Olivetti, e ficava no mesmo lugar onde havia o tanque para pescaria. Em pé, da esquerda para a direita: Augusto Lygmanowski, Claudio Olivetti, Olandino Ransolin, menino João Batista Ransolin, um outro menino e um Rossetin. Sentados da esquerda para a direita, Joanin Ransolin, Gildo Borgo e José Olivetti

 Foto da década de 1930, jogo de bocha. A cancha de bocha era de José Olivetti, e ficava no mesmo lugar onde havia o tanque para pescaria. Em pé, da esquerda para a direita: Augusto Lygmanowski, Claudio Olivetti, Olandino Ransolin, menino João Batista Ransolin, um outro menino e um Rossetin. Sentados da esquerda para a direita, Joanin Ransolin, Gildo Borgo e José Olivetti


fotos Bairro Guaíra 1950 1954 e 1964

 fotos Bairro Guaíra 1950 1954 e 1964


1950 Trabalho para abertura da Avenida, hoje a Avenida Presidente Kennedy, Bairro Portão


Legenda na BI: BIC "Avenida Guaira - abril de 1950"



Legenda na BI: BIC "Avenida Guaira - novembro de 1954"


Legenda na BI: BIC "PM - DO - DOS Vila Guaira alargamento do Rio do Cortume - agosto de 1964


1964 Trabalho de saneamento na Rua Santa Catarina, com a construção de ponte de concreto armado, no córrego do cortume, ao fundo aparece as torres da Igreja Ucraniana


1964 Trabalho de retificação do Rio Vila Guaíra, entre a Rua Santo Amaro e Avenida Presidente Kennedy. Bairro Água Verde

Alto Sao Francisco, aparecem ao centro a Sociedade Garibaldi com emblema da Italia no frontao. O Belvedere e de aproximadamente 1915 e a casa na esquina com a Almirante Tamandare e de 1919

 Alto Sao Francisco, aparecem ao centro a Sociedade Garibaldi com emblema da Italia no frontao. O Belvedere e de aproximadamente 1915 e a casa na esquina com a Almirante Tamandare e de 1919


Em primeiro plano a Av. Sete de Setembro e no lado direito da foto o final da Av. Visconde de Guarapuava. Mais adiante vê-se as dependências da Fábrica Cini. À esquerda, o Colégio Rio Branco. Ao fundo, a região da rua Carlos de Carvalho, Vicente Machado e o bairro Bigorrilho, início da década de 1950

 Em primeiro plano a Av. Sete de Setembro e no lado direito da foto o final da Av. Visconde de Guarapuava. Mais adiante vê-se as dependências da Fábrica Cini. À esquerda, o Colégio Rio Branco. Ao fundo, a região da rua Carlos de Carvalho, Vicente Machado e o bairro Bigorrilho, início da década de 1950


Histórias de Curitiba - A bela e a fera

 

Histórias de Curitiba - A bela e a fera

A bela e a fera
José Leon Zindeluk

A madrugada da década de quarenta me surpreendeu menino no 34 da Rua Quinze.
Na Europa, a xenofobia que hoje ressurge violenta, pretexto para soluções de crises econômicas, fazia sua vítimas. A Curitiba, réplica européia, cosmopolita, mãe adotiva de tantas etnias, tão bem representadas nos festivais folclóricos, recebia reticente os imigrantes, em parte pela ambigüidade política da época.
No primeiro andar onde eu morava, minha mãe costurava as gravatas que meu pai vendia, embrião da futura fábrica que me deixaria orgulhoso ao ver as grava-tinhas bordô ou azul-marinho adornando o colo das colegiais e normalistas do Instituto de Educação.
Vinte e cinco degraus abaixo e, ao lado, o Bar Triângulo (Cachorro Quente), do seu Rudi, que nascera comigo em 59, seria o su-pressor da fome dos horários formais de refeições e, mais tarde, o grande companheiro de chope e calmante "dos apetites" das madrugadas.
Fazia parte de uma turmi-nha dividida em grupos da Rua Ébano Pereira, Rua Quinze e que, à moda do Roy Rogers, Durango Kid e Zorro, cavalgava pelos quarteirões em brigas de quadrilhas.
A infância de minha geração correu pelas calçadas da Avenida à segunda quadra da Rua Quinze.
Girava pela porta do Braz Hotel, respirava o cheiro de couro da Bolsa Chie, dos sanduíches e mais tarde das pizzas da Guairacá. Parava diante das imagens móveis do Broadway, o meu "Cine Paraíso", brincava com as caixas de papelão da Jerusalém e corria até às imagens fixas do Foto Brasil.
A travessia da Dr. Murici foi um tabu respeitado por algum tempo e assim o circuito era completado passando pela Praça Zacarias, onde recebíamos especial carinho dos choferes de praça, especialmente do inesquecível Eu-clides Bastos "Perereca", grande <j do volante das carreteiras.
Com as emoções, haviam os temores da época - a guerra na Europa e sua conseqüente repercussão na vida da cidade - os desfiles militares, a despedida dos expedicionários, os racionamentos.
Também marcaram os clarões dos incêndios da Farmácia Minerva, da Foto Brasil, do Cine Luz, dos automóveis incendiados nas manifestações de 46, as depredações do Cine Avenida e das vitrines, mais tarde a "Revolução do Pente". Os sons dos cascos dos cavalos contra as manifestações estudantis e populares, a intolerância, a repressão, a violência.
Os jatos d'água dos bombeiros apagando incêndios e dispersando multidões.
Curitiba mudou...A Rua Quinze é das flores, a calçada, calçadão e os meninos na rua são de rua.
Curitiba cresceu, envelheceu um pouco mas se mantém bela graças aos contrastes harmoniosos de sua arquitetura e às numerosas cirurgias plásticas que seu tecido urbano tolerou.
Curitiba é uma cidade mágica e criativa , conservadora e progressiva, mística, universitária e politizada,
de artes e de plástica, onde muitas vezes qualidade de vida se confunde com poder de consumo.
E eu que também vejo a Curitiba pobre e doente (e não é outra história) tenho a esperança de que esta Curitiba dos belos
parques e portais, verdadeiros "Arcos do Triunfo" das etnias, não fique alheia aos conflitos e à grave realidade que
vivemos, para que não repita a Europa de 40 e de hoje.

José Leon Zindeluk é médico.


Fonte: Historias de Curitiba Paraná.

Histórias de Curitiba - 44 Bico largo

 

Histórias de Curitiba - 44 Bico largo

44 Bico largo
René Ariel Dotti

Foi no início dos anos 60, quando o Paraná festejava a vinda do Governo Ney Braga e milhões de brasileiros viviam a esperança da varredura de Jânio Quadros.
Poucos meses depois, a condecoração de Che Guevara e a intempestiva entrega da carta-renúncia ao Congresso Nacional, transportariam o novo messias para Cumbica, e de lá, num navio cargueiro de bandeira inglesa, para a Europa.
Parando em Londres, of course.
No Paraná, o novo Secretário do Interior e Justiça decidiu intervir em Cascavel, centro da violência contra posseiros, vítimas dos "novos"proprietários das terras.
Estes, na verdade, eram personagens urbanos que valendo-se da indústria oficial de títulos de terra, esbulhavam no turbulento sudoeste.
Acomodando tropas da Polícia Militar do Estado em dois aviões de carreira, o valente Secretário deflagrou a "Operação jagunço", na esperança de prender um exército de criminosos astutos e afortunados e seus lombro-sianos capangas.
Os jagunços não estavam mais lá quando a expedição chegou.
Souberam antes da viagem e certamente por informação de alguém do público interno, pois a diligência era cercada de sigilo funcional.
Foram detidos apenas dois retardatários despachantes de títulos, porém liberados tão logo a cruzada retornou à base.
Na delegacia os advogados convenceram a autoridade com um "Habeas corpus"de orelha: "Cadê o mandado judicial, cadê o auto de prisão em flagrante?"
Um novo governo austero deveria ter, também uma nova Polícia Científica e por isso o Luiz Geraldo Mazza estava confiante ao chamar a Delegacia de Furtos e Roubos.
Um larápio entrou em sua casa, no Juvevê, e revirou tudo.
Talvez na inútil busca do dinheiro que o Mazza, sempre aos poucos, traz no bolso.
Mas o ladrão levou roupas e outras coisas mais.
Chegaram dois agentes.
Um bem alto, outro baixinho, quase uma versão paroquial do Mutt e Jeff.
Interrogaram o Mazza.
Onde estava, porque chegou tarde à noite (dando chance para o amigo do alheio), quem eram os vizinhos, se tinha empregada, alguma briga recente, se ainda trabalhava no "Diário do Paraná" e coisa e tal.
Em certa passagem do "levantamento do corpo de delito" um dos investigadores, polacão de quase dois metros, apontou para um sapato que estava na cozinha.
Enorme e solitário, embaixo de uma cadeira.
Com vagar e refinado no suspense o outro policial abaixou-se para apanhar a pista.
Modelando o gesto de captura do sapato com o olhar de certeza sher-loquiana, o "tira" apanhou o quarenta e quatro, bico largo, e o levantou como um troféu até à altura de sua cabeça.
Olhou firme para o parceiro e disparou, numa só palavra, a sentença de condenação: "Domanski!"
O Mazza, intrigado com o ritual, veio a saber depois que Domanski, ao contrário de muito "pé de chinelo", era um ladrão habitual e calçava um generoso tamanho de sapato.
As suas pegadas, portanto, eram identificadas com facilidade pela nova polícia científica.
E os tiras souberam, também depois, que o sapatão era do próprio Mazza.
Ficaram intrigados: se não fora o Domanski, qual era o "gato"perneta que roubou um só sapato?
Da estória restou a lem brança do curioso método de apurar a autoria de um crime. Não pela impressão digital, mas pela impressão do tamanho do pé.

René Ariel Dotti é membro da Academia Paranaense de Letras.


Fonte: Historias de Curitiba Paraná.