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sábado, 1 de agosto de 2026

MARIA FIRMINA DOS REIS: A VOZ QUE ABRIU CAMINHOS – PRIMEIRA ROMANCISTA NEGRA DA AMÉRICA LATINA

 

Maria Firmina dos Reis
Busto de Maria Firmina na Praça do Pantheon, em São Luís, Maranhão.
Nascimento
11 de março de 1822[1]

Morte
11 de novembro de 1917 (95 anos)[2]

Nacionalidadebrasileira
Ocupaçãoescritora e educadora
Magnum opusÚrsula (1859)
Escola/tradiçãoromantismo
Websitehttps://mariafirmina.org.br/ - https://mariafirminaoficial.com.br/

Maria Firmina dos Reis (São Luís, Maranhão, 11 de março de 1822[1][nota 1]Guimarães, 11 de novembro de 1917) foi uma professora, compositora[6] e escritora brasileira, considerada a primeira romancista negra da América Latina.[7][8][9]

Publicou em 1859 o livro Úrsula, considerado o primeiro romance abolicionista do Brasil e também fundou uma escola mista para filhas e filhos de lavradores.[10] O romance conta a história de um triângulo amoroso no qual os personagens são pessoas negras que contestam o sistema escravocrata.[11][12] Úrsula é considerado um livro revolucionário para o seu tempo por ser o primeiro romance abolicionista de autoria feminina da língua portuguesa e, possivelmente, o primeiro romance publicado por uma mulher negra em toda a América Latina.[4]

Biografia

Juventude e família

Maria Firmina dos Reis nasceu na Ilha de São Luís, no Maranhão, em 11 de março de 1822. Seu batismo, no entanto só ocorreu três anos depois, em 21 de dezembro de 1825[1], na freguesia de Nossa Senhora da Vitória, em São Luís. O atraso deveu-se a uma enfermidade que a afetou na infância. Seu registro de batismo não menciona o nome do pai, apenas seus padrinhos: o capitão de milícias João Nogueira de Souza e Nossa Senhora dos Remédios.[1]

Em 1830, mudou-se com a família para a vila de São José de Guimarães, no continente. Viveu parte de sua vida na casa de uma tia materna melhor situada economicamente.[1]

O único registro que menciona o nome do pai de Maria Firmina é sua certidão de óbito, datada de 17 de novembro de 1917, onde ele é identificado como João Pedro Esteves. Homem de posses, João Pedro era sócio do antigo dono de Leonor Felipa, mãe de Maria Firmina e escravizada, em uma companhia comercial.[1]

Segundo algumas fontes, seria prima do escritor maranhense Francisco Sotero dos Reis por parte da mãe, embora se desconheça com que fundamento e em que grau.[1]

Formação

Em 25 de junho de 1847, Maria Firmina tentou inscrever-se no concurso público para a cadeira de primeiras letras da vila de São José de Guimarães. No entanto, por ter sido batizada em 1825, sua idade legal era de 22 anos, sendo a idade mínima exigida de 25 anos, então ela solicitou uma nova certidão de justificação de batismo, alterando-a para sua real data de nascimento, 11 de março de 1822. Assim, conseguiu regularizar sua situação e foi admitida no concurso em 21 de julho do mesmo ano.[1]

Na certidão constava o nome de sua mãe, Leonor Felipa, uma escrava liberta. Leonor Felipa havia sido escravizada pelo comendador Caetano José Teixeira, falecido em 1819, grande comerciante e proprietário de terras na vila de São José de Guimarães, proprietário de uma companhia comercial com avultadas transações no fim do período colonial e no início do Império.[1]

Carreira

Após a aprovação na cadeira de Instrução Primária, exerceu a profissão como professora de primeiras letras, de 1847 a 1881.[13]

Em 1859, publicou o romance Úrsula, considerado o primeiro romance de uma autora do Brasil.[14]

Em 1887, publicou na Revista Maranhense o conto "A Escrava", no qual se descreve uma participante ativa da causa abolicionista.[15]

Aos 54 anos de idade e 34 de magistério oficial, anos antes de se aposentar, Maria Firmina fundou, em Maçaricó, a poucos quilômetros de Guimarães, uma aula mista e gratuita para alunos que não podiam pagar: conduzia as aulas num barracão em propriedade de um senhor de engenho, à qual se dirigia toda manhã subindo num carro de boi.[16] Lá, lecionava às filhas deste, aos alunos que levava consigo e a outros que se juntavam.[16] A acadêmica Norma Telles classificou a iniciativa de Maria Firmina como "um experimento ousado para a época".[16] Essa ação inovadora vai ao encontro das lutas das feministas brasileiras do final do século XIX que desejam a igualdade de ensino para meninas.[17]

Maria Firmina dos Reis participou da vida intelectual maranhense: colaborou na imprensa local, publicou livros, participou de antologias, e, além disso, também foi musicista e compositora.[18] A autora era abolicionista:[15] ao ser admitida no magistério, aos 22 anos de idade, sua mãe queria que fosse de palanquim receber a nomeação, mas a autora optou por ir a pé, dizendo a sua mãe: "Negro não é animal para se andar montado nele."[19] Chegou também a escrever um "Hino da Abolição dos Escravos".[19]

Descreveu-se, em 1863, como tendo "uma compleição débil, e acanhada" e, por conta disso, "não poderia deixar de ser uma criatura frágil, tímida, e por consequência, melancólica."[18] Os que a conheceram, quando tinha cerca de 85 anos, descreveram-na como sendo pequena, parda, de rosto arredondado, olhos escuros, cabelos crespos e grisalhos presos na altura da nuca.[18] Uma antiga aluna caracterizou-a como uma professora enérgica, que falava baixo, não aplicava castigos corporais, nem ralhava, preferindo aconselhar.[18] Era reservada, mas acessível, sendo estimada pelos alunos e pela população da vila: toda passeata de moradores de Guimarães parava em sua porta, ao que davam vivas e ela agradecia com um discurso improvisado.[18]

Vida pessoal

Maria Firmina dos Reis cultivou ao longo da vida muita discrição sobre sua intimidade. Nunca se casou, mas dedicou-se à maternidade adotiva, acolhendo e criando várias crianças. Maria Firmina foi autodidata no início de sua formação.[17]

Morte

Maria Firmina dos Reis morreu em 11 de novembro de 1917, aos 95 anos, cega e pobre.[20] Morreu na casa de uma ex-escrava, Mariazinha, mãe de um dos seus filhos de criação.[19]

É a única mulher dentre os bustos da Praça do Pantheon, que homenageiam importantes escritores maranhenses, em São Luís.[21]

Homenagens

Maria Firmina dos Reis foi homenageada em um doodle do Google, em 11 de outubro de 2019, em comemoração ao seu 194º aniversário.[22]

Maria Firmina dos Reis também foi a grande homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty de 2022.[23]

Em 28 de junho de 2024, Maria Firmina dos Reis recebeu como homenagem póstuma pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro a denominação da biblioteca pública localizada no Edifício São Sebastião, onde fica a sede do poder executivo municipal carioca. Funcionando no térreo, a biblioteca oferece internet e uma programação cultural, também possui quase 2.500 títulos literários disponíveis para empréstimo.[24]

Obras

Conceição Evaristo apresenta a “escrevivência” como a escrita de um corpo, de uma condição, de uma experiência negra no Brasil. O primeiro elemento que compõe a escrevivência, o corpo, reporta à dimensão subjetiva do existir negro, sendo um arquivo de impressões ao longo da vida, marcado na pele e na luta constante por afirmação e reversão de estereótipos.[25] A condição da mulher negra, o segundo elemento, evidencia diversos problemas herdados da situação colonial, visto que, por meio da escravidão, as mulheres foram subjugadas em diversos âmbitos.[26] A escrevivência de Maria Firmina dos Reis, uma escritora negra, também pode ser percebida na representação das suas personagens negras, pois a história da literatura influencia diretamente na nacionalidade e, por consequência, também na construção da imagem dos gêneros, meio utilizado para consolidação do poder masculino.[26]

Maria Firmina apresenta o negro em sua dimensão humana e confere a ele uma posição de sujeito de discurso, o que pode revelar uma íntima identificação com o negro escravizado, apresentando uma solidariedade que, nas palavras de Eduardo de Assis Duarte, “nasce de uma perspectiva outra, pela qual a escritora, irmanada aos cativos e a seus descendentes, expressa, pela via da ficção, seu pertencimento a este universo de cultura”.[17]

Lista de obras

Seleção obtida a partir do livro Escritoras brasileiras do século XIX: Antologia.[13]

Livros

Poemas

  • Publicados em: A Imprensa, Publicador Maranhense; A Verdadeira Marmota; Almanaque de Lembranças Brasileiras; Eco da Juventude; Semanário Maranhense; O Jardim dos Maranhenses; Porto Livre; O Domingo; O País; A Revista Maranhense; Diário do Maranhão; Pacotilha; Federalista.

Composições musicais

As composições que atualmente temos acesso foram copiadas pelo maestro Zequita, como era conhecido o saxofonista José Soeiro, que transcreveu as composições para a linguagem musical.[33]

  • Boi Caramba (música) (copista Zequita)[34]
  • Valsa (letra de Gonçalves Dias e música de Maria Firmina dos Reis) (cop. Zequita)[35]
  • Auto de bumba-meu-boi (letra e música);
  • Hino à Mocidade (letra e música) (cop. Zequita)[36]
  • Hino à liberdade dos escravos - fragmento composto por ocasião do 13 de maio (letra e música) (cop. Zequita)[37]
  • Rosinha (letra e música)[38]
  • Chamada dos Pastores (música)[39]
  • Valsa (música)[39]
  • Pastor estrela do oriente (letra e música);
  • Canto de recordação (“à Praia de Cumã”; letra e música).
  • Canção à Praia do Cumã – letra e música de Maria Firmina dos Reis (cop. Zequita)

MARIA FIRMINA DOS REIS: A VOZ QUE ABRIU CAMINHOS – PRIMEIRA ROMANCISTA NEGRA DA AMÉRICA LATINA

Da Ilha de São Luís a Guimarães: professora, escritora, compositora e abolicionista que desafiou seu tempo e marcou a história

INTRODUÇÃO: UMA VIDA DE LUTA E LUZ

Maria Firmina dos Reis (11 de março de 1822 – 11 de novembro de 1917) é uma das figuras mais extraordinárias da cultura e da luta social do Brasil. Reconhecida como a primeira romancista negra da América Latina, foi também professora, compositora, educadora pioneira e uma das vozes mais corajosas do abolicionismo. Sua obra e sua vida romperam barreiras de raça, gênero e classe, deixando um legado que atravessa os séculos.

I – ORIGENS E JUVENTUDE: RAÍZES DE RESISTÊNCIA

Nascida em São Luís do Maranhão, seu batismo só aconteceu três anos depois, em razão de uma doença na infância – registro que inicialmente não mencionava o pai, só aparecendo em sua certidão de óbito como João Pedro Esteves, homem de posses e sócio do antigo senhor de sua mãe, Leonor Felipa, uma mulher escravizada que conquistou a liberdade.
Em 1830, a família mudou-se para a vila de São José de Guimarães, onde viveu parte do tempo sob o amparo de uma tia materna. Cedo mostrou determinação: para prestar concurso público para professora, precisou corrigir sua certidão, pois o batismo tardio fazia com que parecesse mais nova do que realmente era. Ao provar que nascera em 1822, garantiu sua vaga e ingressou no magistério em 1847, exercendo a profissão com dedicação por 34 anos.

II – UMA EDUCADORA À FRENTE DE SEU TEMPO

Além das aulas oficiais, aos 54 anos fundou em Maçaricó, perto de Guimarães, uma escola mista e gratuita para crianças de famílias pobres, filhas e filhos de lavradores. Dava aulas num barracão, indo de carro de boi todas as manhãs. Não usava castigos nem repreensões ríspidas: preferia o conselho e o exemplo – uma prática revolucionária para a época, que defendia igualdade de ensino para meninos e meninas.
Sua postura era guiada por princípios firmes: ao receber a nomeação para o magistério, recusou ir em palanquim carregado por pessoas escravizadas, dizendo à mãe: “Negro não é animal para se andar montado nele.”

III – UMA ESCRITA QUE TRANSFORMOU A LITERATURA

Em 1859, publicou Úrsula – considerado o primeiro romance abolicionista do Brasil, o primeiro romance de autoria feminina na língua portuguesa com essa temática e, provavelmente, o primeiro romance escrito por uma mulher negra em toda a América Latina.
A história, que envolve relações amorosas e conflitos, coloca personagens negras como sujeitos com voz, sentimentos e dignidade, questionando o sistema escravista em pleno século XIX. Como define a escritora Conceição Evaristo, Maria Firmina praticou a “escrevivência”: escrever a partir da própria experiência e da condição de quem viveu e sentiu na pele os efeitos da opressão. Ela deu humanidade aos negros, rompendo com estereótipos e fazendo da literatura uma ferramenta de luta.
Seguiram-se outras obras: o romance Gupeva, o conto A Escrava (1887), poesias reunidas em Cantos à beira-mar e o Hino da Abolição dos Escravos. Também foi compositora – criou valsas, hinos, cantos de bumba-meu-boi e canções que preservaram a cultura popular maranhense.

IV – TRAJETÓRIA PESSOAL E FIM DE VIDA

De personalidade reservada mas acessível, nunca se casou, mas dedicou-se a criar várias crianças como filhos adotivos. Descreviam-na como pequena, parda, de rosto arredondado e cabelos crespos; falava baixo, mas falava com firmeza.
Morreu aos 95 anos, cega e com poucos recursos, na casa de Mariazinha, uma ex-escrava que havia criado. Mas sua pobreza material em nada diminui sua imensa riqueza intelectual e moral.

V – O LEGADO QUE PERMANECE

Hoje seu nome está entre os grandes nomes da literatura brasileira:
  • É a única mulher homenageada com um busto no Panteão de Escritores Maranhenses, em São Luís;
  • Foi destaque em Doodle do Google e na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) de 2022;
  • Em 2024, ganhou o nome dela uma biblioteca pública no Rio de Janeiro.
Sua obra e sua vida lembram que a literatura brasileira não se fez apenas em salões: foi construída também por mulheres negras, professoras, mães e lutadoras como ela – que transformaram palavras e ações em liberdade.

CONCLUSÃO

Maria Firmina dos Reis foi muito mais do que uma escritora: foi a prova de que educação, arte e coragem podem mudar o mundo. Sua voz, que rompeu o silêncio da escravidão e da invisibilidade feminina, continua a ecoar – lembrando-nos que cada palavra escrita com verdade é um passo na direção da justiça.