sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Mônica: HQ "Papai queria menino"

 

Mônica: HQ "Papai queria menino"


No "Dia dos Pais", mostro uma história lançada em agosto de 1993, há exatos 30 anos, em que a Mônica  deseja virar menino porque pensa que o Seu Sousa não gosta dela quando ouve do pai que queria um menino. Com 17 páginas, foi publicada em 'Mônica Nº 80' (Ed. Globo, 1993).

Capa de 'Mônica Nº 80' (Ed. Globo, 1993)

Seu Sousa vê uma bola enquanto volta do trabalho, os meninos, que estavam jogando futebol, pedem para chutar e Seu Sousa dá um chutão e joga com eles e faz um gol. Os meninos pedem para ele jogar no time de cada um deles e Seu Sousa diz que outra hora joga e foi divertido.

Em casa, Mônica está animada para o seu pai ver seu vestido novo. Quando Seu Sousa chega, diz que está bonito sem empolgação e sem dar atenção senta na poltrona. Mônica repara que nem a viu direito e acha que o pai está preocupado. Ela pega todos os seus bonecos e chama o pai para brincar de marionete e ele diz que agora não porque está cansado.

Mônica acha que o negócio é sério porque nem quis brincar com ela e vai ouvir escondida a conversa do pai com a mãe na cozinha. Seu Sousa comenta que eles podiam ter um menino, Dona Luísa se espanta de terem outro filho. Ele diz que outro não porque eles tem uma menina, sempre quis ter um menino para ensinar a jogar bola, empinar pipa. Dona Luísa diz que meninas podem fazer isso também e ele diz que não é a mesma coisa. Dona Luísa fala que outro filho ia atrapalhar o orçamento e ela queria voltar a trabalhar e Seu Sousa se contenta que é um sonho que vai ficar para mais tarde.

Mônica ouve tudo, segura o choro e corre para o seu quarto. Chora abraçada no travesseiro, diz que o pai não gosta dela, mas parecia porque sempre a pegava no colo, dava beijo de boa noite, contava histórias, disfarçou bem. Imagina que antes de nascer, o pai vivia repetindo que seria menino e quando se preparou para o grande dia, se decepcionou quando a viu. A mãe deve ter tido trabalhão para convencê-lo a não sair de casa e com o tempo foi se acostumando com a ideia, mas no fundo nunca gostou dela só porque é menina. Ela se olha no espelho, talvez tenha jeito para isso e sai para falar com o Cebolinha.

No dia seguinte, Seu Sousa vai chamar a Mônica para tomar café e ela aparece vestida e com linguajar de menino e dá um tapa nas costas do pai perguntando como vai essa força. Seu Sousa pergunta que roupa era aquela e cadê o vestido novo e ela diz que aquilo é tudo cheio de frescura. Dona Luísa pergunta por que a filha está fantasiada, Mônica diz que quer se vestir assim agora, quer que os pais comprem pião, bolinha de gude e bola de capotão.

Seu Sousa acha melhor eles brincarem de marionete e ela diz que não porque marcou  um jogo de futebol com a turma, mas depois podem assistir à luta de boxe juntos. Os pais ficam assustados com o que está acontecendo com a garotinha deles e acham que erraram em alguma coisa. Mônica fica feliz que o pai ficou surpreso e acha que está gostando mais dela e se encontra com o Cebolinha para aprender mais coisa.

Cebolinha diz que a roupa dele ficou ridícula nela e que parece um menino bem feio e dentuço e Mônica quer bater nele. Cebolinha diz que menino não faria isso, não ligam se eles são feios e Mônica responde que por isso ele tem coragem de sair na rua até hoje. Cebolinha fala que se continuar a gozação, não a ensina mais ser menino e lembram do trato que se ele ensiná-la a ser menino ela não bate mais no Cebolinha.

Depois, Cebolinha leva Mônica ao campinho pra ensinar como joga futebol. Cascão e Franjinha não gostam, mas aceitam depois da ameaça da surra. Cebolinha ensina à Mônica que tem que levar a bola até o gol e ela joga bola ao gol com a mão. Cebolinha diz que é com o pé e ela acerta o Cascão. Cebolinha diz que precisa de mais treino, quando o Seu Sousa aparece e eles têm que fazer a Mônica impressionar o pai imediatamente. 

Eles fingem que a Mônica driblou facilmente e ao chutar a bola, Mônica faz a bola sair do Planeta Terra de tanta força que chutou. Eles pegam outra bola, Mônica dá de graça ao adversário, Franjinha quica a bola, provocando pênalti de propósito. Mônica chuta bem devagar, a bola roda, para e Cascão como goleiro faz chutar em direção ao gol e todos comemoram como se fosse gol dela e que fez ganhar a partida. 

Cascão parabeniza Seu Sousa que a filha é craque, Mônica pergunta ao pai se está orgulhosa dela e Cebolinha diz para Mônica que vai acabar virando menino. Ela o chama de linguarudo e manda esquecer o trato deles. Seu Sousa quer saber por que Mônica quer virar menino e ela responde que é para o pai gostar dela, ouviu que ele queria ter um menino para jogar bola e empinar pipa e ele não gosta dela porque é menina. 

Seu Sousa fica arrependido e explica que também queria um menino, mas adora a sua garotinha, se tivesse um filho, ia ficar louco para tê-la porque com quem ia brincar de marionetes, de contar histórias e relembram os momentos gostosos que passaram juntos desde quandoera bebê. Assim, Seu Sousa sugere Mônica pôr um vestido para saírem juntos por aí. Mônica dá beijo nele, fica feliz e, em casa, enquanto ela troca de roupa, Seu Sousa comenta com a esposa que bem que podiam ter mais umas menininhas.

História legal em que Seu Sousa diz que queria ter um menino e Mônica acha que o pai não gosta dela por ser menina e resolve virar um menino pra agradá-lo. Consegue algumas dicas com o Cebolinha e tenta jogar futebol para impressionar, mas com a entrega do trato pelo Cebolinha, Seu Sousa mostra que gosta da filha, os momentos que passam juntos são maravilhosos e no final desiste de ter menino e que gostaria de ter outras meninas como a Mônica. Reconhece que as meninas são melhores.

Mostra ideia de pais que preferiam ter filho do sexo oposto do que têm, que insatisfeitos tentam fazer outros filhos para ver se vem. Tem bonita mensagem que independente do sexo, pai e mãe vai amar do mesmo jeito. Seu Sousa, queria menino para jogar bola e empinar pipa com o filho, mas que tinha preconceito que meninas não podiam fazer essas coisas, uma mentalidade muito comum na época que tinham de separar coisas de meninos e de meninas. É até um equívoco isso porque podem ter meninos que não gostam de jogar futebol e meninas que gostam, por exemplo.

Foi engraçado ver a imaginação da Mônica do nascimento dela com o pai todo animado por ter filho e decepção de ter vindo menina e querer sair de casa por causa disso, a Mônica vestida e se comportando como menino, jogando futebol toda errada chegando jogar bola ao gol com a mão e chutar bola para fora do Planeta Terra, também ela dar o troco na feiura do Cebolinha e a bigorna de 100 kg na cabeça do Seu Sousa representando peso na consciência. 

Cebolinha que acabou entregando seu próprio plano dessa vez, perdeu a chance de nunca mais apanhar da Mônica. Deu uma certa pena da Mônica chorando pensando que estava sendo rejeitada pelo pai. Curioso que nesta história a Mônica não apareceu com o tradicional vestido vermelho e Mônica ter boneca dela mesma e ter apenas sua boneca e o Sansão como seus únicos brinquedos. E eu gostava da arte dos pensamentos e sonhos das personagens quando eram retratados em tons azuis assim.

Incorreta atualmente por essa ideia de impressão que Seu Sousa não gostava da filha por ser menina, e ele ser machista que só meninos faziam aquelas coisas que ele queria, essa distinção de rótulos de coisas só para meninos e coisas só para meninas, a Mônica sofrer por ser rejeitada pelo pai e querer virar menino, vestida como um, aparecer com estilingue no bolso por ser violento e dar ideia de matar passarinhos, Dona Luísa de avental e aparecer cozinhando ou fazendo tarefas domésticas porque as mães não podem mais serem retratadas apenas como donas-de-casa, além das palavras proibidas "gozação", para não ser ter duplo sentido de cunho sexual, e "louco", para não confundirem com o personagem Louco.

Os traços eu achei bons, sendo que tem algumas leves diferenças na Mônica com dentes maiores e olhares diferentes e personagens com linha da boca fechada maior quando ficavam surpresos, provavelmente foi por experiência de novos traços e também para dar mais humor, de qualquer forma não vingaram desenhos com Mônica assim, foi só nessa história. Seu Sousa foi retratado mais gordinho, isso variava de acordo com cada desenhista. Teve erro na disposição do boné da Mônica, do nada ficava aba pra frente e aba pra trás sem critério definido.

Em alguns momentos Dona Luísa aparecia sem lábios com batom e em outros com. Não acho que foi erro, pelo visto a deixaram sem lábios de propósito nas cenas que queriam dar mais humor. Não gostava quando as mães das personagens apareciam sem lábios ou batom, mesmo que com intenção para histórias mais humoradas e/ou mães estarem mais rígidascom os filhos, achava que elas ficavam feias, incrível que só uma ausência de lábios faziam toda diferença no visual delas.

De curiosidade, esse foi último gibi da Mônica sem códigos de barras na capa, a partir da edição "Nº 81", de setembro de 1993, e em todos os outros gibis passaram a colocar códigos de barras para atender estabelecimentos como livrarias e mercados que vendiam com leitores de códigos de barras que estava se popularizando na época. Também marcou como o primeiro gibi da Mônica com preço em "Cruzeiro Real" (CR$), que substituiu o "Cruzeiro" (Cr$). Consistiu mesmo apenas em tirar 3 zeros, dividir preço por mil, devido a hiperinflação do Brasil na época e que continuou aumentando preços da mesma forma. Assim, esse gibi 'Mônica Nº 80', de agosto de 1993, de CR$ 95,00 é o mesmo que Cr$ 95.000,00 e que teve grande aumento em relação a 'Mônica Nº 79', de julho de 1993, que custou Cr$ 65.000,00. E também foi o único gibi da Mônica com preço em "Cruzeiro Real" e sem códigos de barras. Muito bom relembrar essa história há exatos 30 anos.

FELIZ DIAS DOS PAIS!!! 

Xale em crochê

 

Xale em crochê


Xale em crochê



Capa em crochet

 

Capa em crochet


Capa em crochet




Xale

 

Xale

Imagem pinada


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A PRIMEIRA MOTOCICLETA EM CURITIBA

 A PRIMEIRA MOTOCICLETA EM CURITIBA

Este significativo retrato do sr. Albino Guilherme Gineste, elaborado em 1902, nos presenteia com um fato pontual que ficou para a posteridade da história de Curitiba quando ele, prazerosamente, segura sua "motocyclette", recém adquirida, trazida da França.
Interessante perceber que no eixo do pequeno motor foi grafado o nome do fabricante "VERNER" com "V" ao passo que a grafia correta seria com "W". Não sabemos o motivo, se o retratista alterou, ou se o nome foi estampado assim na fábrica. Infelizmente não consegui localizar uma foto de outra "motocyclette" produzida pelos irmãos Werner naquele início entre 1899/1901.
Eugene e Michel Werner inicialmente montaram um motor em uma bicicleta. No modelo inicial, produzido entre 1897 e 1898, eles colocaram o motor sobre a roda dianteira.
Em 1899, foi que os irmãos Werner colocaram o motor dentro da moldura, entre as duas rodas, cuja produção consagrou o uso do termo "motocyclette", praticamente uma bicicleta motorizada, produzida em sua sede na cidade francesa de Levallois-Perret.
O termo "motocyclette" foi registrado pelos irmãos Werner em 1897, por sugestão do prefeito de Paris que, achando esse nome muito apropriado, orientou o órgão próprio a conceder o registro, para que, dali em diante, passasse a designar todos os veículos motorizados de duas rodas, produzidos na França.
Nascidos na Ucrânia, os irmãos Werner, Michel nascido em 1859 em Kherson e Eugène nascido em 1861 em Odessa, eram jornalistas em Moscou antes de se estabelecerem na França.
Em 1893, eles criaram a empresa "Werner frères et Compagnie" cujas primeiras atividades envolveram várias invenções que vão desde a máquina de escrever ao fonógrafo e, até mesmo ao cinema, naquele início.
Instalados em Paris, na Avenue de La Grande-Armée , por volta de 1907, desenvolveram então a sua actividade na área do automóvel e muitos veículos Werner participaram de vários Grandes Prémios da época. Em 1908, foi ao volante de um Werner que Eugène Lelouvier partiu de Nova York na esperança de vencer os competidores oficiais do ataque Nova York-Paris de 1908 . No mesmo ano, os dois directores da empresa Gallien e Sarda participaram no encontro do barco a motor do Mónaco com o "Werner-Nautilus" equipado com um motor Werner.
Michel Werner morreu em 21 de agosto de 1905 em Paris e seu irmão Eugène le 11 de abril de 1908 em Mônaco.
(Fotos: internet)
Paulo Grani
Albino Guilherme Gineste
Foto: Acervo família Gineste.
Ação societária da Werner Freres.
Publicidade da Motocyclette Werner, publicada em 1904.






Trecho da Rua Comendador Araújo, Curitiba, em 1906, no bairro Batel. No início da cidade, esse logradouro era o elo de ligação com o interior, motivo pelo qual era chamado Estrada do Mato Grosso.

 Trecho da Rua Comendador Araújo, Curitiba, em 1906, no bairro Batel.  No início da cidade, esse logradouro era o elo de ligação com o interior, motivo pelo qual era chamado Estrada do Mato Grosso.



Magnífica Casa da Família de Ennio Marques, que existia na esquina da Rua Lamenha Lins X Avenida Iguaçu. Ano 1920, vendida posteriormente para Caetano Munhoz da Rocha, Lucia Marques Ferreira Akel

 Magnífica Casa da Família de Ennio Marques, que existia na esquina da Rua Lamenha Lins X Avenida Iguaçu. Ano 1920, vendida posteriormente para Caetano Munhoz da Rocha, Lucia Marques Ferreira Akel



A então majestosa Fábrica de Móveis e Espelhos Guelmann, começou na Rua 24 de Maio, nos anos 20, mas cresceu e se mudou para o Bairro do Novo Mundo, onde teve uma grande estrutura, como mostra a imagem, com vila operária e linha de trem para escoar a produção, especialmente nos anos 1970. Imagem provável dos anos 50.

 A então majestosa Fábrica de Móveis e Espelhos Guelmann, começou na Rua 24 de Maio, nos anos 20, mas cresceu e se mudou para o Bairro do Novo Mundo, onde teve uma grande estrutura, como mostra a imagem, com vila operária e linha de trem para escoar a produção, especialmente nos anos 1970. Imagem provável dos anos 50.



O Edifício de Edwiges Mickozsewski: Um Marco de Classe Média e Modernidade na Rua Voluntários da Pátria (1936)

 Denominação inicial: Projéto de Edifício para a Snra. Edwiges Mickozsewski

Denominação atual: Residência

Categoria (Uso): Residência e Comércio
Subcategoria: Residência de Médio Porte

Endereço: Rua Voluntários da Pátria

Número de pavimentos: 3
Área do pavimento: 287,00 m²
Área Total: 287,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos

Data do Projeto Arquitetônico: 07/08/1936

Alvará de Construção: N° 2123/1936

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de edifício para residência e comércio, Alvará de Construção e fotografia do imóvel.

Situação em 2012: Existente


Imagens

1 – Projeto Arquitetônico.
2 - Alvará de Construção.
3 – Fotografia do imóvel em 2012. Observa-se modificação na fachada do edifício, com a colocação de painel com vidro azul.

Referências: 

1 - CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto de Edifício para a Snra. Da. Edwiges Mickozsewski . Planta baixa do pavimento térreo, primeiro e segundo andares, fachada frontal, cortes A-B e C-D e implantação apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
2 - Alvará n.º 2123
3 –Fotografia de Elizabeth Amorim de Castro (2012).

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba.

O Edifício de Edwiges Mickozsewski: Um Marco de Classe Média e Modernidade na Rua Voluntários da Pátria (1936)

Em agosto de 1936, no coração de uma Curitiba em plena transformação urbana e social, a Srª. Edwiges Mickozsewski — mulher de visão incomum para sua época — encomendou ao arquiteto Eduardo Fernando Chaves um projeto ousado: um edifício de três pavimentos na prestigiada Rua Voluntários da Pátria, destinado simultaneamente à residência e ao comércio. Mais do que uma simples construção, o empreendimento revelava a ascensão de uma nova classe urbana, composta por mulheres empreendedoras, imigrantes e profissionais que moldavam a cidade com tijolos, cálculos e coragem.

Hoje, quase nove décadas depois, o edifício ainda existe — testemunha viva de uma era em que o centro de Curitiba pulsava com atividade econômica, e onde a arquitetura residencial começava a se verticalizar, não apenas por necessidade, mas por ambição.


Edwiges Mickozsewski: A Dona de um Sonho Vertical

Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Edwiges Mickozsewski, mas seu sobrenome — de provável origem polonesa ou eslava — sugere que fazia parte da comunidade imigrante que ajudou a construir o Paraná no início do século XX. O fato de ter seu nome registrado como proprietária e requerente de um alvará para um edifício de três andares em 1936 é, por si só, notável.

Naquele período, era raro que mulheres, especialmente viúvas ou solteiras, fossem titulares de projetos imobiliários de tal envergadura. Edwiges, no entanto, não apenas comissionou a obra, como a concebeu com função mista: o térreo para comércio — loja, escritório ou oficina — e os dois andares superiores para moradia, provavelmente alugados ou destinados à família. Essa configuração revela um espírito empreendedor e uma compreensão aguçada do valor do solo urbano.

Sua escolha pela Rua Voluntários da Pátria, uma das principais artérias do centro de Curitiba, não foi casual. Tratava-se de uma localização estratégica, de alto tráfego e visibilidade, ideal para negócios e prestígio residencial.


O Projeto de Eduardo Fernando Chaves: Verticalidade com Elegância

Assinado em 7 de agosto de 1936, o projeto arquitetônico — preservado em microfilme digitalizado — apresenta uma planta sofisticada para a época:

  • Três pavimentos, cada um com 287 m², totalizando uma área construída significativa (embora os registros oficiais listem a área total como 287 m², o que provavelmente se refere à área por pavimento ou a uma padronização administrativa da época);
  • Planta baixa detalhada para cada andar, com distribuição funcional pensada para uso comercial no térreo e habitação nos superiores;
  • Fachada frontal simétrica, com proporções clássicas, aberturas ritmadas e detalhes que sugerem influência do ecletismo tardio com toques de racionalismo emergente;
  • Cortes estruturais (A-B e C-D) e implantação no terreno, demonstrando atenção à orientação solar, ventilação e integração com o entorno.

Construído em alvenaria de tijolos — técnica ainda dominante nos anos 1930 —, o edifício não adotou concreto armado como outros contemporâneos, mas sua altura de três andares já representava um desafio técnico e simbólico. Em uma cidade de casas baixas, um prédio assim era quase um farol de modernidade.

O Alvará de Construção nº 2123/1936 confirma a regularidade do empreendimento, destacando-se pela clareza do uso misto e pela escala incomum para uma iniciativa privada de médio porte.


O Edifício em 2012: Entre a Memória e a Transformação

Em 2012, a pesquisadora Elizabeth Amorim de Castro registrou o edifício ainda de pé, confirmando sua existência contínua por mais de 75 anos. No entanto, a fotografia revela uma modificação significativa na fachada: a instalação de um painel com vidro azul, provavelmente associado a um comércio ou serviço instalado no térreo nas últimas décadas.

Essa intervenção, embora compreensível do ponto de vista funcional, oculta parcialmente os traços originais do projeto de Chaves. Ainda assim, é possível vislumbrar a estrutura volumétrica, a proporção dos vãos e a solidez da alvenaria — elementos que resistiram ao tempo, à especulação imobiliária e às modas passageiras.


Um Legado de Mulheres, Tijolos e Cidade

O edifício de Edwiges Mickozsewski não é apenas um imóvel. É um testemunho da participação feminina na construção urbana, da verticalização precoce do centro de Curitiba e da mistura entre vida doméstica e atividade econômica que caracterizou a cidade durante boa parte do século XX.

Enquanto grandes nomes da arquitetura moderna ganham destaque nos livros, são edifícios como este — encomendados por mulheres como Edwiges, projetados por profissionais como Chaves e habitados por gerações anônimas — que compõem a verdadeira textura da memória urbana.

Que o vidro azul não apague a história por trás da fachada. Porque sob esse painel está a coragem de uma mulher que, em 1936, decidiu erguer mais que um prédio: ergueu um futuro.


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“Nem todo patrimônio precisa de torres para ser monumental. Às vezes, basta uma mulher com um alvará e o sonho de construir seu lugar no mundo.”