artigo de Karin Romanó Santos
O PIANO E O BUTIÁ
Agostinho França do Nascimento caminhava pela Visconde de Guarapuava, na esquina com a Desembargador Motta, quando ouviu uma melodia e acordes que escapavam pelas janelas e frestas das portas. Anos 20.
Era Josephina Casagrande Regattieri que, sentada ao piano, tocava Le Lac de Côme.
Agostinho pensou: com esta moça eu quero me casar.
Ela era de família abastada, morava em um palacete; ele, bancário do Banco Francês e Brasileiro.
Os dois tiveram que enfrentar a dura oposição de parte da família dela, que não aprovava o enlace.
Mas o casal estava apaixonado e se mantiveram firmes.
Quando casaram, Josephina nem ao menos pôde levar o piano.
A esposa não sabia cozinhar — nem ferver água.
O marido, ao contrário, tudo, inclusive costurar.
Com o tempo, Josephina se tornou uma cozinheira de mão cheia. Era disposta e disciplinada, entendia muito de plantas e ervas.
Juntos, só os dois, aterraram com pá e carrinho de mão o terreno que adquiriram na rua Augusto Stelfeld, 873. E ali construíram um bangalô.
Tudo foi feito com muito trabalho e capricho. Plantaram um lindo jardim de grama inglesa, com pés de camélias, jasmins, rosas, cravos e árvores frutíferas.
Agostinho comprou um piano para a esposa, e ela pôde continuar a tocar Le Lac de Côme, que era a canção da juventude e falava do Lago de Como, um lago plácido, azul e transparente, que era como a vida se apresentava a ela, até então.
Josephine passou a tocar novas canções: de lutas, coragem, vitórias, perdas, sem nunca perder o tom.
Agostinho continuou no banco até se aposentar e, paralelamente, trabalhou fazendo a contabilidade administrativo-financeira do armazém do sogro, o Armazém Regattieri, que ficava na Visconde de Guarapuava, junto à casa da família.
O Armazém Regattieri fornecia também suprimentos para o exército.
Com o fechamento do Banco Francês e Italiano, Agostinho participou da fundação do Banco Inco, onde ficou por cinquenta anos, sendo homenageado por isso.
Trabalhava com as chaves telegráficas que faziam as transferências monetárias na época.
O casal teve somente um filho, Ney Regattieri, grande médico da Santa Casa e de outras instituições.
No local da casa, a pedido do avô, foi construído um prédio para os integrantes da família.
O butiá foi preservado, símbolo da memória e resistência, sendo a região hoje tomada por pequenos prédios, bares e restaurantes.
Ao casar, Agostinho e Josephine não levaram nada, nem o piano, só um ao outro.
E isso bastou para criarem a mais bela canção, dessas que o vento segue espalhando por aí e, mesmo sem partitura, o tempo não tem coragem de apagar.
Baseada no relato de Zélia Sell
Zelia foi no " Café com Memórias" e o próximo é segunda feira 25/05 - na Praça Espanha Venha contar a sua história!