10 com Grau 10: As Mulheres que Brilharam em Curitiba
10 com Grau 10: As Mulheres que Brilharam em Curitiba
Da revista Desenvolvimento Paranaense, anos 1960
Na Curitiba dos anos 1960, a revista Desenvolvimento Paranaense publicou uma série especial intitulada “10 com Grau 10”, dedicada a mulheres de destaque na vida social, cultural, artística e intelectual da capital paranaense. Eram perfis detalhados, que iam além da simples apresentação pessoal, retratando trajetórias, valores, influências e o papel fundamental que essas mulheres exerciam na construção e na dinâmica da sociedade curitibana. Abaixo, o conteúdo completo e aprofundado desses perfis, reunido e organizado a partir das páginas originais.
Senhora José Maschke: Elegância, Cultura e Distinção
A primeira personalidade apresentada é Senhora José Maschke, que aos 19 anos já reunia todas as qualidades que a tornariam uma das figuras mais admiradas da cidade. De formação refinada, sua educação incluiu não apenas o conhecimento acadêmico, mas também uma profunda sensibilidade artística e uma compreensão aguçada das relações humanas.
Seu perfil descreve-a como alguém que “detesta de personalidade, invulgar requinte, conceito e distinção”: possuía um gosto apurado para tudo o que era belo, correto e elegante, evitando sempre o que era excessivo ou vulgar. Essa busca pela perfeição e pelo bom gosto não era apenas uma questão estética, mas um estilo de vida, que se refletia em cada detalhe do seu comportamento, da sua casa e das suas escolhas.
Muito viajada, ela percorreu os principais centros culturais da Europa e das Américas — experiências que ampliaram ainda mais a sua visão de mundo e a sua bagagem cultural. Em cada viagem, absorvia o que havia de melhor nas artes, na arquitetura, na moda e nos costumes, trazendo para Curitiba referências que ajudaram a elevar o padrão cultural da cidade.
Tinha uma predileção especial pela literatura francesa, considerada por ela como a mais completa e expressiva de todas as literaturas. Conhecia de cor e salteado obras de grandes autores, e sua biblioteca era um verdadeiro tesouro, repleta de edições raras e valiosas. Mas seu interesse não se limitava à França: admirava profundamente autores como Saint-Exupéry, Hermann Hesse e Knut Hamsun, além de compositores como Bach, Beethoven, Brahms e Schumann, cujas obras faziam parte da sua vida diária e da sua sensibilidade.
Pessoalmente, era descrita como “distinta, reservada, de trato suave e elegante”, que, ao viajar para a Europa, era recebida com a mesma admiração e respeito que tinha em sua terra natal. Dizia-se que ela tinha “o que há de melhor e mais nobre em cada raça e cultura”, uma síntese de qualidades que a tornava única.
Não se limitava apenas ao mundo das ideias e das artes: possuía um espírito prático, dinâmico e muito atento ao que acontecia na sociedade. Era considerada uma das “figuras de maior expressão intelectual feminina do Paraná e do Sul do Brasil”, e não apenas por seu conhecimento, mas pela forma como o aplicava: sempre disposta a ajudar, a ensinar e a compartilhar o que sabia.
Sua atuação ia também ao encontro do desenvolvimento econômico e social: casada com o industrial José Maschke, era uma parceira essencial nos negócios e nas iniciativas da família, mas sempre mantendo a sua própria identidade e o seu espaço. Dizia-se, com admiração, que ela era “uma espécie de luz que iluminava tudo o que tocava”, uma mulher que reunia em si “todas as virtudes de uma mulher perfeita”, na visão da sociedade da época: inteligência, beleza, educação, generosidade e bom senso.
Sua personalidade artística era notável: além da literatura e da música, apreciava a pintura, o teatro e todas as formas de expressão cultural. Sua casa era um ponto de encontro de intelectuais, artistas e personalidades importantes, como Jorge Amado e Antônio Munhoz, que frequentemente a visitavam e a tinham como uma referência de inteligência e requinte.
Senhorinha Vanna Mazza: Inteligência, Espírito e Versatilidade
A segunda personalidade é Senhorinha Vanna Mazza, uma mulher que, na juventude, já se destacava por sua personalidade forte, inteligência viva e uma capacidade incomum de se adaptar a qualquer ambiente. Dizia-se que ela tinha “o dom de ser sempre agradável, de encantar a todos com a sua presença”, e que sua principal qualidade era a espontaneidade: nunca fingia, nunca interpretava um papel — era sempre ela mesma, autêntica e verdadeira.
Vanna era descrita como “uma das pessoas mais completas que se poderia conhecer”: tinha uma cultura vasta, adquirida não apenas nos estudos, mas na leitura constante, nas viagens e na observação do mundo. Sua inteligência era rápida e perspicaz, e ela possuía uma memória admirável, capaz de lembrar detalhes, nomes, fatos e obras com precisão incrível.
Sua formação moral e intelectual era sólida: tinha princípios claros, respeito pelos outros e uma visão de mundo que unia tradição e modernidade. Era profundamente religiosa e orientada por valores éticos, mas ao mesmo tempo aberta ao novo, ao diferente e ao progresso. Seus pontos fortes eram a modéstia, a simplicidade e a capacidade de ouvir — qualidades raras em pessoas de destaque, e que faziam dela ainda mais admirada.
Conhecia e dominava com facilidade vários idiomas: francês, inglês, italiano, alemão e até o latim, e essa habilidade permitia-lhe ler obras originais, conversar com pessoas de diferentes países e entender profundamente outras culturas.
Na arte e na cultura, seu interesse era amplo: apreciava a música em todas as suas formas, desde a erudita até a popular, e tinha um conhecimento detalhado de compositores e obras. Adorava pintura, escultura, arquitetura e literatura, e em sua casa havia um acervo valioso de livros, quadros e objetos de arte, sempre dispostos com gosto e harmonia. Conhecia profundamente autores como Shakespeare, Goethe, Dante, Racine, Molière, além de grandes nomes da literatura brasileira e paranaense.
Mas Vanna não era apenas uma mulher de letras e artes: tinha também um lado prático e dinâmico. Era secretária e colaboradora ativa de instituições importantes, como a Casa de Hermes Matos, e participava de iniciativas sociais e culturais que visavam o desenvolvimento de Curitiba e do Paraná. Dizia-se que ela tinha “o dom de transmitir conhecimento, de ensinar com simplicidade e clareza”, e que suas palestras, conferências e conversas eram sempre muito procuradas.
Seus passatempos e interesses eram variados: seu “hobby” principal era o estudo das diferentes partes do mundo, sua geografia, história e costumes — um interesse que a levou a viajar muito e a conhecer diversos países. Gostava também de “jogos de inteligência”, como xadrez e palavras cruzadas, atividades que exercitavam a sua mente e que ela dominava com facilidade.
Era muito presente na vida social e cultural da cidade: frequentava concertos, exposições, conferências e eventos literários, e era sempre uma das convidadas mais esperadas. Tinha uma relação especial com Maria Del Vechio, outra grande personalidade curitibana, e com o pintor Hermes de Macedo, com quem compartilhava ideias, projetos e a paixão pela arte.
Sua personalidade era marcada pela alegria de viver, pela cordialidade e pela simpatia: tinha o dom de fazer amigos, de manter relações duradouras e de ser sempre útil a quem precisava. Era, nas palavras da revista, “uma mulher que enriquece tudo o que toca, que deixa uma marca positiva e inesquecível em cada pessoa que a conhece”.
Senhora João Carlos Mader: Vera Rechmann, Arte e Expressão
A terceira personalidade é Senhora João Carlos Mader, nascida Vera Rechmann, aos 19 anos já era reconhecida como uma das maiores promessas da arte paranaense e brasileira. Filha de família tradicional de Curitiba, com raízes na cultura e na educação, ela cresceu em um ambiente onde a arte era parte do dia a dia — e desde cedo demonstrou um talento excepcional para a pintura.
Casada com o jovem militar João Carlos Mader, ela uniu a vida familiar e social com uma carreira artística brilhante. Dizia-se que “nenhum acontecimento importante na cidade acontecia sem que ela estivesse presente, com a sua arte, a sua presença e a sua simpatia”.
Sua vocação para a pintura se manifestou muito cedo: ainda adolescente, participou de exposições e conquistou o primeiro lugar em concursos importantes, em Curitiba, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 1956, realizou uma exposição individual no Salão Nacional de Belas Artes, na qual recebeu elogios de críticos, artistas e do público — um marco na sua carreira e um reconhecimento do seu talento.
A pintura era, para Vera, “uma forma de expressão inconfundível, uma forma de ver e sentir o mundo”. Suas obras retratavam paisagens, pessoas, costumes e a essência da vida paranaense, sempre com uma técnica apurada, cores vibrantes e uma sensibilidade única. Ela dominava diferentes estilos e técnicas, mas mantinha sempre a sua identidade: uma arte que falava ao coração, que emocionava e que representava a cultura e a identidade do Paraná.
Não se limitava apenas ao ateliê: durante anos, expôs constantemente na Biblioteca Pública do Paraná, um espaço que se tornou um ponto de referência para a arte na cidade, e onde centenas de pessoas tiveram o primeiro contato com o seu trabalho. Suas exposições eram sempre eventos importantes, reunindo artistas, intelectuais, autoridades e o público em geral.
Era considerada “uma das figuras mais expressivas da nova sociedade artística do Sul do Brasil”, e não apenas pela sua obra: pela sua personalidade, pela sua forma de agir e pela sua generosidade. Tinha uma vida social intensa, mas sempre equilibrada com a dedicação à arte e à família; era amiga de todos, tinha um trato afável e uma simpatia que cativava a todos.
A revista anunciava, ainda, que nos próximos números da série “10 com Grau 10”, seriam apresentadas outras mulheres notáveis de Curitiba, com perfis dedicados a áreas como Beleza, Cultura, Filantropia, Ballet e Charme — mostrando como, em cada campo de atividade, havia mulheres que se destacavam, que contribuíam e que faziam a diferença na vida da cidade.
O Significado de “10 com Grau 10”
Mais do que uma simples série de perfis, “10 com Grau 10” era um reconhecimento: em uma época em que a participação feminina na vida pública ainda era limitada, essas mulheres eram apresentadas como exemplos de excelência, de inteligência, de talento e de dedicação. Eram referências não apenas para outras mulheres, mas para toda a sociedade curitibana, pois representavam o que havia de melhor na cultura, na arte, na educação e nas relações humanas da cidade.
Cada uma delas, à sua maneira, ajudou a construir a identidade de Curitiba: uma cidade que sempre valorizou a cultura, o conhecimento e a boa convivência. Seus nomes, suas obras e suas histórias permanecem como parte viva da memória e da história da capital paranaense, lembrando-nos do quanto essas mulheres foram importantes para o desenvolvimento e o brilho da nossa terra.
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