terça-feira, 29 de novembro de 2022

O QUE SABEMOS DE BENTO CEGO?

 

O QUE SABEMOS DE BENTO CEGO?



O jornalista antoninense Nestor de Castro (1867-1906), em óleo de Alfredo Andersen. 


Nesses árduos tempos de blogosfera, alguém andou perguntando de Bento Cego, e o que se pode fazer para recuperar sua memória. A memória de Bento Cego eu não sei, mas sei quem é o responsável pelo fato dela – mesmo incompleta – estar acessível para nós, pessoas do século XXI: trata-se de Nestor de Castro.
Por uma feliz coincidência, hoje, 18 de maio, faz exatos 145 anos que nasceu Nestor de Castro, um dos maiores jornalistas do Paraná. Nestor de Castro nasceu na Deitada-a-beira-do-mar no ano de 1867, filho de Felipe de Castro e Ana Pereira de Castro. Nestor de Castro teve uma infância difícil – aos 4 anos de idade perdeu a mãe; aos 9 ficou órfão de pai.  Em Antonina estudou com o professor Manuel Libânio de Souza, com quem aprendeu as primeiras letras. Com dez anos, foi enviado ao seminário em São Paulo. Ali, foi protegido pelo influente cônego Manoel Vicente, capelista como ele.
Ao retornar a Antonina, em 1886, tentou a vida no comércio, mas não teve sorte. No ano seguinte, casou-se com Arminda Pinheira da Costa, mudou-se para Curitiba e iniciou-se no jornalismo. Trabalhou no jornal Dezenove de Dezembro, ligado ao Partido Liberal, logo se destacando com um ardente polemista. Foi muito amigo de Teófilo Soares Gomes, pai de Heitor Soares Gomes, o melhor prefeito de Antonina no século XX. Chegou a escrever peças de teatro, em parceria com Jaime Balão, musicadas por Augusto Stresser.
Durante a Revolução Federalista, como todos os liberais de seu tempo, participou do governo revolucionário em 1894 como secretário de estado. Com a derrota do movimento, foi obrigado a exilar-se. Nos campos do sul, ouviu muitas trovas de um cantador chamado Bento Cego, capelista como ele, e se interessou pela vida do poeta popular.
De volta a Curitiba, foi duramente perseguido pelo situacionismo governista. Passou, com sua mulher e seus 12 filhos, por grandes necessidades. Somente em 1902, por iniciativa de seu amigo Teófilo Soares Gomes, foi que Nestor de Castro foi convidado pelo governador Vicente Machado para trabalhar no jornal “A República”, de situação. Tratava-se do mesmo jornal que ele tanto havia combatido no passado.
Neste curto período, escreveu sua monografia sobre Bento Cego, provavelmente sua obra prima. Nestor de Castro juntou no texto as escassas informações que obtivera no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais, bem como cartas do cônego Manoel Vicente, que também pesquisou a vida do cantador do Registro. Ermelino de leão somente reproduziu o que Nestor de Castro encontrou.
Nestor de Castro faleceu subitamente aos 39 anos de idade, em 14 de agosto de 1906. Hoje, reconhecido por sua obra literária e jornalística, Nestor de Castro é nome de rua em Curitiba e é o patrono da cadeira de numero 33 da Academia Paranaense de Letras. Na sua cidade, como de praxe, pouco se sabe de um ardoroso e combativo jornalista, que um dia foi reconhecido, juntamente com Romário Martins, como um dos maiores jornalistas do Paraná.

Fonte: Samuel César, “O elogio do Patrono”, discurso na Academia de Letras do Paraná em 21 de janeiro de 1927; publicado em “Obras de Nestor de Castro”. Curitiba, Editora GERPA, 1945. 

JANTAR PARA VINTE

 

JANTAR PARA VINTE




(Thomas Bigg-Wither (1845-1890) era um engenheiro inglês; Seu relato parcialmente publicado aqui descreve sua estadia  em Antonina em 1872, como parte de um grupo que estava estudando o trajeto de uma grande ferrovia entre o Mato Grosso e o Paraná, então recém emancipado de São Paulo; trata-se de uma das mais completas e bem-humoradas descrições da Deitada-a-beira-do-mar no seculo XIX; nesta segunda parte Bigg-whiter nos conta do que ocorreu desde o desembarque até o jantar feito num hotel "improvisado" na Deitada-a-beira-do-mar.)

PARTE 2

Entre a multidão [no cais] estava e Sr. Hargreaves, que se nos apresentou falando um perfeito inglês, e ofereceu seus serviços para, sem demora, obter acomodações para todos. Ele falava inglês e português com igual fluência, conhecendo bem o Brasil em geral e Antonina em particular; sua assistência nos foi preciosa durante nossa curta estadia na cidade. Em menos de uma hora, depois de nossa chegada, por meio de sua generosa ajuda, fomos bem instalados, com malas e bagagem, no único hotel do lugar, cujo hotel, segundo minha firme opinião, foi posto temporariamente enquanto lá estivemos, para nos agradar, mas tirado logo depois que deixamos a cidade. O proprietário, Sr. Pascoal, nos recebeu com entusiasmo, declarando que nos podia acomodar a todos com facilidade, o que eu via mais como um problema matemático que pedisse demonstração do que coisa positivamente certa, pois, numa inspeção pelo hotel, vi que este possuía quatro quartos, com seis camas ao todo e nós éramos dezessete!
O nosso primeiro pedido foi “jantar”, ou melhor, ‘ceia para vinte”, e o mais depressa possível, pois estávamos esfaimados.
O hoteleiro recebeu o pedido com inimitável segurança e sangue-frio, como se estivesse acostumado a receber tais pedidos todos os dias nos últimos vinte anos, embora parecesse  ter ele  mandado pedir emprestado panelas, pratos, travessas e tudo o mais que fosse necessário para um grande jantar. Ele se portou sabiamente, evitando perturbar a nossa paz de espirito com as deficiências da casa, mas, ao contrario, se esforçava para nos agradar, atendendo aos nossos desejos. Éramos tratados de modo distinto, isto é, como hospedes que mereciam ser bem tratados e não como estranhos para serem roubados. Merece respeito o homem que pode assim superar o dia a dia para passar a algo superior, quando a ocasião exige.
Quase duas horas depois de dado o pedido, posta uma longa mesa para vinte pessoas, que rangia sob o peso dos pratos de carne cozida, frango e arroz e feijão preto, enquanto um fila de garrafas, algumas com o conhecido rotulo Bass and Co., enfeitava o centro em cuja cabeceira o Sr. Pascoal fazia as honras da casa, dentro da boa moda antiga.
Sentamo-nos todos e cada qual se servia, a si mesmo ou ao seu vizinho, dos pratos que estavam perto, sem considerar o conteúdo. A julgar pelo burburinho da conversação animada e continuada em todos os lados – as anedotas ruidosas, as risadas e o rápido desaparecimento das carnes e dos licores – dificilmente haveria reunião mais jovial e alegre que a desse jantar, não obstante a nacionalidade diversa dos companheiros, todos perfeitamente igualados, como irmãos.
Antes de terminar o jantar o hoteleiro se levantou e proferiu longo discurso de saudação (traduzido por Mr. Hargreaves) no qual ele se congratulava, primeiro, com a “Expedição”, pela sua chegada a são e a salvo da viagem, depois consigo mesmo, por ter sido o primeiro na província a ter o prazer de apresentar-nos os votos de boas vindas, o que, de fato, ele fazia de coração, em nome de toda Antonina, desejando o melhor à expedição pela obra importante que se encarregara de empreender.
O capitão Palm respondeu com pertinência, outros falaram a seguir e, quando deu meia noite, ainda permanecíamos sentados em torno da mesa festiva. Mas isso era natural, pois na ocasião Antonina homenageava a expedição por intermédio do Sr. Pascoal e dois acólitos seus, e também se despedia dos membros do III e do IV grupos, que deveriam partir as três da manhã com destino a Paranaguá.
(...)

ANTONINA ANTIGA - IX

 

ANTONINA ANTIGA - IX




Escrever sobre essa foto me exigiu muito tempo e reflexão. A princípio parece uma coisa simples, uma mera imagem antiga da Rua do Campo – atual Conselheiro Araújo - próximo da colina da matriz e da atual praça Coronel Macedo. Ao fundo, os nossos morros do Bom Brinquedo e do Buraco da Onça. No entanto, ao olhar e re-olhar – convido o leitor a fazer cuidadosamente o mesmo – comecei a notar partes que estão juntas, mas pouco conectadas.
Logo de início, existe a árvore em primeiro plano, fazendo o contraponto para a paisagem ao fundo; não sei que árvore é, nem parece muito frondosa, mas ela enquadra a foto em primeiro plano, o que não é pouco. Onde andaria tal árvore? Com certeza já morreu, ou foi cortada em algum “arvorecídio” do passado? O fato é que não está mais lá, no alto da matriz.
Na esquerda da foto, atrás da árvore, se vê uma bela fileira de casas brancas. São casas coloniais, algumas das quais ainda estão de pé atualmente, servindo de paisagem para uma das mais belas áreas da cidade. São casas de fachadas simples, com eiras e beiras também brancas, portas e janelas quadradas, de madeira. Algumas janelas são levemente arqueadas. Quase todas as casas são simples, a não ser um sobrado na porção centro-esquerda da foto.  Mas todas elas tem a singeleza de coisa simples, de gente simples, sem abusos e rococós.
A Rua do Campo compõe a perspectiva no centro da foto. A calçada da esquerda se vai em linha reta; a da direita faz um ângulo, com o ponto de fuga no centro. Do outro lado da rua está a atual praça Coronel Macedo, o antigo campo que tantos cronistas antigos relatavam estar cheio de cavalos pastando. o nome era rua do Campo porque terminava no campo, o Campo do largo da matriz. No início do século, o Campo do Largo da Matriz se tornaria a Praça da República, e depois a praça Coronel Macedo de hoje. É marcante o contraponto entre a praça, cheia de árvores recém-plantadas e uma geometria neoclássica muito marcante e a rua colonial e meio barroca do outro lado. Será essa a tensão da antonina do século XX, de um lado o passado colonial e de outro o moderno? Fiquei matutando nisso ao ver a simetria das duas paisagens na foto.
Ao fundo da praça, diversas arvores, muitos coqueiros, que se juntam texturalmente ao mato dos morros ao fundo. Árvores, muito mato. Esse é o triângulo que se fecha sobre a rua colonial e a praça neoclássica. Ainda estamos vinculados a esse tripé, é essa a essência de nossa paisagem: casas antigas, representando o passado mítico; a praça de desenho neoclássico representando nosso desejo de progresso e modernidade.  E, por fim, o mato, representando a natureza (ainda) selvagem, que nos emoldura, embeleza e cria, por vezes, obstáculos ao progresso, na visão de algumas pessoas.
Por isso, talvez, a foto nos transmita certa paz e certa melancolia, como se ela mostrasse um passado quieto e tranquilo, sem as tensões do progresso e suas ânsias modernas e pós-modernas. A ausência de pessoas na foto colabora com esse sentimento.
Como uma provocação contemporânea, cabe observar que entre os paralelepípedos da rua cresce um matinho ralo, mas que já ocupa boa parte do calçamento, o que demonstra que o poder público nesse passado glorioso não cuidava lá muito bem da rua. Será um sinal de nosso crônico relapso? Ou será que por causa do foto o prefeito de então mandou cortar o mato no dia seguinte?

UMA SIMPLES ALDEIA

 

UMA SIMPLES ALDEIA


"Vista Geral de Antonina,1872", aquarela sobre papel de William Lloyd, 11 x 34 cm (duas folhas coladas), Liga Ambiental, Curitiba; esta aquarela foi pintada por um dos colegas de Bigg-Witther em sua passagem pela Deitada-a-beira-do-mar em 1872, o também engenheiro inglês William Lloyd. Pra uma aquarela pintada por um engenheiro, não está mal...Se estas suposições estiverem corretas - são suposições ainda - temos que esta é a mais antiga imagem da cidade até agora conhecida, agora com nome, sobrenome e data de nascimento. Aqui vai mais um trecho da passagem da missão inglesa por Antonina. 
PARTE 3
(...)
"Chegáramos a uma nova etapa de nossas viagens. As marítimas tinham terminado por algum tempo. O nosso próximo ponto era Curitiba, a capital da província, distante de Antonina cerca de 50 milhas. Sabíamos que havia uma estrada de rodagem não ainda terminada durante todo o percurso e não demoramos a descobrir os recursos do lugar quanto a transporte.
A própria cidade foi logo explorada, sendo antes o que na Inglaterra chamaríamos de aldeia.
 Vangloriava-se de sua rua principal e de algumas outras menores ou becos, que saiam dela em ângulos retos. As casas, na maioria térreas, eram construídas de pedaços de pedra trazidos do Rio de Janeiro como lastro e que, depois de sobrepostas em seco, eram cobertas de argamassa e cal. Poucas janelas eram envidraçadas e, como no Rio de Janeiro, não se via nenhuma chaminé por cima dos telhados. Nas melhores casas um cano de ferro podia talvez ser visto, atravessando a parede traseira, sob as calhas salientes do telhado, mas, na maioria, a fumaça da cozinha saia pelos interstícios das telhas.
Ao lado sul da cidade, no alto de pequena colina, assentava a igreja, velando o pequeno rebanho a seus pés.
Era evidente, pela aparência, que este era o principal edifício do lugar, no qual a arquitetura não tinha saído de sua forma primitiva, ou seja  quatro paredes e um telhado. Todavia, não obstante a simplicidade de suas construções particulares, Antonina, como um todo, seria certamente classificada de lugarejo bonito e até pitoresco, situado, como está, entre terra e agua, ao pé de gigantesca cadeia de montanhas, a “Serra do mar”, e nas praias da linda baia de Paranaguá.

Não resta dúvida que, se o ancoradouro em Antonina fosse menos limitado em extensão, a cidade teria grande futuro diante de si, mas parece que havia somente dois canais, comparativamente pequenos, onde poderiam ancorar embarcações de qualquer tamanho. No momento, a vantagem de antonina sobre sua rival Paranaguá é a de se comunicar com Curitiba por uma estrada. Se, contudo, o plano proposto de se construir uma estrada de ferro de Paranaguá a Morretes, e dai para Curitiba, for realizado, e não o traçado que tem Antonina como ponto de referência, não resta duvida que o saldo de vantagens será transferido para a cidade anterior. Quando visitei ultimamente estas duas cidades, travava-se entre elas tremenda luta pelos jornais sobre esse importante problema da estrada de ferro". 
(...)




Thomas P. Bigg-Wither, Pioneering in South Brazil. 


SI PÕE MAIS CÁRRGA, A XENTE FOLTA!

 

SI PÕE MAIS CÁRRGA, A XENTE FOLTA!




( Seguem as aventuras de Thomas Bigg-Whiter e a Expedição Inglesa em Antonina. Agora eles se vêem às voltas com os carroceiros alemães da cidade, que monopolizavam o transporte de cargas para Curitiba)

Não resta duvida que, se o ancoradouro em Antonina fosse menos limitado em extensão, a cidade teria grande futuro diante de si, mas parece que havia somente dois canais, comparativamente pequenos, onde poderiam ancorar embarcações de qualquer tamanho. No momento, a vantagem de antonina sobre sua rival Paranaguá é a de se comunicar com Curitiba por uma estrada. Se, contudo, o plano proposto de se construir uma estrada de ferro de Paranaguá a Morretes, e dai para Curitiba, for realizado, e não o traçado que tem Antonina como ponto de referência, não resta duvida que o saldo de vantagens será transferido para a cidade anterior. Quando visitei ultimamente estas duas cidades, travava-se entre elas tremenda luta pelos jornais sobre esse importante problema da estrada de ferro.
Nessa ocasião antonina contava talvez 1200 habitantes, dos quais grande porção era de alemães, e logo descobrimos que todo o serviço de carroças estava em suas mãos. Contratamos, então, o maior número possível destes veículos no primeiro dia, carregando-os de material e despachando-os para Curitiba, tão cedo eles puderam ficar prontos. As carroças eram pequenas, porem, bem construídas. Os proprietários se firmaram no proposito de não ultrapassar certa capacidade. De fato, elas não levavam mais de meia tonelada de carga. Olhamos mais uma vez para os veículos  - eram fortes e bem construídos. Olhamos para os cavalos – eram pequenos e fracos, mas não havia menos de cinco atrelados a cada carroça, e quanto mais  olhávamos mais ficávamos perplexos diante da absurdidade da carga diminuta que levavam. Reclamamos, mas em vão. A invariável resposta era: “se puserem maior carga, voltaremos para casa com as carroças”, promessa que foi cumprida por um ou dois carroceiros. Fomos, portanto, forçados a aceitar as condições estipuladas, a tal ponto que pagamos pelo transporte de uma tonelada de material, no percurso de cinquenta milhas, o preço de dez libras! Qual seria o preço do carvão em Londres sujeito a esse preço de transporte?
Se o nosso material estivesse acondicionado para ser transportado em lombo de mula, como deveria ter sido feito antes de deixarmos a Inglaterra, teríamos, sem duvida, forçado os carroceiros a cobrar um preço razoável, mas na situação ficávamos inteiramente a mercê deles. 

ANTONINA & ROMA

 

ANTONINA & ROMA


Robert Christian Ave Lallement (1812-1884)

(...)
Neste pequeno e bonito trato de terra, limitado, assim, pelas serras por três lados, mas lavado ao oeste pelo mar, introduziu este mesmo mar uma mui graciosa e multiforme baia, cuja comunicação com o alto é parcialmente impedida por ilhas, tendo, porem, bastante profundidade para dar livre acesso a navios comerciais.
A fundura da barra mais utilizada para passagem é de 30 pés. A baia propriamente dita oferece excelentes condições portuárias. Na sua margem esquerda, a cidade de Paranaguá, rival, em tamanho e importância, de Curitiba, a capital; na parte ocidental da baia encontramos a vila de antonina, onde entrei precisamente às quatro horas da tarde, de 11 de setembro.
Para quem vem do interior, a vila fica muito escondida; só se avista quando está bem perto.
Nada mais me aborrece do que ver obras, sobretudo vultosas, começadas e inacabadas, fato muito frequente no Brasil l e que procede da santa Engracia de Portugal.
Ao entrar em antonina chega-se a um bonito campo verde, no qual se eleva considerável numero de obras iniciadas: uma igreja, muros de casas, pilares, etc. em torno das paredes destinadas á ruína desde a nascença pastam reses em profunda paz. Evidentemente a planície coberta de fragmentos deve ser o Campo Vaccino de Antonina, o velho Fórum Romanum, e tem com ele acentuada semelhança, apenas com a mesma diferença existente entre Antonina e Roma. Até agora é essa diferença ainda muito notável. Mas quando um dia estiver pronta a Via Appia para Curitiba, poderá Antonina tornar-se – uma cidade de sete colinas.
Por ora há, no centro da cidade, uma bonita colina, de suave ascensão; no seu pico, uma igreja de nossa senhora e o panorama que de lá se descortina é maravilhoso: avista-se a magnifica baia de antonina, na qual a natureza prodigalizou liberalmente seus encantos. Bonita a ampla praça verde do lado esquerdo da igreja.
Belas, em parte, as casas de Antonina que estão terminadas, algumas, aliás, muito vistosas e magnificas, especialmente na Rua Direita. Muitas porem, inacabadas e me causam o aborrecimento a que acima me referi. As possibilidades de um futuro porto – e quando estiver pronta a estrada de Curitiba terá de pensar-se neste porto – são animadoras. O vapor procedente do Rio de Janeiro, em sua visita a baia de Paranaguá, vem também a Antonina.
Causa, pois, a vila de Antonina uma muito boa impressão, de que gozei mais do que convinha. 

(Robert Ave Lallement, medico alemão, morou no Brasil por muitos anos e fez diversas viagens, onde observou os costumes da terra e fez anotações sobre o progresso das colonias alemãs no sul do Brasil. Este trecho mostra sua curta passagem pela Deitada-a-beira-do-mar em setembro de 1858)

DEPLORO CADA MOMENTO EM ANTONINA

 

DEPLORO CADA MOMENTO EM ANTONINA




(continuam as aventuras de Ave-Lallement pela Deitada-a-beira-do-mar em setembro de 1858; aqui ele conta o sufoco que passou enquanto esperava um navio para Santos  retido pelo mau tempo na baía. nesse tempo, lamentou profundamente sua hospedaria, na casa de um barbeiro capelista!)

Quando entrei no lugar, não sabia, na verdade, para onde dirigir-me. Mostraram-me a casa de um sapateiro, o único alemão domiciliado em Antonina; porque o outro alemão, morador ali, estava na cadeia por ter praticado ilegalmente a medicina.
Agradar-me-ia ter seguido de canoa, naquela mesma tarde, para Paranaguá, mas mo impediu um forte sueste; e, como não há hotel no lugar, o sapateiro mandou-me a casa de um barbeiro, com uma alusão de que o homem havia de parecer-me uma espécie de Fígaro.
O barbeiro indicou-me uma cama num quarto atrás do salão da barbearia, onde havia mais outra. Muito me desagradou o local, mas sobretudo o pensamento de que já as 2 horas da manhã seria despertado para velejar, com o terral, para Paranaguá.
Entrementes entraram na casa vários jovens, inclusive alguns de Paranaguá, que consideravam a casa como um café. Um deles, jovem bem educado, estivera, a serviço da marinha portuguesa, na Índia e na África e participara da celebre catástrofe no navio de linha “Vasco da Gama”[1] à entrada da baia do Rio de Janeiro em 5 de maio de 1849. Bem como outros senhores, ele me conhecia de nome; palestramos sobre astronomia até pelas 11 da noite.
Quase não cabiam os hospedes na pequena casa do barbeiro. Que saudade pensava eu em nossos ranchos frios e úmidos na Serra Geral!
O pensamento de que breve seria despertado para fazer uma viagem noturna num barco aberto pela baia de Paranaguá fez-me lembrar de que antes tivesse ficado como sapateiro alemão e me alojado em sua pequena oficina. O sofrido Ulisses morou em casa de uma pastora de porcos, o rei Davi alojou-se numa caverna, razões bastantes para que eu desejasse a casa do bom sapateiro.
Para não estar dormindo no momento em que me viessem despertar, não adormeci. E durante a noite mudou o tempo; a baia começou a marulhar e quando me levantei de manhã me disseram o que há muito eu já sabia, isto é, que com tal tempo não se podia navegar as cinco léguas na baia até Paranaguá. E como no dia 13 o vapor deveria regressar a Paranaguá e Antonina, para seguir, via Cananeia e Iguape, para Santos e Rio de Janeiro, resolvi acomodar-me com o lado mais amável das pessoas e circunstâncias que me cercavam e aguardar o vapor em Antonina para continuar a minha viagem, tanto mais quando ele costuma voltar daqui para Paranaguá e ali ficar algumas horas.
Muito incômoda me foi, algumas vezes, a falta de hotéis, sobretudo quando me punha em contato com pessoas insuportáveis. Em cidadezinhas solitárias e remotas, em distritos longínquos, onde não chegam viajantes, pode-se não esperar não esperar estalagens, mas em cidades do litoral, em pontos terminais de importantes estradas comerciais, o europeu instintivamente as procura e não compreende como o espirito de especulação seja tão pequeno que não empreenda um negocio que decididamente tem de render dinheiro. No meu dia de descanso em antonina, um domingo, éramos sete hospedes ao almoço. A comida lamentável, a louça e o serviço de mesa muito maus, bem como toda a casa, uma casa térrea com uma porta, uma janela para a rua, o salão de barbearia ao lado e que mal teria espaço para a pequena família.
Mas o Fígaro da casa não sentia o menor constrangimento. Segundo uma declaração, uma alusão que fez, ele conhece no lugar muitos locais para gente jovem, inteiramente a maneira do antigo Oriente.
E todavia a tonstrina[2] do homem também me recordou a Grécia e Roma. Ele ficaria bem em muitas comédias de Plauto e Terêncio. Varias conversas, que escutei, lembravam-me um Antifo e as amabilidades de Fânio, o célebre Fanny de Terêncio. Houve conversas, à mesa, que já se encontravam no banquete dos sofistas de ateneu, apenas com mais graça grega. Um cinzento tempo chuvoso me obrigou a ficar, fastidiosamente, quase o dia inteiro, numa casa onde não dispunha de um quarto para mim e estava exposto ininterruptamente a tudo o que me aborrecia.
Deve ser esta a razão por que em Antonina me senti mais desagradavelmente do que em toda parte e deploro cada momento que tive de passar ali a mais do que era necessário.
Com verdadeira ansiedade aguardava a chegada do vapor “Paraense” para com ele e nele poder sair dali.




[1] 05/05/1849 - salvamento da Nau Vasco da Gama. No dia 05 de maio de 1849 o Vapor D. Afonso, sob o comando do Capitão-de-Mar-e-Guerra Joaquim Marques de Lisboa, foi ao encontro do barco lusitano Vasco da Gama, que encontrava-se em iminente perigo de naufrágio nas imediações da barra do Rio de Janeiro, submetido a um violento temporal. Depois de 18 horas de luta com os elementos da natureza, conseguiu trazê-la para dentro da Baía de Guanabara.
[2] tonstrina - barbearia

A CADEIA DE ANTONINA É A IMAGEM DAS AUTORIDADES DAQUELE LUGAR

 

A CADEIA DE ANTONINA É A IMAGEM DAS AUTORIDADES DAQUELE LUGAR



(encerram-se aqui as aventuras de Ave-Lallement pela Deitada-a-beira-do-mar em setembro de 1858; ele reclama do seu "hotel" numa barbearia e narra seu encontro com um alemão preso na cadeia de Antonina. Faz comentários nada elogiosos sobre a Cadeia e sobre a Justiça e as autoridades do lugar. Finalmente, ele fica feliz pois o tempo melhora e ele pode ir embora da cidade. Ao que parece sem nenhuma saudade...)
Realmente horrível a minha estada em Antonina. Na casa do barbeiro, tudo vulgar, tudo reles e em parte alguma se podia evitar essa vulgaridade. O homem pode ter sido marinheiro num navio negreiro. Esteve evidentemente na costa da África. Na sua miserável casa ocorriam as maiores misérias: palavras injuriosas sobre os hospedes que não pagavam ou de hospedes aos quais se reclamava dinheiro excessivo. Ali entravam e dali saíam figuras esquisitas, ainda que entre elas assomassem algumas sofrivelmente decentes. Se quisesse por no papel o que lá observei, poderia sair um vivo esboço para um romance.
Cheguei como um mensageiro de um mundo melhor, embora ninguém me conhecesse em Antonina, salvo um médico que estava na cadeia.
Era o pobre diabo de um meclemburguês[1] e, a falar a verdade, não era médico, mas um tecelão, chamado Muller. Dou o nome sem hesitar, porque afinal toda a gente se chama Muller!
Negociara com a célebre droga de Leroy, prejudicando, talvez, na vila de Antonina, os interesses de alguém que fizesse o mesmo negócio. Quando o levaram perante o presidente da Câmara Municipal e não quiseram reconhecer seu documento de identidade de Meclemburgo, o tecelão, que com ninguém podia entender-se, rasgou o documento na presença dos “Senhores” reunidos. Isso lhe foi levado muito a mal.  Foi denunciado criminalmente e devia ir a Júri, a reunir-se seis meses depois. Não há no lugar uma só pessoa que conheça ao mesmo tempo o alemão e o português. Considerei então meu dever comunicar o caso ao cônsul geral do Meclemburgo no Rio de Janeiro e ver se era possível ajudar o homem metido no horrendo calabouço.
A masmorra onde está o homem é realmente uma coisa atroz. Como se pode suportar tal coisa? A cadeia, a penitenciaria de Antonina, é um monumento tão vil que não há expressão para denomina-lo. Tenho bastante paciência com as fraquezas, deficiências e injustiças que encontrei durante minha viagem. Mas há condições que é preciso levar ao pelourinho da opinião publica. A cadeia de Antonina é uma dessas condições, uma imagem da humanidade e justiça das autoridades daquela cidade.
Enfim, a 14 de setembro, cerca de meio dia, apareceu ao longe, ao leste da baia, o vapor “Paraense”. Nunca sai de um lugar de tão bom grado, tão alegremente quanto de Antonina. Como despedida, fui ainda muito explorado pelo barbeiro, mas de boa vontade paguei ao sujeito, pelos três dias em sua ordinária tasca, os 18 mil réis reclamados (14 táleres prussianos) e fui para bordo do vapor.




[1] Segundo a sempre confiável Wikipedia (em inglês) Mecklenburg (baixo alemão: Mękelnborg) é uma região histórica no norte da Alemanha  compreendendo a parte ocidental do estado (província) de  Mecklenburg-Vorpommern. As maiores cidades da região são RostockSchwerin, e Neubrandenburg. Naquela época, era uma das mais pobres e atrasadas regiões da Alemanha. 

A Ponte Preta em foto da década de 1960.

 A Ponte Preta em foto da década de 1960.


Pode ser uma imagem de ao ar livre

— Imagem do Deutsche Knabenschule, em 1896 — — Um Colégio para meninos católicos fundado em 1896, na esquina das Ruas do Rosário e Saldanha Marinho.

 — Imagem do Deutsche Knabenschule, em 1896 —
— Um Colégio para meninos católicos fundado em 1896, na esquina das Ruas do Rosário e Saldanha Marinho.