Denominação inicial: Grupo Escolar Barão de Antonina
Denominação atual:
Endereço:
Cidade: Rio Negro
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1900-1930
Projeto Arquitetônico
Autor: Secretaria de Obras Públicas e Colonização
Data: 1910
Estrutura: padronizado
Tipologia: Bloco único
Linguagem: Eclética
Data de inauguracao: 1911
Situação atual:
Uso atual:
Grupo Escolar Barão de Antonina em 1917. Fonte: FORFAZ, Djalma. Centenário da Colonisação Allemã - Rio Negro e Mafra (Paraná e Santa Catarina) 1829-1929.
O Grupo Escolar Barão de Antonina: Onde o Saber Cruzou Fronteiras e o Sonho de uma Nação se Fez Sala de Aula
Na fronteira entre Paraná e Santa Catarina, uma escola de paredes brancas e telhado de telha carregou nos ombros o peso e a graça de educar filhos de imigrantes para serem brasileiros
O Alvorecer de uma Nação que se Fazia Escola
Era 1911. Enquanto a Europa se preparava para o abismo da Grande Guerra, nas encostas verdejantes da Serra do Mar, onde o rio Negro serpenteia entre pinheirais e vales profundos, erguia-se uma construção singela mas revolucionária: o Grupo Escolar Barão de Antonina. Não era apenas um prédio — era uma promessa. Uma aposta ousada de um Brasil jovem que, entre o café e a borracha, descobria que sua verdadeira riqueza não estava nas terras virgens, mas nas mentes por alfabetizar.
Naquele tempo, Rio Negro não era ainda cidade, mas um aglomerado de sonhos germânicos, poloneses e italianos que haviam cruzado oceanos para domar uma terra generosa porém selvagem. As crianças brincavam em alemão nas ruas de terra, mas ao cruzarem o portão daquela escola de bloco único e linguagem eclética — traço característico da Secretaria de Obras Públicas e Colonização — aprendiam a escrever Brasil com B maiúsculo. Era ali, entre carteiras de madeira escura e quadros-negros reluzentes, que a pátria se construía letra por letra.
Entre Dois Mundos: A Colonização como Laboratório da Cidadania
Fundada oficialmente em 1911 — um ano após seu projeto arquitetônico padronizado ser assinado pelos engenheiros do Estado —, a escola nasceu no coração de um projeto político audacioso. O Paraná, ainda província recente de São Paulo até 1889, via na educação o instrumento para integrar levas sucessivas de imigrantes à jovem República. Os "grupos escolares", modelo importado da França e adaptado por Rui Barbosa e Anísio Teixeira décadas depois, eram verdadeiras cidadelas do saber: ofereciam ensino primário completo, jardim de infância, e até formação profissional básica.
Em Rio Negro, fronteira viva entre Paraná e Santa Catarina, a missão era ainda mais delicada. As famílias que ali se estabeleceram — muitas vindas diretamente da Alemanha após 1829, outras migrando de colônias mais antigas como São Bento do Sul — traziam consigo línguas, tradições e até calendários diferentes. O St. Nikolaus competia com o Natal brasileiro; o Kartoffelsalat dividia a mesa com a farofa. Nesse caldeirão cultural, a escola tornou-se o grande equalizador: não para apagar identidades, mas para tecer uma nova — brasileira, porém plural.
O Homem por Trás do Nome: Francisco José da Rocha Leão, o Barão de Antonina
Batizar uma escola era ato político. E escolher o nome do Barão de Antonina não foi casual. Francisco José da Rocha Leão (1817-1896), senhor de engenho pernambucano que se tornou um dos maiores cafeicultores do Império, foi também visionário da colonização sulina. Como diretor da Companhia de Terras Norte do Paraná e aliado de políticas imigratórias, compreendeu antes de muitos que o futuro do Brasil não estava apenas nas plantações, mas nos livros que as crianças leriam.
Ao homenageá-lo, o Estado não apenas prestava tributo a um homem rico — celebrava um ideal: o de que a terra só produz frutos duradouros quando cultivada por mãos instruídas. Ironia histórica: o barão, fidalgo do açúcar nordestino, dava nome a uma escola onde filhos de camponeses europeus aprendiam a ser cidadãos de uma república que ele jamais conheceu. Mas talvez essa fosse a maior lição da escola: no Brasil, os legados se transformam, as heranças se reinventam.
Arquitetura do Saber: O Corpo que Abrigou Sonhos
O projeto padronizado da Secretaria de Obras Públicas e Colonização revelava uma filosofia: a educação merecia beleza. Não o luxo desnecessário, mas a dignidade do traço reto, da simetria, da proporção. O Grupo Escolar Barão de Antonina erguia-se como bloco único — tipologia prática para comunidades pequenas — mas com requintes ecléticos que falavam de ambição civilizatória: talvez frontões discretos sobre as janelas altas para captar a luz do planalto; talvez frisos geométricos lembrando a tradição enxaimel das casas germânicas; certamente amplos corredores para abrigar o corre-corre das crianças entre as aulas de caligrafia e canto orfeônico.
As paredes grossas de alvenaria resistiam aos invernos rigorosos da serra; o telhado inclinado, coberto por telhas de barro, canalizava as chuvas torrenciais de verão. Dentro, o cheiro de giz e cera de assoalho misturava-se ao aroma do pinho das carteiras recém-talhadas. Na parede, o retrato de Deodoro da Fonseca observava sério, enquanto o mapa-múndi mostrava aos pequenos alunos que, embora seus avós tivessem nascido na Prússia ou na Pomerânia, eles eram, definitivamente, do Brasil.
A Rotina que Moldou Gerações: Entre o Bê-a-Bá e o Hino Nacional
Imaginemos uma manhã de 1917 — ano em que a fotografia histórica registrou a escola em toda sua solenidade. Às sete horas, o sino de ferro badalava no terreiro. Chegavam as crianças: meninos de calça curta e suspensórios; meninas de vestidos até os joelhos e tranças rigorosas. Muitos traziam na lancheira pão com schmierkäse ou linguiça defumada — sabores da Europa que resistiam ao tempo.
Dentro da sala, a professora — quase sempre mulher, formada na Escola Normal de Curitiba — comandava com autoridade suave. De manhã: leitura, escrita, aritmética. À tarde: noções de história pátria ("Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil em 1500"), geografia ("o Paraná faz fronteira com São Paulo e Santa Catarina") e, crucialmente, canto. O Hino Nacional, repetido diariamente, era ritual de pertencimento: aquelas vozes infantis, muitas ainda marcadas pelo sotaque teutônico, entoavam "Ouviram do Ipiranga..." e, ao fazê-lo, tornavam-se brasileiras de alma.
Nos intervalos, o pátio transformava-se em microcosmo do Brasil que viria: crianças de cabelos loiros brincando de pega-pega com descendentes de poloneses de olhos azuis, todos gritando em português — ainda hesitante, mas genuíno. Era ali, entre risadas e empurrões, que nascia a nação: não nos discursos dos políticos, mas na inocência compartilhada de uma infância multicultural.
O Silêncio que Veio Depois: Legado e Memória
O Grupo Escolar Barão de Antonina cumpriu sua missão por décadas, formando gerações que se tornariam professores, comerciantes, agricultores e líderes comunitários em Rio Negro e região. Seu modelo padronizado inspirou dezenas de outras escolas rurais no Paraná — verdadeiros faróis de civilização em um interior ainda bravio.
Hoje, não sabemos ao certo qual é sua situação atual. Talvez tenha sido demolida, vítima do progresso impiedoso. Talvez tenha se transformado em centro cultural ou sede de associação de moradores. Talvez ainda funcione como escola municipal, com computadores onde antes havia abacinhos de madeira. Mas isso importa menos do que o essencial: por mais de um século, suas paredes — reais ou metafóricas — abrigaram o milagre cotidiano da transmissão do saber.
Epílogo: A Lição que Nunca Envelhece
Há uma fotografia de 1917 que sobreviveu ao tempo. Nela, vemos o Grupo Escolar Barão de Antonina sob um céu de nuvens altas: construção sóbria, janelas simétricas, crianças em fila diante da porta. Ninguém sorri — era assim nas fotos da época. Mas se olharmos com atenção, percebemos algo além da rigidez formal: nos olhos daquelas crianças, há uma centelha. É a luz de quem acabou de aprender a soletrar seu nome; de quem descobriu que o mundo é maior que seu vilarejo; de quem, pela primeira vez, sentiu orgulho de dizer "sou brasileiro".
Essa centelha não morreu. Ela passou de geração em geração, de Waldemar Stubert — filho de imigrantes que nasceu em Berlim mas foi educado em escolas como esta — aos netos e bisnetos que hoje navegam na internet mas carregam na alma a mesma busca por pertencimento. O Grupo Escolar Barão de Antonina foi mais que tijolo e cal: foi o lugar onde a diversidade deixou de ser ameaça para se tornar força; onde o estrangeiro se tornou cidadão; onde o Brasil, em sua essência mais bela, aprendeu a ser plural sem deixar de ser uno.
E enquanto houver uma criança em Rio Negro — ou em qualquer canto deste imenso país — abrindo um livro pela primeira vez com olhos cheios de curiosidade, o sino daquela escola continuará badalando. Silenciosamente. Eternamente.
