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terça-feira, 2 de junho de 2026

FILHOS DA RODA

 FILHOS DA RODA





As rodas, também chamadas de "Roda dos Expostos", destinadas à receberem bebês abandonados da Idade Média, eram cilindros de madeira instalados nos muros de conventos e igrejas. Freiras retiravam o recém-nascido, cuidavam da criança e depois buscavam família para ela. Os enjeitados, geralmente, eram filhos de raparigas pobres, frutos de relações proibidas ou de prostitutas.

A primeira roda para bebês abandonados teria sido instalada em Roma em 1198 por ordem do papa Inocêncio III, alarmado com o número de recém-nascidos apanhados nas redes de pescadores no Rio Tevere. O Papa estabeleceu a criação de uma roda no hospital de Santo Spirito em Sassia, às portas do Vaticano, enquanto era atormentado por pesadelos recorrentes nos quais sonhava com os cadáveres de recém-nascidos flutuando no rio Tevere.

A partir daí, a roda de exibições se espalha como um incêndio por toda a Europa continental. A partir de meados de 1400, não houve um único hospital na Itália que não alocasse uma parte significativa de seus recursos para o manejo de enjeitados. Precisamente nesse período, porém, a roda das exposições vive seu período de máximo esplendor, também graças a uma crise econômica global que tornou particularmente difícil manter famílias numerosas.

Em Milão, sob a coordenação do Hospital Maggiore, os enjeitados foram "triados" em dois centros especializados. O hospital Brolo (na atual igreja de Santo Stefano) possuía uma creche dedicada às chamadas “crianças leiteiras”, ou seja, os recém-nascidos que acabavam de ser resgatados de uma roda do exposta e aguardavam colocação.

Um bebê precisa beber leite, e na Idade Média não havia leite artificial. Havia, portanto, uma necessidade muito urgente de cuidar dessas crianças em famílias onde a mãe estivesse disposta a atuar como babá/cuidadora. Assim, era destinada uma pequena quantia em dinheiro como reembolso de despesas para a babá e sua família. Era estipulado um contrato entre a cuidadora e o hospital, no qual a família "adotiva" se comprometia a tratar bem o bebê, a criá-lo com consciência e a fazer todo o possível para preservar sua saúde.

A partir de 1477, um regulamento interno do Ospedale Maggiore em Milão estabelecia que as babás deviam necessariamente residir em um raio de 12 milhas da cidade, e isso para permitir exames freqüentes pelo que hoje chamaríamos de "assistência social".

Os recém-nascidos podiam permanecer no domicílio da família cuidadora por um período de tempo entre dois a quatro anos. Decorrido o tempo contratado, as crianças voltavam a uma creche, instalada no Hospital de São Celso, que acolhia os, agora, chamados “filhos do pão ", porque, agora, as crianças já estavam desmamadas.

Então, o hospital buscava uma família adotiva para encaminhar a criança. As crianças que não eram adotadas, ficavam alojadas no hospital até atingirem a maioridade. O hospital dispunha de oficinas para ensinar uma profissão aos órfãos e encontrar um emprego para eles no momento da alta.

O Ospedale Maggiore de Milão ainda conserva um livro de "Entregas aos Trovatelli", que acompanha todos os contratos de acolhimento estipulados com famílias adotivas a partir do ano 1472 até o ano 1531. Num determinado período de trinta anos, constata-se que o hospital encontrou alojamento para mais de 800 crianças, com uma prevalência curiosa de mulheres sobre homens - 489 contra 329.

Como era de se esperar, quarenta por cento dos órfãos foram adotados pela cuidadora/babá que os havia levado sob custódia, sem ao menos retornar ao hospital após o período de amamentação. Os demais foram adotadas por casais que não podiam ter filhos próprios. Outros foram adotadas por maridos e mulheres que já tinham filhos biológicos. Houve aqueles que foram adotados por viúvas sem filhos ou, ainda, adotados por uma mulher solteira. Houve quem teve a sorte de ser confiado a um convento, e houve quem acabou na casa de um artesão que provavelmente quis, além de um filho para amar, alguém a quem ensinar o ofício.

As famílias adotivas comprometiam-se a "accipere in filium" o enjeitado, com a promessa de "vestire et calzare et instruere ad salutem anime et corporis". No caso das raparigas, os pais comprometeram-se também a conceder-lhes um dote cujo montante estava previsto no contrato, bem como a diligenciar no sentido de lhes encontrar um bom marido aos 20-22 anos.

Os enjeitados na Itália foram nomeados por séculos, atribuindo-lhes apenas o primeiro nome ao qual foi adicionado um sobrenome que indicava ser oriundo de determinado orfanato. Em Florença e na Toscana, a instituição infantil dos abandonados foi durante séculos o Hospital de Santa Maria Degli Innocenti. Assim, os abandonados recebiam o sobrenome Innocenti, Innocente, Degli Innocenti, Nocentida, Nocentini ou Nocentino.

Em Milão, a instituição que cuidou delas era o hospício de Santa Caterina della Ruota, anexo ao antigo complexo do hospital Sforza, que tinha uma pomba (colomba) como símbolo, por isso os enjeitados eram frequentemente apelidados de Colombo e Colombini. Assim se fortalecia o vínculo filial que ligava o filho abandonado à instituição que o acolheu.

Com maior frequência, porém, os abandonados eram chamados com sobrenomes que evidenciavam claramente sua condição de abandono: Eposto, Esposito, Orfano, Proietti, Sposito, Spositi, Trovatello, Trovatelli, Ventura, Venturelli, Venturini.

Outra forma de defini-los era referir-se ao seu nascimento ilegítimo: Bastardo, Bastardi, Dell'Incerti, D'Ignoto, D'Ignoti, D'Incerti, D'Incerto, D'Incertopadre, Sconosciuto, Sconosciuti, Incerto, Incerti, Incertopadre , Parentignoti, Spurio, Spuri. Também foram usados ​​sobrenomes referentes à piedade pública e / ou religiosa: Cadei, Casadei, Casadidio, Casagrande, Di Dio, Diotallevi, Diotiguardi.

No Brasil e nos demais países da Europa, a prática também difundiu-se e as rodas instaladas cumpriram sua função. As primeiras Santas Casas de Misericórdia no Brasil que receberam a roda dos expostos foram as de Salvador (1726) e a do Rio de Janeiro (1738).

No Brasil, o costume mais difundido quanto aos sobrenomes adotados eram: dos Santos, dos Anjos, de Jesus, de Maria, etc.

(Fotos ilustrativas do pinterest)

Paulo Grani