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sábado, 1 de agosto de 2026

MARIA JÚLIA DE FIGUEIREDO – OMONIQUÊ: A TERCEIRA GUARDIÃ DA CASA BRANCA

 

Maria Júlia Figueiredo
Nascimento
século XIX
Morte
Cargo

Maria Júlia de Figueiredo[1] (m. Salvador, 1890/94), também conhecida pelo título de Ialodê e por seu nome religioso de Omoniquê (Omoniké),[2][3] foi uma celebrada candomblecista de Salvador, capital da Bahia, que tornar-se-ia a terceira ialorixá do Candomblé Queto da Casa Branca do Engenho Velho, em sucessão de Marcelina da Silva, de 1885 até sua morte em 1890/94. Sua ascensão foi motivo de disputa dentro do terreiro, com Maria Júlia da Conceição Nazaré e os seus associados que decidiram abandonar Casa Branca do Engenho Velho para fundar o Terreiro do Gantois. Também ocupou as posições de ialaxé das gueledes e provedora-mor da Irmandade da Boa Morte.

Vida

Maria Júlia de Figueiredo nasceu em data incerta ao longo do século XIX. Era uma das filhas de santo de Marcelina da Silva, a Obá Tossi, que servia como ialorixá do terreiro da Casa Branca do Engenho Velho.[4] Seu orixá de devoção era Oxum. Sob a administração de Marcelina, era ialodê[3] e iaquequerê (mãe pequena).[5] Em 1885, a ialorixá faleceu e Maria Júlia de Figueiredo disputou a sucessão com outra iniciada da falecida, a saber, Maria Júlia da Conceição Nazaré. Uma vez que era a substituta legal, Figueiredo assumiu a posição de ialorixá do terreiro. Inconformada, Conceição Nazaré optou por abandonar a Casa Branca com seus asseclas e fundar seu próprio candomblé, no Terreiro do Gantois.[6] Nos demais anos de sua vida religiosa, Figueiredo ainda ocupou as posições de ialaxé das gueledes e provedora-mor da Irmandade da Boa Morte.[7] Quando faleceu em 1890/94, [a] foi sucedida como ialorixá por Ursulina de Figueiredo, que ficaria a frente da Casa Branca até 1925.[8]

Ver também

Notas

[a] ^ As fontes são inconsistentes quando à data da morte de Maria Júlia de Figueiredo. Em artigo de 2007 à Afro-Ásia da Universidade Federal da Bahia, Lisa Earl Castillo dá o ano de 1890,[1] mas em seu capítulo "Entre Memória, Mito e História: viajantes transatlânticos da Casa Branca" de Escravidão e suas sombras (2012), fornece o ano de 1892.[9] Nei Lopes, na Enciclopédia brasileira da diáspora africana (2014), estima que Maria faleceu em 1894.[8]

Referências

Bibliografia

MARIA JÚLIA DE FIGUEIREDO – OMONIQUÊ: A TERCEIRA GUARDIÃ DA CASA BRANCA

A liderança que preservou o axé e deu origem a novas linhagens na tradição Ketu baiana

INTRODUÇÃO: A CONTINUIDADE DO CAMINHO SAGRADO

Maria Júlia de Figueiredo, reverenciada nos caminhos do santo como Ialodê e Omoniquê, foi a terceira ialorixá do Ilê Axé Iá Nassô Ocá – a Casa Branca do Engenho Velho, o mais antigo terreiro de Candomblé do Brasil. Sua liderança, entre a morte de Marcelina da Silva em 1885 e seu falecimento entre 1890 e 1894, marcou um momento decisivo: a afirmação da sucessão legítima e o surgimento de novas casas que levariam a mesma fé por outros caminhos. Devota de Oxum, uniu a sabedoria herdada às funções que integravam o sagrado e a vida social negra em Salvador.

I – FORMAÇÃO E PREPARO: FILHA DE SANTO E MÃE PEQUENA

De nascimento datado ao longo do século XIX, foi uma das filhas de santo de Marcelina da Silva, a Obá Tossi, a segunda ialorixá da Casa Branca. Desde cedo trilhou os degraus da hierarquia religiosa: sob a orientação de sua mãe-de-santo, exerceu os cargos de Ialodê e Iaquequerê – a “mãe pequena”, braço direito da ialorixá e responsável por auxiliar na condução dos rituais, na ordem da casa e na transmissão dos conhecimentos sagrados. Seu orixá de cabeça e devoção era Oxum, a senhora das águas doces, da beleza, da fartura e da sabedoria feminina.

II – A SUCESSÃO E A DISPUTA: O AXÉ QUE SE MULTIPLICOU

Com a morte de Marcelina da Silva em 1885, abriu-se a sucessão à liderança máxima do terreiro. Maria Júlia de Figueiredo teve como opositora Maria Júlia da Conceição Nazaré, também filha de santo da ialorixá falecida. Reconhecida como a substituta legítima conforme as regras e a tradição da Casa Branca, assumiu o cargo de ialorixá.
Inconformada com o desfecho da disputa, Conceição Nazaré decidiu sair da Casa Branca acompanhada de seus adeptos e fundou o Terreiro do Gantois – um dos mais importantes e respeitados ilês da nação Ketu até hoje. O episódio ilustra como a sucessão, momento delicado de toda casa de santo, pode tanto preservar a linha original quanto fazer brotar novas raízes de um mesmo tronco sagrado.

III – LIDERANÇA E OUTRAS FUNÇÕES: SAGRADO E COMUNIDADE

Além de comandar os destinos espirituais da Casa Branca, Maria Júlia de Figueiredo ocupou postos que mostram a integração do Candomblé com outras formas de organização da população negra na Bahia oitocentista:
  • Foi Ialaxé das Gueledes, liderança ligada às sociedades de mulheres que preservam tradições, ritos e valores femininos na cultura iorubá;
  • Exerceu também o cargo de Provedora-Mor da Irmandade da Boa Morte – uma das mais antigas e importantes associações religiosas e sociais de mulheres negras da Bahia, espaço de solidariedade, fé e resistência.
Essas funções revelam que sua autoridade não se limitava aos rituais do terreiro: ela era uma referência para toda a comunidade, unindo o axé às práticas de ajuda mútua e de afirmação da identidade negra.

IV – FIM E SUCESSÃO: O LEGADO QUE SE RENOVA

Maria Júlia de Figueiredo faleceu em Salvador no período compreendido entre 1890 e 1894. Conforme a linha sucessória da Casa Branca, foi sucedida por Ursulina de Figueiredo, que permaneceria à frente do Ilê Axé até 1925, garantindo a continuidade da tradição iniciada por Iá Nassô, consolidada por Marcelina da Silva e mantida por ela mesma.

CONCLUSÃO: A GUARDIÃ QUE FEZ O CAMINHO CONTINUAR

A trajetória de Maria Júlia de Figueiredo – Omoniquê – mostra como a história do Candomblé se faz tanto pela permanência quanto pela expansão. Ao assumir a liderança no momento da disputa, manteve íntegra a linhagem da Casa Branca; ao ver parte da comunidade seguir outro caminho, testemunhou o nascimento de uma nova casa que também levaria adiante a mesma fé. Sua figura lembra que o axé não se apaga: ele se transmite, se divide e se multiplica, sempre guiado pelos princípios herdados das mães que vieram antes.