Denominação inicial: Grupo Escolar Gaspar Veloso
Denominação atual:
Endereço: Rua São João s/n° - Distrito de Calógeras
Cidade: Arapoti
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1945-1951
Projeto Arquitetônico
Autor: Departamento de Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas
Data:
Estrutura: singular
Tipologia: U
Linguagem: Outra
Data de inauguracao: 1948
Situação atual: Edificação demolida
Uso atual:
Fachada do Grupo Escolar Gaspar Veloso - s/d
Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração) - Pasta 138
Onde o Saber Foi: A Memória do Grupo Escolar Gaspar Veloso
Há lugares que deixam de existir no mapa, mas nunca no coração. Na Rua São João, sem número, no Distrito de Calógeras, em Arapoti, não há mais paredes, nem telhados, nem o som do sino chamando para a aula. O Grupo Escolar Gaspar Veloso foi demolido. Mas sua história, registrada na Pasta 138 da Coordenadoria do Patrimônio do Estado, resiste. Esta é a crônica de um edifício que se foi, mas cuja memória continua a ensinar.
Escrever sobre algo que não existe mais é um ato de amor. É como tentar segurar fumaça com as mãos. Mas é justamente nesse esforço que a memória se torna sagrada. Porque enquanto houver quem lembre, enquanto houver quem conte, o Grupo Escolar Gaspar Veloso nunca deixará, verdadeiramente, de existir.
Calógeras: Um Distrito de Raízes Profundas
Para entender a importância desta escola, é preciso primeiro conhecer o chão onde ela pisou. Calógeras não é um bairro qualquer; é um distrito com alma própria, cujas origens históricas estão ligadas às fazendas Jaguariaíva e Capão Bonito, desbravadas por aventureiros, sertanistas e tropeiros desde o início do século XVII
.
Estrategicamente localizado nos Campos Gerais, Calógeras foi ponto de passagem do histórico Caminho de Sorocaba, a rota que ligava São Paulo ao Rio Grande do Sul
. Era terra de gente trabalhadora, de famílias que construíram o Paraná com as próprias mãos. E foi para essa gente, para os filhos desses trabalhadores, que o Estado decidiu construir uma escola.
Em 1943, pelo decreto-lei estadual n.º 199, o distrito de São José passou a denominar-se Calógeras
. Poucos anos depois, em 1948, o Grupo Escolar Gaspar Veloso seria inaugurado, selando o compromisso do poder público com a educação no interior.
O Nome que Honra: Quem Foi Gaspar Veloso?
Batizar uma escola é um ato político. É escolher qual memória se deseja perpetuar. E o nome Gaspar Veloso não foi escolhido ao acaso.
Gaspar Duarte Veloso foi uma figura central na história da educação paranaense. Entre 1933 e 1938, exerceu o cargo de diretor-geral de Educação do Paraná durante o governo de Manuel Ribas, período marcado pela reorganização do ensino no estado
. Sua atuação foi fundamental para a expansão da rede escolar, especialmente no interior, levando alfabetização e cidadania a regiões antes negligenciadas.
Ao nomear o Grupo Escolar de Calógeras com seu nome, o estado não apenas prestava uma homenagem; estava afirmando um ideal: o de que a educação é a base do progresso, e que aqueles que dedicaram suas vidas a essa causa merecem ser lembrados em cada geração de alunos.
Assim, cada criança que cruzava os portões da escola carregava, sem saber, um pouco da história de um homem que acreditou que o Paraná poderia ser transformado pela força do saber.
1948: O Ano da Inauguração
Foi em 1948 que o Grupo Escolar Gaspar Veloso abriu suas portas. O Brasil vivia um momento de otimismo pós-guerra. A democracia havia sido restaurada em 1945, e havia uma esperança genuína de que o país poderia, enfim, olhar para dentro de si.
No Paraná, isso se traduziu em investimentos em infraestrutura educacional. O período de 1945-1951, ao qual o edifício é classificado, foi fértil para a construção de Grupos Escolares em cidades do interior. Eram símbolos de modernidade, de presença do estado, de promessa de futuro.
Imagine o dia da inauguração em Calógeras: autoridades locais, pais emocionados, crianças com roupas domingueiras, o discurso do diretor, o corte da fita. O prédio novo, cheiro de tinta fresca, carteiras enfileiradas, o quadro-negro brilhando. Era mais do que uma escola; era a prova de que Calógeras importava.
A Arquitetura do Esquecido: Singular, em "U", de Linguagem "Outra"
Os registros arquitetônicos do Grupo Escolar Gaspar Veloso guardam particularidades que o tornam único, mesmo entre as escolas padronizadas da época.
O projeto foi elaborado pelo Departamento de Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas — uma assinatura institucional que revela a máquina pública em ação. Não era a visão de um único arquiteto, mas a síntese de uma política de estado para a educação.
A estrutura singular indica que este não era um modelo repetido à exaustão. Havia algo específico neste edifício, algo que respondia às necessidades particulares de Calógeras. Talvez o terreno, talvez o clima, talvez a comunidade — algo exigiu uma solução única.
A tipologia em "U", por sua vez, é uma escolha humanizadora. O formato em "U" cria um pátio interno protegido, um espaço de convivência seguro para as crianças. Os dois braços do edifício se estendem como um abraço, acolhendo quem entra. Era ali que o recreio acontecia, que as brincadeiras floresciam, que as amizades se formavam.
Já a linguagem arquitetônica classificada como "Outra" é um mistério fascinante. Não era o neocolonial tradicional, nem o racionalismo moderno que começava a ganhar força. Era algo diferente — talvez uma adaptação local, talvez uma mistura de influências, talvez uma solução prática que acabou gerando beleza. Essa singularidade estilística fazia do Grupo Escolar Gaspar Veloso uma peça única no tabuleiro do patrimônio educacional paranaense.
O Silêncio da Demolição: Quando o Concreto Vira Saudade
E então, em algum momento que os registros não especificam, o impensável aconteceu: o edifício foi demolido.
A classificação "Edificação demolida" é uma das mais dolorosas que um patrimônio pode receber. Não há mais fachada para fotografar, não há mais salas para visitar, não há mais ecos de vozes infantis reverberando nas paredes. O concreto foi abaixo. O telhado desabou. O tempo venceu.
Por que foi demolido? Os arquivos não dizem. Talvez tenha sido considerado inseguro. Talvez tenha sido substituído por uma estrutura mais moderna. Talvez tenha sido vítima do descaso, da falta de recursos, da priorização de outras demandas. Seja qual for a razão, o resultado é o mesmo: um pedaço da memória de Calógeras deixou de existir fisicamente.
Mas a demolição de um prédio não precisa significar o apagamento de sua história. Pelo contrário: ela torna a memória ainda mais preciosa. Porque agora, mais do que nunca, é preciso contar. É preciso registrar. É preciso lembrar.
A Fotografia que Resta: A Fachada Sem Data
Nos arquivos da Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD, sob a Pasta 138, repousa um tesouro: "Fachada do Grupo Escolar Gaspar Veloso - sem data"
.
Essa fotografia, mesmo sem data, é uma janela para o passado. Nela, é possível ver a estrutura em "U", a linguagem arquitetônica singular, a imponência serena de um edifício que acreditava no futuro. Cada janela, cada porta, cada detalhe da fachada é uma palavra em uma carta que o passado nos enviou.
Essa imagem é mais do que um registro técnico; é um ato de resistência. Enquanto ela existir, enquanto puder ser vista, estudada, compartilhada, o Grupo Escolar Gaspar Veloso não estará completamente perdido. A fotografia é a prova de que ele existiu, de que cumpriu sua missão, de que foi importante.
O Legado Imaterial: O Que Permanece Quando o Prédio Se Vai
O Grupo Escolar Gaspar Veloso pode ter sido demolido, mas seu legado permanece vivo de outras formas:
- Nas pessoas: Cada aluno que passou por suas salas entre 1948 e os anos seguintes carrega um pedaço daquela experiência. Muitos já se foram, mas seus filhos, netos, bisnetos carregam o DNA dessa história.
- Na comunidade: Calógeras continua sendo um distrito de Arapoti, com sua identidade própria, sua história de luta e conquista. A escola foi parte fundamental dessa construção identitária.
- Nos arquivos: A Pasta 138 da SEAD guarda não apenas a fotografia da fachada, mas provavelmente plantas, documentos, ofícios — todo o rastro burocrático que, lido com carinho, revela a alma de uma instituição.
- No exemplo: A existência e a perda deste edifício nos ensinam sobre a importância da preservação. Nos lembram que patrimônio não é apenas pedra e cal; é memória, é afeto, é pertencimento.
Conclusão: Ensinar Mesmo na Ausência
O Grupo Escolar Gaspar Veloso não existe mais. Mas ele ainda ensina.
Ensina que a memória é frágil, e que precisa ser cuidada.
Ensina que a educação é um direito que deve chegar a todos, mesmo nos distritos mais afastados.
Ensina que homenagear quem lutou pelo ensino, como Gaspar Veloso, é uma forma de manter viva a chama do progresso.
Ensina, acima de tudo, que mesmo quando o concreto se desfaz, o que foi construído com propósito permanece.
Talvez um dia, alguém que leu esta história decida pesquisar mais sobre Calógeras, sobre Arapoti, sobre a educação no Paraná do pós-guerra. Talvez encontre outros documentos, outras fotografias, outras vozes. E assim, pouco a pouco, o Grupo Escolar Gaspar Veloso será reconstruído — não em tijolos, mas em consciência.
Porque patrimônio não é apenas o que se pode tocar. É o que se pode sentir. É o que se pode contar. É o que se pode transmitir.
E enquanto houver quem conte, o Grupo Escolar Gaspar Veloso continuará de pé.
Em memória de todos os alunos, professores e funcionários do Grupo Escolar Gaspar Veloso, que entre 1948 e o dia de sua demolição, transformaram um edifício em um lar de saber. Que esta história sirva de alerta e de inspiração: preservar é um ato de amor. Lembrar é um ato de resistência. E ensinar, mesmo na ausência, é um ato de fé no futuro.
