quarta-feira, 30 de novembro de 2022

HENRIQUE LAGE E O COMEÇO DO FIM DE ANTONINA

 


 
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HENRIQUE LAGE E O COMEÇO DO FIM DE ANTONINA


 
 https://curitibaeparanaemfotosantigas.blogspot.com/ Henrique Lage (1881-1941) e sua esposa, a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni (1888-1962)

Há exatos 74 anos atrás, falecia no Rio de Janeiro o empresário Henrique Lage. E nós, bagrinhos, o que temos com isso?
Nascido no Rio Henrique Lage foi um dos grandes capitães de indústria do Brasil no inicio do século XX. Nascido no Rio em 14 de março de 1881, era  filho mais velho do comendador Antônio Lage, importante empresário e dono de diversos negócios nas áreas de carvão, estivas e pequenas embarcações, além de um estaleiro para consertos navais. Com o advento da Republica diversas empresas de navegação estrangeiras foram nacionalizadas. Comprando o acervo da Norton- Megaw & Co, Antônio Lage fundou, em parceria com Luiz Augusto Ferreira de Almeida, a Companhia Nacional de Navegação Costeira, que foi durante muito tempo a principal empresa de navegação do país.
A Costeira, como era conhecida, ficou famosa por seus navios, os quais começavam todos com o nome Ita. A marca ficou tão importante que ITA passou a quase ser sinônimo de navio. Quem não se lembra do grande sucesso de Dorival Caymmi nos anos 40/50, “peguei um Ita no norte”?
Henrique Lage formou-se em engenharia Naval nos Estados Unidos, em 1909. Juntamente com seus irmãos, sucedendo o pai na direção da Lage e irmãos – que ficou conhecida como o Império Lage – Henrique Lage foi um empresário incrivelmente dinâmico. Aproveitou a onda de substituição de importações durante a 1ª Guerra Mundial e ganhou muito dinheiro vendendo navios, que fabricava no seu estaleiro na ilha do Vianna, em Niterói, e carvão, com o porto de Imbituba, em Santa Catarina. Também fundou a primeira refinaria de sal brasileira, que consagrou a marca "sal Ita". Foi também pioneiro da indústria da aviação, com a construção de aviões de pequeno porte no Brasil.
 
 https://curitibaeparanaemfotosantigas.blogspot.com/ Empresário nacionalista, Henrique Lage se orgulhava de fabricar no Brasil navios e aviões, com poucos componentes importados. Seu período de maior crescimento e atividade foram os anos 20. Nos anos 30 teve algumas dificuldades econômicas, mas consegui manter o grupo.
Em Antonina Henrique Lage tentou realizar projetos de uma siderúrgica, para atender seus projetos navais na ilha do Vianna, em Niterói. Contudo, seu vinculo com a cidade estava principalmente em suas companhias de navegação, o Lloyd Nacional e a Costeira, que faziam a navegação de cabotagem e integravam a Deitada-a-beira-do-mar ao circuito da produção nacional.
Entretanto, a navegação de cabotagem estava com problemas, e dependia em muito de subsídios governamentais. Em 1941, a Comissão de Marinha Mercante suspende as subvenções pagas às empresas de navegação. A Costeira e o Lloyd sofrem o baque e tem sérios problemas financeiros. Como compensação, o Governo Vargas primeiro concede empréstimos a companhia.
Quando Henrique Lage morre, em 2 de julho de 1941, o Governo vai tomando conta da companhia, que é reestruturada. Sua viúva, a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni, é afastada da direção das empresas, sob o pretexto de não ser brasileira. Em setembro de 1942, com a declaração de guerra as nações do eixo, as companhias são nacionalizadas.
 
 https://curitibaeparanaemfotosantigas.blogspot.com/ Em Antonina, dependente da navegação costeira, o baque é tremendo. Para evitar a crise, os famosos quatro escoteiros são mandados ao Rio com uma carta onde pedem a reabertura dos escritórios do Lloyd Nacional e da Costeira na cidade. Essa parte do filme já vimos.
Henrique Lage foi um industrial que conseguiu fazer multiplicar as organizações  que recebera de herança, fazendo do tripé carvão, navio e ferro o eixo de seus negócios. Trata-se de um empresário arrojado e obstinado, que não temia fazer altas apostas. No entanto, apesar de suas boas relações com Getúlio Vargas, o estado novo por fim engole o Império Lage.
Hoje seu nome é lembrado no Rio com o Parque Lage, antiga propriedade sua ao pé do morro do Corcovado. Em São Paulo, A REVAP, ou refinaria do Vale do Paraíba, em São José dos Campos, também é conhecida como Refinaria Henrique Lage.

Antonina? Antonina fica a ver navios... 

***— Vista da Rua Cruz Machado, em 1954 — ***

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 ***— Vista da Rua Cruz Machado, em 1954 — ***


Pode ser uma imagem em preto e branco de ao ar livre
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***— Procissão partindo da Catedral de Curitiba, por volta de 1905 — ***

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 ***— Procissão partindo da Catedral de Curitiba, por volta de 1905 — ***


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— A Praça Tiradentes e a vista do antigo Prédio do Banco do Brasil. — Janeiro de 1942

 — A Praça Tiradentes e a vista do antigo Prédio do Banco do Brasil. — Janeiro de 1942


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— Armazém Novo Mundo, no Bairro Novo Mundo — Década de 1920 —

 — Armazém Novo Mundo, no Bairro Novo Mundo — Década de 1920 


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***— Avenida Marechal Floriano, com vista para a Loja ¨O Gigantão¨ Prosdócimo, em 1969 — ***

 ***— Avenida Marechal Floriano, com vista para a Loja ¨O Gigantão¨ Prosdócimo, em 1969 — ***


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terça-feira, 29 de novembro de 2022

O PRÍNCIPE DA BEIRA, OU A ANTONINA QUE PODERIA TER SIDO

 

O PRÍNCIPE DA BEIRA, OU A ANTONINA QUE PODERIA TER SIDO


Retrato de Dom Francisco Antônio, Príncipe da Beira (1795-1801) achei aqui

Parece muito estranho. O que este fundo de baía, cercada de mangue e mato, tem a ver com um obscuro príncipe português que nunca saiu das fraldas?
Antonina, e isso aprendemos desde cedo, foi uma homenagem ao príncipe português Dom Francisco Antônio Pio de Bragança, filho do Príncipe D João e da princesa Carlota Joaquina. Herdeiro do trono português, o real guri tinha o titulo de Príncipe da Beira.
Nascido em 21 de março de 1795, o jovem príncipe, na época em que recebeu a homenagem, ainda era um simpático pimpolho que usava fraldas. A pintura-retrato que temos dele mostra sobretudo um menino moreno, de cabelos encaracolados muito meigo e muito, muito pálido. Encostado na mesa, ao seu lado uma maçã flechada. Que diabos era isso, o símbolo do amor?
Dom Francisco Antônio, no retrato, vestia uma camisa com babados e ostentava a faixa alvirrubra que seu principesco título de príncipe da Beira exigia. Seu olhar é triste, com olheiras profundas. Vontade de tirar o piazinho dali e levar ele pra tomar sol na Ponta da Pita. Ou passear pelo trapiche olhando os barcos e os urubus ao redor, pra ver se ele se animava. Quem sabe? Uma vitaminazinha, um caldo da cana?
Enfim...
Mas Dom Antônio, nosso pueril Príncipe da Beira, nada tem a ver conosco senão a homenagem que lhe foi prestada. A homenagem, assim, parece um investimento para o futuro. Como a compra de um titulo de capitalização, alguém queria receber no futuro do futuro Rei de Portugal alguma vantagem.
Posto em outros termos: o nome Antonina foi homenagem de quem? A quem interessaria? Quem seria o puxa-saco lá daqueles tempos?
A primeira suspeita paira sobre outro Antônio, Antônio Manuel de Melo e Castro de Mendonça, Governador Geral de São Paulo naqueles tempos. Seu mandato, porem, começou em 28 de junho de 1797. Será que o processo já se teria anunciado antes que este tivesse tomado posse? Se for ele, quais seriam suas motivações?
O fato é que a homenagem ao pequeno príncipe, que seria o futuro rei de Portugal, acabou em nada. Como acontecia com quase todos os herdeiros do trono lusitano, os filhos mais velhos morriam muito cedo, e o fardo de conduzir o império ultramarino português despencava nas costas dos irmãos mais novos e mais despreparados. Dom Antônio acabou morrendo em 11 de junho de 1801, aos seis anos de idade. Quem acabou assumindo o poder, anos depois, foi o nosso conhecido Pedro de Alcântara.
E nós aqui? No inicio a cidade se grafava “Villa Antonina”, assim tudo junto. Ou, a vila de Antônio. Assim encontramos toda a nossa documentação no período colonial.  Lá pelo meio do caminho, durante a Regência e o Segundo Reinado, segundo o inescapável Ermelino de Leão, é que se abandonou a forma antiga e se tornou simplesmente Antonina.
Houve no passado (leia-se século XX) quem não gostasse do nome da cidade, ou da intenção no nome. Achavam que estava no nome e na homenagem uma explicação pelos males que a cidade atravessou nos últimos cinquenta anos (é claro!). Acharam de procurar uma origem no grego “Antos”, flor. Vem daí o verso “Antonina cidade das flores”, que foi pespegado em um de nossos hinos. De suave e finíssimo olor? No meio do manguezal? Acho que este poeta tinha problemas no nariz...
O príncipe Dom Antônio partiu cedo. O investimento feito em sua homenagem morreu ainda em botão, mas a vila á qual emprestou o nome prosperou. Antonina foi uma bela e futurosa cidade, cheia de riqueza, alegria, encanto e beleza. Ainda tem tudo isso, menos a riqueza, que foi embora ao ultimo apito do trem. Ou foi soterrada pelos sedimentos que assoreiam nossa baia.
Será que seria diferente se o nome da cidade fosse Pilar da Graciosa? Ou Guarapirocaba? Será que o príncipe Dom Antônio, se tomasse um caldo de cana todo dia na feira-mar, ou comesse bagre com pirão do mesmo na praia do polacos sobreviveria e, já rei, nos faria melhores e mais felizes? É sempre uma tentação ficar imaginando como seria nosso presente se nosso passado fosse outro.

Mas o fato é um só: entre o mangue e o mato mora uma gente como não tem igual, num cenário que é uma beleza que a natureza criou, como disse o poeta (e enfatiza o geólogo). Nossa Deitada-a-beira-do-mar encanta e encanta. Devemos nos orgulhar do que somos e do que conseguimos. Não é muito? Também não é pouco...

ANTONINA ANTIGA - 1

 

ANTONINA ANTIGA - 1


Recebi, tempos atrás, uma apresentação em powerpoint com fotos de antonina antiga, nem me lembro mais de quem. As apresentações em powerpoint são uma faca de dois gumes da internet: as pessoas, pensando em fazer o bem, nos impingem coisas que elas gostariam que víssemos. Em geral essas apresentações são muito chatas, inclusive as que eu mando para os amigos, com um título chamativo como “imperdível”, ou “interessante”. Mas essa, por meus motivos, é mostra varias fotos imperdíveis e interessantes, sem aspas. Antonina antiga é quase um pleonasmo.

A foto que aí está é uma foto aérea dos anos 60, acho eu. Mostra em primeiro plano o prédio do antigo mercado, demolido com fúria assassina na gestão de Romildo Gonçalves Pereira. Meu pai foi um dos que se insurgiu na época contra o que ele chamava – e realmente era – “um crime contra Antonina”. Nunca entendi as razões que botaram abaixo o belo prédio de azulejos portugueses e fachada sóbria que vemos majestoso no terço inferior da foto. Progresso, talvez?

Vêem-se, logo abaixo do prédio central do Mercado, várias outras construções, algumas em ruínas, que hoje deve fazer parte do estacionamento em frente, e que durante muitos anos foi um restaurante e loja de artesanato. Logo na esquina, uma casa que naquela época já estava em ruínas, e o belo e sóbrio casario que rodeia a quadra da atual rodoviária e a feira-mar – hoje Praça Romildo Gonçalves Pereira. O que hoje é a praça era um descampado, e ainda se vêem as marcas de carros que indicam a localização do trapiche.

Ao fundo, vêem-se as casas, que o preto e branco da foto faz uma densa mancha de claros e escuros, com fachadas, telhados e arvores – lá longe se pode ver mais ou menos no centro da foto o campanário da igreja de São Benedito, fazendo um belo contraponto com o mercado abaixo. No fundo, vêem-se os morros do Bom Brinquedo e do Salgado. Reparem que naquele tempo os morros tinham bem menos vegetação que hoje. Ao fundo, bem ao fundo, a serra do Marumbi num cinza bem claro e com nuvens no seu topo. Devia ser um dia claro, embora as serras estivessem nubladas. Em frente ao mercado pode-se ver uma Kombi, que “data” a foto em 1960 ou menos.

Não sou nenhum entendido de fotografia, como Mestre Eduardo, mas arrisco a dizer que o belo desta foto é o seu conjunto. É minha leitura, existem infinitas outras possíveis e desejáveis. A cidade aparece coesa, casas e ruas juntas num emaranhado preto e branco, formando um imenso quadrado visto do céu, com o mercado municipal “amarrando” tudo no vértice inferior. A cidade como um todo coeso? Delírio, delírio, delírio. Nós, na Deitada-a-beira-do-mar, somos tenazmente frouxos, inconsistentes, incoerentes.

Essa já é uma foto da decadência: as ruínas ao redor do mercado são sinais visíveis disso. Os que, como eu, vieram ao mundo depois dessa época – eu sou de 63 – nós não vimos senão decadência. Por muito tempo procuramos culpados – era o porto, o assoreamento da baia, eram os prefeitos de plantão, era a estatua de N.S. da Soledade que foi xingada pelo capitão-povoador Valle Porto, era a expulsão do interventor Manoel Ribas do Clube Literário – vivemos sempre na culpa e na busca de culpados.

E nós? Nós, como povo de uma cidade pequena, linda, maravilhosa, alegre, mas que não dá sustento para suas famílias, que afunda no crack nossas crianças? E nós, que pensamos na política como uma forma de se dar bem, de cavar uma nomeação, de dar emprego pra família? Que moral nós temos pra buscar culpados?
Enfim, pensamentos em preto e branco sobre uma foto aérea do passado...

ANTONINA ANTIGA - II

 

ANTONINA ANTIGA - II


Outra foto antiga de Antonina, recuperada por um powerpoint que me mandaram há uns tempos. Esta foto, tomada provavelmente de onde seria hoje o morro do Joubert, observa-se a antiga estação da estrada de ferro, entre as ruas Comendador Araujo e Nenê Chaminé, bem em frente de onde hoje se encontra a delegacia. Na rua não se vêem carros, somente carroças e homens montando a cavalo. Seria, portanto, uma foto muito antiga, talvez até dos anos 20 ou 30. Com certeza, anterior a 1944, quando esta estação foi destruída num incêndio criminoso.



(Neste dia, uns pé-de-chinelo estavam roubando o querosene racionado dos tempos da guerra, quando um deles deixou cair o lampião no chão. O incêndio foi grande, e a população inteira acordou com as explosões dos galões de óleo diesel acumulados. Deve ter sido um espetáculo pirotécnico e tanto... O problema foi que um deles deixou o tamanco no local do crime, através do qual o DIP – a terrível policia da ditadura do Estado Novo – chegou facilmente aos otários dos criminosos...)



A foto mostra bem os vagões de carga, ao lado dos quais estão empilhados os montes de lenha que fariam a maria-fumaça subir a serra. Eu ainda lembro-me de ter visto Maria-Fumaça em Antonina, ainda nos anos 60, mas já como raridade. Já se imaginou quanta lenha foi cortada dos morros da Deitada-a-beira-do-mar pro trem subir e descer a serra? No canto do muro, um homem está trabalhando junto de um pequeno vagonete. O que estaria fazendo? Bem no canto, a direita, pode-se ver uma grande chaminé, localizada acho que onde hoje está o prédio da Copel.



Ao fundo, podem-se ver inúmeras casas, algumas ainda existem. É nítida a contraposição entre as casas na frente do terreno e os quintais cheios de arvores e coqueiros no fundo. A maior parte eram casas simples, mas algumas possuíam sótão. Lembro com saudade do casarão do antigo clube dos operários, a segunda casa à esquerda na rua Dr. Vicente Machado, bem no meio da foto.



Outra coisa interessante é que parece bem, na foto, é o tamanho da cidade. Ela parece acabar depois da rua do Campo, a atual Conselheiro Alves de Araujo. Os brejos onde fica o atual campo de 29 de maio já eram ocupados? Mais para o fundo só se vêem mato e algumas casas esparsas ao longe.



Pela sombra da estação, parece que a foto foi tirada no comecinho da tarde, ainda com muita luz. Os muros da estrada de ferro, que ainda existem, e o branco das casas dão uma luz especial à foto. Detalhes pequenos acabam aparecendo. É essa luminosidade que faz a foto ser tão rica e trazer tantos detalhes.



Que dia seria esse? Os cavalos esperam pacientemente pela carga que virá do trem, que talvez esteja por chegar. Somente um homem andando na rua, outro na carroça e o empregado da via férrea, trabalhando atrás do muro. Seria um feriado? Ou era hora da sesta? Talvez fosse uma tarde modorrenta, daquelas bem quentes, em que não há nada pra fazer fora de casa. Alguém pensaria em dar uma passada no Jequiti, se já houvesse Jequiti.



Ainda bem que naquele tempo já existia a fotografia pra gente ficar perdendo nosso tempo aqui, filosofando sobre outro tempo...


ANTONINA ANTIGA - IV

 

ANTONINA ANTIGA - IV



Eu sou já bem velhinho, daqueles que se lembram do tempo que tinha trem em Antonina. Lembro, com névoas na memória, de ter visto ainda uma Maria fumaça passando ali pela Caixa D’água. Naquele tempo, nos anos 60, a Maria fumaça já era uma antiguidade, e quando passava todos corriam a vê-la, com seu barulhão infernal e seu custo ambiental em lenha e fumaça inaceitáveis para nossa era de "seqüestro de carbono". Aos domingos, o trem chegava as 10 da manhã e a cidade se enchia de turistas. Quando ficava na casa da minha avó ali na Conselheiro Alves de Araujo, gostava de ficar com ela na janela cumprimentando os lotes de pessoas que iam passando.
 Cheguei mesmo a “passear” de clandestino no trem, junto com um bando de moleque que hoje é homem sério, enquanto a composição ia fazer manobras ali no triangulo, em frente ao hospital. Pelos padrões politicamente corretos de hoje em dia, era um perigo enorme. Mas a gente fazia só pelo friozinho na barriga de ser pego pelos guardas ferroviários. Ao que me conste, ninguém nunca se acidentou ou foi pego pelos famigerados guardas. De todo jeito, nossos pais não precisavam mesmo saber de nossas aventuras ferroviárias (Meu pai nunca soube e minha mãe vai saber se ler essa crônica, de formas que ainda me arrisco a levar umas palmadas).
A foto acima, da serie Antonina antiga, parece ser um desses momentos. Vê-se, na plataforma da estação o trem chegando, já eram as locomotivas a diesel, e – a foto está com pouca resolução – com algumas bandeiras na parte de frente. No centro da foto, como que vindo em nossa direção, a locomotiva chama nossa atenção de pronto. Começo mesmo a imaginar o seu barulho, o frenesi das pessoas na plataforma, os sons e cheiros do trem.
As pessoas não aparecem direito. Estão quase todas de costas, viradas para a locomotiva, todos parecem estar com os olhos fixados naquele monstro de metal que vem chegando. Em primeiro plano, um menino parece não se segurar de vontade de ir ver de perto a maquina. Quem seria o tal menino? Pela roupa das pessoas, devemos estar nos anos 60 do século passado. Poderia ser eu ou qualquer um dos meus amigos de então, todos meninos na primeiríssima infância. Que momento de êxtase deve ter sido essa e outras chegadas de trem.
Mas são espetáculos para serem vistos em velhas fotos. Não tem mais trem em Antonina, e o velho ramal está bastante sucateado. Vi estes anos algumas discussões de meu querido Neutinho sobre a possibilidade de voltar a usar o ramal com viagens turísticas, a exemplo da viagem do tronco principal, que vai até Morretes. Nunca entendi muito bem as tais das discussões. Qual era mesmo o problema? Falta de vontade política? Falta de viabilidade técnica ou econômica? Ou pior, ambas?
O fato é que o trem e Antonina tem uma longa e bela historia  em comum. Foi no apogeu do trem que Antonina viu seu apogeu econômico. Boa parte da infraestrutura industrial que temos está ligada à tecnologia ferroviária. Escrevi tempos atrás como seria interessante nossa querida Deitada-a-beira-do-mar promover o patrimônio histórico industrial que já tem. Algo como utilizar o Porto, reinstalar algumas maquinas antigas, contar a historia das dragagens e do mapa do Barão de Tefé, nosso grande defensor. Ali do ladinho, ver toda a já centenária instalação do Matarazzo que hoje está em ruína em meio à lamentável briga pelos despojos de uma família que já foi grande. Avô rico, filho nobre, neto pobre. Triste.
Mas, ao contrario dessas tragédias de hoje, a foto em preto-e-branco do trem está cheia de luz, vida e energia. Uma energia que irradia e passa para o lado de cá da foto. Por um momento, parece que nós também estamos lá naquela estação a esperar o trem parar. Curiosos, vamos nos chegando perto dos vagões pra ver as pessoas que vão chegando, umas pra visitar, outras pra passear e outras vem pra ficar ali, crescendo junto conosco.  Quem chegou nessa ultima viagem? a velha foto nos convida a saber quem veio de trem nos visitar. E se for a Felicidade?