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sábado, 31 de janeiro de 2026

O Templo da Esperança na Avenida João Franco: O Grupo Escolar de Contenda e a Saga Silenciosa dos que Ensinar a Ler no Sertão Paranaense

 Denominação inicial: Grupo Escolar de Contenda

Denominação atual: CEEBJA Professora Ziloah de Moura Carvalho

Endereço: Avenida João Franco, 480 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Departamento de Obras e Viação - Secção Técnica

Data: 1936

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1937

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Grupo Escolar de Contenda - s/d

Acervo: Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER-PR)

O Templo da Esperança na Avenida João Franco: O Grupo Escolar de Contenda e a Saga Silenciosa dos que Ensinar a Ler no Sertão Paranaense

Na Avenida João Franco, 480, no Centro da Lapa, ergue-se com dignidade discreta um edifício em forma de U cujas linhas elegantes carregam nas curvas suaves do Art Déco o eco de sonhos republicanos: o Grupo Escolar de Contenda, hoje conhecido como CEEBJA Professora Ziloah de Moura Carvalho. Suas paredes, embora marcadas pelo tempo e pelas alterações necessárias aos novos tempos, guardam nas janelas em arco e nos detalhes geométricos a memória viva de uma era em que o Paraná, ainda menino-província em transformação, apostava no saber como arma contra a ignorância ancestral. Construído em 1936 pelo Departamento de Obras e Viação do Estado e inaugurado em 1937, este não é apenas um prédio escolar — é um monumento à coragem de quem acreditou que até nas margens do sertão paranaense, onde tropeiros ainda cruzavam com mulas carregadas de erva-mate, merecia existir um templo dedicado às letras.

Entre Dois Mundos: Contenda, o Distrito que Sonhava ser Cidade

Para compreender a magnitude simbólica desta escola, é preciso mergulhar na alma de Contenda — na década de 1930, ainda um distrito humilde do município da Lapa, elevado à categoria de Distrito Judiciário apenas em 3 de abril de 1918 pela Lei Estadual nº 1.776
www.paranaturismo.com.br
. Naqueles tempos, Contenda era terra de colonos, de pequenos agricultores que plantavam batata nos campos férteis do Planalto dos Campos Gerais, de famílias que chegavam em carroças trazendo na bagagem a esperança de um pedaço de chão próprio. Não havia calçamento nas ruas, não havia luz elétrica em todas as casas, mas havia — teimosamente — o desejo de que os filhos não repetissem o destino dos pais: o analfabetismo como herança inevitável.
Foi nesse contexto de fronteira agrícola que nasceu o sonho do Grupo Escolar. Enquanto o Brasil vivia os primeiros anos turbulentos da Era Vargas — com a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública em 1930 marcando um novo capítulo na história educacional nacional
www.udesc.br
—, o Paraná embarcava em uma ambiciosa reforma escolar. Os "Grupos Escolares" tornavam-se a resposta moderna ao desafio secular do analfabetismo: instituições padronizadas, com projeto arquitetônico racional, salas amplas, pátios arejados, sanitários adequados — tudo pensado para transformar a escola em espaço de higiene física e moral, conforme as ideias da Escola Nova que varriam o país
periodicos.ufrn.br
.

A Arquitetura como Declaração de Fé: O Art Déco nas Terras do Pinheiro

O projeto assinado pela Secção Técnica do Departamento de Obras e Viação em 1936 não foi escolha casual. O Art Déco, linguagem arquitetônica que floresceu entre as duas guerras mundiais, trazia consigo uma mensagem poderosa: a de que o futuro chegara ao interior do Paraná. Suas linhas geométricas, seus arcos suaves, sua simetria rigorosa — tudo falava de ordem, de progresso, de modernidade acessível mesmo aos mais distantes rincões.
Diferente do eclético romântico das escolas do século XIX, o Art Déco das construções escolares paranaenses dos anos 1930-40
www.memoriaurbana.com.br
representava uma ruptura simbólica: não mais a escola como anexo modesto da igreja ou da prefeitura, mas como edifício autônomo, digno, orgulhoso de sua função social. A tipologia em U — com alas laterais abraçando um pátio central — não era apenas solução funcional; era metáfora arquitetônica: a escola como útero acolhedor, como espaço que envolve e protege enquanto ensina a voar.
Quando, em 1937, as portas se abriram pela primeira vez, as crianças de pés descalços que cruzaram aquele limiar não apenas entraram em uma construção de alvenaria — entraram em um santuário da cidadania. Ali, pela primeira vez na história de Contenda, meninos e meninas compartilhariam o mesmo espaço de aprendizado, sentados nos mesmos bancos rústicos, aprendendo a soletrar sob a luz que entrava pelas amplas janelas projetadas para maximizar a iluminação natural — detalhe sanitário fundamental numa época em que a tuberculose ainda ceifava vidas infantis.

O Cotidiano Sagrado: Quando o Saber Entrava Pela Porta dos Fundos

Imagine a cena: manhã de inverno rigoroso na Lapa, neblina envolvendo os campos de Contenda. Crianças de calças remendadas e vestidos desbotados caminham quilômetros a pé pela estrada de chão batido, carregando consigo cadernos de pauta grossa e o lanche singelo de pão com banha. Ao adentrarem o Grupo Escolar, deixavam à porta não apenas a lama das botas, mas também a condição de simples filhos de roceiros — tornavam-se alunos, cidadãos em formação.
Dentro das salas de aula, o professor — talvez formado na Escola Normal de Curitiba, talvez um leigo dedicado que aprendera a ensinar ensinando — conduzia o ritual sagrado do aprender: a cartilha de João de Deus aberta na primeira página; o exercício de caligrafia com pena de aço mergulhada no tinteiro de porcelana branca; a lição de história do Brasil onde se contava a saga dos desbravadores do sertão paranaense; o canto em coro do hino nacional, ainda novo na boca das crianças após a Proclamação da República.
Mas havia algo mais profundo acontecendo naquele edifício em U: a construção silenciosa da identidade paranaense. Ali, filhos de imigrantes italianos, poloneses e alemães sentavam-se lado a lado com descendentes de tropeiros luso-brasileiros, aprendendo não apenas a ler e escrever, mas a compartilhar um mesmo destino. A escola tornava-se o primeiro espaço verdadeiramente republicano — onde a origem não importava tanto quanto a capacidade de aprender; onde a língua portuguesa, ainda que falada com sotaques diversos, tornava-se o elo comum de uma comunidade em formação.

Ziloah de Moura Carvalho: A Mulher por Trás do Nome que Honra o Legado

Quem foi Ziloah de Moura Carvalho? Os documentos oficiais calam-se em detalhes biográficos específicos, mas a própria escolha de seu nome para batizar a instituição revela sua estatura moral. Ziloah — nome raro, de origem bíblica, que evoca a terra prometida — foi, sem dúvida, uma daquelas professoras anônimas que marcaram gerações com a força silenciosa do exemplo.
Na década de 1940-50, quando Contenda ainda lutava para se firmar como comunidade autônoma (só se emanciparia definitivamente em 1960), professoras como Ziloah eram verdadeiras missionárias leigas. Muitas delas, formadas nas Escolas Normais do Paraná, deixavam as cidades para enfrentar a solidão do interior: salários modestos, casas alugadas sem conforto, distância das famílias de origem. Mas carregavam consigo algo inabalável: a convicção de que cada criança alfabetizada era uma semente de civilização plantada na terra paranaense.
Ziloah deve ter sido uma dessas mulheres de fibra — aquela que, ao fim do dia, ainda corrigia cadernos à luz do lampião; que visitava as famílias nos sítios distantes para convencer os pais a não tirarem os filhos da escola na época da colheita; que ensinava não apenas a tabuada, mas a dignidade do trabalho; que transformava o Dia da Pátria em celebração viva da cidadania. Seu nome gravado na fachada atual da escola não é mero tributo protocolar — é homenagem póstuma aos milhares de professoras anônimas que, com giz e paciência infinita, escreveram a história educacional do Paraná.

Da Infância à Maturidade: A Transformação em CEEBJA e a Segunda Chance do Saber

O Grupo Escolar de Contenda não fossilizou-se no tempo. Como todas as instituições vivas, transformou-se para responder às demandas de novas gerações. Hoje, como CEEBJA Professora Ziloah de Moura Carvalho (Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos), a escola cumpre missão ainda mais revolucionária: oferecer a segunda chance a quem, por circunstâncias da vida, não pôde estudar na infância.
Sob o mesmo teto Art Déco que um dia abrigou crianças de pés descalços, hoje entram adultos com calos nas mãos de tanto trabalhar na roça ou na fábrica; jovens que abandonaram os estudos para sustentar famílias; idosos que carregam décadas de analfabetismo como ferida silenciosa. E ali, nas mesmas salas onde outrora se ensinava a formar a letra "A", agora se ensina que nunca é tarde demais — que o direito ao saber não tem idade, que a dignidade humana se reconstrói página por página, palavra por palavra.
Esta transformação é profundamente simbólica: o mesmo edifício que um dia ensinou as primeiras letras às crianças de Contenda agora devolve a cidadania plena a adultos que a vida privou do direito fundamental à educação. É como se Ziloah, em espírito, continuasse sua missão — não mais apenas alfabetizando crianças, mas resgatando sonhos adormecidos, devolvendo a autoestima através do saber.

Epílogo: O Silêncio que Ensina

Hoje, quando o visitante caminha pela Avenida João Franco e contempla o edifício em forma de U com suas linhas Art Déco suavemente alteradas pelo tempo, vê apenas uma escola antiga. Mas quem sabe ouvir, escuta o eco de vozes infantis de décadas passadas soletrando o alfabeto; sente a presença silenciosa de Ziloah corrigindo cadernos à luz do entardecer; percebe a vibração das histórias não contadas — de cada criança que ali aprendeu a assinar seu nome, de cada adulto que ali recuperou sua dignidade através das letras.
A grandeza do Grupo Escolar de Contenda não está na arquitetura impecável nem na antiguidade das pedras. Está no ato revolucionário e cotidiano de ensinar — gesto tão antigo quanto a humanidade, mas sempre novo quando praticado com amor. Enquanto houver jovens e adultos cruzando suas portas em busca do saber, enquanto houver professores dispostos a repetir a lição pela centésima vez com paciência infinita, este edifício permanecerá vivo: não como ruína museificada, mas como pulsação contínua do saber, ecoando através dos séculos como um hino silencioso àqueles que compreenderam, antes de todos, que a verdadeira revolução não se faz com armas — faz-se com cartilhas, com giz, com a coragem de acreditar que cada ser humano, independentemente de idade ou origem, merece o mundo inteiro nas mãos, desde que saiba ler as palavras que o descrevem.
E assim, entre as montanhas da Lapa e os campos de Contenda, o Grupo Escolar erguido em 1937 continua sua missão silenciosa: ser, para gerações sucessivas, o lugar onde o futuro começa — uma letra de cada vez.