Denominação inicial: Escola de Trabalhadores Rurais de Tijuco Preto
Denominação atual: Centro Estadual de Educação Profissional Lysimaco Ferreira da Costa
Endereço: Rodovia BR-116, km 206 - Tijuco Preto
Cidade: Rio Negro
Classificação (Uso): Escolas Profissionais Rurais
Período: 1930-1945
Projeto Arquitetônico
Autor:
Data:
Estrutura: singular
Tipologia: U
Linguagem: Art Déco
Data de inauguracao: 1940
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Escola de Trabalhadores Rurais de Rio Negro em 1942 Fonte: PARANÁ. Relatório do Diretor do Depto. de Obras Públicas do Paraná referente ao decênio 1932-1942. Curitiba: 1942
Entre o Campo e o Saber: A Escola de Trabalhadores Rurais de Tijuco Preto e o Sonho de um Brasil que se Fazia na Terra
Na curva da BR-116, onde o asfalto corta vales de pinheirais e lavouras, ergue-se há mais de oito décadas um monumento silencioso à utopia educacional brasileira — um prédio em forma de U que abrigou o sonho de transformar o homem do campo em protagonista do progresso nacional
O Chamado da Terra: Quando o Brasil Decidiu Educar o Interior
Era o auge do Estado Novo. Enquanto Getúlio Vargas falava ao microfone do rádio com a voz grave de quem moldava uma nação, nas entranhas do Paraná — naquele território fronteiriço entre planalto e serra onde tropeiros outrora cruzavam com mulas carregadas de erva-mate — erguia-se algo revolucionário: uma escola para quem trabalhava a terra. Não uma escola qualquer, mas uma Escola de Trabalhadores Rurais, inaugurada em 1940 em Tijuco Preto, distrito de Rio Negro.
Naqueles anos turbulentos de 1930-1945, o Brasil vivia uma contradição dolorosa: enquanto as cidades se industrializavam a passos largos, o campo — berço da riqueza nacional — permanecia à margem do progresso. Analfabetismo, técnicas agrícolas arcaicas e isolamento geográfico condenavam gerações de famílias a repetir ciclos de pobreza. Foi então que surgiu o ruralismo pedagógico: movimento que via na educação rural não apenas alfabetização, mas instrumento de modernização do país.
A escola deixava de ser mero espaço de leitura e escrita para tornar-se laboratório vivo — onde o aluno aprendia a cultivar, a criar animais, a transformar o leite em queijo, a ler o céu para prever a chuva.
Em Tijuco Preto, esse ideal ganhou forma concreta. Num terreno generoso às margens da recém-inaugurada BR-116 — a estrada que ligaria o Sul ao Sudeste e traria o mundo até aquelas paragens — ergueu-se um edifício de linhas ousadas para a época: arquitetura Art Déco, com sua geometria elegante e simbólica, organizada em tipologia em "U". A forma não era acidental: o U abraçava o terreiro central onde as aulas práticas aconteceriam — o pomar experimental, a horta didática, o galinheiro-modelo. Era a materialização de uma filosofia: a educação não se dá apenas dentro das salas, mas no encontro entre teoria e terra molhada pelo orvalho da madrugada.
Tijuco Preto: Entre Tropeiros e Colonos, o Berço de uma Comunidade
Para compreender a escola, é preciso sentir o chão onde ela se ergueu. Rio Negro — cujo nome evoca as águas escuras do rio que corta a região — nasceu como acampamento de tropeiros no século XIX, ponto de passagem obrigatória entre Viamão e os Campos Gerais.
Ali, onde antes ressoavam guizos de mulas e cantos de vaqueiros, chegaram nas primeiras décadas do século XX levas de imigrantes: alemães, poloneses, italianos, ucranianos — cada grupo trazendo sua língua, sua fé, sua forma de lidar com a terra.
Tijuco Preto, distrito afastado do centro urbano, tornou-se reduto dessas famílias que transformaram a mata virgem em lavouras de milho, trigo e batata. Mas com a terra cultivada vinha a inquietação: como garantir que os filhos não repetissem a dureza da vida dos pais? Como aprender técnicas modernas de adubação, de rotação de culturas, de combate a pragas? A resposta veio do Estado: uma escola que falasse a linguagem do campo, mas abrisse janelas para o mundo.
Arquitetura como Ideologia: O Art Déco que Abraçava o Campo
Enquanto os grupos escolares urbanos adotavam o ecletismo conservador, a Escola de Trabalhadores Rurais de Tijuco Preto ousou. Seu projeto singular — autor anônimo, fruto do gênio coletivo da burocracia estadual — revelava ambição civilizatória. O Art Déco, linguagem arquitetônica símbolo de modernidade nos anos 1930-40, chegava ao interior não como luxo desnecessário, mas como mensagem subliminar: vocês, trabalhadores rurais, merecem beleza; o campo não é lugar de atraso, mas de vanguarda.
As linhas retas e angulares típicas do estilo dialogavam com a geometria das plantações em terraços; os vãos generosos captavam a luz do planalto; os materiais — tijolo aparente, concreto armado, telha colonial — falavam de solidez e permanência. Na fachada principal, talvez frisos abstratos evocassem espigas de milho ou fileiras de cafezais — a arte celebrando o trabalho que sustentava a nação. A tipologia em "U" criava um microcosmo protegido: dentro daquele abraço arquitetônico, crianças e jovens aprendiam que ser do campo não era destino de submissão, mas vocação de transformação.
Uma fotografia de 1942, registrada no Relatório do Departamento de Obras Públicas do Paraná, capturou para a posteridade aquele momento de plenitude: o edifício imponente sob o céu azul do planalto, alunos em fila diante da entrada, professores de paletó e gravata ao lado de agricultores de botas enlameadas — todos unidos pelo mesmo propósito: fazer da escola a semente de um Brasil mais justo.
A Rotina que Transformava Vidas: Do Quadro-Negro ao Campo Experimental
Imaginemos uma manhã típica em 1943. Às seis horas, o sino metálico ecoava pelos vales. Chegavam os alunos: meninos de calça remendada e pés descalços; meninas com vestidos simples carregando lancheiras de lata com pão e linguiça. Muitos haviam acordado antes do sol para ajudar nos afazeres da roça — ordenhar as vacas, alimentar os porcos, recolher ovos.
Dentro da sala, a professora — formada na Escola Normal Rural de Ipiranga, outra joia da coroa educacional paranaense — iniciava a aula de leitura com textos sobre agricultura. Não havia dicotomia entre o saber e o fazer: ao aprender a soletrar "a-r-a-d-o", as crianças viam o arado de ferro no canto da sala; ao estudar matemática, calculavam a produtividade de um hectare de batata; na aula de ciências, observavam sob a lupa as larvas que atacavam o repolho.
À tarde, o terreiro central transformava-se em laboratório vivo. Os meninos aprendiam a podar pés de café com precisão cirúrgica; as meninas dominavam técnicas de conservação de alimentos — compotas de pêssego, geleias de figo, defumação de carnes. Havia até uma pequena oficina de marcenaria onde se fabricavam enxadas e ancinhos reforçados. A escola não apenas ensinava — produzia. O que colhiam na horta experimental alimentava os alunos; o queijo feito no laticínio-modelo era vendido na feira de Rio Negro, gerando recursos para comprar livros novos.
Era ali, entre o cheiro de terra molhada e o giz do quadro-negro, que nascia uma nova consciência: a de que o trabalhador rural não era mão de obra anônima, mas técnico, empreendedor, guardião da soberania alimentar da nação.
A Transição Silenciosa: Do Rural ao Profissional
As décadas passaram. O Estado Novo caiu em 1945; Getúlio Vargas partiu e voltou; o Brasil viveu ditaduras e redemocratizações. A escola de Tijuco Preto resistiu — adaptando-se, transformando-se, mas nunca fechando suas portas. O ruralismo pedagógico perdeu força com o êxodo campo-cidade dos anos 1960-70, mas a instituição soube reinventar-se.
Em homenagem póstuma a um dos maiores educadores do Paraná — Lysimaco Ferreira da Costa, intelectual que dedicou sua vida à reforma do ensino secundário brasileiro e à defesa de uma educação pública de qualidade — a escola recebeu novo nome: Centro Estadual de Educação Profissional Lysimaco Ferreira da Costa.
A mudança de denominação não apagou a memória rural; ao contrário, ampliou seu horizonte: da formação do agricultor para a formação do técnico, do empreendedor, do cidadão pleno.
O prédio original, com suas linhas Art Déco agora marcadas pelo tempo, permanece de pé — "edificação existente com alterações", como registram os documentos oficiais. Janelas foram trocadas, telhados reformados, salas adaptadas para laboratórios de informática. Mas a estrutura em "U" resiste, testemunha silenciosa de gerações que ali aprenderam não apenas a ler e escrever, mas a sonhar além do horizonte da própria roça.
Epílogo: O Legado que Não se Apaga
Hoje, quem passa pela BR-116 no quilômetro 206 talvez não perceba a importância histórica daquele conjunto arquitetônico à beira da rodovia. Para muitos, é apenas "a escola de Tijuco Preto". Mas para quem conhece sua história, aquele prédio em forma de U é muito mais: é um monumento à coragem de um país que, mesmo em tempos autoritários, ousou sonhar com uma educação que dignificasse o trabalho do campo.
Lysimaco Ferreira da Costa, cujo nome hoje honra a instituição, compreendeu antes de muitos que a educação não é privilégio urbano — é direito universal.
E os construtores anônimos daquela escola Art Déco, ao erguerem suas paredes entre pinheirais e lavouras, escreveram com tijolo e cimento uma mensagem que ecoa até hoje: nenhum brasileiro está longe demais para aprender; nenhuma terra é ingrata demais para florescer com o saber.
Na quietude das tardes de inverno, quando o nevoeiro desce sobre os vales de Rio Negro e envolve o prédio em seu manto branco, é possível quase ouvir os ecos daqueles tempos: o ranger das carteiras de madeira, o murmúrio das crianças soletrando em coro, o tilintar dos baldes de leite no pátio central. São fantasmas doces — memórias de um Brasil que acreditou, mesmo que por breve momento, que educar o campo era plantar as sementes mais nobres da pátria.
E enquanto houver um jovem em Tijuco Preto abrindo um livro sob o teto daquele U abraçante, o sonho de 1940 continuará vivo. Não como relíquia museológica, mas como semente perene: a certeza de que, entre o campo e o saber, há sempre um caminho — e que esse caminho começa onde a estrada cruza o sonho.
