A ÚLTIMA FOTOGRAFIA: D. Pedro II e a Princesa Isabel em Cannes, 1891 - O Ocaso de um Imperador no Exílio
A ÚLTIMA FOTOGRAFIA: D. Pedro II e a Princesa Isabel em Cannes, 1891 - O Ocaso de um Imperador no Exílio
Um Registro que Congela a História nos Últimos Meses do "Rei Filósofo"
PRÓLOGO: O PESO DA COROA INVISÍVEL
Era dezembro de 1891 quando o velho imperador de 66 anos posou para aquela que seria uma de suas últimas fotografias oficiais. Em Cannes, sul da França, D. Pedro II aparecia ao lado de sua filha e herdeira, a Princesa Imperial D. Isabel, Condessa d'Eu. O que a imagem não revela é o drama silencioso que se desenrolava nos bastidores: poucos meses depois, o monarca que governou o Brasil por 58 anos estaria morto, longe de sua pátria amada.
Desde o falecimento de sua esposa, D. Teresa Cristina, em 28 de dezembro de 1889, D. Pedro II vivia seus dias de exílio com uma dignidade que comoveria até seus adversários políticos. A maior parte de seus últimos meses foi passada no Hotel Bedford, em Paris, onde recusava-se categoricamente a receber qualquer provento do recém-implantado governo republicano brasileiro. Sobrevivia dos objetos de valor que conseguira trazer e da ajuda financeira de amigos leais.
CAPÍTULO I: O EXÍLIO DOURADO
A Queda do Império e a Partida Forçada
Quando a fotografia foi tirada em Cannes, já se haviam passado dois anos desde o fatídico 15 de novembro de 1889, quando um golpe militar derrubou a monarquia brasileira. D. Pedro II, o monarca que havia subido ao trono com apenas 5 anos de idade em 1831, foi deposto sem que houvesse qualquer tentativa séria de resistência. Sua famosa frase, "Se assim é, partirei", ecoaria como testemunho de sua resignação diante do destino.
O exílio na França não foi apenas geográfico — foi existencial. O imperador, reconhecido internacionalmente como um "rei filósofo", via-se agora destituído de seu reino, mas não de sua dignidade. Durante toda a vida, mantivera contato com os principais estadistas e cientistas do período, e boa parte deles estaria presente para prestar condolências quando a morte chegasse.
A Recusa Digna
Um dos aspectos mais comoventes desse período final foi a recusa obstinada de D. Pedro II em aceitar qualquer tipo de pensão ou apoio financeiro do governo republicano brasileiro. Essa decisão, tomada por questão de honra e princípio, condenou-o a viver de forma modesta, vendendo objetos pessoais e contando com a generosidade de amigos. O homem que governara uma das maiores nações das Américas agora media cada moeda, mantendo, contudo, a postura ereta de quem nunca se curvou às adversidades.
Sua saúde, já frágil, declinava a olhos vistos. Mesmo assim, recusou-se a morar com a princesa imperial no Château D'Eu, preferindo manter sua independência até o fim. Essa teimosia, que alguns poderiam chamar de orgulho, era na verdade a última afirmação de sua identidade imperial.
CAPÍTULO II: A CAMINHADA FATAL
A Manhã de Dezembro que Selaria o Destino
Numa manhã do início de dezembro de 1891, D. Pedro II, que acabara de completar 66 anos, tomou uma decisão que provaria ser fatal. Apesar da baixa temperatura e de seu fraco estado clínico, resolveu fazer uma caminhada às margens do rio Sena. O imperador, sempre ávido por conhecimento e contemplação, não resistiu ao chamado das águas parisianas que tantas vezes o haviam inspirado.
O monarca retornou ao Hotel Bedford passando mal e foi rapidamente levado para seu quarto. O que começou como um simples resfriado evoluiu rapidamente para um quadro grave de pneumonia. Os médicos que o atendiam — incluindo o famoso Dr. Charcot — nada puderam fazer além de testemunhar o declínio inevitável.
Os Últimos Dias
No dia 2 de dezembro, data de seu aniversário de 66 anos, não houve celebrações. Apenas uma simples missa foi celebrada enquanto ele permanecia em seu leito. A princesa Isabel, o Conde d'Eu e os netos estavam presentes, mas o clima era de despedida, não de festividade. Mesmo assim, D. Pedro II recebeu vários visitantes franceses e brasileiros que vieram oferecer congratulações pelo aniversário — um último ato de respeito e admiração.
No dia 3 de dezembro, sua saúde piorou subitamente. A pneumonia havia se espalhado para ambos os pulmões. No dia 4, recebeu a extrema-unção das mãos do abade Le Rébours, cura de La Madeleine. Já quase sem voz, o imperador ainda conseguiu sussurrar uma única palavra: "Brasil".
O Último Suspiro
Às 00h35 do dia 5 de dezembro de 1891, D. Pedro II deu seu último suspiro. Segundo o atestado de óbito, a causa mortis foi pneumonia aguda no pulmão esquerdo. Curiosamente, ele morreu sem dor, como se dormisse. Estavam presentes sua filha Isabel, o Conde d'Eu, seus netos (Pedro, Luís, Antônio, Pedro Augusto e Augusto Leopoldo), suas irmãs Januária e Francisca com seus respectivos maridos, além de diversos amigos brasileiros e estrangeiros.
Suas últimas palavras, pronunciadas pouco antes de partir, seriam proféticas: "Deus que me conceda esses últimos desejos – paz e prosperidade para o Brasil". Um homem que morria no exílio, mas cujo coração permanecia em sua pátria.
CAPÍTULO III: A IMPERATRIZ NO EXÍLIO
O Beija-Mão Póstumo
Imediatamente após a morte do pai, a princesa D. Isabel, agora com 45 anos, foi saudada pelos monarquistas presentes como imperatriz no exílio. Num gesto carregado de simbolismo, todos os brasileiros ali presentes — mais de trinta pessoas — beijaram a mão de D. Isabel, reconhecendo-a como a legítima sucessora do trono brasileiro. O Barão do Rio Branco, que estava presente, registrou: "Os brasileiros, trinta e tantos, foram em fila e, um a um, borrifaram água benta no cadáver e beijaram sua mão. Estavam se despedindo do grande morto".
O senador Gaspar da Silveira Martins chegou pouco depois da morte do imperador e, ao ver o corpo de seu antigo amigo, chorou convulsivamente — um testemunho do respeito que até adversários políticos nutriam por D. Pedro II.
O Pacote Sagrado
Enquanto preparavam o corpo do imperador para o funeral, o Conde d'Eu encontrou no quarto um pacote lacrado com uma mensagem escrita pelo próprio D. Pedro II: "É terra de meu país; desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria".
O embrulho continha um punhado de terra de cada província brasileira. Era o último desejo do imperador: mesmo morto longe do Brasil, levaria consigo um pouco de sua terra natal. O pacote foi solenemente colocado dentro do caixão de chumbo forrado em cetim branco, cumprindo-se assim a última vontade do monarca.
CAPÍTULO IV: O FUNERAL DE ESTADO
A Ironia Republicana
A princípio, a princesa Isabel desejava uma despedida singela e privada para seu pai. No entanto, a República Francesa — berço da Revolução Liberal que derrubara tantas monarquias — concedeu a D. Pedro II um funeral com honras de Chefe de Estado. A ironia histórica era palpável: uma república homenageando um monarca deposto com mais pompa do que muitas monarquias ainda existentes.
O governo francês, presidido por Sadi Carnot, decidiu que o funeral seria oficialmente justificado pelo fato de D. Pedro II ser grã-cruz da Legião de Honra, mas seria realizado com todas as pompas devidas a um monarca. Vale ressaltar que D. Pedro II fora o primeiro chefe de estado a visitar a França após sua derrota para a Prússia em 1870, um gesto de lealdade que os franceses jamais esqueceram.
Enquanto o governo francês prestava homenagens, a representação diplomática do Brasil na França tentava, em vão, impedir as cerimônias, rogando para que a bandeira imperial não fosse hasteada e que os símbolos do antigo regime não fossem respeitados. De nada adiantou: a França fez questão de honrar o imperador exilado.
A Procissão das Lágrimas
Em 8 de dezembro de 1891, à noite, os caixões contendo o corpo de D. Pedro II saíram do Hotel Bedford com destino à Igreja de la Madeleine. Oito militares franceses transportaram os caixões cobertos pela bandeira imperial, assistidos por mais de 5.000 pessoas. A carruagem fúnebre foi a mesma usada nos funerais do Cardeal Morlot, do Duque de Morny e de Adolphe Thiers.
No dia 9 de dezembro, apesar da chuva incessante e do vento cortante, uma multidão estimada entre 200.000 e 300.000 pessoas alinhou-se nas ruas de Paris para assistir à passagem do cortejo. Alguns 80.000 soldados franceses, todos em uniforme de gala, prestaram honras ao imperador. Os tambores das bandas militares estavam cobertos por crepe negro, e os cavalos traziam ornamentos de luto.
As Coroas da Saudade
Duas carruagens levavam quase 200 coroas de flores. Entre elas, mensagens que contavam a história de uma vida dedicada ao Brasil:
- "À Dom Pedro, Victoria R.I." — da Rainha Vitória da Inglaterra
- "Aos Voluntários da Pátria do Rio de Janeiro"
- "A um grupo de estudantes brasileiros em Paris"
- "Aos tempos felizes em que o pensamento, a palavra e a pena eram livres, quando o Brasil libertava povos oprimidos..." — enviada pelo Barão de Ladário, Marquês de Tamandaré, Visconde de Sinimbu, Rodolfo Dantas, Joaquim Nabuco e Taunay
- "Ao grande brasileiro digno das honras da Pátria e da Humanidade. Ubique Patria Memor" — do Barão do Rio Branco
- "Do povo do Rio Grande do Sul ao rei liberal e patriota"
- "Um negro brasileiro em nome de sua raça" — testemunho do apoio que D. Pedro II sempre teve da população negra, especialmente após a abolição da escravatura
A Cerimônia na Madeleine
Na Igreja de la Madeleine, a missa de réquiem foi celebrada pelo abade Le Rébours. O coro da igreja, regido pelo célebre compositor Gabriel Fauré, cantou o Kyrie de Beethoven e o Agnus Dei de Cherubini. A presença de Fauré e de outros compositores como Charles Gounod e Ambroise Thomas demonstrava o respeito que o mundo das artes nutria pelo imperador.
A lista de convidados era um verdadeiro "quem é quem" da Europa do século XIX:
Realeza Presente:
- Francisco II, ex-rei das Duas Sicílias
- Isabel II, ex-rainha da Espanha (sobrinha de D. Pedro II)
- Luís Filipe de Orléans, Conde de Paris
- Duque de Nemours
- Duque de Aumale
- Príncipe de Joinville e Princesa Francisca (irmã de D. Pedro II)
- Conde d'Aquila e Princesa Januária (outra irmã do imperador)
Todos destronados, assim como o imperador brasileiro — uma triste irmandade de coroas perdidas.
Intelectuais e Acadêmicos:
Quase todos os membros da Academia Francesa, do Instituto da França, da Academia de Ciências, da Academia de Belas Artes e da Academia de Inscrições e Belas-Letras compareceram. Estavam presentes:
- Eça de Queiroz, o grande escritor português
- Alexandre Dumas Filho
- Jean-Martin Charcot, o famoso neurologista
- Marcellin Berthelot, químico e historiador
- Jules Oppert, assiriólogo
- Camille Doucet, dramaturgo
Nunca se vira, nos funerais de um monarca, tantos intelectuais e acadêmicos reunidos. Era o reconhecimento do "rei filósofo" por seus pares.
Representantes Diplomáticos:
O corpo diplomático estrangeiro em Paris era encabeçado pelo monsenhor Ferrata, núncio papal. Todos os representantes dos países das Américas estavam presentes, com exceção do Brasil, México e Venezuela. Países tão distantes como Turquia Otomana, China, Japão e Pérsia enviaram representantes. Notavelmente ausente: qualquer delegação do Brasil republicano.
CAPÍTULO V: A ÚLTIMA VIAGEM
De Paris a Lisboa
Após a cerimônia na Madeleine, o caixão seguiu em comboio ferroviário para Lisboa, passando por Madrid. Em cada estação, multidões se aglomeravam para prestar homenagens. Em Madrid, a família real espanhola e membros do governo esperavam o trem. Em Lisboa, o rei D. Carlos I e toda a corte reunida aguardavam no cais de Santa Apolônia.
As fortalezas e os navios de guerra ancorados no rio Tejo disparavam salvas de 15 em 15 minutos. A rainha D. Amélia, suas damas e todo o corpo diplomático — novamente com exceção do representante brasileiro — aguardaram o cortejo na escadaria da Igreja de São Vicente de Fora. O cardeal patriarca de Lisboa, junto com todos os bispos do país, cantou a missa Libera me.
O Panteão dos Bragança
Em 12 de dezembro de 1891, D. Pedro II foi sepultado no Panteão dos Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Seu túmulo ficou entre o de sua madrasta Amélia e o de sua esposa Teresa Cristina. Durante anos, o Panteão tornou-se ponto de visitação obrigatório para brasileiros que chegavam à Europa via Lisboa — uma peregrinação silenciosa de saudade e respeito.
CAPÍTULO VI: AS REPERCUSSÕES
O Silêncio do Brasil Republicano
O governo republicano brasileiro, temeroso de que o luto nacional pudesse se transformar em contrarrevolução, proibiu qualquer reação oficial à morte do imperador. Contudo, apesar dos esforços para abafar as manifestações, o povo brasileiro não se calou.
De Minas Gerais ao Rio Grande do Sul, da Bahia ao Pará, do Recife a São Paulo, houve manifestações espontâneas de pesar. No Rio de Janeiro, o comércio fechou as portas, a bolsa suspendeu negociações, os teatros cancelaram apresentações. As bandeiras foram hasteadas a meio-pau nas ruas, provocando conflitos com a polícia republicana que tentava obrigar sua retirada.
Na Catedral do Rio de Janeiro, que tocara finados pela morte do imperador, realizou-se em 9 de dezembro uma missa solene. Curiosamente, nessa mesma data, há 66 anos, D. Pedro II havia sido batizado. Os antigos servidores da Casa Imperial compareceram, e alguns, como o velho Marquês de Tamandaré, fizeram questão de usar os antigos uniformes da corte — um ato de desafio silencioso à nova ordem.
As Vozes da Saudade
Até mesmo antigos adversários políticos de D. Pedro II prestaram homenagens. Quintino Bocaiúva, um dos principais líderes republicanos, declarou: "O mundo inteiro, pode-se dizer, prestou homenagens que o Sr. Dom Pedro de Alcântara mereceu por suas virtudes de grande cidadão".
Joaquim Nabuco, monarquista convicto, organizou junto com outros nomes como o Visconde de Ouro Preto, Visconde de Sinimbu, Barão de Ladário, Carlos de Laet, Alfredo d'Escragnolle Taunay, Rodolfo Dantas e Afonso Celso uma reunião popular em homenagem ao imperador no Rio de Janeiro.
O Mundo Lamenta
A reação internacional foi unânime em seu elogio ao monarca deposto:
The New York Times (5 de dezembro de 1891): "O monarca mais esclarecido do século" e "tornou o Brasil tão livre quanto uma monarquia poderia ser".
The Herald: "Em outra época, e em circunstâncias mais felizes, ele seria venerado e honrado por seus súditos e seria conhecido na história como 'Dom Pedro, o Bom'".
The Times (Londres): Publicou longo artigo destacando que "até novembro de 1889, acreditava-se que o falecido Imperador e sua esposa eram unanimemente queridos no Brasil por suas qualidades intelectuais e morais e por seu afetuoso interesse pelo bem-estar de seus súditos".
The Weekly Register: "Ele parecia mais um poeta ou um estudioso do que um imperador, mas se tivesse tido a chance de materializar seus vários projetos, sem dúvida teria feito do Brasil um dos países mais ricos do Novo Mundo".
Le Jour (França): "Ele foi efetivamente o primeiro soberano que, após nosso desastre de 1871, ousou nos visitar. Nossa derrota não o afastou de nós. A França saberá ser grata".
The Globe: "Ele era bem instruído, ele era patriótico; ele era gentil e indulgente; ele tinha todas as virtudes privadas, assim como as públicas, e morreu no exílio".
Telegramas de condolências chegaram de todas as partes do mundo:
- Papa Leão XIII (através do Cardeal Rampolla): "Santo Padre recebeu com vivo pesar a triste notícia... ele dirige ardentes preces ao Senhor pelo repouso eterno do augusto defunto"
- Rainha Vitória da Inglaterra: "Foi com o mais vivo pesar que recebi a notícia da morte de vosso querido pai"
- Imperador Francisco José da Áustria-Hungria: "A nova dor que fere Vossa Alteza Imperial afligiu-me profundamente"
- Rei Humberto da Itália: "O venerando pai de Vossa Alteza Imperial era para nós e para a Itália um amigo sempre querido"
- Kaiser Guilherme II da Alemanha: "A Imperatriz e eu, profundamente sentidos com a triste notícia, enviamos a Vossa Alteza Imperial a expressão das nossas mais sinceras condolências"
Somente no dia de sua morte, mais de 2.000 telegramas haviam chegado ao Hotel Bedford.
CAPÍTULO VII: O RETORNO À PÁTRIA
30 Anos de Exílio Post Mortem
Por ocasião do centenário da Independência do Brasil, em 1921, os corpos de D. Pedro II e de sua esposa, D. Teresa Cristina, foram repatriados. O decreto de banimento da família imperial havia sido revogado, permitindo o retorno dos restos mortais do casal imperial.
Em 8 de janeiro de 1921, os caixões chegaram ao Brasil, sendo recebidos com grande pompa. Missas solenes foram realizadas em memória dos imperadores em todo o país. Era o reconhecimento tardio de uma nação que, após décadas de república turbulenta, começava a olhar para o período imperial com nostalgia.
O Descanso Final em Petrópolis
Os restos mortais de D. Pedro II e D. Teresa Cristina foram finalmente sepultados na Catedral de São Pedro de Alcântara, em Petrópolis, RJ, numa cerimônia realizada em 1939 que contou com a presença do presidente Getúlio Vargas. A Catedral, construída em estilo neogótico, tornou-se o Mausoléu Imperial, abrigando também os restos da princesa Isabel, do Conde d'Eu e do príncipe D. Pedro de Alcântara.
Lá repousam hoje, lado a lado, o imperador que sonhou com um Brasil moderno e educado, e a imperatriz que o apoiou incondicionalmente durante 46 anos de casamento. O último desejo de D. Pedro II foi finalmente cumprido: ele descansa em solo brasileiro, com a terra de todas as províncias do país que um dia governou.
EPÍLOGO: O LEGADO DO REI FILÓSOFO
A Fotografia que Sobrevive ao Tempo
A fotografia tirada em Cannes em 1891, mostrando D. Pedro II ao lado da princesa Isabel, é muito mais do que um simples registro visual. É um testemunho da dignidade de um homem que perdeu tudo, exceto sua honra. É o retrato de um pai e sua filha, ambos conscientes de que estavam vivendo os últimos capítulos de uma história que mudara para sempre.
Na imagem, vemos um homem de 66 anos que aparenta muito mais idade — o peso de 58 anos de reinado, as responsabilidades, as preocupações, a vida pública haviam lhe imposto tal aparência. Mas também vemos a serenidade de quem cumpriu seu dever até o fim.
O Brasil que Poderia Ter Sido
D. Pedro II morreu sem abdicar, e Isabel herdou a pretensão ao trono do Império do Brasil. Mas o destino da monarquia brasileira estava selado. O que restou foi a memória de um governante que, nas palavras de The New York Times, foi "o monarca mais esclarecido do século".
A visão positiva de D. Pedro II e a nostalgia por seu reinado apenas cresceram à medida que o Brasil caía em uma série de crises políticas e econômicas que muitos brasileiros atribuíam à deposição do imperador. Entre os brasileiros negros e descendentes de africanos, essa saudade era ainda mais forte — eles viam na monarquia a garantia da liberdade conquistada com a Lei Áurea de 1888, assinada pela princesa Isabel.
As Últimas Palavras como Testamento
"Paz e prosperidade para o Brasil."
Essas foram as últimas palavras de D. Pedro II. Um homem que morreu no exílio, longe de sua pátria, mas cujo último pensamento foi para o bem-estar de seu povo. Não há pedido de vingança, não há maldição contra aqueles que o depuseram. Apenas um desejo sincero de que o Brasil encontre a paz e a prosperidade.
Que ironia do destino: o imperador que dedicou 58 anos de sua vida ao Brasil morreu sem poder pisar em solo brasileiro. Mas sua terra — literalmente, a terra de todas as províncias — o acompanhou na morte, cumprindo-se assim seu último desejo.
A Eterna Saudade
Hoje, quando visitamos a Catedral de São Pedro de Alcântara em Petrópolis e vemos o túmulo de D. Pedro II e D. Teresa Cristina, somos confrontados não apenas com a memória de dois indivíduos, mas com a materialização de um sonho interrompido. O sonho de um Brasil que poderia ter seguido um caminho diferente, guiado por um monarca que preferia os livros às armas, o diálogo à força, a educação à ignorância.
A fotografia de Cannes de 1891 permanece como um memento mori — uma lembrança de que mesmo os imperadores são mortais. Mas também é um testemunho de que algumas legados transcendem a morte. D. Pedro II pode ter partido, mas sua memória permanece viva, não apenas nos livros de história, mas no coração de um povo que, mesmo após mais de um século, ainda se pergunta: "O que teria sido do Brasil se D. Pedro II não tivesse sido deposto?"
Essa pergunta, talvez, nunca tenha resposta. Mas a fotografia de 1891, com o velho imperador e sua filha ao lado, continua a nos lembrar de um tempo em que o Brasil teve um "rei filósofo" que sonhou com uma nação justa, educada e próspera.
E assim, D. Pedro II, o último imperador do Brasil, continua a reinar — não sobre um território, mas sobre a memória e a saudade de um povo.
Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Colorização: Rainhas Trágicas - Mulheres, Guerreiras, Soberanas
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"Paz e prosperidade para o Brasil"
— D. Pedro II (1825-1891)
Últimas palavras, 5 de dezembro de 1891
— D. Pedro II (1825-1891)
Últimas palavras, 5 de dezembro de 1891