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domingo, 2 de agosto de 2026

CURITIBA DE 1940: UM RETRATO COMPLETO E MINUCIOSO DA VIDA, ECONOMIA, CULTURA E SOCIEDADE NAS PÁGINAS DO JORNAL “O DIA”

 

CURITIBA DE 1940: UM RETRATO COMPLETO E MINUCIOSO DA VIDA, ECONOMIA, CULTURA E SOCIEDADE NAS PÁGINAS DO JORNAL “O DIA”






CURITIBA DE 1940: UM RETRATO COMPLETO E MINUCIOSO DA VIDA, ECONOMIA, CULTURA E SOCIEDADE NAS PÁGINAS DO JORNAL “O DIA”

Introdução: O Documento Vivo de Uma Época

As dez páginas que você apresenta são fragmentos autênticos e preciosos da história da capital paranaense, datadas de outubro de 1940, publicadas no jornal O Dia. Elas não trazem apenas anúncios ou notícias isoladas: compõem um painel completo de como Curitiba vivia, trabalhava, se divertia e se organizava naquele momento — uma cidade em plena expansão, que preservava costumes tradicionais enquanto abraçava novidades vindas do Brasil e do exterior. Cada detalhe, desde o valor de um ingresso de cinema até o endereço de um pequeno comércio, revela a identidade, o dinamismo e a alma de uma Curitiba que deu origem à que conhecemos hoje. Abaixo, todos os elementos registrados são reunidos, organizados e explicados em um relato amplo, fiel e exaustivo.

I. CULTURA, LAZER E ESPETÁCULOS: O BRILHO DAS NOITES E DIAS CURITIBANOS

1. O Cinema: Janela para o Mundo

Os cinemas eram os principais centros de encontro e difusão cultural, com programação cuidadosamente organizada por empresas locais que investiam em atrações de renome internacional.
  • Empresa A. Matos Azeredo & Filhos: Responsável pela administração do Cine Imperial, situado na Avenida Sete de Setembro. Os valores dos ingressos variavam entre 1$200 e 800 réis, preços que refletiam as diferentes categorias de assentos.
    • Em cartaz na semana:
      • O Amor de um Espião (título original Stand Up and Fight), produção estadunidense da Metro-Goldwyn-Mayer, com elenco de peso: Wallace Beery, Robert Taylor e Florence Rice. As sessões tinham início às 7h45, com ingresso único para a exibição.
      • Mademoiselle Maisie, também da MGM, estrelado por Ann Sothern e John Carroll — a publicidade destacava que se tratava de uma produção “superior à média”.
      • O Jovem Thomaz Edison, com Mickey Rooney, que contava a história da infância e juventude do grande inventor, igualmente da Metro-Goldwyn-Mayer.
    • Pré-estreia confirmada para a sexta-feira, dia 18 de outubro de 1940: Conflito de Duas Almas (título original Golden Boy), estrelado por Barbara Stanwyck, Adolphe Menjou e William Holden. A nota oficializava a proibição de entrada a menores de 14 anos, e destacava que se tratava de uma produção da “Grande Sociedade Cinematográfica Nacional”.
  • Os filmes eram mais do que entretenimento: traziam modas, comportamentos e histórias de outras partes do globo, que chegavam rapidamente à capital paranaense.

2. Cassinos e Espetáculos Artísticos: O CASINO AHU como Centro de Vida Social

O Casino Ahu era o ponto mais badalado da cidade, reunindo apresentações musicais, artistas nacionais e internacionais, além de eventos que movimentavam a vida social curitibana:
  • Carlos Galhardo: O cantor e artista era destaque de página inteira, com o título “Espetacular, o sucesso de Carlos Galhardo no Casino Ahu” — sua apresentação foi considerada um dos maiores sucessos da temporada.
  • Lina Ilari: Apresentada como “uma sensacional atração do Casino”, com descrição que destacava sua elegância, talento e presença de palco, encantando o público que frequentava o espaço.
  • Irmãs Mary e Chely: Dupla de artistas argentinas que estreou com sucesso absoluto no Casino, com apresentações elogiadas pela crítica e pelo público.
  • Lourdinha Rittencourt: Artista que se apresentava no espaço e era anunciada como “mais uma vitória do Casino Ahu”, com shows que levavam multidões ao local.
  • Frivola City: Espaço de entretenimento associado ao Casino, com programação variada e apoio da marca Cerveja Ouro, que usava o slogan “recomenda-se por si mesma”.
  • Campanhas promocionais: O Casino também promovia ações como “Um carnaval de brindes”, com distribuição de prêmios e sorteios para fidelizar e atrair frequentadores.

3. Literatura, Humor e Reflexão

Além do entretenimento visual, as páginas traziam conteúdos voltados ao pensamento e à literatura:
  • O romance Um homem dentro do mundo, de Oswaldo Alves, e obras de autores como Lúcio Martins eram anunciados, com resumos que despertavam a curiosidade dos leitores.
  • Colunas fixas:
    • Homônimo: Reflexões sobre identidade, convívio e semelhanças entre as pessoas.
    • Quando as horas dançam…: Texto poético sobre a passagem do tempo, a rotina e os ciclos da vida, acompanhado de uma ilustração artística.
    • O mais distraído, Segredo, Diferença: Colunas de humor e observação do cotidiano, que retratavam com leveza os costumes e as situações comuns da época.
    • Previsão: Textos que analisavam o cenário econômico e social do estado e do país.

II. COMÉRCIO, INDÚSTRIA E SERVIÇOS: A ECONOMIA QUE MOVIA A CIDADE

O comércio curitibano já era estruturado, com empresas de pequeno, médio e grande porte, distribuídas principalmente nas vias centrais. Cada ramo de atividade tinha representantes fortes, muitos dos quais mantiveram sua presença na cidade por décadas.

1. Alimentação, Bebidas e Produtos Típicos

  • Empresa Japonesa de Pesca: Localizada na Praça Zacarias, 3, especializada em pescados frescos de qualidade, oferecendo também o serviço de “Entrega a Domicílio”, uma facilidade rara e valorizada na época.
  • Mate Mongol: Marca de erva-mate e bebidas típicas, com anúncio que mostrava suas instalações e veículos de entrega, com a frase que sintetizava sua presença: “Mate Mongol aqui, ali… e em toda parte”.
  • Nosso Café: Comercializado pela Sociedade de Café Ltda., na Rua XV de Novembro, 15 — telefone 3-1-16 —, destacando a qualidade do grão e o atendimento diferenciado.
  • Cerveja Atlântica: Anúncio com o símbolo da âncora e o slogan poético: “To a cerveja é boa… se trouxer o rótulo à âncora encarnada da Atlântica”.
  • Cerveja Ouro: Associada a eventos e espaços de lazer, com a garantia de qualidade expressa na própria marca.
  • Óleo Sublime: Produto alimentar essencial na cozinha da época, com a frase “O sucesso de sua cozinha depende do uso do Óleo Sublime”, representado comercialmente por A. Costa & Cia.

2. Vestuário, Acessórios e Artigos de Uso Pessoal

  • Chapelaria Central: Na Rua XV de Novembro, 291 — “Artigos finos para homens”, com seleção criteriosa de chapéus e acessórios masculinos.
  • Chapelaria Modelo: Na Rua XV de Novembro, 267 — também especializada em artigos para homens, com atendimento personalizado.
  • Ótica Americana: Na Rua XV de Novembro, 341 — “O melhor sortimento em óculos e artigos ópticos, pelos melhores preços”, com profissionais capacitados para o atendimento.
  • Casa Roskamp: Na Rua XV de Novembro, 399 — comercializava artigos para bordar, máquinas de costura, botões, rendas e aviamentos em geral, atendendo tanto a costureiras profissionais quanto a famílias que costuravam em casa.
  • Coluna “A semana da primavera em um estabelecimento de modas”: Contava que a chegada da estação mais quente do ano impulsionava as vendas de roupas leves, com a loja “O-Louvre” registrando grande sucesso comercial.

3. Indústria e Empresas Locais

  • Fábrica de Calçados “Fraxino”: Uma das principais indústrias calçadistas do estado, instalada na Rua Marechal Floriano Peixoto, 10. Sua publicidade usava versos populares para fixar a marca:
    “Canta o galo, bate o sino / E o mundo todo anda a roda / Mas a Fábrica Fraxino / Do calçado é a moda! / É a fábrica grandiosa / Que a moda sabe imitar / Pois calça o pé formoso / E não tem outra igual.”
  • Companhia Força e Luz do Paraná: Empresa fundamental para o desenvolvimento da cidade, responsável pelo abastecimento de energia elétrica. Seu escritório central ficava na Rua Visconde de Guarapuava, 1221; a seção de reclamações e ligações funcionava na Rua Marechal Floriano Peixoto, 138.

4. Instituições Financeiras e Farmacêuticas

  • Minerva: Drogaria e farmácia instalada na Praça Tiradentes, 554 — “Produtos Farmacêuticos, Químicos e Naturais”, com tradição e confiança junto à população.
  • Bank of London & South America Ltd.: Filial da Lloyds Bank Ltd., uma das maiores instituições financeiras do mundo na época. Os números apresentados demonstravam sua solidez:
    • Capital e reservas da matriz: 6.040.000 libras esterlinas
    • Capital e reservas da filial: 25.310.052$000 réis
      O anúncio destacava sua atuação em todo o comércio com a Europa, Estados Unidos e América do Sul.

5. Serviços Profissionais e de Saúde

  • Advocacia: A profissão era regulamentada e valorizada, com escritórios nas principais vias da cidade:
    • Dr. Roberto Barroso — Advogado Civil e Comercial, com escritório no Palácio do Comércio.
    • Dr. Orlando Lobo — Advogado, escritório na Rua Marechal Floriano Peixoto.
    • Dr. Manoel Alves Correia — Advogado, endereço na Rua XV de Novembro.
    • Dr. Francisco Araújo — Advogado, na Praça Tiradentes.
    • Dr. Laertes Seixas — Advogado, na Rua Visconde de Guarapuava.
    • Dr. Peixoto de Oliveira Junior — Advogado e Tabelião.
    • Dr. Gaspar Veloso — Advogado, especializado em direito comercial.
    • Dr. Saturnino Luz — Advogado.
    • Dr. Raul Tavares — Advogado.
    • Dr. Roberto Marcondes — Advogado.
    • Dr. Antônio Ribeiro — Advogado.
    • Dr. Leoncio Farago — Contabilista e Advogado Comercial.
  • Saúde: Havia anúncios de tratamentos para neurastenia — condição que na época englobava transtornos nervosos, estresse e ansiedade — com orientações de Correia Junior, além de produtos farmacêuticos e de higiene.

III. A GEOGRAFIA E A IDENTIDADE DE UMA CIDADE EM CRESCIMENTO

Os endereços registrados nas páginas revelam como Curitiba já se organizava:
  • A Rua XV de Novembro era o coração comercial, concentrando lojas de roupas, acessórios, bancos, farmácias e serviços — uma centralidade que se mantém até hoje.
  • A Praça Tiradentes, Praça Zacarias, Avenida Sete de Setembro, Rua Marechal Floriano Peixoto e Rua Visconde de Guarapuava eram os eixos principais, onde funcionavam os cinemas, repartições públicas, empresas de serviços essenciais e comércios de maior porte.
  • Os preços praticados — em réis, moeda vigente antes da introdução do cruzeiro — mostram o poder de compra e a realidade econômica do período, com valores claros e acessíveis para a maioria da população.

IV. CONCLUSÃO: UM LEGADO QUE SE CONSERVA EM PAPEL

Essas páginas não são apenas registros de um passado distante: são provas vivas da capacidade de trabalho, da criatividade e da cultura do povo curitibano. Em 1940, a cidade já unia o respeito às raízes — como o mate, as tradições populares e a seriedade no trato comercial — à abertura para o novo, seja nas produções de cinema de Hollywood, nas atrações artísticas vindas de outros países ou nas modernas instalações de energia e serviços.
Cada nome de empresa, cada endereço, cada artista e cada detalhe descrito aqui faz parte da história que construiu a Curitiba de hoje. Preservar esses registros é reconhecer que a identidade de uma cidade não surge do nada: ela é tecida dia após dia, por pessoas que sonharam, trabalharam e viveram cada momento com dedicação — exatamente como essas páginas nos mostram, com toda a riqueza e verdade de quem esteve lá.