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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

FUGIU UMA ESCRAVA CRIOULA ...

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" Em 1854, abril, Curitiba tinha 161 anos - quando passou a ser "nossa capital", ganhando o jornal "Dezenove de Dezembro", também diário oficial, do qual era proprietário e redator o carioca Cândido Lopes, que dá nome a uma das mais importantes ruas do centro.

Foi quando saiu o primeiro anúncio classificado: "No Largo da Matriz n° 13, perto da padaria, cortam-se cabelos e fazem-se barbas. Preços razoáveis".

Nesses primeiros meses o Dezenove registra a chegada de Ângelo Onofre, diretor da companhia italiana, que montou no pátio da igreja (Praça Tiradentes) o famoso Circo Olímpico. O espetáculo de estréia ocorreu num domingo, 05/04/1854.

Se escravos fugiam, seu dono e senhor, mostrando-se perverso, como se tivesse perdido uma besta, punha anúncio no jornal. A fuga da escrava Amanda (Curitiba capital recém-nascida) deve ter causado impacto. O texto diz tudo: "Fugiu uma escrava crioula, bem preta, de estatura ordinária, cara redonda, olhos grandes, boa dentadura, dentes aguçados. Maviosa e afetada, Amanda tem mãos grandes como de homem. Trabalha com machado, munhecas grossas, dedos curtos, pequeno sinal de queimadura nas costas."

Há também notícias boas, comoventes. O estafeta Francisco Guilherme Telles, que conduzia a mala postal entre Curitiba e a Lapa (então chamada Vila do Príncipe), fazia esse percurso (12 léguas) a pé, mala nas costas.

Os lapeanos ou laponenses fizeram uma vaquinha para amainar os sofrimentos do estafeta. Eis o anúncio:

"O abaixo assinado faltaria a um dever de gratidão se deixasse de agradecer aos residentes na Vila do Príncipe, que tiveram a bondade de lhe fazer presente de um burro, a fim de aliviá-lo de suas penosas viagens desta capital à dita vila, na qualidade de estafeta, condutor de malas." Encerrando o agradecimento, Francisco Guilherme nele botou a data, assinando embaixo.

O Dezenove tinha uma seção dedicada a máximas, algumas bem interessantes. "Quem gasta menos do que tem, é prudente; quem gasta o que tem é cristão; quem gasta o que não tem é ladrão."

A edição de 07/05/1856, registra versos de Fernando Amaro, o grande poeta parnan-guara, dedicados à curitibana Leida:

"Vi-te, adorei-te, acompanhei-te os passos / Como atraído de um poder divino / Calcando as nuvens fui transpondo os montes / Pra ler nos olhos teus o meu destino."
Um ano e pouco depois, na flor dos 25 anos, Fernando Amaro morreu de congestão cerebral.

Paixão mesmo, dessas fantásticas, teve J.A. de F.D., que dedicou estes versos belíssimos à sua amada: "Dessa boca tão pequena e formosa / Um sorriso era minha aventura / Desses olhos de maga ternura / um olhar era minha alegria."

(Texto do advogado Francisco Brito de Lacerda publicado em Histórias de Curitiba / Foto ilustrativa de: brasiliana.fotografica.bn.br)

Paulo Grani