quinta-feira, 29 de abril de 2021

FERROVIA PARANAGUÁ - CURITIBA 14

 


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FERROVIA PARANAGUÁ - CURITIBA 13

 


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Bonde de mula da linha para o Batel. Calçamento e colocação de Trilhos a Rua Barão do Rio Branco esquina Marechal Deodoro. Ao fundo, a direita, a Photographia J. Weiss & Cia

 


Foto do final do século XIX, Casa do Comendador Martins Franco, da Verein Thalia, onde funcionou o Louvre Curitibano, esta casa hospedou D. Pedro II em maio e junho de 1880

 


VEJA CINCO LENDAS PARANAENSES DE ARREPIAR

 Publicado pela Gazeta do Povo

em 03/10/2011

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Histórias contadas nas varandas das casas, causos transmitidos entre gerações, lendas que se perpetuaram na tradição do Paraná e de suas cidades.

O imaginário popular dos paranaenses é rico, cheio de histórias dos mais diversos gêneros: para assustar, para impressionar, com fundo romântico ou sobrenatural, nascidas no campo ou entre os indígenas.

Conheça a seguir cinco histórias de arrepiar:

O velório da virgem noiva
São José dos Pinhais, 1928. Dois compadres muito engraçados iam a todos os velórios para distrair parentes e amigos dos finados. Certo dia faleceu uma moça de idade, muito séria e moralista. Durante o velório, um dos compadres cochichou com o outro: ‘será que era virgem mesmo?’ Por volta da meia-noite, o homem foi acometido por uma dor de barriga e foi até um bosque próximo. Quando voltava, viu a noiva toda de branco, que disse: ‘ainda duvida de mim?’ Assustado, o compadre correu para a casa e disse ao amigo: ‘não devemos brincar com quem já morreu’.

Assombração da antiga Serrinha

Na antiga estrada que dava acesso a Jaguariaíva, havia um trecho embaixo da serra que diziam ser mal assombrado depois que anoitecia. Certo dia, um senhor foi pescar e, ao voltar altas horas da noite, recebeu um tapa no rosto quando abria o portão. ‘Bate outra vez’, disse o homem, que levou outro tabefe. Na quarta vez o agressor se materializou e falou: ‘Embaixo da tronqueira do portão existe um pote de moedas de ouro enterrado! Tire que é teu’. Ao tirar a tronqueira, lá estava o pote. Dizem que dali em diante sumiu a assombração do local, pois a alma penada se salvou.

A loira fantasma

Contada em forma de poesia, é a história de uma loira muito bonita que morava em Curitiba. Certa noite, foi morta por um taxista. Um mês se passou até uma noite fria e chuvosa, quando uma mulher com capa preta fez sinal para o mesmo taxista. Com o rosto coberto, pediu que a levasse ao Cemitério Municipal, onde disse: ‘Pode me deixar aqui, minha morada é um túmulo decente… mas você gostaria que fosse diferente’. Assim que a mulher exibiu seu rosto, o taxista reconheceu-a e teve um ataque.

O espírito do cemitério

Em um cemitério, um grupo de jovens gostava de apostar quem pegava mais cruzes. Certo dia, uma moça muito bonita faleceu, deixando um clima sombrio no local. Semanas depois do ocorrido, um rapaz senta-se sobre um túmulo e repara numa bela garota ao seu lado. Ela o desafia a roubar uma cruz naquela noite, a sua própria, e entrega-lhe uma rosa, que ele guarda no bolso. Naquela noite, para surpresa dele e de seus amigos, não havia nenhuma lápide e nenhuma cruz. Quando pôs a mão no bolso, teve uma terrível surpresa: a rosa havia se transformado em um pedaço de osso humano.

Baile dos mortos

Em uma noite, um vaqueiro passava próximo a uma fazenda em Arapoti e ouviu sons de música ao longe. Cavalgando por mais de uma hora pela mata, não encontrou casa alguma, muito menos um baile. Chegou a um pequeno rancho, onde foi acolhido por um velho senhor. Perguntado se não havia algum baile por ali, o ancião relatou que há muitos anos existia ali uma fazenda. A cada passagem de ano acontecia um grande baile de gala, até que houve uma briga e morreram muitos dos que participaram. Daquele dia em diante, toda noite de passagem de ano ouvem-se a música e gritos de socorro.

Fonte: “Lendas e Contos Populares do Paraná” – Cadernos Paraná da Gente nº 3, editado pelo governo do Paraná

A SOBRENATURAL CURITIBA. CONHEÇA AS LENDAS URBANAS DA CIDADE

 Quem é de Curitiba ou já passou pela cidade provavelmente escutou alguma lenda urbana da cidade. A mais famosa, certamente, é a da Loira Fantasma, uma mulher que pegava corrida de táxis e desaparecia misteriosamente do carro ao se aproximar do cemitério do Abranches, que seria sua morada. O cenário curitibano, porém, é povoado por uma série de outras histórias assim, passadas no boca a boca, num misto entre fantasia e realidade, atiçando o imaginário popular.

Com a proximidade do Halloween, que será celebrado na próxima segunda-feira, essas lendas e causos, passadas de geração para geração, voltam a ganhar força com seus fantasmas, espíritos e mistérios. E embora muitos questionem a veracidade das histórias, a especialista Luciana do Rocio Mollon, autora do livro Lendas Curitibanas destaca que a maioria guarda ao menos um fundo de verdade.

Lendas urbanas são histórias, causos, que sempre envolvem o sobrenatural e passam de boca em boca. Aí tem sempre aquilo de que quem conta aumenta um tanto, a velha história do telefone sem fio. Então sempre vão aumentando, diminuindo mais alguma coisa da história, e assim se cria uma lenda”, explica Luciana. “Pessoas diferentes, de vários locais da cidade, contam a mesma coisa. Com certeza tem um fundo de verdade”, complementa.

Luciana, inclusive, é uma das maiores especialistas na área. Quando criança, enquanto os colegas gostavam de ler e escutar histórias como a da Cinderela ou da Branca de Neve, ela pedia para sua mãe contar histórias mais aterrorizantes, como a da Loira Fantasma, do Castelo do Drácula ou mesmo da Maria Bueno, outra personagem que marca forte presença no imaginário curitibano.

211A paixão por lendas, inclusive estava no sangue. Ainda na juventude, Luciana entrou escondida numa espécie de galpão de seu avô, onde descobriu uma coleção de obras voltadas ao misticismo e à magia, além de diários nos quais ele anotava lendas urbanas e histórias de terror de Curitiba. Mais tarde, com aproximadamente 20 anos, essa paixão começou a se tornar um ofício quando Luciana começou a trabalhar no comércio, fazendo o cadastro das freguesas numa empresa de sua família.

“Sempre perguntava ‘a senhora mora no bairro tal? Lá tem lendas, histórias de fantasma?’ Aí elas iam contando e eu ia anotando tudo”, relata. “Daí em 2002 precisei fazer um curso de informática, era uma exigência do mercado de trabalho, e a professora ficou sabendo que eu gostava de lendas urbanas, gostava de escrever. Aí ela disse para eu fazer um blog. Hoje tenho mais de 300 lendas publicadas, além do livro.”

LENDAS URBANAS DE CURITIBA

A Águia Bicéfala
No vão entre o Edifício Acácia e seu vizinho, na Praça Zacarias, um pouco acima da marquise, há uma estátua de uma águia com duas cabeças, um símbolo maçônico. É que entre 1899 e 1961 o local pertenceu a uma fraternidade maçônica, que em 1919 inaugurou um templo no local, colocando no topo a famigerada estátua. Reza a lenda que durante a noite a escultura ganha vida e conversa, principalmente, com crianças.

Gato Kiko
No século XIX morava na Rua Dr. Muricy, no Centro, um costureiro chamado Kiko. Ele amava felinos e afirmava que quando morresse gostaria de reencarnar num gato. Contudo, era perseguido por ser homossexual e acabou morto com um tiro. Anos mais tarde, abriu no local a loja Kisses, de roupa femininas, e em 2010 a dona encontrou um gato miando em sua porta. Adotou o bichano e batizou-lhe de Kiko em homenagem ao personagem do seriado Chaves. Há quem acredite que o animal seja a reencarnação do antigo proprietário do imóvel e que quem acariciar a cabeça do gato e fazer um pedido tem seu desejo realizado.

Espíritos da Reitoria da UFPR
São diversas as lendas envolvendo a Reitoria da UFPR, localizada no bairro Alto da XV. A mais famosa é sobre os suicídios, todos com pessoas se jogando do 11º andar do prédio – em 1989, um aluno que teve um caso com uma professora casada; em 2005 um estudante de História, que, reza a lenda, dizia conversar com um jovem que havia se suicidado ali anos antes; e em 2012 uma moça que, segundo colegas, teria problemas com a família. Há também quem diga que a garota escutava vozes no local.

Edifício Maison Blanche
Outro prédio que há quem diga ser assombrado. Nos anos 1930, quando funcionava no local o Cine Curitiba, uma senhora casada teria entrado no local com seu amante, mas acabou descoberta pelo marido e foi morta a facadas. Surgiu então a história de que seu espírito assombrava o cinema, demolido no final daquela década. Nos anos 1980, com o prédio já em pé, um marido teria mandado matar a esposa para ficar com o dinheiro do seguro de vida. Já em 2008, uma mulher que dizia ver espíritos no prédio e que estas almas atormentariam sua família jogou a própria filha, de apenas oito meses, do sexto andar do edifício.

Maníaco da Foice e o Lobisomem
Em 1977 um bandido apelidado de Paraibinha tocou o terror em Campo Largo, na RMC. Ele assaltava nas estradas rurais e matava suas vítimas com uma foice. Um dia entrou numa casa, roubou a família e matou todos os seus membros, menos Paulo, o filho mais novo que tinha 13 anos de idade e permaneceu escondido num armário do porão. O jovem, então, jurou vingança. O curioso, porém, é que ele tinha fama de virar lobisomem. E teria sido justamente numa sexta-feira de Lua cheia que o serial killer foi morto na estrada de uma vila rural chamada Morro Grande. Ele foi golpeado com sua própria foice nas pernas, nos troncos e nos braços. Seu corpo foi mumificado e está até hoje no Instituto Médico Legal.

Loira Fantasma
Na década de 60 uma loira muito bonita pedia corrida de táxi até o cemitério do Abranches. Quando chegava no local, ela pedia para o taxista aguardar um pouco, saída do veículo e entrava no cemitério desaparecendo em seguida. Dizem que ela assusta os taxistas porque quando era viva, teve uma morta trágica durante viagem de táxi, onde teria sido estuprada e morta por um taxista.

Maria Bueno
Jovem e bonita, Maria Bueno gostava de dançar e, por isso, vivia nos bailes, onde acabou conhecendo o soldado Inácio Diniz, do Exército, com quem foi morar. Uma noite, porém, Diniz estava de serviço no quartel e haveria um grande baile, do qual Maria insistia em participar. Seu companheiro, porém, a proibiu de sair e os dois tiveram uma discussão. Ele foi para o serviço e ela, para o baile. Seu companheiro então ficou a espionando, escondido na Rua Campos Gerais (hoje Vicente Machado). Quando a mulher passou sozinha, ele a degolou com um punhal. No lugar onde Maria Bueno morreu, foi colocada uma tosca cruz de madeira. Nos pés desta cruz, nasceu uma rosa vermelha. Maria Bueno era muito popular e admirada pelo povo, que ia rezar e acender velas. Contam que aconteceram graças e milagres, transformou-se numa grande romaria.

Gato Boris
O gato Boris, negro, morava dentro de um sebo e costumava passear pelo Largo da Ordem. Dizem que nas noites de Lua Cheia ele virava homem e passeava pelos bares ao redor. Em fevereiro deste ano, porém, acabou falecendo após ser atacado por um pitbull e sofrer por conta de um problema no coração. Agora, há quem diga que o fantasma do gato doe livros para crianças carentes em noites de luar.

Mula Milagrosa
Um padre que rezava missas na Igreja Nossa Senhora das Dores tinha uma mula de estimação chamada Bela Vista, que ficava do lado de fora da igreja e costumava brincar com as crianças que moravam na região. Algumas beatas, porém, não gostavam do animal de estimação e ficaram irritadas ao saber que o padre queria o usar em uma festa da paróquia e reclamaram com o bispo, que proibiu a entrada da mula na igreja e ainda acabou por ordenar sua transferência para um sítio na cidade de Quitandinha. Lá teria salvo um menino que se afogava numa lagoa próxima e salvo uma jovem que era seguida por um bandido numa floresta ao aparecer com uma cabeça de fogo.

Vaca do Bacacheri
Entre os bairros de Curitiba, há ainda a história do bairro Bacacheri, um tanto cômica. Conta-se que pela região morava um francês que tinha uma vaca chamava Cherry. Essa vaca, porém, acabou sumindo, fazendo com que seu dono saísse desesperado em sua busca, gritando, numa mistura de português com francês: “Cadê minha baca cherry? Baca cherry?”. Ele, inclusive, teria desaparecido durante as buscas e há quem diga que até hoje seu espírito grita durante as noites “cadê a baca cherry?”.

Bruxa Ana Formiga
Perseguida em sua terra natal, a Escócia, a feiticeira Ane O’Neil desembarcou no Brasil em meados do século XIX. Desembarcou no porto de Paranaguá, subiu a Serra e veio para Curitiba, onde montou sua tenta na Rua Benjamin Lins para realizar curandeirismo e ler a sorte de pessoas. Ela, porém, era hipoglicêmica e, por isso, comia muitos doces, recebendo o apelido de Ana Formiga. Um dia, porém, foi presa por um cabo ao roubar guloseimas numa confeitaria. O homem era recém-casado e acabou amaldiçoado pela bruxa, que bradou: “Quando eu sair deste lugar , farei um feitiço forte e você perderá a sua amada”. Dito e feito: um dia após a libertação de Ana, a esposa do cabo acordou com uma rã seca que tinha presa às pernas uma rosa branca e uma cruz na boca. A mulher também teve pesadelos com formigas invadindo sua casa. Uma semana depois, ela morreu de uma doença que os médicos não souberam diagnosticar. Hoje, onde era a antiga casa da bruxa fica um hotel de luxo. Há quem diga ter visto vultos estranhos e que o telefone toca misteriosamente em quartos desocupados do local.

O palhaço e o Motoqueiro do Presídio Ahú
Nos anos 1970, um tarado se vestia de palhaço e perseguia mulheres com uma serra elétrica em vilas rurais da Região Metropolitana de Curitiba. Preso, acabou mandado ao presídio do Ahú, onde sofreu na mão de outros presos e acabou falecendo. Teria virado um fantasma, que aparecia, até o fechamento do local, vestido de palhaço com uma serra elétrica para assustar os homens que cometeram crimes contra as mulheres.

Na década seguinte, foi vez de outro homem passar a “assombrar” o local. Seria um rapaz que, depois de descobrir ter contraído o vírus da Aids de uma loira namoradeira, passou a andar de moto espirrando ácido no rosto das loiras que encontrava pelas ruas. Condenado, foi levado ao presídio, onde morreu. Há, porém, quem diga que ele ainda sai nas noites de lua cheia do presídio com sua moto para seguir com sua vingança.

CURITIBA JÁ FEZ “CAÇA” ÀS BRUXAS DURANTE O SÉCULO 18

 No dia 23 de janeiro de 1775, o ouvidor da Comarca de Paranaguá, Antonio Barbosa de Matos Coutinho, lançou um edital na Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba para avisar que haveria uma devassa geral para inquirir testemunhas sobre alquimistas, benzedeiras, feiticeiras e pessoas com pacto com o diabo, dentre outros crimes. Na época, as investigações e julgamentos cabiam às Câmaras Municipais, que responderam pelo Poder Judiciário até a Independência do Brasil, em 1822.

Segundo documentos históricos do Arquivo Público do Paraná, a devassa geral resultou na denúncia de duas mulheres, mãe e filha. O levantamento foi realizado pela advogada Danielle Regina Wobeto de Araujo, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisadora da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ela analisou, para a tese inédita de doutorado (ainda não defendida), os processos contra feitiçaria em Curitiba entre 1763 e 1777.

“A cidade teve, nesse período, 560 processos, sendo 60 contra mulheres. Dois deles foram por feitiçaria, em pleno auge do Iluminismo. O crime era atribuição das justiças eclesiástica, a Igreja, e comum, a Câmara Municipal”, diz Danielle. Ela destaca que o escrivão da Casa, Antonio Francisco Guimarães, foi um dos quatro denunciantes das rés, acusando-as de terem feito feitiços e pacto com o diabo. A mãe, Francisca Rodrigues da Cunha, tinha cerca de 60 anos, enquanto a filha, Luiza Rodrigues da Cunha, declarou ter 23 anos.

Os registros apontam que as mulheres eram indígenas, da “nação carijó”, e estavam descalças no dia do julgamento. O marido e pai das acusadas de feitiçaria, de acordo com o processo, era “escravo do hospício”. “Outra denunciante, Romana Álvares Teixeira, falou que elas tinham matado seu marido com um feitiço e seduzido juízes para escapar do processo. Também teriam sacrificado bichos e aleijado uma pessoa”, relata Danielle.

“Uma curiosidade do processo é que foi chamado um feiticeiro do povoado de Ponta Grossa, que confirmou que o homem realmente morreu vítima de feitiço. No entanto, ele fugiu antes de se pronunciar no julgamento”, conta a pesquisadora. Já a defesa argumentou que a testemunha queria se casar com Luiza, que o rejeitou. Ele então teria feito a acusação para se vingar. Outra justificativa apresentada para pedir a absolvição foi que as rés haviam recebido educação católica. Presas desde 6 de fevereiro de 1775, mãe e filha foram absolvidas pelo ouvidor Coutinho no dia 22 do mesmo mês, por falta de provas.

Exorcismo

feiticeira1O outro processo da Câmara Municipal de Curitiba contra feitiçaria, no período pesquisado, foi instaurado no dia 7 de março de 1763. A “negra forra” Sipriana Rodrigues Seixas, casada e grávida, na faixa dos 40 anos, foi acusada por Manuel da Cunha de provocar doenças em sua esposa, quatro filhas e uma irmã. “O denunciante afirmou que ela ‘tinha um cartório’ com mulheres de nome ‘Fuã’ (não é possível identificar quantas eram). Ou seja, que elas estavam organizadas”, relata Danielle.

Ele disse que, devido aos feitiços de Sipriana e das Fuãs, suas familiares vomitavam baratas vivas, pedaços de ossos, cabelo e pernas de sapo, entre outras coisas”, completa. O processo menciona que foi chamado o reverendo vigário, e que apenas com exorcismos as supostas vítimas melhoravam. Outra acusação é que as mulheres faziam bolos envenenados, com os quais mataram algumas pessoas.

Segundo a pesquisadora, uma das testemunhas afirmou que os arredores da Vila de São José dos Pinhais tinha muitas feiticeiras, subentendendo-se que as rés moravam na região. “O interessante é que a Romana, que 12 anos depois acusaria Francisca e Luiza, foi uma das pessoas que defendeu Sipriana, alegando sua inocência”, afirma.

A sentença saiu no dia 14 de junho de 1763, pelas mãos do juiz ordinário de Curitiba, Manoel Gonçalves de Sam Payo. Elas foram condenadas à prisão pela prática de feitiçaria, sem um tempo estipulado. Sipriana, então, fez uma apelação à Ouvidoria de Paranaguá (Curitiba só se tornou sede da Comarca em 1812), mas não há informações sobre a continuidade do processo.

Há uma possível referência ao caso no “termo de vereanssa” da sessão de 10 de setembro de 1763. O juiz ordinário Sam Payo discorreu sobre mulheres que estavam presas na cadeia da vila “por crime que lhe arguirão partes que dellas denunciarão” e deveriam ser enviadas a Paranaguá, sede da Comarca.

Ele pediu dinheiro ao Conselho para a remessa das detentas, mas o tesoureiro da Câmara Municipal de Curitiba argumentou que não seria possível, devido às “muitas despezas que se havião feito”. Não foi localizada, nas demais atas do ano e nas de 1764, outra menção às mulheres presas que deveriam ser enviadas a Paranaguá.

Outra pesquisadora, Liliam Ferraresi Brighente, já havia realizado um levantamento no Arquivo Público do Paraná sobre processos contra a feitiçaria entre 1700 e 1750. Ela identificou um caso de 1735, em Paranaguá. Denunciada por Manoel Gonçalvez Carreir, a índia Maria do Gentio da Terra foi considerada culpada e “degredada” (expulsa) da vila.

Análise
“São processos típicos da época, sem lógica cartesiana e materialmente desgastados pelo tempo”, analisa Danielle. “Eles indicam a imposição da Igreja Católica por meio do direito e que a sociedade ainda tinha uma visão mágica do mundo. Apontam que as autoridades da Câmara Municipal preocupavam-se em manter a religiosidade”.

O zelo pela religiosidade é corroborado por diversos documentos da época. Primeira correição da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e base para posturas dos futuros ouvidores e da Câmara Municipal, os provimentos do ouvidor Raphael Pires Pardinho, de 1721, não trataram apenas de questões para a organização da cidade.

Dividido em 129 “artigos”, o documento trata, por exemplo, do pagamento do dízimo e da obrigação de todos assistirem e prepararem suas casas para as procissões de Corpus Christi e de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, dentre outras, sob a pena de multa de uma “pataca”.

Já os provimentos de 1800, do ouvidor-geral e corregedor João Baptista dos Guimarães Peixoto, afirmam que os juízes ordinários deveriam prezar pela conservação da decência e respeito. Caberia a esses oficiais da Câmara Municipal “dar parte” ao corregedor de “pessoas que mostrarem publicamente pouca religião e que forem escandalosas”.

“O Brasil não reproduziu a caça às bruxas vista na Europa. A Inquisição, de uma maneira geral, esteve mais preocupada em investigar novos cristãos (judeus convertidos) e sodomitas (homossexuais)”, complementa Danielle. “O perfil dos acusados de feitiçaria, tanto pela Igreja quanto pela justiça comum, era de mulheres pobres. Negras, pardas ou índias”.

De acordo com o “Dicionário do Brasil Colonial”, o país teve, entre os séculos 16 e 18, 200 acusações de feitiçaria. “Poucos foram os processos completos do Santo Ofício português nessa matéria. (…) Menos preocupada com a feitiçaria que com o Judaísmo, a Inquisição portuguesa perseguiu pouco a feitiçaria, rastreando mais o shabat judaico que o sabá diabólico”, explica a obra.

Lendas urbanas
feiticeira2No final do século 19 e início do século 20, quando já circulavam jornais em Curitiba, há diversos registros na imprensa sobre supostos casos de feitiçaria. O Diário da Tarde, por exemplo, possuía a seção “Vitrina do Diabo”, com viés sensacionalista. Uma das personagens das notícias é Anna Formiga. Segundo pesquisa publicada em 1991, do historiador Johni Langer, ela residia na rua Doutor Pedrosa, em trecho hoje denominado Benjamin Lins, e “era famosa por suas supostas ligações com o demônio”.

Diário da Tarde publicou, no dia 8 de maio de 1889, uma nota intitulada Feiticeira – Artes de Satanaz. “Anna Formiga é o nome da mulher que diz ter relações com Satanaz, cuja vontade domina. É moradora à Rua Dr. Pedroza. Em noite passada, teve uma questão com um cabo do 13º regimento de cavallaria e jurou vingar-se”, dizia. A publicação afirmou que ela então lançou um feitiço contra o homem, cuja esposa adoeceu. “A polícia tomou conhecimento do facto”.

Dois dias depois, o Diário da Tarde veiculou a nota O caso da feiticeira – Novas notícias. O jornal denunciava “novas bruxarias”, sem vinculá-las a Anna Formiga: “Não seria máu que a polícia diligenciasse na descoberta dessas bruxas, feiticeiras ou encantadas, como quer que se lhes chame”.

Autora do livro Lendas Curitibanas, a escritora Luciana do Rocio Mollon publicou uma história na internet sobre Anna Formiga, apelidada de “bruxa de Curitiba“. O texto afirma que ela se chamava Ane O’Neil e fugiu da Escócia para escapar da acusação de matar crianças em “rituais macabros”. Em Curitiba, oferecia serviços de curandeira e lia a sorte das pessoas.

“Como a mulher tinha o traseiro avantajado, igual o de uma tanajura, e comia muitos doces, recebeu o apelido. Esta feiticeira tinha hipoglicemia e toda vez que sua taxa de glicose baixava, passava mal. Por isso, muitas vezes aceitava doces como forma de pagamento pelos seus serviços”, relata. A lenda urbana justifica que o cabo a prendeu por furtar guloseimas de uma confeitaria, e então Anna lançou-lhe o feitiço, responsável por matar sua esposa. Já a fiança teria sido paga pelos clientes da “bruxa”.

Mas nem só das histórias da Anna Formiga vivia o Diário da Tarde. No dia 25 de setembro de 1901, por exemplo, o jornal trouxe a nota Cartomantes e desordeiros. “Alguns moradores da rua S. José, nas proximidades da rua Silva Jardim, queixão se contra a permanência n’aquelle ponto de uma família de cartomantes, que reunindo a noute em sua casa uma porção de desordeiros passam-n’a toda em um sabbat infernal, cantando obscenamente e fazendo enorme barulho com grande escandalo da visinhança”, dizia.

Nesta época, porém, a Câmara de Curitiba não respondia mais pelo Poder Judiciário. “Com a Independência do Brasil, as funções institucionais das Câmaras sofreriam algumas alterações. A mais digna de nota foi a perda de atribuições judiciárias”, destaca o “Livro dos 300 Anos da Câmara Municipal de Curitiba“.

Tais histórias, então, passaram a fazer parte do imaginário popular. “A Anna Formiga realmente existiu, mas não há provas dos rituais atribuídos a ela. As lendas urbanas são exatamente isto: causos que o povo conta, sem comprovação científica”, conclui Luciana.

A coluna “Vitrina do Diabo” do jornal curitibano Diário da Tarde mostra como a imprensa execrava e, ao mesmo tempo, se encantava com a magia

 



bruxa

Por Tiago Rubini
Publicado na Revista Overmundo #4

O jornal Diário da Tarde começou a circular em Curitiba a partir de 1899. No seu primeiro ano, saiu uma de várias notas a respeito de uma imigrante escocesa radicada na cidade chamada Anna Formiga. O título e o subtítulo, respectivamente, foram Feiticeira – Artes de Satanaz, e no corpo do texto consta o endereço residencial desta mulher que dizia “ter relações com Satanaz, cuja vontade domina”, segundo o periódico. Poucos têm notícia da velhice e do desenrolar da vida de Anna Formiga, e infelizmente entre estes não estão os pesquisadores que resgataram a memória da mulher até agora. Em compensação, buscando rapidamente o seu nome na rede, chegamos à lenda urbana da bruxa com quadril avantajado, devoradora de doces e assassina de crianças – a fugitiva que veio esconder, numa vida pacata em Curitiba, uma história supostamente cheia de magia negra, sacrifícios e voos a vassoura.

Ela morava na Rua Dr. Pedroza, que hoje se chama Benjamin Lins. Com o passar do século XX, a região progrediu economicamente e hoje a conhecemos pelo nome de Batel, um dos bairros mais ricos da cidade. Sobrevivia principalmente de consultas mágicas, que eram pagas pela vizinhança com dinheiro, comida e favores. Foi infame – e não por coincidência, o começo do século XX foi difícil para os curandeiros, cartomantes e benzedeiras da capital paranaense. No centro e adjacências diversos escritórios de advocacia e consultórios médicos começaram a aparecer, principalmente depois da fundação da Universidade Federal do Paraná em 1912, e a população foi deixando de confiar nas práticas que não tinham o selo de aprovação científica e o respaldo da imprensa.

Não só a maioria dos consultórios esotéricos foi desaparecendo do centro de Curitiba, como também a boemia e as casas de madeira. A exemplo do que estava acontecendo no Rio de Janeiro, a prefeitura botou abaixo construções não-rentáveis, abrindo alas para os bondes e os negócios. A cidade se urbanizava aos poucos, apesar de ainda contar com bairros praticamente rurais, cuja economia estava conectada à erva-mate e à extração de madeira. Além da prefeitura, a polícia, os médicos e outros profissionais se engajavam no estabelecimento de um estilo de vida específico na cidade. Enquanto isso, benzedeiras e curandeiros foram perdendo espaço e virando notícia na seção “Vitrina do Diabo” no Diário da Tarde.

Este jornal foi importante e conhecido no período. Era o que tinha mais anúncios e notícias locais e internacionais, sendo bastante lido até 1951, quando começou a contar com o apoio da Gazeta do Povo para circular. Na época, o jornal pretendia dar conta dos embates políticos do período sem privilegiar nenhuma orientação partidária. Ser “a folha imparcial” de maior circulação do Paraná era a sua ambição, para a infelicidade dos muitos cidadãos que, sem condições financeiras e políticas de se defender, apareciam como personagens de matérias sensacionalistas sobre misticismo e feitiçaria.

As práticas do espiritismo kardecista e da quiromancia, apesar de tudo, não foram tão estigmatizadas. O historiador Johnni Langer registrou que de 1920 a 1936 os quiromantes eram apresentados pelo veículo como cientistas que atendiam negociantes, intelectuais e artistas, a elite residente do centro da cidade. Além disso, o Diário da Tarde, mesmo reprovando Formiga e outros personagens – como uma família de cartomantes que em 1901 residia na Rua São José e, segundo o jornal, organizava “Sabbats infernais” –, contava com espíritas kardecistas como fontes de matérias investigativas e com anúncios de consultórios de quiromancia nos anos 1930.

Outro caso famoso e cercado de mistérios foi o assassinato de uma garota de 14 anos chamada Medusa, em Entre Rios, município de Santa Catarina. Em uma matéria de capa de 1934 lê-se que: “Pessoa muito relacionada e que se entrega a estudos sobre espiritualismo narrou hoje à nossa reportagem um fenômeno em que fora parte. No decorrer desta noite teve a seguinte visão: – Estava agarrando pela gola o assassino de Medusa. E interrogava-o. […] A visão foi clara e o nosso informante pôde registrar os seguintes sinais do assassino […]. Esses sinais combinam com os de certo indivíduo em cuja pista se acham a polícia e a nossa reportagem! Tratar-se-á de um sensacional fenômeno espírita?”

Em 1933, o consultório de um quiromante, localizado próximo à redação do Diário da Tarde, teve um grande anúncio publicado na primeira página com os dizeres “Consultae vosso futuro em vossas mãos”. Felizmente, hoje sabemos que a autoridade para praticar e discorrer sobre as artes místicas nesta época foi proporcionada muito mais pelo capital que pela graça divina. Não à toa, em 1942, houve um cadastramento de centros espíritas da cidade, organizado pela polícia, por médicos e farmacêuticos que quiseram evitar a confusão daqueles centros com lugares de práticas populares semelhantes, que recebiam a classificação de “baixo espiritismo”.

Denúncias de caça às bruxas
Nome também cercado de lendas urbanas e superstições é o do bairro Umbará, que no começo do século XX não foi tão contemplado pelo processo civilizatório quanto outras regiões curitibanas. Até hoje é dito que no último bimestre de cada ano acontece uma reunião de bruxas e bruxos em torno de um conhecido lago de lá, e que a noite naquela região é macabra e cheia de assombra- ções – melhor passear no Batel. Novamente, uma pesquisa informal na internet confirma a existência desses boatos. Mais assustador que ouvi-los é saber que antigamente a população local, majoritariamente católica apostólica romana, pretendia fazer a justiça divina com as próprias mãos.

Somente em 1958 o Umbará foi abastecido com energia elétrica. Até então, o estilo de vida da vizinhança era rural, a maioria dos residentes trabalhava direta ou indiretamente com o cultivo da erva-mate. Imigrantes italianos e poloneses eram maioria no lugar, então não é de se estranhar que a Igreja Católica tenha se estabelecido na região. Os padres e as freiras do bairro se encarregavam da educação, do lazer e da integridade física e psicológica da comunidade. O Padre Cláudio Morelli, por exemplo, paroquiano da Igreja Matriz do Umbará, receitou remédios para os seus fiéis até a sua morte, em 1915.

Em 1906, porém, o Diário da Tarde já trazia uma má notícia: um morador conhecido na região foi espancado pelos seus vizinhos, que atiraram as suas roupas ao fogo, acreditando que desta maneira iriam dizimar forças demoníacas do ambiente. O seu nome era João Baquiano, e o seu crime “espiritual” foi trocar rezas, encantamentos e receitas de curandeirismo por comida e dinheiro, que nunca chegaram a tirá-lo da sua situação de miséria e muito menos contribuíram para que ele trabalhasse nas fazendas de erva-mate.

Além do mais, seguindo o código penal de 1891, João Baquiano era um fora-da-lei: em relação ao charlatanismo, o artigo 156 fazia uma distinção criminal à prática do ofício de curandeiro. Do charlatanismo místico ao sensacionalismo da imprensa marrom foi um pulo, e hoje o Diário da Tarde tem circulação modesta e esporádica como jornal popular. Seu conteúdo é composto quase que exclusivamente por repescagens de matérias da Gazeta. Há vida após a morte também para os jornais?

FERROVIA PARANAGUÁ - CURITIBA 12

 


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FERROVIA PARANAGUÁ - CURITIBA 11

 


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