Denominação inicial: Grupo Escolar Alto Cabral
Denominação atual: Universidade Federal do Paraná - Campus Rua Bom Jesus
Endereço: Rua Bom Jesus, 650 - Cabral
Cidade: Curitiba
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1945-1951
Projeto Arquitetônico
Autor: Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas
Data: 1948
Estrutura: padronizado
Tipologia: E
Linguagem: Neocolonial
Data de inauguracao:
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Escola de Química em 1953 Fonte: Álbum Comemorativo do 1º Centenário da Emancipação Política do Paraná. Curitiba: Governo do Paraná: Câmara de Expansão Econômica do Paraná, 1953
Do Grupo Escolar ao Campus Universitário: A Trajetória do Edifício da Rua Bom Jesus em Curitiba
Na encruzilhada entre memória e transformação, ergue-se na Rua Bom Jesus, 650, no bairro Cabral de Curitiba, um edifício que testemunhou duas eras distintas da educação paranaense. Concebido nos anos imediatos ao pós-guerra como um modesto Grupo Escolar Alto Cabral, tornou-se, poucos anos depois, o berço da formação técnica em química no Paraná e, mais tarde, parte integrante da Universidade Federal do Paraná (UFPR) — símbolo vivo da evolução do ensino público no estado.
Origens: Uma Escola para o Bairro em Crescimento
Entre 1945 e 1951, enquanto Curitiba expandia seus limites urbanos e consolidava novos bairros, o Alto Cabral emergia como uma região residencial em desenvolvimento. Diante da demanda por infraestrutura educacional, o governo estadual encomendou, em 1948, um projeto arquitetônico padronizado à Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas — órgão responsável por dezenas de construções públicas naquele período.
O resultado foi o Grupo Escolar Alto Cabral, uma edificação de tipologia em “E”, comum nas escolas públicas da época por permitir melhor distribuição de salas, ventilação cruzada e integração funcional entre os espaços pedagógicos. Sua linguagem arquitetônica seguiu o estilo neocolonial, então em voga em edifícios governamentais: telhados inclinados com telhas cerâmicas, beirais proeminentes, simetria nas fachadas e detalhes que remetiam à tradição luso-brasileira — uma estética que buscava conferir solidez, identidade cultural e respeitabilidade às instituições públicas.
Embora a data exata de inauguração não tenha sido registrada, sabe-se que, já em 1953, o prédio havia deixado de funcionar como grupo escolar tradicional.
Transformação: O Nascimento da Escola de Química
Em 1953, o edifício passou por uma mudança radical de propósito. Conforme registrado no Álbum Comemorativo do 1º Centenário da Emancipação Política do Paraná, publicado pelo Governo do Estado e pela Câmara de Expansão Econômica do Paraná naquele ano, o prédio abrigava a Escola de Química — instituição voltada à formação técnica de profissionais para atender às demandas da indústria em expansão no sul do Brasil.
Essa reconversão refletia uma tendência nacional: a priorização do ensino técnico e científico como motor do desenvolvimento econômico. Enquanto outros grupos escolares continuavam com seu foco no ensino primário, o edifício da Rua Bom Jesus foi adaptado para laboratórios, salas especializadas e bibliotecas técnicas — um salto qualitativo que antecipava sua futura integração ao ensino superior.
A Escola de Química representou, assim, uma ponte entre a educação básica e a universidade, preparando jovens para carreiras científicas num momento em que o Paraná investia fortemente em modernização industrial e agrícola.
Integração à UFPR: Do Técnico ao Acadêmico
Com o tempo, a Escola de Química foi incorporada à estrutura da Universidade Federal do Paraná, a mais antiga universidade do Brasil (fundada em 1912). O prédio passou a compor o que hoje é conhecido como Campus Rua Bom Jesus — um dos núcleos descentralizados da UFPR, dedicado especialmente às áreas de ciências exatas, tecnológicas e ambientais.
Embora tenha sofrido alterações significativas — ampliações, modernizações de infraestrutura, instalação de equipamentos de laboratório e adaptações às normas de segurança —, o edifício mantém traços visíveis de sua origem. A planta em “E”, a volumetria neocolonial e a localização privilegiada no bairro Cabral ainda ecoam sua vocação inicial: servir à educação pública com dignidade e propósito.
Patrimônio de Transição
O caso do antigo Grupo Escolar Alto Cabral é emblemático por ilustrar a flexibilidade e a resiliência do patrimônio educacional brasileiro. Poucos edifícios transitaram com tanta naturalidade de uma função elementar (ensino primário) para uma missão universitária de alto nível. Essa trajetória revela não apenas a escassez de recursos — que levava o Estado a reutilizar estruturas existentes —, mas também uma visão estratégica de longo prazo sobre a importância da ciência e da educação técnica.
Hoje, estudantes de graduação e pós-graduação circulam pelos corredores onde, décadas antes, crianças aprendiam a ler e escrever. Nas mesmas paredes que ouviram lições de tabuada, agora ressoam discussões sobre espectroscopia, termodinâmica e sustentabilidade química.
Conclusão: Um Legado em Camadas
O edifício da Rua Bom Jesus, 650, é mais do que um campus universitário. É um palimpsesto arquitetônico e histórico — camada sobre camada de sonhos educacionais. Começou como promessa de alfabetização para as crianças do Alto Cabral; tornou-se esperança de ascensão social por meio da formação técnica; e hoje é espaço de inovação, pesquisa e produção de conhecimento de ponta.
Que sua história continue sendo lembrada — não apenas nos documentos oficiais ou nos álbuns comemorativos, mas na consciência de todos que ali entram, conscientes de que pisam em solo sagrado: o solo da educação pública, gratuita e transformadora.
“A universidade começa onde termina o medo de aprender.”
— Anônimo, inscrito nos muros da UFPR
