Publicado em 9 de julho de 1850, portanto, há mais de 175 anos:
POST-SCRIPTUM (ESCRITO DEPOIS)
Hoje, às 11 horas da manhã, veio-nos às mãos o interrogatório feito pelo Delegado de Santos/SP ao prático do Cormorant e, por julgá-lo de interesse, apressamo-nos em dar a publicidade. Já havíamos dado a notícia do aprisionamento dos três navios em Paranaguá, feito por este vapor, porém, despida de esclarecimentos que não nos haviam sido fornecidos.
Agora confirmamos com esta peça autêntica, que nos informa daquilo que poderia ser observado a bordo do vapor. Resta saber o que se passou na Fortaleza (Nossa Senhora dos Prazeres) durante o fogo. Fazemos votos para que nenhuma vítima tenha perecido em tão louvável, quão patriótico esforço.
INTERROGATÓRIO FEITO A MANOEL FILIPPE SANTIAGO
Aos 5 dias do mês de julho de 1850, nesta cidade de Santos/SP e casas de residência do atual Delegado de Polícia suplente, João Octavio Nebias, onde fui vindo eu escrivão do seu cargo ao diante nomeado, para efeito de se interrogar a Manoel Filippe Santiago, para cujo fim achando-se presente, pelo dito Delegado foram-lhe feitas as perguntas seguintes:
Perguntado qual seu nome, idade, naturalidade e estado:
Respondeu chamar-se Manoel Filippe Santiago, natural de Paranaguá, idade que disse ter 21 anos, solteiro.
Perguntado qual sua profissão:
Respondeu ser pescador residente em Paranaguá.
Perguntado de onde foi sua última viagem para esta cidade e que negócio trouxe:
Respondeu que, estando pescando com seu irmão menor na Barra de Paranaguá, há 8 dias desta parte, apareceu naquele lugar um vapor de guerra inglês de três mastros, e que o comandante do mesmo chamou-lhe a bordo para servir-lhe de prático do canal que entra para a dita cidade de Paranaguá, ao que se querendo prestar ele interrogado por saber que o vapor era de guerra; mas o respectivo comandante o persuadiu declarando-lhe que não o faria mal algum e, sim, que ia refrescar, ao que então ele interrogado anuiu e embarcou, deixando seu dito irmão na canoa, a quem ordenou que se retirasse para casa; que entraram e foram dar fundo na Ponta da Cruz, cujo lugar é fronteiro à cidade (Paranaguá), por ordem do comandante; que logo depois deitaram ao mar três escaleres (pequenas embarcações a remo ou a vela), os quais se dirigindo para terra, a pretexto de fornecer-se de água e mantimentos, depois de alguma demora voltaram os escaleres rebocando os brigues “Serêa” e “Leonida”, os quais ficaram imediatamente pela popa do vapor; que logo depois chegou uma galera (ou galé - antiga embarcação longa e de baixo bordo) cujo nome ignora, tripulada por gente inglesa, da que tinha nos escaleres, e que sendo isto quase 5 horas da tarde, fundearam a dita galera perto do vapor, e ali pernoitaram. Disse mais, que no dia seguinte, por volta das 9 horas do dia (manhã), o vapor levantou a âncora e seguiu para a Barra, conduzindo a reboque os três navios já mencionados, e que ao chegar ao alcance da Fortaleza (Nossa Senhora dos Prazeres), receberam desta um tiro de pólvora seca, e logo depois um de bala, em consequência do que ele interrogado, disse ao comandante que fundeasse, porém, este não anuindo, seguiu sempre com os navios rebocados. Que houve fogo vivo de parte a parte até que ficaram as mencionadas embarcações fora do alcance das balas, de modo que resultou deste conflito um marinheiro morto, a popa, a caixa da roda (do vapor), e um escaler arrombados de bala. Disse ele interrogado, que achando-se um pouco amarados [[[Obs. Não entendi o que significa amarados]]] lançaram fogo aos dois brigues, os quais em pouco tempo foram consumidos pelas chamas, continuaram a rebocar a galera até a Barra de Cananéia, onde a tripularam e fizeram seguir para Santa Helena, para onde quiseram também remeter a ele interrogado, ao que lhe foi possível escapar a muitos rogos, e com o pretexto de casado. Que depois disso, gastando um dia de viagem, chegaram à Barra desta cidade (Santos/SP). Trouxeram a ele, interrogado, em um escaler com o intento de o largarem em terra, e que não o fazendo, levaram-no outra vez para o vapor, prometendo soltá-lo no dia seguinte, o que cumpriram ontem às 9 horas da manhã, pagando-lhe 7 (sete) patacões, e recomendando muito que nada declarasse nesta cidade do que tinha acontecido. Disse mais, que estando também ancorado no porto de Paranaguá o brigue nacional “Astro”, e pretendendo o comandante do vapor também apresa-lo no dia seguinte, segundo sua declaração. Ao amanhecer do dito dia seguinte, estava o mesmo “Astro” no fundo, e só aparecendo a ponta dos mastros, ignorando ele interrogado quem o fez. Disse mais, que no dia do combate ele, interrogado, viu afluir muita gente da ILHA DO MEL para a Fortaleza (Nossa Senhora dos Prazeres).
Perguntado se ele interrogado sabe como se chama o vapor inglês:
Respondeu que a bordo lhe diziam chamar-se “Alcatraz”, mas que nesta cidade ouviu dizer chamar-se Cormorant.
E nada mais disse, e nem lhe foi perguntado. E sendo lido ao interrogado seu interrogatório, este o achou conforme o que fora dito, e por não saber escrever, assinam Antônio José da Fonseca Leite, e Manoel das Dores, com o Juiz, e comigo Francisco Antonio Ferreira, Escrivão que o escrevi. — Nebias. — Antonio Jose da Fonseca Leite. — Manoel das Dores.
É o relato.
Fonte: O Conservador : Jornal Político e Industrial - São Paulo/SP, terça-feira, 9 de julho de 1850, Ano I, ed. 17, página 4.