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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

25 de Julho: Quando a Terra Treme com o Passo das Rainhas — Tereza, Enedina e Todas as Mulheres Negras que Reescrevem a História

 Nesse sábado, no dia 25 de julho foi mais um dia de luta e resistência das mulheres negras, são estas que sofrem inúmeras violências, sejam elas psicológicas, emocionais, físicas e sociais. No ano de 1992 na República Dominicana, um encontro de mulheres negras definiu o dia 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, criando uma rede e pressionando a Organização das Nações Unidas a assumir a luta contra as opressões de raça e gênero.

No Brasil, o dia é marcado como Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Um país, onde a mulher preta é a maior vítima de feminicídio, de violências domésticas, obstétricas e da mortalidade materna, além de estar na base da pirâmide social; isto faz com que a comunidade preta se movimente quando uma mulher negra emerge na sociedade, assim como disse a ativista e filósofa norte americana, Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.

Este dia ainda homenageia Tereza de Benguela, um dos nomes esquecidos e invisibilizados pela historiografia nacional, que nos últimos anos passou a ser enaltecido, devido ao engajamento do movimento de mulheres negras e ao resgate de documentos que possam recontar a história nacional e multiplicar as narrativas, revelando outros lados da formação sociopolítica brasileira.

Tereza viveu no século XVIII, juntamente com seu marido José Piolho, o qual comandava o Quilombo do Quariterê no Mato Grosso. Com a morte de seu esposo pelos soldados do Estado, Tereza tornou-se líder do quilombo; com a sua liderança, a comunidade foi resistência durante vinte anos. Rainha Tereza, como todos as chamavam, coordenou um forte sistema de defesa e articulou um parlamento para decidir de forma coletiva as ações do quilombo, este vivia do cultivo de algodão, milho, feijão, mandioca, banana, e da venda do que sobrava de sua produção.

Não se sabe ao certo o motivo de sua morte, as versões são que ela se suicidou após ser capturada por bandeirantes a mando da capitania do Mato Grosso, em meados de 1770, e a outra afirma que a Rainha foi morta e teve a sua cabeça exposta no centro do Quilombo, como forma de aviso. O quilombo se manteve até sua morte, quando foi destruído.

Rainha Tereza de Benguela é sinônimo de força e resistência da mulher preta e precisa ser divulgada e ensinada como parte essencial da formação histórica brasileira, assim como Enedina Alves Marques, a primeira engenheira do Paraná e a primeira engenheira negra do Brasil, esta é responsável por grandes feitos do desenvolvimento social e econômico do Estado.

Enedina se formou em engenharia civil pela faculdade de engenharia, da atual Universidade Federal do Paraná no ano de 1945. Filha de doméstica, foi alfabetizada em colégios particulares juntamente com a filha do patrão de sua mãe, o qual quis que as duas fizessem companhia uma a outra, desta forma, Enedina teve a oportunidade do acesso à educação. A engenheira trilhou um percurso brilhante após a sua formação, logo no primeiro ano pós faculdade, ela se tornou auxiliar de engenharia na Secretaria de Estado de Viação e Obras Públicas, no ano seguinte foi transferida para o Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica. Enedina, ainda, trabalhou no Plano Hidrelétrico do Paraná e atuou no projeto de aproveitamento das águas dos rios Capivari, Cachoeira e Iguaçu.

Um dos seus maiores feitos como engenheira, foi o projeto e execução da Usina Parigot de Souza, que é a maior central subterrânea do sul do país. A usina não levou seu nome e sim do governador Pedro Viriato Parigot de Souza, que comandava o Estado entre 1971 e 1973. Outras obras que obtiveram a participação de Enedina, foram a Biblioteca Pública do Paraná, o Colégio Estadual do Paraná e a Casa do Estudante Universitário de Curitiba.

Placa em homenagem a Enedina ALves na Universidade Federal do Paraná
Foto: Marcos Solivan

O que Tereza de Benguela e Enedina Alves Marques tem em comum é o espírito revolucionário da mulher preta, é a força e a persistência. Que elas possam ser inspirações para todas mulheres negras, que lutam diariamente contra a opressão de gênero e raça. O dia 25 de julho não deve ser usado como dia único, é necessário ter visibilidade social, financeira e emocional todos os dias, queremos todas as mulheres LBTs pretas vivas, dia após dia e livres deste sistema racista, machista e misógino. Viva Rainha Tereza! Viva Enedina!

Fontes:
SANTANA, Jorge Luiz. Enedina Alves Marques: a trajetória da primeira engenheira do sul do país na faculdade de engenharia do Paraná (1940 – 1945). Revista Vernáculo, nº 28. Curitiba. 2011

25 de Julho: Quando a Terra Treme com o Passo das Rainhas — Tereza, Enedina e Todas as Mulheres Negras que Reescrevem a História

Todo dia 25 de julho, algo extraordinário acontece: o chão da América Latina e do Caribe treme não com terremoto, mas com memória. É o dia em que mulheres negras erguem a cabeça mais alto, vestem suas roupas mais coloridas, entoam cantos ancestrais e afirmam, com a força de quem nunca deixou de existir mesmo quando apagaram seus nomes dos livros: estamos aqui. Este não é um dia de luto — é um dia de resistência vibrante, de celebração feroz da vida que persiste apesar de tudo. E é também um chamado urgente para que essa celebração não se limite a vinte e quatro horas, mas respire todos os dias do ano.
A data nasceu em 1992, na República Dominicana, quando mulheres negras de toda a região se reuniram no Primeiro Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas. Ali, diante do mar do Caribe e sob o peso de séculos de silenciamento, elas decidiram: bastava de invisibilidade. O 25 de julho tornou-se oficialmente o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha — uma data para tecer redes, pressionar organismos internacionais e, sobretudo, lembrar umas às outras: nossa luta é coletiva, nossa força é ancestral.
No Brasil, a data carrega ainda outro significado sagrado: é o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. E não por acaso escolheram homenagear Tereza — não uma princesa de conto de fadas europeu, mas uma rainha da terra brasileira, cujo nome foi apagado dos manuais escolares por mais de dois séculos.

Rainha Tereza de Benguela: A Líder que Governou com Sabedoria e Coragem

No século XVIII, enquanto a Coroa portuguesa tentava consolidar seu domínio sobre o interior do Brasil, nas matas do atual Mato Grosso florescia o Quilombo do Quariterê — um território livre, construído por pessoas que recusaram a escravidão. Ali vivia Tereza de Benguela, ao lado de seu marido, José Piolho, um dos líderes da comunidade.
Quando José foi assassinado pelas tropas coloniais, algo extraordinário aconteceu: Tereza não se recolheu ao luto passivo esperado das mulheres da época. Ela assumiu o comando. Com inteligência estratégica e autoridade moral, tornou-se a rainha do quilombo — e não uma rainha simbólica. Sob sua liderança, o Quariterê resistiu por vinte anos às investidas dos bandeirantes.
Tereza organizou um sistema de defesa eficiente, mas também criou algo raro para a época: um parlamento quilombola. Nele, homens e mulheres decidiam coletivamente os rumos da comunidade. Enquanto isso, o quilombo prosperava com o cultivo de algodão, milho, feijão, mandioca e banana — parte para consumo próprio, parte para comercialização com povos indígenas e até mesmo com colonos que respeitavam sua autonomia. Era uma economia própria, uma política própria, uma civilização negra em pleno coração do Brasil colonial.
Sua morte, por volta de 1770, é envolta em mistério — e em violência simbólica. Há relatos de que se suicidou após ser capturada; outros afirmam que foi decapitada e teve a cabeça exposta no centro do quilombo como "advertência". O que sabemos com certeza é que, com sua morte, o Quariterê foi destruído. Mas sua memória não.
Hoje, Tereza de Benguela é resgatada não por acaso histórico, mas pela teimosia do movimento de mulheres negras, que vasculhou arquivos, cruzou documentos e recusou-se a aceitar uma história brasileira contada apenas por senhores de engenho. Ela é prova de que a resistência negra sempre foi liderada por mulheres — mesmo quando os livros insistiram em apagá-las.

Enedina Alves Marques: A Engenheira que Moldou o Paraná com Asfalto e Dignidade

Se Tereza ergueu um quilombo com as mãos na terra, Enedina Alves Marques ergueu obras de concreto que até hoje sustentam o Paraná — e o fez num tempo em que mulheres, principalmente negras, eram consideradas "incapazes" de cálculos e projetos.
Filha de uma doméstica em Curitiba, Enedina teve acesso à educação por uma circunstância rara: a filha de sua mãe trabalhava como empregada na casa de uma família abastada, cuja patroa quis que as duas meninas estudassem juntas — "para fazerem companhia". Foi assim, entre generosidade e paternalismo, que Enedina entrou num colégio particular e descobriu seu brilho nos estudos.
Em 1945, formou-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná — tornando-se a primeira engenheira negra do Brasil e a primeira do Paraná. Mas sua jornada não parou na diplomação. No ano seguinte, ingressou na Secretaria de Viação e Obras Públicas; em 1947, transferiu-se para o Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica, onde mergulhou no Plano Hidrelétrico do Paraná — projeto estratégico para o desenvolvimento do estado.
Sua obra-prima? A Usina Parigot de Souza, a maior central hidrelétrica subterrânea do Sul do Brasil, construída nos rios Capivari, Cachoeira e Iguaçu. Enedina não apenas participou do projeto — ela foi fundamental na sua execução técnica. No entanto, a usina levou o nome do governador Pedro Viriato Parigot de Souza, não o dela. Assim como tantas outras mulheres negras na história, seu nome foi apagado da placa inaugural — mas não da memória de quem sabe olhar além do concreto.
Além da usina, Enedina deixou sua marca na Biblioteca Pública do Paraná, no Colégio Estadual do Paraná e na Casa do Estudante Universitário de Curitiba — edifícios que, até hoje, abrigam sonhos de novas gerações. Ela morreu em 1981, quase anônima para o grande público. Mas hoje, graças ao trabalho de historiadores como Jorge Luiz Santana e à luta de coletivos negros, seu nome volta a ecoar nos corredores da UFPR — onde uma placa agora honra sua trajetória.

O Fio que Une Tereza e Enedina: A Revolução Cotidiana da Mulher Negra

O que une uma rainha quilombola do século XVIII e uma engenheira do século XX não é apenas a cor da pele — é a recusa em aceitar os limites impostos pelo racismo e pelo patriarcado. Tereza assumiu o comando quando esperavam que ela se calasse. Enedina entrou numa faculdade de engenharia quando esperavam que ela ficasse na cozinha. Ambas enfrentaram a violência estrutural não com armas, mas com persistência teimosa — a mesma que hoje move professoras, mães, ativistas, artistas e trabalhadoras que levantam antes do sol para sustentar famílias enquanto lutam por dignidade.
Angela Davis tinha razão ao dizer: "Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela". Porque a mulher negra não luta só por si — sua luta desmonta pilares inteiros de opressão. Quando ela exige saúde digna, questiona o racismo obstétrico. Quando exige segurança, denuncia o feminicídio racializado. Quando ocupa espaços de poder, rompe com séculos de exclusão. E quando celebra sua cultura, sua beleza, sua ancestralidade, ela cura feridas coletivas.
Mas não podemos romantizar essa força. A mulher negra não é "forte por natureza" — ela é forte porque foi obrigada a ser. E não deve carregar sozinha o peso da transformação social. O 25 de julho existe para lembrar: nossa luta é de todos. Não basta aplaudir Enedina hoje e esquecê-la amanhã. Não basta homenagear Tereza em discursos e manter escolas onde crianças negras ainda não leem seu nome.

25 de Julho Não é um Dia — É um Compromisso Diário

Este artigo não é um memorial triste. É um convite à alegria consciente — à celebração que sabe que por trás de cada conquista há sangue, suor e resistência. É para as meninas negras que hoje sonham ser engenheiras, professoras, presidentas: vocês têm Tereza e Enedina como ancestrais. Vocês descendem de rainhas.
E é também um chamado: que o 25 de julho não seja o único dia em que enxergamos as mulheres negras. Que as políticas públicas as protejam todos os dias — contra o feminicídio, contra a violência obstétrica, contra a fome. Que as universidades as acolham. Que os museus contem suas histórias. Que os espaços de poder as ouçam — especialmente as mulheres LBTs pretas, cujas vidas são ainda mais ameaçadas por um sistema que as quer invisíveis.
Viva Tereza de Benguela — rainha que governou com sabedoria e morreu com honra.
Viva Enedina Alves Marques — engenheira que construiu o Paraná com mãos firmes e sonhos maiores que o preconceito.
Viva todas as mulheres negras — vivas, presentes, teimosas, lindas, revolucionárias.
Que cada 25 de julho seja menos uma data de lamento e mais uma explosão de vida — porque enquanto houver uma mulher negra de pé, a esperança não morreu. E enquanto houver quem conte suas histórias, a memória será nossa arma mais poderosa.
— Por todas as Terezas e Enedinas que ainda virão. Por todas que já estão aqui, transformando o mundo em silêncio ou em grito. Nós vemos vocês. Nós honramos vocês. Nós caminhamos com vocês.

Fontes: Santana, Jorge Luiz. "Enedina Alves Marques: a trajetória da primeira engenheira do sul do país na faculdade de engenharia do Paraná (1940–1945)". Revista Vernáculo, nº 28, Curitiba, 2011; Memórias do Movimento Negro Brasileiro; Coletivo Nacional de Mulheres Negras.