sábado, 17 de abril de 2021

A praça Osório, em 1905. Intervenções urbanas eram “embellezamentos”. (Foto: acervo Fundação Cultural)

 


Conheça a história dos Planos Diretores de Curitiba - Parte I

Ônibus expressos enfileirados na Praça Generoso Marques, em 1972. A implantação da RIT nas vias estruturais não estava prevista no Plano Wilheim-IPPUC, mas foi sugerido por Agache. (Foto: acervo do IPPUC)

 


Plano Wilheim-Ippuc: conflitos e soluções para a Curitiba de 1966 - Parte II

Bonde tombado por estudantes na revolta de 1945 contra o aumento da passagem em dez centavos. (Foto: Reprodução/Arquivo Cid Destefani/Coluna Nostalgia/Gazeta do Povo)

 


Conflitos do transporte III: A alfafa subiu? A tarifa também...

Mercado Municipal funcionou na Praça Generoso Marques a partir de 1874 e em 1914 sua estrutura foi utilizada para construir o Paço Municipal. (Foto – Acervo Casa da Memória)

 


O crescimento do comércio em Curitiba. Três séculos de história

Praça Zacarias: de Largo do Ivo aos tempos atuais

 Registro nas atas, de 1855, revela quando a Câmara resolveu construir um chafariz no “Largo do Ivo”.

Praça Zacarias: de Largo do Ivo aos tempos atuais

A Praça Zacarias em 1936. (Foto - Acervo Casa da Memória)

Uma das praças mais antigas da cidade, a Zacarias tem muitas histórias para contar. O chafariz, que hoje enfeita e faz a alegria dos meninos de rua nos dias de calor, em outros tempos já foi fonte onde moradores lavavam suas roupas, na longínqua Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Já foi conhecida por vários nomes, como Largo do Ivo - o rio -, ou Largo da Carioca. Após terem construído uma ponte sobre o Ivo no local, também ficou conhecida como Largo da Ponte, num tempo em que o rio corria a céu aberto em toda a sua extensão.
 
Enchente em 1950 no Cine Luz, em frente à praça. (Foto - Acervo Casa da Memória) A praça sofreu diversas mudanças ao longo dos anos, até chegar ao que é hoje. Um registro nas atas do Legislativo de 31 de janeiro de 1855 revela quando a Câmara resolveu construir um chafariz no “Largo do Ivo”. Foi encaminhada ao presidente da Província, Zacarias de Góes e Vasconcelos, a solicitação de um engenheiro para fazer o projeto, por meio do qual o fiscal faria o orçamento para a obra. O pedido para se fazer um chafariz na praça já estava sendo ensaiado desde 1849. No dia 12 de abril daquele ano, o vereador Silva Carrão pedia orçamento para a construção de “hum chafariz no largo além da ponte do Ivo”, como registra a ata.
   
Em 1860, a fonte já precisava de consertos. A ata, de 10 de julho daquele ano, conta que havia sido aprovado pela Câmara o conserto da carioca. Um fiscal também ficava incumbido de proibir a lavagem de roupas na fonte, o que era praxe desde o início da colonização. Porém, era um costume difícil de se abandonar, já que água encanada não era algo nada popular.
   
Sempre foi rodeada por construções famosas, como o antigo Cine Luz, inaugurado em 1939 e destruído por um incêndio em 1961, e o Museu Paranaense, de 1876 (hoje no palácio São Francisco).
   
O primeiro Mercado Municipal de Curitiba também ficava na Zacarias. Registros revelam que, em 1856, a Câmara discutia a construção de um mercado. Foi lida uma portaria do presidente da província ordenando à Casa que encaminhasse uma remessa da planta e do orçamento aproximado da Praça de Mercado da capital para a Assembléia Provincial.
 

Outra reforma em 1960 (Foto - Acervo Casa da Memória) Em agosto de 1858, a Câmara lia outra portaria do governo da província avisando ter ordenado à tesouraria que pusesse à disposição da Casa a quantia de dois mil réis para a continuação das obras da Praça do Mercado.
   
Com o passar dos anos, a praça foi se transformando, devido às várias reformas que sofreu. Em 1915, foi toda reformada e batizada pela última vez, tendo recebido o monumento de Zacarias de Góes e Vasconcelos, em homenagem ao primeiro presidente da província do Paraná. Em 1960, outra reforma. Em 1976, foi totalmente repaginada, com ares modernistas que deram a ela a aparência que conserva até hoje.
Última grande reforma, em 1976. (Foto - Acervo Casa da Memória)

A imagem da Praça Osório registrada em 1928 mostra o aumento da dinâmica da cidade (Imagem: Casa da Memória)

 


A nevasca e outros fatos que marcaram Curityba no ano de 1928

A história da construção do Palácio Rio Branco

 


A história da construção do Palácio Rio Branco

Uma das primeiras imagens do Palácio Rio Branco, o antigo “Palácio do Congresso”, inaugurado em junho de 1891, mas concluído apenas em 1895. As janelas ainda não haviam sido instaladas. Vê-se à direita, a antiga garagem de bondes tracionados por mulas (Fo

O Palácio Rio Branco, sede da Câmara Municipal de Curitiba desde 1963, foi construído logo após a proclamação da República com o objetivo de ser a sede da Assembleia Legislativa do Estado. Os fatos políticos em torno da construção do prédio (cuja reinauguração acontecerá nesta semana, no dia 27 de março) são o tema do texto publicado agora pela Assessoria de Comunicação do Legislativo, como parte da pesquisa que há seis anos divulga a história de Curitiba.

Três fatores determinaram a construção do Palácio Rio Branco no final do século XIX: um relativo à política nacional e dois relativos a questões locais. O regime republicano, em vigor a partir de novembro de 1889, precisava marcar presença com edificações que representassem visualmente a instituição de uma nova fonte de poder político no Brasil. Havia também a real necessidade de um novo prédio para a Assembleia Legislativa, haja vista que a casa do Comendador Manoel de Moraes Roseira, antiga sede do poder legislativo estadual na Rua da Assembleia (atual Doutor Muricy), encontrava-se em estado precário – a construção era anterior a 1854.

Além disso, é necessário lembrar a acirrada rivalidade que contrapôs as duas forças políticas mais em evidência no estado do Paraná naquele momento: Conservadores (que sob a liderança de Vicente Machado fundaram o Partido Republicano) e Liberais (adeptos do sistema monárquico que se adaptaram ao novo regime político fundando a União Republicana, sob a chefia de Generoso Marques dos Santos), conforme esclarece Mônica Goulart em sua pesquisa de doutorado chamada “Classe dominante e jogo político na Assembleia Legislativa Paranaense”.

O Paraná foi governado durante os primeiros meses da República por sete políticos nomeados pelo Marechal Deodoro. Foi justamente neste período transitório, mais precisamente no dia 18 de outubro de 1890, que o engenheiro italiano Ernesto Guaita (radicado em Curitiba desde 1875) recebeu o convite para a direção das obras de um novo mercado, de um novo matadouro público e de um novo prédio para a Assembleia, conforme se verifica na edição do jornal “A República”, de 20 de novembro daquele ano. Neste documento constava a necessidade de que o novo prédio do Congresso Estadual (como era conhecida a Assembleia) fosse concluído em cinco meses. O engenheiro aceitou apenas a obra do Congresso, assinando o contrato uma semana após o convite na sede da Câmara Municipal, conforme relatou o mesmo jornal no dia 25 de novembro.

Prédio elegante
O convite feito ao engenheiro estava vinculado à disputa política entre os grupos de Vicente Machado e Generoso Marques. Machado, advogado natural de Castro, estava à frente de uma Comissão Administrativa que fora criada para prestar auxílio aos governadores nomeados – além de também ocupar os cargos de chefe de polícia e chefe da instrução pública, mas em pouco tempo ele se indispôs com um daqueles governadores provisórios, e acabou por ser afastado, numa circunstância que fortaleceu o grupo de Generoso Marques. Como havia a perspectiva da criação de uma Assembleia Constituinte Estadual e também da Assembleia Legislativa propriamente dita, Generoso articulou para que o novo prédio fosse construído no menor tempo possível, com o intuito de que sua inauguração coincidisse com a instalação das referidas assembleias (cujas lideranças ele previu serem suas).

De fato, com apoio do governador provisório José Cerqueira de Aguiar Lima, Generoso Marques se tornou o primeiro governador eleito do Estado e deu início às atividades da Assembleia Constituinte no novo prédio, que ainda não estava concluído. De qualquer modo, a edificação foi inaugurada com festas por Generoso em 30 de maio de 1891, conforme relata o jornal “Diário do Comércio” do dia posterior (grafia original):

“(...) Em vários pontos da rua da Liberdade erguiam-se arcos enramalhados com várias inscripções. Estavam embandeirados todos os edifícios públicos. O edifício em que funcciona o congresso é um prédio elegante, apropriado, banhado de luz e de ar, e que faz honra aos conhecimentos technicos do senhor doutor Ernesto Guaita. Installados os senhores congressistas nas respectivas cadeiras, declarou installado o Congresso o senhor Generoso Marques, cahindo então de um dos pontos da galeria esquerda muitas pétalas de flores, o que novamente succedeu logo após a terminação da leitura da mensagem feita pelo senhor secretário de governo. Apezar da crescida concurrencia de povo, correu tudo na melhor ordem e harmonia”.

Viva o Dr. Generoso!
O pesquisador Ricardo Costa de Oliveira, autor do livro “O silêncio dos vencedores”, lembra que o governo de Generoso (que também ocupava uma cadeira no Senado) durou pouco. Com a dissolução do Congresso Nacional pelo adoentado Marechal Deodoro em 3 de novembro de 1891, e sua posterior renúncia no dia 23, ergue-se a figura de Floriano Peixoto, o “marechal de ferro”, que dissolve todas as Assembleias Legislativas Estaduais (menos a do Pará). Generoso ainda tentou inutilmente manter as rédeas da situação no Paraná, inclusive com o uso de forças policiais, mas tudo em vão.

De acordo com o relato do escritor e memorialista Túlio Vargas, Generoso e seus correligionários foram cercados no prédio do quartel-general que ficava na Praça Tiradentes por tropas do Exército. Prevendo a chacina, Generoso decide entregar o poder sem resistência, mas, já na praça, o então deputado estadual Telêmaco Borba (sertanista e chefe político da cidade de Tibagi) soltou um grito insolente: “Viva o doutor Generoso!”. Apesar da ousadia, ninguém teve a coragem de prender  Telêmaco, conhecido por seu temperamento explosivo. Esta junta governativa foi substituída posteriormente com a eleição de Francisco Xavier da Silva e Vicente Machado. Sob o direcionamento do grupo político de Machado, uma segunda Constituição Estadual foi aprovada por nova assembleia constituinte em 7 de abril de 1892, e permaneceu em vigor até 1927.

Não fui eu, disse Vicente Machado
O prédio passaria por uma série de reformas e melhoramentos nos anos seguintes, sendo que tais obras foram brevemente interrompidas quando eclodiu a Revolução Federalista. Curitiba foi invadida por tropas revolucionárias gaúchas lideradas pelo coronel Gumercindo Saraiva, nos primeiros meses de 1894. Vicente Machado já não estava mais na cidade, cuja segurança teria sido garantida por Ildefonso Correia, o Barão do Serro Azul, que negociou com os invasores para que eles não ferissem os moradores ou depredassem os patrimônios públicos e privados. Esta atitude lhe custaria a vida por ocasião do retorno de Vicente Machado ao poder, em maio daquele ano. Generoso teve a oportunidade de assumir o governo do Estado, mas declinou em favor de Menezes Dória, inimigo histórico de Vicente Machado.

Segundo o escritor Rocha Pombo em seu livro “Para a História”, Curitiba ingressou em um período de “caça às bruxas” e, durante muito tempo, a população evitava sair às ruas com medo dos fuzilamentos e degolas promovidos pela polícia contra os supostos simpatizantes da Revolução Federalista. A degola era uma prática comum no período: basta lembrar o notório caso da jovem Maria Bueno, assassinada pelo amante um ano antes da invasão de Curitiba.

Maria José Correia, a Baronesa do Serro Azul, acusou Vicente Machado de ser o responsável pela morte de seu marido, executado com cinco companheiros no quilômetro 65 da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá em maio de 1894. Alguns dos primeiros discursos proferidos por Machado no Palácio do Congresso (que passou a funcionar sem uma reinauguração oficial) foram no sentido de negar tais acusações. Machado morreria de câncer em 1907. No ano seguinte, uma coalizão entre os dois grupos políticos (Conservadores e Liberais) garantiu a Generoso Marques uma sobrevida política que só veio a terminar dois anos antes de sua morte, em 1928.

O prédio construído pelo engenheiro Guaita foi sede da Assembleia até 1957, quando ela foi transferida para o Centro Cívico. Seis anos depois, a construção foi rebatizada Palácio Rio Branco, e passou a comportar as atividades da Câmara Municipal de Curitiba.

Facebook da Câmara Municipal
Em comemoração aos 321 anos da cidade, o Legislativo lançou nesta semana mais duas ferramentas de comunicação da Câmara de Curitiba. Visite a nossa nova página oficial no Facebook (www.facebook.com/CamaraCuritiba) e confira também fotos novas e antigas do Palácio Rio Branco no Flickr (www.flickr.com/photos/camaracuritiba). Lembrando que todo o conteúdo está na internet, em www.cmc.pr.gov.br, e no Twitter, www.twitter.com/camaracuritiba. 

Referências Bibliográficas:


Castro, Elizabeth Amorim de. Edifícios Públicos de Curitiba – Ecletismo e Modernismo na Arquitetura Oficial. Edição do Autor. Curitiba, 2011. (impresso)

Corção, Izabel; Carneiro, Newton e Lyra, Cyro Corrêa de Oliveira. O Palácio do Congresso – Câmara Municipal de Curitiba – Histórico e Restauração. Boletim da Casa Romário Martins, n. 23, ano 4. Fundação Cultural de Curitiba (FCC). Curitiba, 1978. (impresso)

Diário do Comércio, 30 de maio de 1891. Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional. Disponívem em http://hemerotecadigital.bn.br/

Goulart, Monica Helena Harrich Silva. Classe dominante e jogo político na Assembléia Legislativa Paranaense (1889-1930). Tese apresentada para o doutorado em Sociologia da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2008. Link aqui.

Oliveira, Ricardo Costa de. O Silêncio dos vencedores – Genealogia, classe dominante e Estado no Paraná. Editora Moinho do Verbo, 20ª Edição. Curitiba, 2001. (impresso)

Pombo, Rocha. Para a Historia – notas sobre a invasão federalista no estado do Paraná. Fundação Cultural de Curitiba (FCC), 1ª edição. Curitiba, 1980. (impresso)

Sutil, Marcelo. O Espelho e a Miragem. Editora: Travessa dos Editores, 1ª edição. Curitiba, 2009. (impresso)

Vargas, Túlio e Carneiro, David. História biográfica da república no Paraná. Edição: Banestado. Curitiba 1994. (impresso)

Órfão pobre se torna grande líder. Sobre Generoso Marques. Site O Paraná, 7 de julho de 2013.Link aqui.

Jornal Diário do Comércio, 30 de maio de 1891. Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional. Disponível em http://hemerotecadigital.bn.br/


https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/a-historia-da-construcao-do-palacio-rio-branco-1

1913: A explosão que deixou Curitiba de luto

 


1913: A explosão que deixou Curitiba de luto

Diário da Tarde, edição do dia 2 de julho de 1913. Exemplar disponível para consulta em microfilme na Biblioteca Pública do Paraná. (Reprodução – Foto Chico Camargo/CMC)

Em 1913, às 14 horas do dia 1º de julho, uma grande explosão nos armazéns da antiga estação da estrada de ferro Curitiba/Paranaguá atingiu o Palácio Rio Branco – onde hoje são realizadas as sessões plenárias da Câmara de Curitiba – fazendo com que o prédio passasse por uma reforma. O estrondo se fez ouvir na cidade inteira, assim como pôde ser vista uma grande nuvem de fumaça. Quatorze pessoas morreram e outras inúmeras ficaram feridas.

O Diário da Tarde – periódico que circulava na cidade à época –, naquele mesmo dia, anunciou: “Às duas horas da tarde de hoje, mais ou menos, enorme estampido ensurdecedor echoou pela cidade, dando o alarme de um sinistro acontecimento. Por toda a cidade houve a princípio um instante de estupor e depois de verdadeiro pânico e desespero. Que seria?”

Três carroças, carregadas com aproximadamente 730 quilos de pólvora negra, foram pelos ares, em frente ao armazém de Paranaguá – que, segundo informações do Museu Ferroviário, ficava na avenida 7 de Setembro com a Marechal Floriano e onde hoje há um shopping. O explosivo estava sendo carregado por praças (patente militar inferior à de segundo-tenente) até a estação. O carregamento havia sido vendido pelo Ministério da Guerra ao sr. Alexandre Gutierrez, que tinha o objetivo de utilizá-lo em pedreiras na Serra do Mar.

Os danos atingiram todas as casas próximas, ao ponto de caírem as vidraças com os caixilhos. Um eixo de carroça atravessou o muro do Congresso (Palácio Rio Branco) de lado a lado. “Foi objecto da nossa atenção a fachada do edificio do Congresso que lança para a Praça Euphrasio Correia, até os prejuízos foram importantes pela ruptura de todas as vidraças e dos móveis internos”, informou o jornal Commercio do Paraná, no dia seguinte.

“No palácio do governo (na rua Barão do Rio Branco, hoje Museu da Imagem e do Som em reforma) caiu o estuque de uma das salas”, descreveu o Diário, no dia seguinte. Também nas ruas Silva Jardim, “Ratcliff” (atualmente Dr. Westphalen), Visconde de Guarapuava, Floriano Peixoto e praça Eufrásio Correia os prédios ficaram com as vidraças quebradas.

Bondes, linhas telegráficas e telefônicas pararam de funcionar. “Pontos negros se destacaram, como si corvos esvoaçando desordenadamente: eram destroços da explosão – fragmentos de carroças, de animaes, frangalhos de corpos humanos, telhas etc”, informou o Diário da Tarde. Segundo o mesmo, houve estragos desde o Batel até os fins da rua XV de Novembro.

Em poucos minutos, moradores de diversas regiões vieram conferir o ocorrido. Quase toda a população da capital paranaense correu até lá. “Pelas imediações da estação jaziam os destroços da explosão. Aqui, vísceras, cabeças separadas dos corpos; ali, cavalos mortos, outros fragmentos, enfim, uma infinidade de destroços, atestando a violência inaudita da explosão” (Diário da Tarde, 1/7/1913).

A tragédia, à época, pelo número de habitantes da cidade (cerca de 50 mil)², foi considerada uma verdadeira “hecatombe”. “Nos annaes das grandes desgraças humanas, raramente se registrará tão emocionante tragédia”, lamentou o Diário no dia seguinte.

De fato, até hoje em Curitiba não se viu explosão de tamanho alcance. Ressalte-se que, em 1976, um caminhão que transportava aproximadamente 1.500 quilos de dinamite explodiu no Cabral, divisa com Juvevê. Três pessoas morreram. No asfalto, ficou uma cratera com quase três metros e muitos estragos, como relata Anna Carolina Azevedo, autora do livro “Dinamite” – publicação que conta a história. “De fato, o impacto na estação de trem foi muito maior, pensando nas pessoas mortas, mas a dinamite em 1976 acabou com boa parte de um bairro”, relembra.

Já em 1990, uma loja de fogos de artifício na rua Visconde de Guarapuava com a Westphalen explodiu, matando três pessoas da mesma família. Mas os estragos, ainda assim, foram em menor escala.

Em 1913, a estação de trem era bastante movimentada, pois levava diariamente pessoas para Paranaguá, interior do Estado, São Paulo e Rio de Janeiro. “Muitos dos moradores dos hoteis e imediações da estação, grandemente surpresos com o terrível choque, em gritos alucinantes pediam socorro como que se estivessem sob o peso de um grande terror”, Diário da Tarde, 2 de julho de 1913.

Foi assim, em detalhes, que o jornal descreveu como a população recebeu o susto. “A exma. Sra. d. Francisca Munhoz Cavalcanti, esposa do dr. Carlos Cavalcanti (presidente da província à época e que hoje dá nome a uma rua no bairro São Francisco), ouvindo o ruído da explosão, emocionou-se grandemente, sendo victima de ligeira syncope. A exma. Senhora julgou que tivessem arremessado uma bomba de dynamite no palácio presidencial”. (Diário da Tarde, 1/7/1913)

Muitos acreditavam que estar no ano de 1913 era um sinal de azar, como se pode perceber em um trecho de texto publicado na revista humorística e literária A Bomba, do dia dez daquele mês:

“- Sou supersticioso, confesso. E o diabo do 13: estamos em 1913.

Concordei. Mas concordei de um modo diverso: estendei mais a superstição. Achamos que a fatalidade não se enclausura em um número qualquer, nem no 10 nem no 13. Tanto assim, que muitas pessoas até consideraram o 13 um número feliz! Ella, a fatalidade, deve ser cega, e por isso cai sobre qualquer número, infallivelmente. Cái e passa e deixa silêncios enigmáticos à nossa perturbadora compreensão”.

As causas da explosão
De acordo com o Diário da Tarde, a pólvora fora recentemente arrematada em concorrência pública aberta pela intendência da 11ª região militar, com sede na capital. Foi vendida por ser considerada “inaproveitável” para o serviço de  artilharia. Foi levada até a estação por militares, a pedido do próprio comprador.

Conforme o mesmo periódico, antes do acidente, por volta das 13 horas, praças saíram com a pólvora do 2º esquadrão de trem, do depósito de inflamáveis da intendência da 11ª região militar, que ficava junto a uma chácara no Água Verde. (Diário da Tarde, 2/7/1913)

O Commercio do Paraná informou que eram três carroças contendo 39 tambores do explosivo, num total aproximado de 730 quilos. Nelas estavam nove praças do Esquadrão de Trem e da Bateria de Obuzeiros (canhões). Enquanto os soldados descarregavam, um deles entrou no armazém com um cunhete de munição (caixote feito para abrigar este tipo de material), que teria como destino a Intendência da Guerra, no Rio de Janeiro.

Em depoimento à polícia, o pesador João Walter, que sobreviveu à tragédia, disse que não quis receber a carga, visto que era terça-feira e o dia dos explosivos era somente na quarta-feira. “Insistindo o pesador em não receber a carga, após pequena discussão, o soldado apanhou o cunhete e voltando para a porta exasperadamente gritou: 'Pois eu é que não volto mais com esta droga'. E acto contiuno atirou o cunhete de cartuchos contra as pedras da calçada, com toda a violência” (Commercio do Paraná, 2/7/1913).

A consequência foi imediata. Uma das carroças que estava perto foi atingida pelo fogo, explodindo todas as outras, como contam os dois periódicos.

Nos dias subsequentes surgiram outras versões nos noticiários. Uma delas apontava para um eventual contato com um fio elétrico da rede de bondes da cidade, que passava em frente à estação. Outra dizia que um dos praças deixou cair um fósforo aceso sobre um tambor de pólvora, detonando os demais.

“Cremos, portanto, prevalecer a 1ª (versão), aliás, confirmada pelo testemunho do pesador João Walter que vio o soldado jogar o perigoso cylindro ao solo”, opinou o Commercio do Paraná no dia três.

Palavra de especialista
Em uma análise atual do contexto, o especialista em explosivos da Delegacia de Explosivos, Armas e Munições da Polícia Civil (DEAM), Lourival Prehs, mais conhecido como “Bombinha”, diz que a primeira versão é perfeitamente possível.  “Antigamente essas munições tinham fulminato de mercúrio, um composto químico bem sensível à fricção e ao impacto. Não eram como as de hoje”, explicou.

Ele, que é químico e trabalha há 40 anos com estes artefatos, disse que, atualmente, além de maior segurança no fabrico destes materiais, há mais cautela no transporte e armazenamento dentro da cidade. “Para movimentar qualquer tipo de explosivo ou fogos de artifício dentro de Curitiba é necessário conseguir uma licença da DEAM. Primeiro analisamos o que será transportado e as condições de armazenamento, antes de liberar”, explicou Prehs.

No seu entendimento, lembrar do passado faz com que os erros não se repitam no futuro e, vale a máxima, de que todo o cuidado é pouco. “Com explosivo você só erra uma vez, não tem chance de errar a segunda”, alertou.

“Vem de molde que se registre a irregularidade de sinão, pelo menos a imprudência, de se entregar a condução de carga tão perigosa a soldados arrebatados e inconscientes da missão de que lhes investiram. Sirva de exemplo para que no futuro se destaque um oficial que, com a responsabilidade de seu cargo e preparo technico, saiba conduzir soldados portadores de valores da nação cujo sacrifício acarretará a vida de operosos cidadãos”, Commercio do Paraná, 2 de julho de 1913.


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Uma princesa nos trilhos da nossa história

 


Uma princesa nos trilhos da nossa história

A princesa Isabel veio a Curitiba em 1884 para a primeira viagem oficial da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá. Não foram encontrados registros fotográficos da família imperial na capital paranaense, portanto, tentamos reproduzir a cena. (Foto das crianç

Nesta semana, comemora-se o aniversário da princesa Isabel (29 de julho de 1846). Pouca gente sabe, mas quando a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá estava para ser inaugurada, a capital recebeu a visita dela, com o marido, Conde d'Eu, e os filhos Pedro, Luis e Antônio, em 1884. Juntos, eles fariam a primeira viagem oficial da ferrovia – mas a grande inauguração seria feita somente no dia 1º de fevereiro de 1885. Para esperá-la, a cidade estava em festa, com as casas iluminadas e as ruas enfeitadas com bandeiras e arcos. Uma série de reportagens, que começa com esta, vai contar como foi a visita e como era a “Curityba” do século XIX.

“A commissão de festejos roga a todos os dignos commerciantes desta praça o obsequi de fecharem os estabelecimentos, hoje das 2 horas da tarde em diante e, outrossim, pede aos habitantes da capital, que se dignem de illuminar a frente de suas casas durante as noites em que aqui permanecerem SS. Altezas.” Assim anunciou o jornal O Dezenove de Dezembro, que noticiou cada passo da família nestas terras de muito pinhão. Um boletim do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense (IHGPR), publicado em 1972, transcreve a carta diário que a princesa escreveu a seus pais, D. Pedro II e Dª Tereza Cristina.

Mas é o relato de um repórter da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, que acompanhou toda a visita, que chama a atenção pela riqueza de detalhes e impressões pessoais. Ele descreve não só o passeio, mas também a cidade da época. As visitas à Santa Casa, às fábricas de mate, às colônias do Abranches e Taboão, à Câmara Municipal e ao Palácio do Governo, além dos contratempos do final do assentamento da estrada de ferro, são os fatos narrados de forma pitoresca pelo jornal.

Saindo de Paranaguá às seis horas da manhã, suas altezas chegariam a Curitiba de trem, naquela que seria a primeira viagem oficial pela via-férrea, no dia 29 de novembro de 1884. Faltavam 20 dias para as comemorações da Emancipação Política do Paraná, e a inauguração do trajeto era um presente à cidade, em alusão à data.

A linha ainda não havia sido concluída até a estação da Praça Eufrásio Correia, e a família imperial teve de descer na altura do bairro Cajuru e terminar o trajeto em carruagens. A expectativa, de acordo com a Gazeta de Notícias, era de que, talvez, durante os dias que ficassem em Curitiba e arredores, a estrada desse por concluída e a despedida (13 de dezembro) já fosse na estação. No entanto, ocorreram alguns contratempos, que serão contados mais adiante, em outra reportagem da série.

A edição 348 da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro traz o relato da viagem, que incluiu um café da manhã em Morretes e um almoço na estação do Cadeado, ambos oferecidos pelo engenheiro da estrada, João Teixeira Soares. No Cadeado, um pavilhão foi montado especialmente para a ocasião, “e de onde se descortina um vista esplêndida, baía de Paranaguá ao longe. A serra do Marumbi à direita. Que magnífica serra! E como estava banhada de luz!”, descreve a princesa em sua carta a D. Pedro II.

“Cheios de saudades, estou certo, deixaram hoje pela manhã a cidade de Paranaguá Suas Altezas Imperiaes e a sua comitiva, que levou d'esta cidade a mais grata recordação. A's 6 horas da manhã, prompto o comboio, seguiram os augustos viajantes pela estrada de ferro do Paraná, em companhia do engenheiro chefe e dos outros empregados da linha e grande numero de pessoas”, relata o jornal carioca, que complementa: “na frende da machina collocaram-se dous carros abertos, em um dos quaes iam Suas Altezas, e no outro os engenheiros da estrada, o estado maior do Sr. conde d'Eu e os representantes da imprensa e da côrte, para poderem ver a via-ferrea e as suas bellas obras d'arte. A' proporção que se sobe, vão se descortinando panoramas esplendidos, e do alto da serra do Marumby, que se acha a 1800 metros acima do nível do mar, e a mais de 80 kilometros de Paranaguá, avista-se a entrada da barra desta cidade, como em toda a subida em differentes pontos e posições o mar, de lado de Paranaguá”, documenta o periódico.

“Que viagem! Nunca vi, creio eu, estada de ferro mais bela, com mais pontos de vista esplêndidos, seguidos dos famosos campos do Paraná, verdadeiros parques ingleses, com seus grandes gramados, com muita florzinha bonita, e os massiffs [bosque espesso, segundo o boletim do IHGPR] formados pelos belos pinheiros”, escreve a herdeira, aos pais.

O trem parou em Piraquara, “indo Suas Altezas a pequena distancia apanhar parasitas, flores, e ver a herva matte denominada chimarrão e o cipó que figurou na exposição de Philadelphia em 1876” (Gazeta do Rio de Janeiro). Mais adiante, em uma localidade chamada Atauba (km 100) – hoje identifica-se o local de parada como sendo no bairro Cajuru –, ponto até onde iam os trilhos do trem, às 3h40 da tarde, foram recebidos pelo comendador Ildefonso Corrêa e “grande numero de pessoas importantes de Curitiba, e muitos carros [carruagens] que conduziram os augustos viajantes e sua comitiva á capital do Paraná, onde chegaram ás 5 horas da tarde, fazendo-se viagem pelo leito da estrada”, relata o jornal.  

Foram recepcionados na porta do palácio de Ildefonso Corrêa por “colonos polacos” e moças que carregavam bandeiras, e homens com galhardetes e ramos. “O Sr. conde d'Eu, da sacada do palacio, agradeceu a manifestação, proferindo um discurso, no qual pediu aos colonos que alliados aos brazileiros fizessem prosperar o Brazil, cujo solo lhes daria a recompensa dos seus esforços. Terminou levando vivas aos colonos e ao Brazil.” Segundo o relato do periódico carioca, o conde começou seu discurso em allemão e terminou-o em “polaco”, “por lhe terem dito que os colonos eram d'esta nacionalidade”.

“De noite, os alemães vieram com lanternas de cores e com cânticos nos cumprimentar. Há muitos alemães e polacos por aqui, e muita carinha de criança tenho visto que me faz lembrar as de Petrópolis. Curitiba é uma bonita cidadezinha: Ruas alinhadas, casas muito limpinhas, alguns edifícios bonitos...”, constatou Isabel.

No dia seguinte, percorreram a cidade e assistiram uma missa celebrada na Igreja Matriz. “A' 1 hora da tarde houve cortejo, ao qual compareceram todos os officiaes e commandantes dos corpos actualmente em Curityba. SA, a princesa imperial, os principes e seus preceptores percorreram a cidade e arrabaldes, voltando a palacio quasi ao anoitecer.” (Gazeta do Rio de Janeiro)

Nos relatos que se seguem nas reportagens do correspondente carioca, nota-se um grande interesse de Conde d'Eu pelos quartéis da cidade, enquanto a princesa Isabel preferiu os passeios no campo e as paisagens.

No dia 7 de dezembro, as altezas imperiais seguiram para o interior da província, indo a princesa Isabel até Palmeira acompanhar Conde D'Eu e assistir à festa de Nossa Senhora da Conceição. Dali, ela voltaria a Curitiba. Ele, junto ao seu estado-maior e os representantes da imprensa da côrte, por terra, visitariam a província de Santa Catarina, “onde deveriam encontrar-se com S. A. a princeza imperial, que vai por mar”, conforme deu a Gazeta do Rio de Janeiro.


https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/uma-princesa-nos-trilhos-da-nossa-historia

Princesa Isabel e um retrato dos prédios de Curitiba em 1884

 


Princesa Isabel e um retrato dos prédios de Curitiba em 1884

Quando a princesa Isabel visitou a Santa Casa não foram poupadas críticas ao prédio, por parte do jornal carioca. (Foto: Acervo Cid Destefani, em exposição no Palácio Rio Branco da Câmara/Reprodução: Michelle Stival)

“Se por fóra elle é bonito, por dentro é horroroso, só tendo de bom a capella em estylo gothico e o necroterio no mesmo gosto. Para este edificio póde empregar-se o ditado – por fora cordas de viola, por dentro pão bolorento.” Foi exatamente assim que a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, no dia 3 de dezembro de 1884, reportou sobre as dependências da Santa Casa de Misericórdia, por ocasião da visita da família imperial a Curitiba. Era um espaço praticamente recém-criado, inaugurado em 1880 pelo próprio imperador, Dom Pedro II, e que por muitos anos foi o único hospital da cidade.  

Embora seja possível notar o expressivo mau humor com que o repórter carioca – enviado especialmente para cobrir a comitiva da princesa Isabel – abordou certos assuntos da capital paranaense, por meio de seus relatos é possível delinear alguns traços de Curitiba que não estão nos livros, tampouco em fotografias. Não é de se estranhar seu descontentamento, acostumado que estava a viver na cidade que recebera todos os mimos e investimentos por ser sede do Império do Brasil.

“Dividido em muitas salas, algumas acanhadas e sem ar, na maior parte vazias e infectas, taes são as enfermarias onde se encontram actualmente 31 doentes, sendo 10 loucos, 7 mulheres e tres homens, um dos quaes estava nú. As camas e os colchões (se é que o são) não abonam muito o estabelecimento, nem a irmandade, que é o provedor e medico do hospital, o Sr. Dr. Albuquerque... Tem o hospital uma boa pharmacia e um excellente enfermeiro”, continuou.

“O hospital, por fóra é de bonita apparencia, e, construido n'um estylo que nem é gothico, nem dorico, é uma melange de architecturas, mas que mostra o gosto de quem o desenhou e de quem executou as obras”, descreveu. A casa de saúde fora fundada pelo Dr. José Candido da Silva Murici, que dá nome à alameda Dr. Muricy.

Diferente foi o relato da princesa Isabel, que, em uma carta diário destinada a seus pais D. Pedro II e Dª Tereza Cristina, reconheceu a falta de recursos, mas foi suave ao retratar o cenário. “Depois do almoço visita ao hospital de Caridade, com poucos recursos, mas bem arranjado. Capelinha muito bonita, feita com madeiras do Paraná. O Dr. Pires [Atonio Carlos Pires de Carvalho e Albuquerque], provedor da irmandade e médico daí, agradou-me. Dizem ser muito boa pessoa e muito caridosa. O estilo arquitetônico do hospital é inglês, do tempo da Rainha Isabel, bonito. Só é pena que tivessem caiado todo o edifício. Dessa forma não lhe terão deixado todo o seu cunho.”  

A história da inauguração da Santa Casa, que contou com a presença do imperador D. Pedro II, é contada pelo jornalista da Câmara Municipal João Cândido Martins, em outra matéria publicada na seção do Nossa Memória (leia na íntegra). Ocorreu no dia 22 de maio de 1880 e foi um marco da influência alemã na engenharia curitibana. O prédio foi decisivo para a urbanização do Campo do Olho d'Água, local hoje conhecido como Praça Rui Barbosa.

Hoje a instituição é mantida pelo Grupo Marista e atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS), convênios e particular. Possui uma estrutura com 278 leitos, sendo 37 de UTIs e nove salas cirúrgicas, conforme seu site. Realiza entre 600 e 800 cirurgias mensais e interna uma média de 1.350 pacientes por mês. Atende diversas especialidades, como cirurgia vascular, otorrinolaringologia, cardiologia, cirurgia vascular, bariátrica, transplantes, dentre outras.

A Câmara e a Assembleia
No dia 5 de dezembro, a família imperial visitou a Câmara Municipal, que funcionava em cima da cadeia pública. Desta vez, foi a princesa Isabel quem não poupou críticas: “muito acanhada, e Gaston [Gastão de Orleans, o Conde d’Eu] desceu à prisão que achou muito suja, muito desordenada, os presos muito acumulados. Dizem que pouca fiscalização tem havido, e que até súcias¹ e jantares se têm dado na prisão, entre presos e gente de fora. O presidente (Brasílio Machado) e o Chefe de polícia (Dr. Leão Veloso) dizem que vão tomar providências. Eles há pouco chegaram, e por isso nada fizeram”.

Na Gazeta de Notícias, inicialmente uma simples menção à visita. “O edifício da municipalidade é pequeno e fica ao lado da cadêa, havendo no pavimento terreo uma prisão.” No entanto, posteriormente, o mesmo jornal, sem dó, publicaria: “não podemos deixar de declarar, que não ha em todo o imperio peior cadeia que a d'esta capital. Os presos aqui passam um vidão, passeiam quando querem, visitam a família e os amigos, dão banquetes e fazem negocio nas prisões, cujas grades têm o aspecto de vitrina de casa de quinquilharias”. Esse prédio ao qual se referiram foi demolido e ficava onde hoje é o Mercado das Flores, na Praça Generoso Marques.

No mesmo dia, os príncipes foram visitar a Assembleia Provincial: “Foram Suas Altezas, acompanhadas do Sr. marechal Miranda Reis e baroneza de Suruhy, visitar a assembléia provincial, onde foram recebidas pelos srs. Conselheiro Alves de Araujo, Dr. Generoso Marques e outros Srs. Deputados. O edificio da assembléia foi mandado construir pelo finado conselheiro Zacarias e pode-se dizer que é um dos melhores edificios da provincia: espaçoso, com uma grande galeria para o povo, muito arejada e perfeitamente collocada”, noticiou o periódico.

O prédio ficava na Dr. Muricy, esquina com a rua Cândido Lopes, onde permaneceu até o início da década de 50, conforme informa o site da Assembleia Legislativa do Paraná. O prédio não existe mais e no lugar está a Biblioteca Pública do Paraná.

O palácio da Assembleia Provincial, a Santa Casa, a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá e o Passeio Público, citados nesta série de reportagens sobre a visita da princesa Isabel e sua família a Curitiba, são os primeiros sinais do progresso que se avolumava após a Emancipação Política do Paraná, cujo território antes de 1853 era subordinado à província de São Paulo. No entanto, percebe-se que ainda havia pouco recurso para geri-lo, o que ficou evidente aos augustos viajantes na visita. Curitiba e o Paraná estavam crescendo e demandavam investimentos.

Na próxima reportagem, saiba como foi a visita da família imperial à Colônia Abranches, hoje um bairro de Curitiba.


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