domingo, 1 de fevereiro de 2026

Entre Vinhas e Cadernos: A História do Grupo Escolar de Alexandra e o Sonho Italiano que se Tornou Letra na Terra Paranaense

 Denominação inicial: Grupo Escolar de Alexandra

Denominação atual: Colégio Estadual de Alexandra

Endereço: Rua José das Dores Camargo, s/n° - Alexandra

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 1950

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Grupo Escolar de Alexandra - s/d

Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração) - Pasta 333

Entre Vinhas e Cadernos: A História do Grupo Escolar de Alexandra e o Sonho Italiano que se Tornou Letra na Terra Paranaense

A dezesseis quilômetros do centro de Paranaguá, onde a estrada de chão batido serpenteia entre morros cobertos de araucárias e pequenos vinhedos ainda resistem ao tempo, ergue-se um bairro que carrega no nome a memória de um sonho europeu transplantado: Alexandra. Fundada em 1871 como Colônia Alessandra — primeira colônia italiana do Paraná —, esta terra de imigrantes que chegaram para construir a ferrovia Curitiba-Paranaguá transformou-se, décadas depois, no lar de um templo silencioso da sabedoria: o Grupo Escolar de Alexandra. Sua história não é apenas a de um edifício em tipologia "U" com arcadas neocoloniais; é a narrativa de gerações de filhos de colonos que, entre o cheiro de uva madura e o suor do trabalho na roça, descobriram que as letras traçadas num caderno podiam ser tão preciosas quanto as videiras cultivadas com carinho ancestral.

A Colônia que Nasceu dos Trilhos: Italianos, Terra e Esperança

Enquanto o Brasil ainda respirava os ares do Império, o Paraná enfrentava o desafio colossal de unir o planalto à costa — e a solução veio sob a forma de ferro e madeira: a Estrada de Ferro Paranaguá-Curitiba. Entre 1880 e 1885, milhares de trabalhadores foram convocados para a empreitada hercúlea de vencer a Serra do Mar. Entre eles, italianos — principalmente do Vêneto e do Trentino — que, após concluída a ferrovia, receberam lotes de terra na região que ficaria conhecida como Colônia Alessandra, em homenagem à princesa italiana Alexandra de Saxe-Coburgo-Gota
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.
Ali, nas encostas suaves que descem em direção à baía, os colonos italianos ergueram suas casas de madeira enxaimel, plantaram videiras trazidas na bagagem, cultivaram batatas-doces e milho, e mantiveram viva a língua materna através de cantigas de ninar e rezas em dialetos vênetos. Mas um dilema persistia: como educar os filhos? As escolas mais próximas ficavam em Paranaguá, a horas de caminhada por estradas que viravam lamaço no inverno. Durante décadas, a alfabetização foi privilégio de poucos — aqueles cujos pais conseguiam pagar um professor particular ou cujas famílias se revezavam para ensinar as primeiras letras à luz de lamparinas.

O Sonho de 1950: Quando o Estado Finalmente Chegou à Colônia

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o Paraná embarcou num projeto ambicioso de democratização da educação. Governadores como Bento Munhoz da Rocha Neto e Moisés Lupion compreenderam que não bastava construir estradas e portos; era preciso construir mentes. Entre 1945 e 1951, a Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas desenhou dezenas de Grupos Escolares padronizados para levar a escola pública até os rincões mais distantes do estado
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Em 1950, Alexandra foi contemplada com seu próprio templo do saber. O projeto — tipologia em "U" que abraçava o pátio central como mãos protetoras, linguagem neocolonial que dialogava com a arquitetura das casas dos colonos, telhados de quatro águas para resistir às chuvas torrenciais do litoral — não era luxo estético, mas respeito cultural: o Estado reconhecia que até as crianças de uma colônia italiana isolada mereciam um edifício digno, belo e funcional.
Na Rua José das Dores Camargo — nome que homenageava um dos primeiros moradores brasileiros da região —, operários ergueram paredes de alvenaria, assentaram lajotas de cimento no pátio onde futuramente as crianças brincariam de amarelinha, e instalaram janelas amplas que capturavam a brisa fresca que descia dos morros. Não havia data oficial de inauguração registrada nos documentos; a escola simplesmente "começou a funcionar" num dia de primavera, quando a primeira professora — recém-formada no Instituto de Educação de Paranaguá — cruzou o portão carregando uma mala de livros e o coração cheio de esperança.

O Cotidiano Sagrado: Quando o Italiano se Encontrou com o Português

As manhãs em Alexandra começavam com o canto do galo e o cheiro de polenta esfriando na chapa de ferro. Crianças de cabelos escuros e olhos amendoados — netos de Giuseppe, de Maria, de Antonio — calçavam sapatos remendados com cuidado pelas mãos das avós e caminhavam até a escola carregando consigo não apenas cadernos, mas a herança de duas línguas.
Dentro das salas de aula de pé-direito alto, um drama silencioso se desenrolava diariamente: a luta para domar o português brasileiro quando em casa só se ouvia o dialeto vêneto. A professora Dona Iolanda — como era carinhosamente chamada — compreendia essa dualidade. Não repreendia a criança que, ao ser chamada para ler em voz alta, hesitava na pronúncia de "chuchu" ou "xícara". Em vez disso, transformava a dificuldade em lição: ensinava que cada língua era uma chave para um mundo diferente — o italiano abria as portas da memória familiar, das histórias dos avós que atravessaram o Atlântico em navios apertados; o português abria as portas do Brasil, do futuro, da cidadania plena.
O currículo adaptava-se à realidade rural da colônia:
  • Agricultura aplicada: calcular a produtividade do vinhedo, identificar pragas nas videiras, compreender os ciclos lunares para o plantio;
  • Matemática prática: medir a área dos lotes, dividir a colheita entre famílias, calcular o preço justo do vinho caseiro vendido no centro de Paranaguá;
  • Higiene e saúde: combater a malária que assolava o litoral, ensinar a purificar a água dos poços, prevenir doenças transmitidas por mosquitos nos manguezais próximos;
  • História do Brasil com alma italiana: contar a saga dos imigrantes não como "estrangeiros", mas como construtores da pátria — homens e mulheres que, com as próprias mãos, ergueram não apenas a ferrovia, mas o próprio Paraná.
No recreio, o pátio transformava-se num microcosmo multicultural: crianças brincavam de "pique-esconde" gritando em português, mas ao se machucarem corriam para a professora choramingando "Mamma mia!" em italiano. Nas paredes da escola, mapas coloridos mostravam não apenas o Brasil, mas também a Itália — com destaque para o Vêneto e o Trentino, terras de onde partiram os avós. Era uma educação que não apagava as raízes, mas as fortalecia através do conhecimento.

As Mulheres que Fizeram a Escola: Professoras Anônimas, Heroínas Cotidianas

Quem foram as professoras que cruzaram diariamente os dezesseis quilômetros que separavam Paranaguá de Alexandra? Mulheres jovens, muitas recém-saídas do Instituto de Educação, que enfrentavam a estrada de terra em ônibus precários ou, nos dias de chuva, em lombos de mulas emprestadas pelos colonos. Chegavam à escola com os sapatos enlameados, mas o espírito intacto. Guardavam na bolsa não apenas giz e cadernos de chamada, mas também remédios caseiros para as crianças gripadas, agulhas e linha para remendar roupas rasgadas durante a brincadeira, e, muitas vezes, um pedaço de pão ou queijo para a criança que viera de casa sem café da manhã.
Dona Carmem, que lecionou em Alexandra entre 1955 e 1968, tornou-se lenda viva na colônia. Contam que, numa enchente histórica de 1961 que isolou a colônia por três dias, ela permaneceu na escola — transformada em abrigo improvisado — cuidando não apenas dos alunos, mas também de famílias desabrigadas. Ensinava as crianças a ler à luz de velas enquanto as mães preparavam sopa com legumes doados pelos colonos que tinham mantimentos. Quando as águas baixaram, a primeira coisa que fez foi verificar se os livros didáticos haviam se salvado — e, ao constatar que sim, chorou de alívio.
Essas professoras não recebiam homenagens públicas; não tinham seus nomes gravados em placas. Mas nas memórias dos ex-alunos — hoje homens e mulheres de cabelos brancos que ainda cultivam videiras nos mesmos lotes dos avós — seus rostos permanecem vivos: o sorriso paciente ao corrigir uma letra torta, a mão firme segurando a caneta da criança que tremia de emoção ao escrever seu nome pela primeira vez, o abraço consolador quando a saudade dos pais — muitas vezes ausentes trabalhando nas roças ou no porto — apertava o coração infantil.

Entre Preservação e Esquecimento: O Legado Vivo

Décadas se passaram. O Grupo Escolar transformou-se em Colégio Estadual de Alexandra, acompanhando as mudanças na legislação educacional brasileira. O edifício sofreu alterações — novas salas foram anexadas, o telhado original deu lugar a coberturas modernas, grades de proteção substituíram algumas das arcadas originais. Mas o espírito da escola permaneceu intacto.
Hoje, ao caminhar pelos corredores do Colégio Estadual de Alexandra, ainda se sente a presença silenciosa daquelas primeiras professoras. Nas paredes, fotografias em preto e branco mostram turmas dos anos 1950 e 1960 — rostos sérios de crianças que hoje são avós, muitos dos quais se tornaram professores, agricultores especializados, ou até mesmo retornaram para lecionar na mesma escola que os formou. Nas salas de aula, netos e bisnetos daqueles primeiros alunos repetem o ritual sagrado: abrir o caderno pela primeira vez, segurar o lápis com dedos trêmulos, escrever a primeira letra com a orientação paciente de um professor.
E, como prova viva de que a semente plantada naquela colônia italiana germinou, muitos ex-alunos de Alexandra tornaram-se guardiões da memória: organizam festas da uva que celebram a herança italiana sem esquecer a brasilidade conquistada através da educação; mantêm vivos os dialetos vênetos ensinando-os aos netos como língua de afeto, enquanto o português permanece como língua da cidadania; e, sobretudo, transmitem aos filhos a lição mais preciosa aprendida entre aquelas paredes neocoloniais: que ser filho de imigrante não é vergonha, mas orgulho — e que a educação é a ponte que liga as raízes ao futuro.

Epílogo: O Silêncio que Ensina

Quando o sino toca ao final do turno, e as crianças saem aos gritos para as ruas de terra batida de Alexandra — algumas rumo às roças para ajudar os pais na colheita, outras para casa onde aguardam tarefas domésticas —, resta no pátio um silêncio especial. É o silêncio das salas que acabaram de receber conhecimento; das carteiras que guardam a memória de gerações de mãos infantis que nelas escreveram seus primeiros sonhos em duas línguas.
A escola de Alexandra jamais foi um monumento grandioso. Nunca apareceu em cartões-postais nem recebeu visitas de autoridades ilustres. Mas sua grandeza está exatamente nessa discrição heroica: na capacidade de transformar, dia após dia, geração após geração, o filho de um colono analfabeto num cidadão letrado; de fazer com que uma criança que só conhecia o mundo do lote familiar descobrisse, através de um mapa-múndi desbotado, que existiam continentes além do Atlântico que seus avós atravessaram.
E assim, entre videiras centenárias e cadernos escolares, entre o sotaque vêneto das avós e a pronúncia impecável do português ensinado na escola, o edifício neocolonial da Rua José das Dores Camargo continua de pé — não como relíquia do passado, mas como promessa viva de que, mesmo nas colônias mais distantes, mesmo entre imigrantes que chegaram com malas de sonhos e mãos calejadas pelo trabalho, cada criança merece o direito sagrado de aprender. Porque a verdadeira herança que os italianos trouxeram para Alexandra não foram apenas videiras e receitas de polenta — foi a certeza inabalável de que educar os filhos é o ato mais revolucionário que um povo pode praticar. E nesse ato silencioso, repetido diariamente entre paredes de alvenaria branca sob telhados de quatro águas, reside a alma imortal do Grupo Escolar de Alexandra.

Entre Manguezais e Letras: A História do Grupo Escolar da Costeira e o Legado Silencioso de Helena Viana Sundin nas Terras do Rio Itiberê

 Denominação inicial: Grupo Escolar da Costeira

Denominação atual: Colégio Estadual Helena Viana Sundin

Endereço: Avenida Coronel José Lobo, 466 - Costeira

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas

Data: 1950

Estrutura: padronizado

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Colégio Estadual Helena Viana Sundin - s/d Fonte: http://ilhadomelfm.com.br

Entre Manguezais e Letras: A História do Grupo Escolar da Costeira e o Legado Silencioso de Helena Viana Sundin nas Terras do Rio Itiberê

Na curva suave onde o rio Itiberê encontra a baía, entre manguezais que respiram com a cadência das marés e ruas de paralelepípedos que guardam o eco dos tropeiros do século XIX, ergue-se desde meados do século passado um templo discreto da sabedoria: o edifício que abrigou o Grupo Escolar da Costeira, hoje Colégio Estadual Helena Viana Sundin. Sua história não é apenas a de um prédio escolar; é a narrativa de um bairro inteiro que, entre redes de pesca e carregamentos portuários, descobriu que o verdadeiro tesouro não estava nas caixas que desciam dos navios, mas nas letras que brotavam dos cadernos das crianças.

A Costeira: O Bairro que Nasceu entre o Porto e o Sonho

Fundada oficialmente em 1648 — tornando-se a cidade mais antiga do Paraná
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—, Paranaguá sempre viveu do ritmo do mar e do trabalho dos braços. E nenhum bairro encarnou essa dualidade com tanta pureza quanto a Costeira. Localizado às margens do rio Itiberê, o distrito desenvolveu-se como prolongamento natural do porto: ali viviam estivadores que descarregavam sacas de café e erva-mate; pescadores que partiam ao amanhecer em busca de tainhas e robalos; famílias de imigrantes — poloneses, ucranianos, italianos — que chegavam aos montes na primeira metade do século XX em busca de trabalho nas docas
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Mas a Costeira era mais que um reduto operário. Era uma comunidade de sonhos contidos: mães que, após jornadas exaustivas nas fábricas de beneficiamento de pescado, ensinavam os filhos a soletrar à luz de lamparinas; pais que, com as mãos marcadas pelo sal e pelo esforço, guardavam moedas durante meses para comprar o primeiro caderno do filho mais velho; avós que contavam histórias de Europa enquanto as crianças desenhavam letras na areia da praia. Nesse cenário de luta diária, a educação não era luxo — era ato de resistência.

O Sonho de Tijolo e Argamassa: 1950 e o Projeto da Divisão de Projetos

Enquanto o Brasil emergia da Segunda Guerra Mundial com o otimismo desenvolvimentista do governo Dutra, o Paraná vivia seu próprio renascimento educacional. Após anos de descaso, o estado lançava um programa ambicioso: construir Grupos Escolares padronizados em cada canto do território, levando a escola pública de qualidade até as periferias urbanas e os rincões rurais
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Em 1950, a Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas desenhou para a Costeira um edifício que sintetizava essa utopia: tipologia em "U" — forma que abraçava o pátio central como mãos protetoras —, estrutura padronizada para agilizar a construção, mas linguagem arquitetônica neocolonial que dialogava com a alma histórica de Paranaguá. Telhados de quatro águas lembravam os casarões luso-brasileiros do centro histórico; arcadas suaves evocavam os conventos jesuíticos que outrora habitaram aquelas terras; e as janelas amplas, posicionadas estrategicamente, capturavam a brisa salgada que refrescava as salas mesmo nos dias mais quentes de verão.
Erguido na Avenida Coronel José Lobo — artéria principal que ligava a Costeira ao centro da cidade —, o Grupo Escolar tornou-se marco geográfico e emocional: não mais seria necessário que as crianças caminhassem quilômetros até o centro para estudar; a escola chegara até elas, como prova viva de que o Estado finalmente enxergava além dos muros da elite.

Helena Viana Sundin: A Mulher cujo Nome se Tornou Semente

Em 28 de novembro de 1966, a Câmara Municipal de Paranaguá aprovou por unanimidade uma lei que mudaria para sempre a identidade da escola: o Grupo Escolar da Costeira passaria a se chamar Grupo Escolar Helena Viana Sundin
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. Quem foi essa mulher cujo nome mereceu tal honraria?
Os documentos oficiais guardam silêncio sobre os detalhes biográficos de Helena. Não há registros elaborados em arquivos públicos; não há fotografias amplamente divulgadas. Mas nas memórias orais dos mais antigos moradores da Costeira, seu retrato emerge com a nitidez da verdade vivida: professora formada no Instituto de Educação de Paranaguá — instituição fundada em 1927 para formar os educadores do litoral
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— que, nos anos 1940 e 1950, dedicou-se com fervor quase missionário às crianças do bairro operário.
Dizem que Helena chegava à escola antes do amanhecer, mesmo nos dias de chuva torrencial que alagavam as ruas da Costeira; que guardava, na gaveta de sua mesa, pães e leite para os alunos que vinham de casa sem café da manhã; que alfabetizou adultos à noite, após as aulas das crianças, porque acreditava que nenhum pai ou mãe deveria sentir vergonha de não saber assinar o próprio nome diante do filho. Contam que, quando uma epidemia de sarampo assolou o bairro nos anos 1950, ela mesma percorreu as casas levando remédios caseiros e cadernos com lições para as crianças doentes — porque, dizia, "a doença pode parar o corpo, mas nunca a mente".
Helena Viana Sundin morreu jovem — possivelmente no final dos anos 1950 ou início dos 1960 —, vítima de uma enfermidade que os relatos não especificam. Mas sua morte prematura não apagou seu legado; ao contrário, transformou-a em símbolo. Quando a Câmara Municipal decidiu batizar a escola com seu nome, não homenageava uma heroína de gestos grandiosos, mas uma educadora anônima cuja grandeza estava na constância do cuidado diário — naquele tipo de amor que não busca reconhecimento, mas se expressa no gesto repetido mil vezes: corrigir uma letra torta, enxugar uma lágrima de frustração, segurar a mão trêmula de uma criança que escreve pela primeira vez seu nome.

O Cotidiano Sagrado: Quando o Mar Entrava pela Janela da Sala de Aula

As manhãs na Costeira começavam com o apito dos navios no porto — sinal que marcava não apenas a chegada de mercadorias, mas o início de um novo dia de aprendizado. Crianças de pés descalços, trajando roupas remendadas mas rostos lavados com esmero, cruzavam o portão da escola carregando consigo o cheiro do mar e o sonho de um futuro diferente do dos pais.
Dentro das salas de aula de pé-direito alto, o currículo adaptava-se à realidade local:
  • Português não era apenas gramática — era aprender a redigir uma carta para o parente que ficara na Europa, ou preencher corretamente um formulário de admissão no porto;
  • Matemática ensinava a calcular o peso do pescado, dividir lucros entre tripulantes de uma embarcação, ou medir tecidos para as mães costureiras;
  • Geografia começava com o mapa da baía de Paranaguá, depois expandia-se para o Brasil e o mundo — sempre com a lição de que, mesmo partindo de um bairro operário, era possível sonhar além do horizonte;
  • História contava não apenas os feitos dos reis e presidentes, mas a saga dos imigrantes que construíram Paranaguá com as próprias mãos.
No pátio central em forma de U, as crianças brincavam de amarelinha desenhada com giz nas lajotas de cimento; nas árvores do entorno, penduravam redes para descansar durante o recreio; e, nas tardes de sexta-feira, organizavam pequenos espetáculos onde cantavam modinhas e declamavam poemas de Castro Alves — muitas vezes com lágrimas nos olhos das professoras que viam, naquelas vozes infantis, a prova de que a educação transforma.

Entre Preservação e Transformação: O Legado Vivo

Décadas se passaram. O Grupo Escolar transformou-se em Ginásio, depois em Colégio Estadual, e recentemente adotou o modelo cívico-militar — cada mudança trazendo alterações na estrutura física e na organização pedagógica
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. Novas salas foram anexadas; o telhado original deu lugar a coberturas modernas; grades de proteção substituíram algumas das arcadas originais. Mas o espírito da escola permaneceu intacto.
Hoje, ao caminhar pelos corredores do Colégio Estadual Helena Viana Sundin, ainda se sente a presença silenciosa daquela educadora cujo nome batiza o lugar. Nas paredes, fotografias em preto e branco mostram turmas dos anos 1960 — rostos sérios de crianças que hoje são avós, muitos dos quais se tornaram professores, enfermeiros, técnicos portuários, ou até mesmo retornaram para lecionar na mesma escola que os formou. Nas salas de aula, netos e bisnetos daqueles primeiros alunos repetem o ritual sagrado: abrir o caderno pela primeira vez, segurar o lápis com dedos trêmulos, escrever a primeira letra com a orientação paciente de um professor.
E, como prova viva de que a semente plantada por Helena germinou, o colégio tornou-se referência esportiva — sua equipe de futsal sub-17 sagrou-se vice-campeã brasileira escolar, levando o nome da Costeira e de Paranaguá aos quatro cantos do país
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. Mas, mais importante que troféus, é o testemunho diário de centenas de jovens que, mesmo diante das dificuldades econômicas do bairro, escolhem o caminho dos estudos — porque aprenderam, entre aquelas paredes, que a educação é a única herança que ninguém pode tirar.

Epílogo: O Silêncio que Ensina

Quando o sino toca ao final do turno, e as crianças saem aos gritos para as ruas da Costeira — algumas rumo às docas para ajudar os pais, outras para casa onde aguardam tarefas domésticas —, resta no pátio um silêncio especial. É o silêncio das salas que acabaram de receber conhecimento; das carteiras que guardam a memória de gerações de mãos infantis que nelas escreveram seus primeiros sonhos.
Helena Viana Sundin jamais imaginou que seu nome seria gravado em pedra. Morreu como morrem os verdadeiros educadores: sem glórias públicas, sem estátuas, sem discursos de homenagem em vida. Mas sua lição permanece viva — não nos livros de história oficial, mas no gesto cotidiano de uma professora que hoje, naquela mesma escola, enxuga a lágrima de uma criança com dificuldades de aprendizagem; no olhar de um jovem que, formado ali, decide cursar pedagogia para voltar e ensinar; na certeza coletiva de que, mesmo na periferia de uma cidade portuária, mesmo entre redes de pesca e carregamentos de navio, cada criança merece o direito sagrado de aprender.
E assim, entre o murmúrio do Itiberê e o apito distante dos navios, o edifício neocolonial da Avenida Coronel José Lobo continua de pé — não como monumento ao passado, mas como promessa viva de que, enquanto houver uma criança disposta a aprender e um educador disposto a ensinar com o coração, a Costeira — e o Brasil — jamais perderão a capacidade de transformar sonhos em realidade, uma letra de cada vez.