Denominação inicial: Projéto de Edifício para a Snra. Edwiges Mickozsewski
Denominação atual: Residência
Categoria (Uso): Residência e Comércio
Subcategoria: Residência de Médio Porte
Endereço: Rua Voluntários da Pátria
Número de pavimentos: 3
Área do pavimento: 287,00 m²
Área Total: 287,00 m²
Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos
Data do Projeto Arquitetônico: 07/08/1936
Alvará de Construção: N° 2123/1936
Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de edifício para residência e comércio, Alvará de Construção e fotografia do imóvel.
Situação em 2012: Existente
Imagens
1 – Projeto Arquitetônico.
2 - Alvará de Construção.
3 – Fotografia do imóvel em 2012. Observa-se modificação na fachada do edifício, com a colocação de painel com vidro azul.
Referências:
1 - CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto de Edifício para a Snra. Da. Edwiges Mickozsewski . Planta baixa do pavimento térreo, primeiro e segundo andares, fachada frontal, cortes A-B e C-D e implantação apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
2 - Alvará n.º 2123
3 –Fotografia de Elizabeth Amorim de Castro (2012).
1 – Projeto Arquitetônico.
2 - Alvará de Construção.
2 - Alvará de Construção.
2 - Alvará de Construção.
3 – Fotografia do imóvel em 2012. Observa-se modificação na fachada do edifício, com a colocação de painel com vidro azul.
Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba.
O Edifício de Edwiges Mickozsewski: Um Marco de Classe Média e Modernidade na Rua Voluntários da Pátria (1936)
Em agosto de 1936, no coração de uma Curitiba em plena transformação urbana e social, a Srª. Edwiges Mickozsewski — mulher de visão incomum para sua época — encomendou ao arquiteto Eduardo Fernando Chaves um projeto ousado: um edifício de três pavimentos na prestigiada Rua Voluntários da Pátria, destinado simultaneamente à residência e ao comércio. Mais do que uma simples construção, o empreendimento revelava a ascensão de uma nova classe urbana, composta por mulheres empreendedoras, imigrantes e profissionais que moldavam a cidade com tijolos, cálculos e coragem.
Hoje, quase nove décadas depois, o edifício ainda existe — testemunha viva de uma era em que o centro de Curitiba pulsava com atividade econômica, e onde a arquitetura residencial começava a se verticalizar, não apenas por necessidade, mas por ambição.
Edwiges Mickozsewski: A Dona de um Sonho Vertical
Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Edwiges Mickozsewski, mas seu sobrenome — de provável origem polonesa ou eslava — sugere que fazia parte da comunidade imigrante que ajudou a construir o Paraná no início do século XX. O fato de ter seu nome registrado como proprietária e requerente de um alvará para um edifício de três andares em 1936 é, por si só, notável.
Naquele período, era raro que mulheres, especialmente viúvas ou solteiras, fossem titulares de projetos imobiliários de tal envergadura. Edwiges, no entanto, não apenas comissionou a obra, como a concebeu com função mista: o térreo para comércio — loja, escritório ou oficina — e os dois andares superiores para moradia, provavelmente alugados ou destinados à família. Essa configuração revela um espírito empreendedor e uma compreensão aguçada do valor do solo urbano.
Sua escolha pela Rua Voluntários da Pátria, uma das principais artérias do centro de Curitiba, não foi casual. Tratava-se de uma localização estratégica, de alto tráfego e visibilidade, ideal para negócios e prestígio residencial.
O Projeto de Eduardo Fernando Chaves: Verticalidade com Elegância
Assinado em 7 de agosto de 1936, o projeto arquitetônico — preservado em microfilme digitalizado — apresenta uma planta sofisticada para a época:
- Três pavimentos, cada um com 287 m², totalizando uma área construída significativa (embora os registros oficiais listem a área total como 287 m², o que provavelmente se refere à área por pavimento ou a uma padronização administrativa da época);
- Planta baixa detalhada para cada andar, com distribuição funcional pensada para uso comercial no térreo e habitação nos superiores;
- Fachada frontal simétrica, com proporções clássicas, aberturas ritmadas e detalhes que sugerem influência do ecletismo tardio com toques de racionalismo emergente;
- Cortes estruturais (A-B e C-D) e implantação no terreno, demonstrando atenção à orientação solar, ventilação e integração com o entorno.
Construído em alvenaria de tijolos — técnica ainda dominante nos anos 1930 —, o edifício não adotou concreto armado como outros contemporâneos, mas sua altura de três andares já representava um desafio técnico e simbólico. Em uma cidade de casas baixas, um prédio assim era quase um farol de modernidade.
O Alvará de Construção nº 2123/1936 confirma a regularidade do empreendimento, destacando-se pela clareza do uso misto e pela escala incomum para uma iniciativa privada de médio porte.
O Edifício em 2012: Entre a Memória e a Transformação
Em 2012, a pesquisadora Elizabeth Amorim de Castro registrou o edifício ainda de pé, confirmando sua existência contínua por mais de 75 anos. No entanto, a fotografia revela uma modificação significativa na fachada: a instalação de um painel com vidro azul, provavelmente associado a um comércio ou serviço instalado no térreo nas últimas décadas.
Essa intervenção, embora compreensível do ponto de vista funcional, oculta parcialmente os traços originais do projeto de Chaves. Ainda assim, é possível vislumbrar a estrutura volumétrica, a proporção dos vãos e a solidez da alvenaria — elementos que resistiram ao tempo, à especulação imobiliária e às modas passageiras.
Um Legado de Mulheres, Tijolos e Cidade
O edifício de Edwiges Mickozsewski não é apenas um imóvel. É um testemunho da participação feminina na construção urbana, da verticalização precoce do centro de Curitiba e da mistura entre vida doméstica e atividade econômica que caracterizou a cidade durante boa parte do século XX.
Enquanto grandes nomes da arquitetura moderna ganham destaque nos livros, são edifícios como este — encomendados por mulheres como Edwiges, projetados por profissionais como Chaves e habitados por gerações anônimas — que compõem a verdadeira textura da memória urbana.
Que o vidro azul não apague a história por trás da fachada. Porque sob esse painel está a coragem de uma mulher que, em 1936, decidiu erguer mais que um prédio: ergueu um futuro.
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“Nem todo patrimônio precisa de torres para ser monumental. Às vezes, basta uma mulher com um alvará e o sonho de construir seu lugar no mundo.”




