sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Marinha Dias de Paiva e o Sonho de Concreto na Rua Comendador Araújo: Uma Residência-Comércio que Habitou o Futuro de Curitiba

 Denominação inicial: Projéto de prédio para a Snra. Marinha Dias de Paiva

Denominação atual:

Categoria (Uso): Residência e Comércio
Subcategoria: Residência de Médio Porte

Endereço: Rua Comendador Araújo, nº 107

Número de pavimentos: 2
Área do pavimento: 320,00 m²
Área Total: 320,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Concreto Armado

Data do Projeto Arquitetônico: 08/10/1936

Alvará de Construção: N° 2212/1936

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de casa para residência e comércio, Alvará de Construção com Memória de Cálculo e Projeto das estruturas em Concreto Armado.

Situação em 2012: Demolido


Imagens

1 - Projeto Arquitetônico.
2 - Alvará de Construção.

Referências: 

1 - CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto de prédio para a Snra. Marinha Dias de Paiva. Plantas baixas dos pavimentos térreo e superior, fachada frontal, corte e implantação apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
2 - Alvará n.º 2212

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba.

Marinha Dias de Paiva e o Sonho de Concreto na Rua Comendador Araújo:
Uma Residência-Comércio que Habitou o Futuro de Curitiba

Em outubro de 1936, enquanto o mundo se preparava para as sombras de uma nova guerra, em Curitiba uma mulher chamada Marinha Dias de Paiva encomendava um projeto arquitetônico que simbolizava, com rara clareza, a modernidade que começava a brotar no coração da capital paranaense. Tratava-se de um prédio de dois pavimentos, com 320 metros quadrados, projetado por Eduardo Fernando Chaves — o mesmo arquiteto que meses antes assinara a residência-comércio de Fiad Kalluf — mas agora com um salto técnico e simbólico: a escolha do concreto armado como espinha dorsal da construção.

Infelizmente, o edifício que um dia deveria marcar a paisagem urbana da Rua Comendador Araújo, nº 107, foi demolido antes de 2012. Não há fotografias contemporâneas que testemunhem sua existência física. Mas seu legado permanece — não nas ruas, mas nos microfilmes arquivísticos, nas linhas meticulosas do projeto, e na coragem visionária de uma mulher que, em plena década de 1930, ousou erguer um símbolo de progresso onde antes só havia terra e possibilidade.


Uma Mulher à Frente de seu Tempo

Na Curitiba dos anos 1930, era raro — quase revolucionário — que uma senhora fosse proprietária de um projeto arquitetônico de médio porte, especialmente com uso misto (residência e comércio) e estrutura em concreto armado. A denominação original do projeto — "Projéto de prédio para a Snra. Marinha Dias de Paiva" — não apenas registra seu nome, mas também sua autonomia, protagonismo e visão de futuro.

Marinha não estava apenas construindo uma casa; estava consolidando um patrimônio, criando um espaço que integraria vida privada e atividade econômica. O térreo, provavelmente destinado a um comércio sofisticado — talvez uma loja de tecidos, perfumaria ou escritório —, abria-se para uma das ruas mais elegantes do bairro do Centro. No pavimento superior, sua família residiria com conforto, segurança e visão privilegiada da cidade em expansão.


O Concreto como Declaração de Modernidade

Se a casa de Fiad Kalluf falava a linguagem acolhedora da madeira, o prédio de Marinha Dias de Paiva proclamava a era do concreto — material que, naquele momento, representava força, durabilidade e inovação. A inclusão de Memória de Cálculo e Projeto das Estruturas em Concreto Armado no alvará de construção (nº 2212/1936) revela o quanto o projeto era tecnicamente avançado para a época.

Eduardo Fernando Chaves demonstrava domínio não apenas da estética, mas da engenharia emergente. A planta do térreo e do pavimento superior, apresentadas em uma única prancha junto com fachada frontal, corte e implantação, indicam um projeto integrado, racional e funcional, alinhado aos ideais modernos que começavam a influenciar a arquitetura brasileira — ainda que de forma discreta e adaptada à realidade local.

Com 320 m² distribuídos em dois níveis, o edifício pertencia à categoria de residência de médio porte, mas com ambições urbanas. Sua localização na Rua Comendador Araújo, então eixo de prestígio comercial e residencial, reforçava seu papel como nó de sociabilidade, economia e identidade.


Ausência que Fala: O Silêncio de um Prédio Demolido

Ao contrário de outros edifícios da mesma época que sobreviveram — como o Edifício Mauá ou a Casa da Memória —, o prédio de Marinha Dias de Paiva desapareceu. Sua demolição, ocorrida em data incerta, mas anterior a 2012, é um lembrete amargo de como Curitiba, em sua pressa por modernizar-se, muitas vezes apagou suas próprias raízes.

Não há fotos, não há testemunhas, não há fachada. Apenas duas imagens nos arquivos: o projeto arquitetônico e o alvará de construção. E é justamente nessa ausência que a história ganha força. Porque o que foi destruído fisicamente pode — e deve — ser reconstruído na memória coletiva.

O projeto de Marinha Dias de Paiva não era apenas um imóvel; era um documento de emancipação feminina, de progresso técnico e de urbanidade curitibana. Representava a transição de uma cidade provinciana para uma metrópole em formação — e colocava, no centro dessa transformação, uma mulher como agente ativa do desenvolvimento urbano.


Legado nas Linhas do Projeto

Hoje, ao acessar o microfilme digitalizado com o projeto assinado por Chaves, é possível sentir a presença silenciosa de Marinha. Nas proporções das janelas, na simetria da fachada, na disposição dos cômodos — tudo foi pensado para acolher, proteger e gerar renda. Era arquitetura com propósito, feita para durar.

Que seu nome, Marinha Dias de Paiva, não seja esquecido. Que sirva de inspiração para historiadores, urbanistas e cidadãos que buscam resgatar as vozes silenciadas da história urbana, especialmente aquelas que, como ela, desafiaram convenções e ergueram concreto onde outros viam apenas impossibilidade.


Referências Arquivísticas:

  1. CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto de prédio para a Snra. Marinha Dias de Paiva. Plantas baixas dos pavimentos térreo e superior, fachada frontal, corte e implantação apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
  2. Alvará de Construção nº 2212/1936.

“Algumas construções desaparecem dos mapas, mas não da alma da cidade. Marinha Dias de Paiva construiu mais do que um prédio: construiu um lugar na história.”

Um Legado de Madeira e Memória: A Casa de Fiad Kalluf na Esquina da História

 Denominação inicial: Projéto de casa para o Snr. Fiad Kalluf

Denominação atual: Comercial – Farmácia 29 de Março

Categoria (Uso): Residência e Comércio
Subcategoria: Residência de Pequeno Porte

Endereço: Rua Brigadeiro Franco esquina com Rua Padre Anchieta

Número de pavimentos: 2
Área do pavimento: 110,00 m²
Área Total: 110,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Madeira

Data do Projeto Arquitetônico: 26/08/1936

Alvará de Construção: N° 2150/1936

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de casa para residência e comércio, Alvará de Construção e fotografia do imóvel.

Situação em 2012: Existente


Imagens

1 – Projeto Arquitetônico.
2 – Corte C-D da residência.
3 - Alvará de Construção.
4 – Fotografia do imóvel em 2012.

Referências: 

1 e 2 - CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto para casa de negócio para o Snr. Fiad Kalluf. Planta baixa do pavimento térreo e sótão, fachadas frontais voltadas para as duas ruas, corte e implantação. Corte C-D, com destaque para a escada, apresentados em duas pranchas. Microfilme digitalizado.
3 - Alvará n.º 2150
4 – Fotografia de Elizabeth Amorim de Castro (2012).

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba.

Um Legado de Madeira e Memória: A Casa de Fiad Kalluf na Esquina da História

Na confluência de duas das artérias mais simbólicas do bairro do Bigorrilho, em Curitiba — a Rua Brigadeiro Franco e a Rua Padre Anchieta — ergue-se, desde 1936, uma construção modesta, mas carregada de significado. Trata-se da residência e comércio projetada especialmente para Fiad Kalluf, um homem cujo nome, embora silenciado nas narrativas oficiais da cidade, ecoa com vigor nas tábuas de madeira, nas janelas de guilhotina e na disposição funcional de um dos mais singelos e expressivos exemplares da arquitetura residencial-comercial do entre-guerras em Curitiba.


O Sonho de Fiad Kalluf: Entre o Lar e o Balcão

Em 26 de agosto de 1936, o arquiteto Eduardo Fernando Chaves assinava um projeto que traduzia com rara sensibilidade as aspirações de uma classe média urbana emergente: construir um espaço onde a vida doméstica e a atividade comercial coexistissem em harmonia. Fiad Kalluf, comerciante visionário, desejava mais do que uma casa — queria um lugar que fosse lar, ofício e identidade. Assim nasceu o “Projéto de casa para o Snr. Fiad Kalluf”, um documento técnico que se tornaria um testemunho afetivo da cidade em transformação.

Com apenas 110 metros quadrados distribuídos em dois pavimentos, o edifício parece pequeno à primeira vista. Mas é exatamente nessa aparente simplicidade que reside sua grandeza. Toda a estrutura foi erguida em madeira, material que na época representava não apenas economia, mas também agilidade construtiva e uma estética intimista, próxima do cotidiano. A casa era pensada para abrigar uma família no andar superior, enquanto o térreo serviria como loja de bairro — um modelo arquitetônico comum na época, mas raramente tão bem resolvido.


Arquitetura Funcional, Beleza Discreta

O projeto de Chaves revela um domínio refinado dos princípios do funcionalismo moderno, ainda que adaptado às realidades locais. A planta do térreo organiza-se de forma direta: a frente voltada para a Rua Brigadeiro Franco abrigava o comércio, com vitrine ampla e acesso facilitado. Ao fundo, um pequeno quintal e as áreas de serviço garantiam privacidade e praticidade.

O pavimento superior, acessado por uma escada destacada no corte C-D — uma das mais belas representações técnicas do projeto — acolhia os aposentos da família. As fachadas voltadas para ambas as ruas traziam janelas simétricas, venezianas de madeira e um beiral que sombreava com elegância os espaços internos. Apesar de modesto, o edifício dialogava com as ruas, inserindo-se no tecido urbano com discrição, mas presença.

A escolha da madeira como sistema construtivo principal não foi apenas técnica, mas cultural. Em uma Curitiba ainda marcada pela imigração sírio-libanesa, a carpintaria era uma linguagem familiar. Cada ripa, cada viga, carregava o ofício de artesãos que moldavam a cidade com as próprias mãos. Fiad Kalluf, provavelmente imigrante ou filho de imigrantes, sabia bem o valor disso.


Da Casa ao Comércio: A Farmácia 29 de Março

Ao longo das décadas, o destino do edifício seguiu o ritmo das transformações urbanas. O comércio que um dia pode ter sido uma mercearia, uma tecelagem ou um armazém de secos e molhados, transformou-se. Em algum momento do século XX, ali se instalou a Farmácia 29 de Março — nome que evoca não apenas uma data, mas talvez uma memória familiar, um aniversário, uma celebração. A residência no andar superior, por sua vez, provavelmente continuou abrigando famílias, talvez sucessoras de Fiad ou novos moradores atraídos pela localização privilegiada.

Em 2012, a fotógrafa Elizabeth Amorim de Castro registrou o imóvel ainda de pé, firme como testemunha silenciosa de quase oito décadas de história. Apesar das inevitáveis modificações — uma nova fachada, talvez novos revestimentos, vitrines modernizadas — o esqueleto original ainda se fazia reconhecível. A escada, as proporções, o ritmo das janelas: tudo isso permanecia como eco do projeto de 1936.


Patrimônio do Cotidiano

A casa de Fiad Kalluf não é um palácio, nem um monumento oficial. Mas é, sem dúvida, um patrimônio do cotidiano — daqueles que contam a história real das cidades: feita de pessoas comuns, sonhos modestos e construções que resistem ao tempo não pela grandiosidade, mas pela função, afeto e pertencimento.

É raro encontrar documentação tão completa para uma edificação tão simples: planta baixa, corte detalhado, alvará de construção (nº 2150/1936) e imagem contemporânea. Esse conjunto de registros é um tesouro para historiadores, urbanistas e arquitetos, pois revela como a cidade se expandiu por meio de pequenos gestos: um comerciante que ergue sua casa-loja, um arquiteto que desenha com cuidado cada detalhe, uma família que planta raízes em uma esquina.


Homenagem a Fiad Kalluf

Mais do que um nome nos documentos, Fiad Kalluf representa a geração de empreendedores anônimos que construíram Curitiba com trabalho, fé e visão de futuro. Sua casa, hoje sede da Farmácia 29 de Março, continua a servir à comunidade — agora com remédios em vez de tecidos, mas ainda com o mesmo propósito: cuidar das pessoas.

Que esta história seja lembrada não apenas nos arquivos técnicos, mas nas conversas de bairro, nos passeios urbanos e nas aulas de arquitetura. Porque patrimônio não é só o que se preserva em museus, mas também o que continua vivo, funcionando, respirando com a cidade.

E na esquina da Brigadeiro Franco com a Padre Anchieta, Fiad Kalluf ainda mora — em cada tábua, em cada janela, em cada história que ali se cruzou.


Referências Arquivísticas:

  1. CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto para casa de negócio para o Snr. Fiad Kalluf. Planta baixa do pavimento térreo e sótão, fachadas frontais voltadas para as duas ruas, corte e implantação. Corte C-D, com destaque para a escada, apresentados em duas pranchas. Microfilme digitalizado.
  2. Alvará de Construção nº 2150/1936.
  3. Fotografia de Elizabeth Amorim de Castro (2012).

“As cidades se constroem com tijolos, mas se habitam com memórias.”