A antiga Praça da Matriz, atual Tiradentes, foi a primeira centralidade curitibana e é o cenário principal do mito fundador da cidade.
O mito conta a história de um índio, que guiado por uma imagem de Nossa Senhora da Luz indica o local exato onde a cidade deveria nascer. Chegando lá ele bateu no solo com um cajado e falou: aqui é o lugar e ao redor da praça a cidade iniciou e expandiu.
Nenhum outro lugar de Curitiba presenciou tantos fatos históricos e mudanças na paisagem urbana quanto a Praça Tiradentes. Havia inicialmente uma singela ocupação, com casas de pau a pique cobertas de palha e também uma pequena capela construída no mesmo material. A povoação cresceu, se desenvolveu e as construções foram sendo substituídas aos poucos por edificações mais sólidas, construídas com pedra, surgindo também alguns poucos sobrados.
Na segunda metade do século XIX novos elementos construtivos foram introduzidos, como o tijolo proveniente de olarias, a madeira serrada em peças padronizadas pré-definidas e o ferro fundido. O entorno da praça se altera e surgem edificações com maior porte e altura.
No final do século XIX e início do século XX o ecletismo se afirmou como corrente arquitetônica principal, aos poucos o casario colonial foi posto abaixo e uma série de sobrados e edifícios com dois ou três pavimentos materializaram uma nova paisagem. Curitiba respirava os ares da modernidade do início do século XX.
Na década de 1940 um novo material construtivo transformou drasticamente a paisagem da praça: o concreto armado. A possibilidade de verticalização resultou em um maior aproveitamento do valorizado terreno da área central. Surgiram nesse período os primeiros arranha-céus que impulsionaram uma nova urbanidade e adensamento.
Os novos edifícios possuíam linhas mais puras, com poucos adornos e refletiam as possibilidades formais e tecnológicas do concreto armado. Nesse período o ecletismo deixou de ser reflexo de modernidade e se transformou em uma referência dos edifícios do passado.
A verticalização se intensificou nas décadas posteriores e a regularidade espacial do entorno da Tiradentes se transformou em uma paisagem diversa e pouco harmônica.
Diversas alterações no traçado das ruas e delimitação do entorno da praça também influenciaram na paisagem e memória do lugar. Algumas cicatrizes são percebidas pelo transeunte mais atento, assim como um ou outro edifício que resistiu ao tempo e impôs a sua materialidade na confusa paisagem contemporânea.
Mesmo diante de tanta mudança a praça continua viva, mesmo confinada por pontos de ônibus e pelo barulho do transito intenso, a Tiradentes é um importante lugar de encontro no coração da cidade.

Foto: Synval Stocchero – Casa da Memória – Fundação Cultural de Curitiba

Cicatrizes e regenerações
Alteração da malha urbana da Praça Tiradentes e entorno.
Fábio Domingos Batista, 2020
Linha do tempo – Praça Tiradentes
1873
Casario colonial da Avenida Floriano Peixoto e ao fundo a antiga Igreja do Rosário, demolida na década de 1930.
Foto: Julia Wanderley – Casa da Memória – Fundação Cultural de Curitiba
1900
As edificações coloniais, construídas em pedra, ainda são predominantes na paisagem urbana da praça. Porém surgem novos edifícios, com maior porte e altura.
O tijolo possibilitou a construção de edificações complexas, com mais pavimentos e aberturas. Também foram introduzidos elementos de ferro fundido, como o guarda-corpo do balcão superior.
Foto: Casa da Memória – Fundação Cultural de Curitiba
1910
Os edifícios são leves e com maior porte. Apresentam um maior número de janelas e portas, há também balcões e elementos decorativos nas fachadas. Ainda é possível encontrar alguns poucos edifícios coloniais que resistem aos ares de progresso.
A praça é bastante arborizada e as ruas apresentam um maior movimento de carroças e charretes.
Foto: Casa da Memória – Fundação Cultural de Curitiba
1934
O entorno da praça se verticaliza e a arquitetura eclética é predominante.
A arborização da praça é suprimida e novos marcos são implantados: as estátuas do Marechal Floriano Peixoto e ao fundo um pedestal aguarda a estátua de Tiradentes.
Foto: Arthur Wischral – Casa da Memória – Fundação Cultural de Curitiba
1936
A população se aglomera para assistir a passagem do dirigível Hindenburg pelos céus da capital.
A estátua do Marechal Floriano Peixoto, voltado para antiga agência do Banco do Brasil, também assiste o evento.
Foto: Casa da Memória – Fundação Cultural de Curitiba
Década de 1940
A verticalização se intensifica: surgem os edifícios de apartamentos e de escritórios.
O entorno da praça se diversifica, há grande diferença de porte e altura nas edificações. Há também diversidade de referências arquitetônicas que convivem em uma espécie de conflito que não é muito percebida pelo pedestre, devido a continuidade dos estabelecimentos comerciais no pavimento térreo.
Foto: Casa da Memória – Fundação Cultural de Curitiba
Fotografias atuais tiradas pelo fotógrafo Pedro Pilati (@pedropilati )
Praça Tiradentes: O Coração Vivo de Curitiba — Onde o Mito Fundador Dança com o Presente em Cada Esquina
O Mito que Virou Solo: Quando a Fé Encontrou a Terra
A Dança dos Materiais: Quando a Cidade Aprendeu a Crescer para o Céu
- O abraço da terra (século XVIII): Casinhas de pau a pique, telhados de palha balançando ao vento, o cheiro de terra molhada após a chuva. A praça era então um terreiro comunitário onde se rezava, se trocavam notícias e se celebravam as colheitas. Simples? Sim. Mas profundamente humano.
- A elegância da pedra (século XIX): Chegaram as pedras talhadas, os primeiros sobrados de dois pavimentos, o tijolo vermelho das olarias locais. A praça ganhou postura — não fria, mas acolhedora. Nas varandas de ferro fundido, senhoras tomavam mate observando o movimento; nas calçadas de pedra, crianças corriam atrás de bolas de pano. Era o Paraná que se afirmava com orgulho sem perder a ternura.
- O sonho do ecletismo (início do século XX): Que festa foi essa! Fachadas ornamentadas com arabescos, balcões generosos para receber o visitante, janelas que convidavam ao olhar. A Tiradentes respirava modernidade com elegância — não a modernidade fria, mas aquela que dança: o charme das carruagens dando lugar aos primeiros automóveis, o burburinho das charretes misturado ao apito dos bondes. Até o céu participou da festa: em 1936, toda a cidade se aglomerou na praça para ver o majestoso dirigível Hindenburg cruzar os ares — um momento de pura maravilha coletiva!
- A audácia do concreto (década de 1940 em diante): Veio então o concreto armado — não como vilão, mas como parceiro ousado. Os primeiros arranha-céus surgiram não para esmagar a história, mas para abraçá-la de cima: do alto de seus andares, os novos edifícios contemplavam a estátua de Tiradentes como quem vigia um velho amigo. A verticalização trouxe densidade, sim — mas também vitalidade. Mais pessoas, mais encontros, mais histórias cruzando-se a cada minuto.
Cicatrizes que Contam Histórias: A Beleza da Memória Viva
O Milagre Diário: Por Que a Tiradentes Nunca Morreu
- Estudantes universitários dividem sanduíches e sonhos entre uma aula e outra;
- Senhoras vendem pastéis quentinhos com sorrisos que aquecem mais que a massa frita;
- Músicos de rua transformam buzinas em batucada e fazem dançar até o executivo mais apressado;
- Casais se encontram debaixo da estátua de Tiradentes como se fosse o ponto mais romântico da cidade (e talvez seja);
- Idosos jogam dominó nas mesinhas, contando histórias que os prédios modernos nunca ouvirão.











