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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Sarah Forbes Bonetta: A Princesa Africana que Passou de Cativeiro à Proteção da Coroa Britânica

 

Sarah Forbes Bonetta: A Princesa Africana que Passou de Cativeiro à Proteção da Coroa Britânica


Sarah Forbes Bonetta: A Princesa Africana que Passou de Cativeiro à Proteção da Coroa Britânica

Em 15 de agosto de 1880, a cidade do Funchal, na Ilha da Madeira, registrou o falecimento de uma mulher cuja vida foi um emaranhado de tragédia, sorte e uma trajetória extraordinária: Sarah Forbes Bonetta. Aos 37 anos, ela morreu vítima da tuberculose, deixando para trás uma história que começa nas guerras tribais da África, passa pela condição de escravizada, ganha contornos de realeza na Inglaterra e se torna um dos capítulos mais curiosos e humanos da relação entre o Império Britânico e o continente africano no século XIX.
Sua jornada começou muito antes, por volta de 1850. Na época, ela ainda se chamava Aina e nascera em uma família nobre do povo iorubá, numa região que hoje corresponde à Nigéria. Quando tinha cerca de 5 anos, sua tribo foi atacada e saqueada pelos soldados do rei Gezo, soberano do Reino do Daomé. Seus pais foram mortos na invasão, e a pequena Aina foi levada como espólio de guerra, tornando-se propriedade do monarca, que a manteve em cativeiro, obrigada a servir às suas ordens.
Foi nesse contexto que chegou à costa da África o capitão da Marinha Real Inglesa, Frederick Forbes. Sua missão era política e estratégica: pressionar o rei Gezo para que ele abolisse o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, comércio que a Grã-Bretanha já proibira e lutava para extinguir. As negociações, porém, não avançaram como o esperado. Os relatos da época indicam que o governante do Daomé não cedeu às exigências britânicas — mas, em um gesto que até hoje intriga historiadores, decidiu dar um “presente” ao capitão: a menina Aina, então com cerca de 7 anos. Forbes aceitou a criança e, pouco depois, rebatizou-a: passou a chamá-la de Sarah, o mesmo nome do seu navio, e acrescentou o seu próprio sobrenome, Forbes. Mais tarde, o nome ganharia o acréscimo de Bonetta, em referência a outra embarcação, marcando para sempre a sua nova identidade.
Ao retornar à Inglaterra, o capitão apresentou a menina à rainha Vitória. O encontro, realizado no Castelo de Windsor, mudou completamente o rumo da vida de Sarah. A soberana, conhecida por seu senso de dever e também por uma sensibilidade que frequentemente demonstrava em seus diários, ouviu a história da criança — da guerra, da morte dos pais, da escravidão — e ficou profundamente comovida. Em suas anotações, descreveu Sarah como “afiada, inteligente e muito esperta”, e decidiu, de imediato, acolhê-la sob sua proteção pessoal.
A partir de então, Sarah não foi apenas uma protegida: recebeu educação de qualidade, morou em instituições respeitadas e foi acompanhada de perto pela rainha, que se interessava por seu desenvolvimento, sua saúde e seu bem-estar. Era uma situação incomum e, em muitos aspectos, contraditória para a época: enquanto o Império Britânico mantinha estruturas coloniais profundamente desiguais e ainda lidava com os resquícios da escravidão, uma ex-cativa, de origem real africana, era tratada com respeito e proximidade pela própria monarca.
Essa convivência e proteção duraram até 1862, ano em que Sarah, já uma jovem adulta, se casou com James Davies, um próspero comerciante de Serra Leoa. A escolha do marido também tinha significado: ele era filho de pessoas que haviam sido escravizadas e conquistado sua liberdade, construindo uma vida de prestígio e fortuna. Como forma de gratidão e laço com a soberana que lhe dera uma nova vida, Sarah deu à sua primeira filha o nome de Vitória. A rainha, por sua vez, não se afastou: tornou-se madrinha da menina, assumiu os custos de sua educação e continuou a acompanhar os passos da família.
Sarah viveu parte de sua vida na África Ocidental, ao lado do marido, mas também viajou e viveu na Europa. Mesmo com todas as mudanças e oportunidades, sua saúde sempre foi frágil. Nos últimos anos, buscou alívio para os problemas respiratórios na Ilha da Madeira, clima considerado mais ameno, mas não resistiu à tuberculose.

Sua história é mais do que uma curiosidade: ela mostra as contradições do século XIX, a complexidade das relações entre África e Europa, e como uma criança, arrancada de sua terra e de sua família, teve sua trajetória transformada por um encontro inesperado. Sarah Forbes Bonetta não foi apenas uma “princesa africana” ou uma protegida da realeza: foi uma mulher que, apesar das tragédias de sua infância, construiu uma vida própria, deixando um legado que liga dois continentes e quebrando, em muitos sentidos, as barreiras impostas pela sua época.