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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Da Sala de Aula ao Museu: A História da Casa Escolar Cruz Machado e o Nascimento do Museu da Escola Paranaense

 Denominação inicial: Casa Escolar Cruz Machado

Denominação atual: Museu da Escola Paranaense (MEP)

Endereço: Praça Miguel Couto, 2006

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Ângelo Bottechia

Data: 1906

Estrutura: singular

Tipologia: Bloco único

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1° de fevereiro de 1907

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Museu

Casa Escolar Cruz Machado em 1906 Fonte: PARANÁ. Relatório apresentado ao Presidente do Estado, Vicente Machado de Lima, pelo Secretario dos Negócios de Obras Publicas e Colonização, Eneas Marques dos Santos. Curityba: Typ. d’A Republica, 1907

Da Sala de Aula ao Museu: A História da Casa Escolar Cruz Machado e o Nascimento do Museu da Escola Paranaense

No coração de Curitiba, ergue-se uma construção que guarda mais do que paredes, janelas e corredores — guarda memórias, saberes e sonhos de gerações. Localizada na Praça Miguel Couto, 2006, a antiga Casa Escolar Cruz Machado, hoje conhecida como Museu da Escola Paranaense (MEP), é um testemunho vivo da evolução da educação no Paraná e um marco arquitetônico que resiste ao tempo com elegância eclética e alma pedagógica.

Sua história começa no alvorecer do século XX, em um Brasil que se esforçava para modernizar suas instituições e expandir o acesso ao ensino. Foi nesse contexto de renovação que nasceu, em 1906, um projeto visionário — assinado pelo arquiteto Ângelo Bottechia — destinado a abrigar não apenas alunos, mas também os ideais de uma escola pública laica, gratuita e universal.


Um Projeto à Frente do Seu Tempo

Concebida sob os princípios do movimento escolar moderno, a Casa Escolar Cruz Machado foi inaugurada oficialmente em 1º de fevereiro de 1907, tornando-se uma das primeiras instituições do tipo no estado. Classificada como “Casa Escolar” ou “Grupo Escolar”, seguia um modelo inspirado nas reformas educacionais da Primeira República, que buscavam estruturar o ensino primário em edifícios específicos, com salas amplas, pátios arejados e infraestrutura dedicada exclusivamente à formação infantil.

O projeto arquitetônico, de linguagem eclética, refletia os valores da época: solidez, ordem e civilidade. Com tipologia de bloco único e estrutura singular, o edifício combinava elementos neoclássicos, traços coloniais e soluções modernas para ventilação e iluminação natural — fundamentais em uma era anterior à eletricidade generalizada nas escolas.

A escolha do nome homenageava Cruz Machado, importante político paranaense e defensor do desenvolvimento regional, cujo legado se entrelaçava com os ideais de progresso e instrução popular.


Entre Carteiras e Quadros-Negros: A Vida Escolar (1907–1990s)

Durante décadas, a Casa Escolar Cruz Machado foi palco de aprendizados, brincadeiras, provas finais e formaturas emocionantes. Crianças de Curitiba passaram por seus corredores, aprenderam a ler, escrever e contar, muitas vezes sendo as primeiras de suas famílias a frequentar uma escola formal.

O prédio, situado em uma área central e estratégica da cidade, tornou-se referência de qualidade educacional. Suas salas, inicialmente projetadas para turmas pequenas e ensino personalizado, adaptaram-se ao longo do tempo às demandas de uma população crescente — mas sempre mantendo sua identidade como espaço de formação cidadã.

Fotos históricas, como a registrada no Relatório apresentado ao Presidente do Estado, Vicente Machado de Lima, pelo Secretário dos Negócios de Obras Públicas e Colonização, Eneas Marques dos Santos (1907), mostram o edifício imponente, ainda novo, cercado por terrenos vazios e promessas de futuro.


Do Abandono à Redenção Cultural

Com a reestruturação do sistema educacional nas últimas décadas do século XX, muitas casas escolares foram desativadas ou transformadas. A Cruz Machado, embora mantida em pé, enfrentou períodos de descaso e incerteza sobre seu destino.

Mas em vez de sucumbir ao esquecimento, ela foi ressignificada.

Em um gesto de preservação da memória pedagógica paranaense, o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Educação e do Esporte, decidiu transformar o edifício histórico no Museu da Escola Paranaense (MEP) — um espaço dedicado a resgatar, conservar e difundir a história da educação no Paraná.

Hoje, o MEP não é apenas um museu de objetos antigos; é um lugar de afeto, reflexão e conexão intergeracional. Nele, estão expostos carteiras de madeira, cadernos manuscritos, globos terrestres desbotados, uniformes escolares, fotografias em preto e branco e até o sino que marcava o início e o fim das aulas. Cada peça conta uma história — de professores dedicados, de crianças curiosas, de tempos em que a escola era vista como templo do saber.


Patrimônio Vivo, Memória em Movimento

Apesar das alterações sofridas ao longo do tempo, o edifício conserva sua essência arquitetônica e simbólica. Restaurado com respeito ao seu valor histórico, o MEP hoje funciona como:

  • Centro de documentação educacional;
  • Espaço de exposições temporárias e permanentes;
  • Local de oficinas pedagógicas e visitas escolares;
  • Ponto de encontro para ex-alunos, educadores e historiadores.

Mais do que um museu, é um guardião da identidade escolar paranaense — um lembrete de que a educação não é apenas transmissão de conteúdo, mas construção de humanidade.


Conclusão: Uma Lição que Permanece

A trajetória da Casa Escolar Cruz Machado, desde sua fundação em 1907 até sua atual vocação museológica, é um espelho do próprio caminho da educação brasileira: cheio de desafios, avanços, retrocessos e, acima de tudo, esperança.

Que este edifício continue de portas abertas — não apenas para visitantes, mas para a memória coletiva. Porque enquanto houver quem se lembre do som do apagador no quadro-negro, do cheiro de giz e do silêncio respeitoso durante a lição de caligrafia, a escola nunca estará fechada.

"Educar é semear com sabedoria e colher com paciência."
— Provérbio paranaense