QUE TAL ASSISTIR O ESPETÁCULO
Em junho de 1909, o Diário da Tarde anunciava que o espetáculo “Die Dollarprinzessin” (A Princesa do Dollar), estava em cartaz no “Theatro Guayra”, e seria encenado pela companhia de operetas de August Papke.
Segundo esse mesmo jornal, era a primeira vez que uma companhia alemã se apresentava em Curitiba, o que promoveu uma grande expectativa no público em geral e, em especial, aos que falavam o alemão. A imprensa anunciava os valores dos ingressos: Camarotes 300$000, Cadeiras 60$000 e Galerias nobres 30$000.174 A título de comparação, um exemplar avulso do jornal A República custava, na mesma época, $100; logo se vê que as entradas não eram muito acessíveis.
Depois da primeira apresentação da troupe, O jornal A República fez o seguinte comentário: “E confessamos aqui, (...), não foi sem uma certa apprehensão que comparecemos ao Guayra para a audição de uma opereta em língua tão extranha ao nosso entendimento.” Este mesmo jornal curitibano abriu uma seção especial em seu caderno para o público germânico, cujo conteúdo traduzia para o alemão os comentários a respeito das apresentações da companhia. Já no Diário da Tarde, alguém que assinava como “P” comentou que o evento havia sido um sucesso, destacando a boa performance de alguns atores e atrizes; mas o público também chamou a atenção deste comentarista, que afirmou:
"De sorte que o velho theatro Guayra se revestio de galas para acolher a arte dessa raça vigorosa, que, ha mais de meio seculo, nos vem dando o exemplo da honra e do trabalho, collaborando comnosco na obra do aperfeiçoamento material e social desta parte do planeta. Enchia-o uma multidão de cabeças loiras entre as quaes se confundiam os teutos e os teuto-brasileiros, destacando- se aqui e ali o typo nacional, a affirmar no culto á arte como já affirmara no culto ao trabalho, a solidariedade germanico-latina, nesta região abençoada onde o geosinclimal que separava as duas raças vae desapparecendo, de modo a ir desapparecendo esse sulco profundo que as distanciava."
Com um tom em extrema consonância com o dos discursos hegemônicos anteriormente vistos, “P” atribuiu uma série de qualidades que, como muitos acreditavam, eram inerentes à raça alemã, cujos detentores trabalhavam em benefício do progresso. Entretanto, ainda neste discurso, além do entusiasmo com a raça germânica, o que também parecia estar em voga, era a celebração de uma suposta integração entre brasileiros e “allemães”. Com outras palavras, a presença de nacionais na platéia de um espetáculo encenado em alemão era um indicativo positivo da “simbiose” dos contatos, que agora aproximava as raças, “originalmente tão distantes”. Termina seu texto convocando o público, pois, “mesmo os que não entendem o allemão vale a pena ir ao theatro para ouvir a magnifica orchestra e a parte musical das operetas...”
No dia seguinte a peça, Lustige Witwe (A Viúva Alegre), de Johann Strauss, foi encenada para o público. Novamente, o jornal publicou uma elogiosa matéria sobre apresentação da Companhia alemã; inclusive, descrevendo com detalhes os momentos que mais se destacaram. Para o autor da matéria (desta vez não havia assinatura), “Até no palco o allemão é disciplinado.”
Mas, na medida em que os dias e as apresentações passavam, é possível que o estranhamento com a língua alemã tenha gradativamente aumentado, tornando-se, inclusive, constrangedora. A República comentou a situação:
"Uma grande parte do publico nacional extranha que a outra parte para a qual a língua allemã é um mysterio freqüente o Guayra e se enthusiasme com o desempenho da Companhia Allemã de Operetas. Até certo ponto realmente mesmo pretencioso, senão de máo gosto, pousar a gente n'uma cadeira de theatro, tres horas a fio, para ouvir representar n'uma linguagem da qual não percebe patavinas... Até certo ponto realmente, somos ridículos aos que gosam as subtilesas dos dialogos, (...), graças a um resumo apenas comprehendemos do que assistimos, as grandes linhas geraes da composição artística, exclusive a musica, que é a justificativa onde nos apegamos, e que nos salva afinal de contas, de uma singular posição."
Este mesmo desconforto, relativo a incompreensão da língua, foi tema da revista de humor citadina 'O Olho da Rua'. Poucos dias antes do primeiro espetáculo da Companhia, a revista publicou o texto “Diccionario Allemão", e com as seguintes palavras justificou o propósito do mesmo: “Como a moda agora é fallar allemão iniciamos hoje a fim de auxiliar os que pretenderem conhecer phrases genuinas da patria do imperador Guilherme, um diccionario da lingua allemã que offerecemos aos habitués do Guayra".
As palavras e expressões (seguidas de suas traduções) que compunham tal dicionário referiam-se as situações e expectativas do público em relação as apresentações:
“ - Gostei de ver – Das sehe ich gerne;
- Um camarote – Eine Loge;
- Muito bem – Sehr gut;
- Aquella é bonita – Diese ist schön;
- Uma cadeira – Ein Stuhl;
- Uma cerveja - "Ein Stelfeld", (humoristicamente, aludindo ao conhecido sr. Stelfeld, dono da “Pharmacia Allemã” de Curitiba).
A passagem do grupo pela cidade recebeu especial destaque na mesma Revista, ao apresentar a charge intitulada: “Em marcha para o Guayra” (“Im marsch nach Guayra”), mostrando uma família cujas peças do vestuário indicam pertencer, ou querer pertencer, à elite curitibana. Os trajes são apenas um dos indícios da tentativa de se adaptar a um padrão de comportamento idealizado dentro dos moldes civilizatórios, dos quais o próprio ato de comparecer a uma apresentação teatral era igualmente simbólico.
O volume do dicionário era alusão ao tamanho do desconhecimento que a língua alemã parecia representar para os do 'tipo nacional'. A expressão de assombro dos meninos, completa a alusão ao problema da incompreensão daquela língua, bem como transmite um certo receio do menino em ter que assistir a peça alemã. Os adultos vão à frente, as mulheres, de nariz empinado, parecem estar imersas na atmosfera de civilidade que a ocasião sugeria. O receio dos meninos também está expresso em suas posições na imagem, enquanto o mais velho vai bem atrás carregando o dicionário, o outro menino não acompanhando os passos do adulto, parece indicar que precisava ser puxado pela mão. Tudo se passa como se o espetáculo – aqui, tanto teatral quanto da civilidade – fosse mais bem aceito por adultos, os quais, aparentemente, pareciam mais dispostos a ir ao “Guayra”, assistir a “raça vigorosa”, por “tres horas a fio, para ouvir representar n'uma linguagem da qual não percebe patavinas”.
Entre as operetas apresentadas pela companhia estavam obras de artistas já consagrados na Alemanha, como Johann Strauss, Leo Fall e Edmund Eysler. E foi possível constatar outros indícios da marcante passagem da companhia de operetas de August Papke por Curitiba.
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