terça-feira, 29 de novembro de 2022

Ortigueira

 

Ortigueira


Ortigueira
  Município do Brasil  
Lago Municipal de Ortigueira
Lago Municipal de Ortigueira
Símbolos
Bandeira de Ortigueira
Bandeira
Brasão de armas de Ortigueira
Brasão de armas
Hino
LemaPaz - Labor - Prosperidade
"Paz - Trabalho - Prosperidade"
Gentílicoortigueirense
Localização
Localização de Ortigueira no Paraná
Localização de Ortigueira no Paraná
Ortigueira está localizado em: Brasil
Ortigueira
Localização de Ortigueira no Brasil
Mapa de Ortigueira
Coordenadas24° 12' 28" S 50° 56' 56" O
PaísBrasil
Unidade federativaParaná
Municípios limítrofesTamaranaSão Jerônimo da SerraSapopemaCuriúvaTelêmaco BorbaImbaúReservaRosário do IvaíGrandes RiosFaxinal e Mauá da Serra
Distância até a capital217 km
História
Fundação15 de novembro de 1951
Emancipação14 de dezembro de 1952 (69 anos)
Administração
Prefeito(a)Ary de Oliveira Mattos[1] (DEM, 2021 – 2024)
Características geográficas
Área total [2]2 429,564 km²
População total (estimativa populacional — IBGE/2019[3])22 141 hab.
Densidade9,1 hab./km²
Climasubtropical (Cfb)
Altitude780 m
Fuso horárioHora de Brasília (UTC−3)
Indicadores
IDH (PNUD/2010[4])0,624 — médio
PIB (IBGE/2008[5])R$ 209 317,379 mil
PIB per capita (IBGE/2008[5])R$ 8 358,32
Sítioortigueira.pr.gov.br (Prefeitura)

Ortigueira é um município brasileiro localizado na região central do estado do Paraná, a 256 km da capital paranaense, Curitiba.[6] O município possui uma área territorial de 2429.564 km²[2] e uma população estimada em 22 141 habitantes (IBGE/2019).[3]

Etimologia

De origem geográfica, constituindo em referência a Serra da Ortigueira. Esta denominação substituiu a de Queimadas, que não pode ser mantida por haver município com o mesmo no Estado da Bahia.[7] A origem do nome de Ortigueira se dá pela existência em grande quantidade, na região, de plantas conhecidas pelo nome de 'urtiga', as quais tem as folhas cobertas de pelos finos, que, em contato com a pele, podem produzir um ardor irritante.[7]

História

Ver artigo principal: História de Ortigueira

O atual território de Ortigueira pertenceu ao extinto território da República do Guairá.[8] Portanto, na década de 1620 os jesuítas espanhóis fundaram mais de onze reduções no Guayrá, entre elas Nuestra Señora de la Encarnación,[8] no vale do rio Tibagi, na atual localidade de Natingui.[9][10][11] Logo, a partir de 1627, começaram os ataques bandeirantes em busca de indígenas fora das reduções[12] e os indígenas sobreviventes nas reduções restantes (Loreto e San Ignacio Mini), no final de 1631, protagonizaram o Êxodo Guairenho, afastando muitos nativos da região.[11]

A primeira denominação que se deu ao atual município de Ortigueira foi Queimadas. Tudo começou com Adolpho Alves de Souza, Domiciano Cordeiro dos Santos e Marcílio Rodrigues de Almeira no início do século XX.[7] Os três sertanejos procediam da região denominada Socavão, no município de Castro e procuravam um lugar para se estabelecerem. Em busca de solo fértil e farto, partiram sem destino definido rumo a Serra de Ortigueira, então município de Tibagi, e em mente tinham a esperança de encontrarem o local ideal para dar guarida às suas famílias.[7]

Os forasteiros passaram por Castro, Tibagi e depois entraram no sertão desconhecido, em região serrana da margem esquerda do rio Tibagi. Instalaram-se num outeiro chamado Monjolinho e ali formaram um pequeno povoado.[7] Nesta época as cercanias eram habitadas por tribos indígenas, senhores da região desde tempos imemoriais. Quando chegaram em um rio a que denominaram Formigas, os desbravadores se depararam com espesso taquaral, que lhes dificultava o acesso. Não titubearam e atearam fogo no tabocal, que seco, disse chamas numa área de aproximadamente 300 alqueires de terras.[7] Quando a queimada assentou cinzas, os desbravadores ali se estabeleceram e no dia 1º de setembro de 1905 deitaram as primeiras sementes de feijão no chão de terra fofa. O resultado da colheita foi espetacular, a fertilidade do solo era de longe, muito melhor que a esperada. Este fato, aliada à exuberância da paisagem, motivou nossos pioneiros a permanecerem ali.

Não demorou muito e o trio pioneiro disseminou aos quatro cantos os predicados do lugar. Logo outras famílias vieram se juntar a eles. Nasce então a Vila de Queimadas e a procura do lugar continuou. Isidoro da Rocha Pinto se torna o primeiro professor da povoação. Em 9 de abril de 1916 chega Manuel Teixeira Guimarães, que não tardou a se casar com a moça do lugar; em seguida foi a vez de Salvador Donato se estabelecer, dando grande impulso ao progresso de Queimadas.[7]

Em 9 de abril de 1921 Queimadas é elevada à categoria de Distrito Judiciário no município de Tibagi. Nesta ocasião foi empossado como Sub-Delegado de polícia Francisco Barboza de Macedo e o primeiro Juiz de Paz foi Salvador Donato. O Cartório de Paz foi instalado em 9 de novembro de 1921, sendo primeiro Escrivão Tabelião o sr. Manuel Teixeira Guimarães.

Por volta de 1920 foi criada pela comunidade ucraniana a Colônia Caetê, a oeste da sede municipal.[13][14][15] Já ao sul da sede, foi formada a partir de 1932 a Colônia Augusta Vitória, com descendentes de alemães que vieram tanto de regiões do Paraná como de Santa Catarina.[15] O governo alemão, por meio do seu cônsul no Paraná, esteve diretamente envolvido na criação da colônia, incentivando a vinda de colonos devido a fatores políticos que ocorriam na Alemanha.[16][17]

Em 15 de novembro de 1951, pela Lei Estadual nº 790, sancionada pelo governador Bento Munhoz da Rocha Netto, foi criado o município, com denominação alterada para Ortigueira, justa homenagem a Serra da Ortigueira e a Ortigueira na Espanha de onde saíram navegantes e desbravadores que denominaram a serra em homenagem a sua cidade natal em país distante. A instalação se deu em 14 de dezembro de 1952, sendo primeiro prefeito municipal Francisco Sady de Brito.

Geografia

Imagem da região da serra de Ortigueira.
Paisagem rural no município de Ortigueira.

O município de Ortigueira está localizado na região central do Paraná[6] e pertence a região dos Campos Gerais, sob a latitude 24°12'18"S e longitude 50°56'56"O. Sua sede municipal encontra-se a 760m de altitude, podendo chegar em bairros mais distantes a mais de 800m. O município limita-se ao norte com os municípios de Tamarana, São Jerônimo da Serra e Sapopema; ao sul com os municípios de Reserva, Imbaú e Telêmaco Borba; a leste com o município de Curiúva e a oeste com os municípios de Faxinal, Rosário do Ivaí e Mauá da Serra.[16]

Devido à sua localização (ao sul do Trópico de Capricórnio), no município de Ortigueira o clima subtropical é predominante. No verão, a instabilidade climática ocasionada pela atuação conjunta do calor e da umidade proporcionam tardes quentes, com termômetros registrando valores superiores aos 30°C, e significativa concentração de nuvens de chuva. O outono e a primavera são caracterizadas por estações de transição entre o calor do verão e o clima frio e seco do inverno; nesta época a temperatura é amena, entre 13-24°C. Já o inverno possui o frio intenso da madrugada, com céu claro, e o brilho singelo do sol nas tardes secas. Durante este período a umidade do ar é relativamente mais baixa do que em outras estações do ano; também as temperaturas ficam na casa dos 6-17°C.

O município possui cinco distritos: Lajeado BonitoNatinguiMonjolinhoBarreiro e Sede.[18][16] Além de outras localidades rurais, sendo que algumas até possuem aglomerados urbanos, como: Águas das Pedras, Assentamento Fazenda Brasileira, Bairro dos Franças, Bairro do Basílio, Banhadão, Briolândia, Caetêzinho, Campina dos Pupos, Colônia Augusta Vitória, Espigão Bonito, Faxinal dos Machados, Lajeado Seco, Libertação Camponesa, Palmital, Sapé, Serra dos Mulatos, Vista Alegre.[19]

Em relação aos bairros e vilas da área urbana da sede, Ortigueira conta com: Centro, Conjunto Santa Cecília, Jardim Kovalesk, Jardim Maricel, Jardim Santo Antonio, Jardim Claudia, Jardim Santa Terezinha, Jardim Alvorada, Vila Andradina, Vila da Torre, Vila Diniz, Vila do Rego, Vila Guarapuava, Vila Godoy, Jardim Limeira, Vila Nova, Vila Operaria, Vila Gomes, Gomes 1, Gomes 2, Sales.[20] O município possui ainda duas reservas indígenas no território: Mococa (848 ha.) com 78 habitantes e Queimadas (3.081 ha.) com 336 remanescentes dos índios Caingangues.

Formação geológica

O município está localizado no segundo planalto paranaense, em uma área de transição para o terceiro planalto, região conhecida como Serra do Cadeado. As serras de Ortigueira são consideradas uma das áreas com a vegetação mais conservada do estado, em virtude do relevo acidentado, que dificultou o uso e ocupação do solo para culturas e criações.[14]. Seu território compreende sobre a estrutura geológica denominada arco de Ponta Grossa. Essa região é composta de inúmeros diques de rochas ígneas básicas.[14]

No município predominam as rochas das formações geológicas Teresina e Rio do Rasto (mais de 60% do território), situadas a noroeste da sede municipal, ocorrendo ainda as formações Serra Alta, Irati, Palermo, Rio Bonito e Itararé a sudeste da sede municipal, todas elas alinhadas em faixa de afloramento de direção nordeste.[14]

A Serra do Cadeado representa uma sucessão de rochas que abrange desde o Permiano até o Cretáceo. Esta região possui um rico registro paleontológico, composto de plantas, moluscos, principalmente bivalves, ostrácodes e raros insetos, além de uma fauna significativa de tetrápodes aquáticos, sendo o principal o dicinodonte Endothiodon;[21]

Já foram encontrados no município fósseis raros, como uma floresta de licófitas de aproximadamente 290 milhões de anos, fossilizadas e bem preservadas em rochas localizadas às margens da rodovia PR-340. Em Ortigueira, foram identificadas, pelo menos, 165 indivíduos dessas árvores verticalizadas, com raízes ainda fixadas no substrato. De acordo com geólogos que pesquisaram a região, só há registros similares no Rio Grande do Sul e na Patagônia, Argentina.[22][23]

Hidrografia

O município é banhado pelo rio Tibagi ao leste de sua extensão, sendo o principal curso d'água da região, pertencendo à bacia deste. Outros rios que cortam Ortigueira são o rio do Peixe, com 20 quilômetros e o rio do Burro com 15 quilômetros, além do Apucarana, Barra Grande, Imbauzinho e Rosário.[14]

Demografia

Igreja Matriz da Paróquia São Sebastião de Ortigueira.
Igreja Grego-Católica Ucraniana de Ortigueira.
Congregação Cristã no Brasil, central de Ortigueira.

No ano de 2000, Ortigueira apresentou 0,6205 de Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), o pior do Paraná.[16]

Dados do Censo - 2010

População total: 23.380

  • Urbana: 7.529
  • Rural: 10.424
  • Homens: 9.385
  • Mulheres: 8.568
Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM-2009)
0,6243
  • IFDM-Emprego e Renda: 0,3664
  • IFDM-Saúde: 0,8354
  • IFDM-Educação: 0,671

Composição étnica

Etnias
Branca74,09%
Parda20,65%
Negra2,19%
Amarela0,36%
Indígena2,72%
FonteIBGE - Censo Demográfico[24]

Em 2010, segundo dados do censo do IBGE daquele ano, a população residente no município era composta por 17 322 brancos (74,09%); 4 828 pardos (20,65%); 511 pretos (2,19%); 83 amarelos (0,36%); 636 indígenas (2,72%) declarados.[24]

Religião

Ortigueira apresenta vários seguimentos religiosos, essencialmente cristã. A maior comunidade cristã é a Católica Apostólica Romana. Em 1916, Manoel Teixeira de Guimarães trouxe, do Rio de Janeiro, uma imagem de São Sebastião, do qual era devoto. Em 1918, foi construída a primeira capela do município.[16] Em abril de 1969 foi construída a Paróquia São Sebastião, atual Igreja Matriz, confiada à congregação dos Padres Cavanis no Brasil, sendo que a construção do salão paroquial data dos anos de 1970, de responsabilidade do construtor Arthur Zanon.[16] A paróquia possui uma estátua de São Sebastião, considerado padroeiro de Ortigueira, com dois metros de altura e um pedestal de 2,70 metros.[16]

Infraestrutura

PR-340, na Campina dos Pupos, em Ortigueira.
Ferrovia cortando a área rural do município de Ortigueira.

Rodoviário

Ferroviário

O município é cortado pela Estrada de Ferro Central do Paraná, administrada pela Rumo Logística, que liga Apucarana a Ponta Grossa.[27] Há também um ramal ferroviário de 23,5 km, que entrou em operação em 2016, dando acesso ao terminal de cargas e exportação da Klabin, na localidade Campina dos Pupos.[28][29][30] A ferrovia foi inaugurada em 1975 e integra a rede ferroviária do Paraná, que tem como principal destino o Porto de Paranaguá.[28][31]

Política e administração

Prefeitura Municipal de Ortigueira, sede do poder executivo do município.
Fórum da Comarca de Ortigueira, sede do poder judiciário do município.

A administração municipal se dá pelos poderes executivo e legislativo. A atual prefeita é Lourdes Banach (PPS) (2017-2020)[32] e o vice-prefeito é Ademir Frazzato (PV).[33] A sede administrativa do executivo é a prefeitura municipal, localizada na rua São Paulo, no centro da cidade. O poder legislativo é constituído pela câmara municipal de Ortigueira, composta por nove vereadores.

No âmbito do poder judiciário, o município conta com a Comarca, criada pela Lei Estadual nº 8.623 de 8 de dezembro de 1987 e instalada no dia 4 de novembro de 1988, de acordo com a Portaria nº 1.747/1988, tendo o Sr. Dr. Luiz Setembrino Von Holleben como o 1º Juiz Titular. De entrância inicial compreende, além da sede, os Serviços Distritais de Barreiro, Monjolinho e Natingui. O Foro Judicial é composto de Juízo Único, Juizados Especiais Cível e Criminal e Ofício de Distribuidor, Contador, Partidor, Avaliador e Depositário Público. O Foro Extrajudicial é composto por: Tabelionato de Notas; Tabelionato de Protesto de Títulos; Serviço de Registro de Imóveis; Serviço de Registro Civil das Pessoas Naturais acumulando precariamente o Serviço de Registro de Títulos e Documentos e Civil das Pessoas Jurídicas.[34]

Economia

Complexo industrial da Klabin, Unidade Puma, em Ortigueira.
Prédio admnistrativo da Klabin Unidade Puma, em Ortigueira.

A economia do município é baseada na agricultura e na prestação de serviços. No passado o garimpo foi a principal atividade econômica local.[6] Contudo, a prática garimpeira foi sendo substituída pela agricultura, pecuária e apicultura. Atualmente, o município apresenta o maior rebanho bovino do Paraná.[6]

Mais recentemente, na década de 2010, o setor industrial passou a atuar em Ortigueira. O complexo industrial da Unidade Puma da Klabin S.A. na localidade de Campina dos Pupos,[35] zona rural do município, mudou o perfil socioeconômico municipal,[36] atraindo investimentos em infraestrutura, novas empresas e gerando riquezas e arrecadação de impostos.[37][38][39][40][28][41]

O município de Ortigueira, com maior parte das áreas florestais com propriedade da Klabin, possuía em 2018 uma área de 93,8 mil hectares dedicados a produção de madeira, tornando-se o sétimo maior município produtor de madeira do Brasil.[42][43]

Lavoura no município de Ortigueira.
Videira em uma pequena propriedade rural de agricultura familiar no município.
Estabelecimento agrícola na Colônia Augusta Vitória.

Apicultura

Ortigueira é considerada a "Capital Paranaense do Mel".[44] Em 2010 o IBGE divulgou dados que confirmam a vocação da apicultura no município, sendo o maior produtor de mel do Paraná e o segundo no Brasil, com aproximadamente 10% da produção estadual.[45] O mel característico de Ortigueira ganhou reconhecimento nacional, recebendo o registro de indicação geográfica, com o selo de certificação da denominação de origem.[46]

Turismo

Cachoeira na área rural do município de Ortigueira.
Cristo Redentor de Ortigueira.
Vista do rio Barra Grande, em Ortigueira.

A exploração do município para fins turísticos é recente, tendo se desenvolvido a partir da década de 2010. Muitas localidades formam diferentes destinos que abordam, por exemplo, o turismo religioso, rural e de aventura. É comum visitas aos atrativos naturais, como rios e cachoeiras, cavernas,[14] bem como ao lago da Usina Hidrelétrica Governador Jayme Canet Júnior. Rios como o Tibagi e o Barra Grande são bem frequentados. Outros lugares notórios são a Cachoeira Véu da Noiva, o Salto Dito Gardiano, a Serra Pelada, a Serra do Mulato e a Pedra Branca.[6][14] O município conta com 17 cachoeiras catalogadas e as serras ao seu entorno são propícias a práticas esportivas como montanhismo, rapel, voo livre e parapente.[6]

Próximo ao reservatório da usina, na estrada entre os distritos de Lajeado Bonito e Natingui, há uma ponte sobre o rio Barra Grande,[47][48][49] a robusta obra de arquitetura conta com 374 metros de extensão, com nove vãos centrais medindo 33,6 metros de largura.[50] O local é bastante visitado por pescadores e turistas que praticam a pesca amadora.[51]

Ortigueira apresenta potencial para o turismo espeleológico.[14] Quanto às cavernas, destacam-se a do Turco, desenvolvida em lente carbonática da Formação Teresina; a caverna Coisinha do Zé, Formação Teresina, onde podem ser observados ornamentos diversos e possui potencial turístico em vista das dimensões da caverna e as condições de acesso; a caverna do Zé da Bota, na Formação Rio do Rasto; além das do Capixaba e da Fazenda Carioca.[14]

O município de Ortigueira não conta com aeródromos públicos, sendo atendido pelo Aeroporto de Telêmaco Borba. Os aeroportos regionais mais próximos que contam com voos comerciais regulares são o de Londrina, a 138 km, e o de Ponta Grossa, a 142 km da cidade de Ortigueira.[6]

Cultura

Carne de porco e linguiças produzidas em Ortigueira sendo defumadas artesanalmente.
Cachaça produzida em Ortigueira.

Culinária

A base da culinária do município está relacionada com a cultura dos Campos Gerais, envolvendo hábitos de indígenas, mestiços e tropeiros. O prato típico do município de Ortigueira é a costelinha de porco no mel.[52][53] O prato remete ao ciclo histórico dos porcadeiros que desenvolveram a suinocultura no município,[7] os chamados "tropeiros de porcos", que levavam os animais para Guarapuava, Ponta Grossa e Jaguariaíva, onde produziam a gordura animal e depois revendiam para outros mercados consumidores.[6][54]

Ortigueira possui um alambique, localizado no bairro Água das Pedras, que produz uma variedade de cachaças tipicamente artesanais que são comercializadas em todo o Brasil. Podem ser encontradas cachaças tradicionais como a ouro e a prata, brancas ou envelhecidas, e cachaças com mel, limão, pimenta, jabuticaba e até açaí.[55] Algumas das cachaças são premiadas por sua qualidade e características.[53] Em 2017 Ortigueira produziu cerca de 60 mil litros de cachaça.[56][57][58]

Salames em estabelecimento comercial de Ortigueira.
Queijo produzido em Ortigueira
Queijos sendo vendidos no Bairro dos Franças, Ortigueira.
Pães caseiros sendo vendidos em um estabelecimento no Bairro dos Franças, Ortigueira.
Sanduíche tradicional de pão, salame e queijo vendido em um estabelecimento no Bairro dos Franças, Ortigueira.

Eventos e festividades

As festas mais tradicionais no município são as festas religiosas, tanto na cidade como nas comunidades rurais. A Festa do Padroeiro de Ortigueira e a Festa de São Pedro, por exemplo, ocorrem desde a década de 1970.[16] As festas são promovidas pela comunidade católica, que possuem origem no calendário de romarias e devoções aos santos e santas de Portugal.[14] Em 1974, a Festa do Padroeiro foi realizada no dia 20 de janeiro com uma programação que abrangia a missa, torneio de viola, almoço com churrasco, leilão e bingo, barracas com venda de bebidas e alimentos, principalmente de produtos à base de milho: pamonha, curau, bolo; além das novenas que aconteceram de 11 a 19 de janeiro.[14] Já a Festa de São Pedro, é uma comemoração ao copadroeiro municipal, realizada nos meses de junho ou julho.[14]

A comunidade ucraniana da Igreja do Rito Ucraniano Católico (Igreja Greco-Católica Ucraniana) também desenvolve diversas atividades festivas.[13] A principal festa da comunidade é em comemoração ao Padroeiro Cristo Rei, sempre realizada no último domingo do mês de outubro, contando com missa e almoço.[14] Há também eventos evangélicos como as festas promovidas pela Igreja Evangélica Assembleia de Deus e Comunidade Deus Vivo: Abala Ortigueira, descontinuado, e Chama Viva, sendo realizados os dois eventos no Ginásio de Esportes Litinho, Lago Municipal, até meados de 2014. O segundo evento ocorre anualmente nas dependências do templo da Comunidade Deus Vivo. [16]

Também existem outras festividades, como, por exemplo, a festa com shows e rodeio em comemoração ao aniversário do município no mês de dezembro, que em algumas de suas edições no passado foi chamada de Festa do Boi Verde[16] e atualmente, nos últimos anos, foi denominada de Expo Ortigueira, com feira e exposição agropecuária no centro de eventos.[59][60][61]

Referências

  1.  «Eleição para prefeitura de Ortigueira». Cidade Brasil. Consultado em 17 de abril de 2021
  2. ↑ Ir para:a b «Área Territorial Brasileira - ORTIGUEIRA». Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 2016. Consultado em 14 de setembro de 2017Cópia arquivada em 14 de setembro de 2017
  3. ↑ Ir para:a b «estimativa_dou_2019.xls». ibge.gov.br. Consultado em 28 de agosto de 2019Cópia arquivada em 3 de novembro de 2020
  4.  «Ranking do IDH-M dos municípios do Brasil»Atlas do Desenvolvimento Humano. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). 2010. Consultado em 9 de outubro de 2014Cópia arquivada em 8 de julho de 2015
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ANTONINA ANTIGA - V

 

ANTONINA ANTIGA - V




A Praça Carlos Cavalcanti, em Antonina. A foto é antiga. Talvez seja uma das fotos do folheto propagandístico do Dr. Heitor Soares Gomes, o prefeito municipal do período mais pujante da Deitada-à-beira-do-mar, no inicio do século XX. A foto, portanto, pode ser de meados dos anos 20. A foto original do PowerPoint era um xerox velho, apagado e manchado assim como nossa memória. A foto estava em algum fichário antigo, desses de furar, pois se vê dois furos na lateral esquerda da foto. Por baixo, um belo pedaço de papel tigre (o qual, se faz favor de explicar, porque era que o papel tigre era papel verde?). Enfim, antigamente, meninos, papel tigre, esse papel verde aí era o papel de que se encapavam os nossos cadernos de escola. Encapar cadernos? Alguém ai se lembra do que é?
De quando é a foto? Parece bem antiga. O chafariz estava sendo construído, talvez. Não há ali nenhum sinal das arvores da praça, as quais conheço bem. O coqueiro, ao que tudo indica está mais baixo, era um jovem ainda, não a grande e imperial palmeira que nos embeleza a praça. Hoje, de tão alto, o coqueiro sequer apareceria nesta foto, pelo menos não por inteiro. Atrás de tudo, ao fundo, está o mato do morro, o mesmo mato do morro que está ali desde os imemoriais tempos do onça. Do buraco da onça.
Dominando a foto, e a praça, está o belo prédio neoclássico da estação ferroviária. Belo, com suas colunas coríntias (sem qualquer trocadilho) seus grandes janelões, seus capitéis e seu belo relógio. Aliás, como sempre perguntava meu pai, onde foi parar o relógio da estação? Tudo podia parar, menos o relógio da estação, qual Big-Ben dos bagrinhos do século XX, marcando o horário de chegada e partida dos trens. Onde anda o tal relógio? Será por isso que parece que o tempo na cidade parou, ou caminha mais devagar? Onde está o relógio? Onde estão os trens?
A Praça Carlos Cavalcanti pra mim ainda é a “Pracinha da Estação”, onde brincávamos de um monte de coisa, onde jogávamos bola, com meus amigos Zé Paulo Azim, Marcos Cruz, Robertinho, Lídio, Valmor, Jorginho Fayad e tantos-tantos outros. Ali naqueles bancos também dei minhas primeiras paqueradas, as primeiras e timidíssimas tentativas de entender – quem há de? – o universo feminino. Tempos bons, os da juventude.  Ainda bem que desperdiçamos esse tempo tão bom em andar de bicicleta, jogar bola (muito) e namorar (pouco).
 No entanto, lamento dizer, não gosto desta foto. É de uma praça que ainda não era nossa, de um tempo que parece que não tem gente. É foto de propagando política, estão mostrando as obras de um prefeito realizador, por isso mostram obras e prédios, com o coqueirinho ainda tímido do lado e o mato verde e exuberante no fundo. Na frente, os tijolos, o cal, as coisas em trânsito de se fazerem. O progresso, como um novo Fausto, vendendo a alma à Don Lúcio Fer por um punhado de votos, ou um mandato de deputado estadual. Merrequinhas. De que nos importa isso? O que vale são as crianças brincando, os velhos descansando, os turistas passando ali e vendo o conjunto arquitetônico do Dr Heitor Soares criando a Antonina mítica que nós, do final do século XX pra cá nunca vimos mas sempre sonhamos. Repito: não gosto da foto da praça vazia. Sem gente, a pracinha da Estação não tem graça. 

ANTONINA ANTIGA - VI

 

ANTONINA ANTIGA - VI




Acho esta foto belíssima. O fotografo está postado na rua XV de novembro, em frente à atual rodoviária. Dois prédios se destacam. Um, à esquerda, é o da atual loja Pica-pau. Aparece com um grande sobrado, com um mastro no centro. Seria uma nessa época uma repartição pública?   Ou a sede de alguma empresa? O outro prédio, à direita, é o sonho de dez entre dez políticos da nossa Deitada-a-beira-do-mar nos últimos cento e poucos anos: a Prefeitura. Ai sim vemos um mastro embandeirado, mostrando claramente seu perfil de edifício público.
Pela posição da foto, o fotografo está postado no meio da rua, o que lhe dá uma excelente perspectiva, que converge retilínea para o centro. No centro está um grupo de pessoas vestidas de preto, cerca de quinze pessoas. Estão de costas para a foto, se afastando de nossa visão. Somente duas, uma mulher e uma criança, estão de roupas brancas. Será uma procissão? Pelas roupas, o mais provável é que se trate de um enterro.
Quem estará sendo enterrado? Com certeza é alguém de posses, pelo traje das pessoas. No entanto, o pequeno número de pessoas no féretro indica ser uma pessoa simples. Não se trata de um político ou de um grande comerciante, ou poderia haver mais algum sinal de seu poderio ou riqueza. No entanto, estamos de longe, e as pessoas que estão participando do enterro estão de costas, não se pode ter muita certeza.
A rua está relativamente vazia. Seria um domingo? Um feriado? Em outras fotos, vemos a rua XV toda buliçosa, cheia de veículos e de gente, indo e vindo, muito mais até que os dias presentes. É, pode se tratar de um dia santo, onde tudo corre devagar. Em primeiro plano, à direita, está estacionado um Ford bigode, com uma grande placa onde se vê um numero – 256. Que distância das placas de três letras e quatro algarismos! O Ford bigode nos indica se tratar de uma foto antiga, dos anos 20 do século XX. Ou seja, ainda não estamos na Antonina rica dos anos 30.
Pela altura do sol, projetando escassa sombra na calçada da esquerda, a foto foi tirada no final da manhã. Essa luminosidade de quase meio dia toda reverbera pela imagem e a enche de luz, contrastando com as pessoas de preto no meio da rua, que parecem caminhar de cabeça baixa, compungidas, conduzindo seu morto.
 Algumas pessoas, no entanto, não participam da cerimônia fúnebre. Alguns estão pela calçada. Um marinheiro de branco está parado na esquina, próximo ao atual banco do Brasil. Perto dele, algumas crianças, vestidas de cores claras. Mais perto, um homem de boné, camisa branca e uma calça com a barra alta, em meia canela, mostrando a meia e os sapatos. A seu lado, um tipo de paletó largo e cartola alta faz pose, colocando a perna no degrau da casa, com as mãos dobradas no joelho. Está nitidamente mirando o fotografo. Não se pode ver seu rosto, mas sua postura, um pouco irônica, faz um contraponto curioso à dor que exala das pessoas de preto no centro da foto. Quem será este homem?
A procissão segue com seu morto para dentro da foto e da história. Talvez jamais saberemos. As perguntas ficam: quem eram estas pessoas? O que faziam ali? O que pensavam e sentiam naquele momento? Era mesmo ironia a pose de homem de paletó e cartola? Talvez existam inúmeras respostas para estas perguntas. Ou, o que é mais provável, nenhuma. A Antonina de outrora está ali, uma mera imagem no papel, sem qualquer explicação adicional.
A única certeza é a indesejada das gentes, como diria Manoel Bandeira, tuberculoso, que passou a maior parte da vida driblando a iniludível. Lembro do poema do homem no café, que tirou o chapéu numa homenagem silenciosa ao enterro que passava em frente. Sim, diz Bandeira, é com ela que vamos todos, crentes e ateus, um dia prestar as contas. Pessoas seguem suas vidas distraidamente, andando pelas ruas cheias de sol, cheias de orgulho e arrogância, certos de que são alguma coisa.
Que nada. No fim, todos vamos virar um pedaço de nada, um monte de ossos, um nome num papel velho, um borrão numa velha foto em preto e branco ou numa imagem perdida num power-point qualquer, caminhando em silêncio para o centro de nossa perspectiva.   

ANTONINA ANTIGA VII

 

ANTONINA ANTIGA VII




Esta foto mostra em destaque o objeto de desejo de dez entre dez políticos antoninenses: a atual prefeitura. Não sei de quando é o prédio, nem quem o construiu, mas consta que foi nele que se hospedou o imperador e sua família. Isso em 1880, o que lhe dá, de longe, uns 130 anos de existência. Se mesmo hoje ele ainda é um dos prédios mais imponentes da Deitada-a-beira-do-mar, imaginem há cem anos se existiam outros prédios iguais. Consta que só se tornou o prédio da prefeitura em 1914, segundo li numa atas antigas da câmara. O que era antes?
Na foto se vê a sua fachada neoclássica, como tantos outros prédios públicos do século XIX. A começar pela sua estrutura volumétrica é bem definida, com um balcão no primeiro andar que separa o prédio em dois volumes iguais. Embaixo, um térreo simples e janelas e portas quadradas. Acima do balcão se destacam os cinco janelões imitando colunas romanas. Os janelões laterais são redondos, imitando colunas romanas. No centro, a coluna é triangular, como as estruturas greco-romanas. Em frente à janela central pode-se ver o mastro da bandeira projetando-se falicamente do prédio.  No terço  superior, a platibanda, também é simétrica, com ornamentos na forma de jarro.  Outro detalhe importante da arquitetura neoclássica é a porta de nossa prefeitura, que se abre ao modo francês, para dentro. No interior do prédio, a escada de madeira trabalhada também é simétrica, apresentando o lance central tangenciado por dois outros, dispostos em sentido contrário.    
Pela sombra que se projeta na rua, é de manhã. A rua está vazia, o que pode significar ou que é muito cedo ou então que se trata de um domingo ou feriado. Os prédios ao redor se apresentam também muito parecidos seu estado atual, como o que abriga  a nova Delicatessen da esquina, à esquerda da foto, obra de meu querido amigo Wilsinho. De quando é a foto? Uma dica de Sherlock Holmes: estão vendo, logo acima da porta de entrada, à direita, uma mancha branca? Pois se trata da placa de mármore que fala da visita de Dom Pedro II a Antonina. De quando é a placa? 1925. Elementar, meu caro Watson: a foto é mais nova que isso.
Quem são as pessoas que aparecem na foto? Um homem de calcas e camisas brancas, de paletó cinza (?) e chapéu na cabeça, encostado na porta com uma das mãos no bolso da calça e outra na altura da barriga – é evidente que está posando. Na janela, à sua esquerda, uma figura que aparentemente é uma mulher, recostada com os cotovelos na janela e também olhando o fotógrafo. Quem são? Como a porta da rua está aberta, sugere alguma familiaridade ao casal – se é que é um casal – com o prédio da prefeitura. Seriam funcionários da prefeitura? Mas, como diria a piada, o que eles estão fazendo ali, olhando o passarinho? Deveriam é estar trabalhando...
Não me parece uma foto alegre. A foto em si, pelo menos pra mim mostra um vazio muito grande, onde as pessoas são pequenas e não preenchem o espaço que os prédios – notadamente o edifício da prefeitura – ocupam muito bem. A solidão dos dois personagens em frente à prefeitura pode nos remeter ás solidões a que estamos expostos: a solidão do poder, a solidão do amor, a solidão existencial. Cada uma com suas dores e delicias. E da solidão nunca escapamos, por mais que construamos prédios suntuosos, cidades, laços de amizade e de amor. No início e no fim, todos estamos sozinhos. No caso de quem quer a partir de janeiro próximo ocupar o tal prédio e ter caneta para assinar e dinheiro pra gastar, talvez a foto os avise de alguma coisa perdida, no tempo da antiga Antonina: o que será?

(Meus agradecimentos para Fausto Lima, professor da UEL e grande arquiteto londrinense, mas que também ama a Deitada-a-beira do mar; seus seguros conhecimentos me guiaram na descrição arquitetônica do prédio da prefeitura)

ANTONINA ANTIGA - VIII

 

ANTONINA ANTIGA - VIII




Uma bela foto, mostrando a Praça Rio Branco, a atual Praça Romildo Gonçalves Pereira, lá pelos anos 20 do seculo passado. Segundo Ermelino de Leão, essa área era conhecida como “cais”, ou “aterrado”. Foi nessa área, próximo da antiga rua da praia, a atual Marquês do Herval, que deve ter-se iniciado o aterro da praça. Devia ser uma área de praia, isto é, com alguma areia; as ondas viriam bater ali nas pedras onde estão atualmente várias casas antigas e o restaurante Baía Bonita. A praia terminava na ponta da Califórnia, acidente geográfico desaparecido com a construção do armazém do Macedo, que hoje é o casarão em ruinas no fim da rua.
Quase todos os terrenos do lado do mar na rua Direita, a atual XV, chegavam até o mar. Não é de se espantar que fosse aí que se localizaram diversas empresas de exportação e importação, as quais construíram diversos trapiches que se podem ver em outras fotos. A atual praça deve ser do inicio do século XX, pois é citada por Ermelino em sua  obra “Antonina Factos e Homens”,  de 1918. O que se exportava então: nessa época, principalmente erva mate. Importava-se quase tudo.
A foto mostra as diversas casas ao redor da praça. Algumas bem grandes, como o casarão onde atualmente é a Associação dos Funcionários Públicos. Trata-se de um prédio grande, que rivaliza com os grandes casarões da rua Direita que podem ser vistos ao fundo da foto. Outra casa grande fica à esquerda na foto, onde se pode ler que a casa é a sede da firma Guimaraes e Cia. As restantes são casas pequenas, com duas ou três aguas. Das demais casas, somente uma apresenta platibanda, situada na parte esquerda da foto, com uma decoração de jarros.  
Além das casas, a natureza toma conta do resto: as três árvores na frente, as duas belíssimas palmeiras imperiais na parte esquerda e os morros do outro lado da baia compõe o cenário. Note-se que a praça é coberta de mato, e muito mato. Devia ser usada para os cavalos e burros do transporte de carga pastarem. Na rua, pode se ver aqui e ali algumas pessoas andando de paletó e chapéu e outras em manga de camisa trabalhando, provavelmente carregando alguma carga ou mercadoria.
Eu conheci essa praça com o nome de Feira-mar, pois o prefeito da época, em 1969, Romildo Gonçalves Pereira, colocou saibro e fez uma grande exposição feira de diversos produtos, a tal Feira-mar. Depois dele, nos tempos de Joubert Gonzaga Vieira, a praça virou praça e tomou o seu atual nome. Durante algum tempo, a praça da Feira-mar foi lugar dos namorados anônimos. “Foram pra Feira-mar!” e péquete! A guria ficava mal falada. Ser vista na Feira-mar de noite era uma temeridade. No entanto, era também uma possibilidade remota, dada a precariedade da iluminação de então.
Hoje, ela é a praça onde o pessoal vai tomar cerveja no fim de tarde, onde bate um vento bom vindo do mar. Nas festas, o pessoal deita ali de manhã e curte suas ressacas enquanto o sol não fica alto. E, também onde a turma do litro bate ponto, faça chuva ou faça sol, pra desespero das pessoas sérias. Bobagem. A turma do litro, na verdade, é a versão Cracolândia dos bagrinhos – você desmancha ela aqui, ela surge ali adiante, quase como se fosse possível apanhar o ar com as mãos. Quem já viu a cracolândia de São Paulo ou de outras grandes cidades sabe do que estou falando. Nem sei qual seria o problema ou a solução, mas repressão pura e simples realmente não funciona.
Enquanto isso, o velho Aterrado segue cheio de histórias pra contar.