sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Um Legado de Madeira e Memória: A Casa de Fiad Kalluf na Esquina da História

 Denominação inicial: Projéto de casa para o Snr. Fiad Kalluf

Denominação atual: Comercial – Farmácia 29 de Março

Categoria (Uso): Residência e Comércio
Subcategoria: Residência de Pequeno Porte

Endereço: Rua Brigadeiro Franco esquina com Rua Padre Anchieta

Número de pavimentos: 2
Área do pavimento: 110,00 m²
Área Total: 110,00 m²

Técnica/Material Construtivo: Madeira

Data do Projeto Arquitetônico: 26/08/1936

Alvará de Construção: N° 2150/1936

Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de casa para residência e comércio, Alvará de Construção e fotografia do imóvel.

Situação em 2012: Existente


Imagens

1 – Projeto Arquitetônico.
2 – Corte C-D da residência.
3 - Alvará de Construção.
4 – Fotografia do imóvel em 2012.

Referências: 

1 e 2 - CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto para casa de negócio para o Snr. Fiad Kalluf. Planta baixa do pavimento térreo e sótão, fachadas frontais voltadas para as duas ruas, corte e implantação. Corte C-D, com destaque para a escada, apresentados em duas pranchas. Microfilme digitalizado.
3 - Alvará n.º 2150
4 – Fotografia de Elizabeth Amorim de Castro (2012).

Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba; Prefeitura Municipal de Curitiba.

Um Legado de Madeira e Memória: A Casa de Fiad Kalluf na Esquina da História

Na confluência de duas das artérias mais simbólicas do bairro do Bigorrilho, em Curitiba — a Rua Brigadeiro Franco e a Rua Padre Anchieta — ergue-se, desde 1936, uma construção modesta, mas carregada de significado. Trata-se da residência e comércio projetada especialmente para Fiad Kalluf, um homem cujo nome, embora silenciado nas narrativas oficiais da cidade, ecoa com vigor nas tábuas de madeira, nas janelas de guilhotina e na disposição funcional de um dos mais singelos e expressivos exemplares da arquitetura residencial-comercial do entre-guerras em Curitiba.


O Sonho de Fiad Kalluf: Entre o Lar e o Balcão

Em 26 de agosto de 1936, o arquiteto Eduardo Fernando Chaves assinava um projeto que traduzia com rara sensibilidade as aspirações de uma classe média urbana emergente: construir um espaço onde a vida doméstica e a atividade comercial coexistissem em harmonia. Fiad Kalluf, comerciante visionário, desejava mais do que uma casa — queria um lugar que fosse lar, ofício e identidade. Assim nasceu o “Projéto de casa para o Snr. Fiad Kalluf”, um documento técnico que se tornaria um testemunho afetivo da cidade em transformação.

Com apenas 110 metros quadrados distribuídos em dois pavimentos, o edifício parece pequeno à primeira vista. Mas é exatamente nessa aparente simplicidade que reside sua grandeza. Toda a estrutura foi erguida em madeira, material que na época representava não apenas economia, mas também agilidade construtiva e uma estética intimista, próxima do cotidiano. A casa era pensada para abrigar uma família no andar superior, enquanto o térreo serviria como loja de bairro — um modelo arquitetônico comum na época, mas raramente tão bem resolvido.


Arquitetura Funcional, Beleza Discreta

O projeto de Chaves revela um domínio refinado dos princípios do funcionalismo moderno, ainda que adaptado às realidades locais. A planta do térreo organiza-se de forma direta: a frente voltada para a Rua Brigadeiro Franco abrigava o comércio, com vitrine ampla e acesso facilitado. Ao fundo, um pequeno quintal e as áreas de serviço garantiam privacidade e praticidade.

O pavimento superior, acessado por uma escada destacada no corte C-D — uma das mais belas representações técnicas do projeto — acolhia os aposentos da família. As fachadas voltadas para ambas as ruas traziam janelas simétricas, venezianas de madeira e um beiral que sombreava com elegância os espaços internos. Apesar de modesto, o edifício dialogava com as ruas, inserindo-se no tecido urbano com discrição, mas presença.

A escolha da madeira como sistema construtivo principal não foi apenas técnica, mas cultural. Em uma Curitiba ainda marcada pela imigração sírio-libanesa, a carpintaria era uma linguagem familiar. Cada ripa, cada viga, carregava o ofício de artesãos que moldavam a cidade com as próprias mãos. Fiad Kalluf, provavelmente imigrante ou filho de imigrantes, sabia bem o valor disso.


Da Casa ao Comércio: A Farmácia 29 de Março

Ao longo das décadas, o destino do edifício seguiu o ritmo das transformações urbanas. O comércio que um dia pode ter sido uma mercearia, uma tecelagem ou um armazém de secos e molhados, transformou-se. Em algum momento do século XX, ali se instalou a Farmácia 29 de Março — nome que evoca não apenas uma data, mas talvez uma memória familiar, um aniversário, uma celebração. A residência no andar superior, por sua vez, provavelmente continuou abrigando famílias, talvez sucessoras de Fiad ou novos moradores atraídos pela localização privilegiada.

Em 2012, a fotógrafa Elizabeth Amorim de Castro registrou o imóvel ainda de pé, firme como testemunha silenciosa de quase oito décadas de história. Apesar das inevitáveis modificações — uma nova fachada, talvez novos revestimentos, vitrines modernizadas — o esqueleto original ainda se fazia reconhecível. A escada, as proporções, o ritmo das janelas: tudo isso permanecia como eco do projeto de 1936.


Patrimônio do Cotidiano

A casa de Fiad Kalluf não é um palácio, nem um monumento oficial. Mas é, sem dúvida, um patrimônio do cotidiano — daqueles que contam a história real das cidades: feita de pessoas comuns, sonhos modestos e construções que resistem ao tempo não pela grandiosidade, mas pela função, afeto e pertencimento.

É raro encontrar documentação tão completa para uma edificação tão simples: planta baixa, corte detalhado, alvará de construção (nº 2150/1936) e imagem contemporânea. Esse conjunto de registros é um tesouro para historiadores, urbanistas e arquitetos, pois revela como a cidade se expandiu por meio de pequenos gestos: um comerciante que ergue sua casa-loja, um arquiteto que desenha com cuidado cada detalhe, uma família que planta raízes em uma esquina.


Homenagem a Fiad Kalluf

Mais do que um nome nos documentos, Fiad Kalluf representa a geração de empreendedores anônimos que construíram Curitiba com trabalho, fé e visão de futuro. Sua casa, hoje sede da Farmácia 29 de Março, continua a servir à comunidade — agora com remédios em vez de tecidos, mas ainda com o mesmo propósito: cuidar das pessoas.

Que esta história seja lembrada não apenas nos arquivos técnicos, mas nas conversas de bairro, nos passeios urbanos e nas aulas de arquitetura. Porque patrimônio não é só o que se preserva em museus, mas também o que continua vivo, funcionando, respirando com a cidade.

E na esquina da Brigadeiro Franco com a Padre Anchieta, Fiad Kalluf ainda mora — em cada tábua, em cada janela, em cada história que ali se cruzou.


Referências Arquivísticas:

  1. CHAVES, Eduardo Fernando. Projéto para casa de negócio para o Snr. Fiad Kalluf. Planta baixa do pavimento térreo e sótão, fachadas frontais voltadas para as duas ruas, corte e implantação. Corte C-D, com destaque para a escada, apresentados em duas pranchas. Microfilme digitalizado.
  2. Alvará de Construção nº 2150/1936.
  3. Fotografia de Elizabeth Amorim de Castro (2012).

“As cidades se constroem com tijolos, mas se habitam com memórias.”

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