sexta-feira, 22 de maio de 2026

Pirata Retorna à Flor das Águas: A Busca e Salvatagem do Navio Francês na Baía de Paranaguá

 

Pirata Retorna à Flor das Águas: A Busca e Salvatagem do Navio Francês na Baía de Paranaguá





Pirata Retorna à Flor das Águas: A Busca e Salvatagem do Navio Francês na Baía de Paranaguá

Publicado originalmente em 6 de outubro de 1963 | Reportagem de Etienne Arreguy & Hélio Pássos | Fonte: Revista O Cruzeiro
Há mais de três séculos, as águas da Baía de Paranaguá guardam um segredo histórico: os restos de um navio pirata francês, naufragado em 9 de março de 1718, quando uma forte tempestade o arremessou contra as rochas da Ponta da Ilha da Cotinga, região conhecida hoje como parte do patrimônio histórico e natural do litoral do Paraná. Em 1963, essa história começou a vir à tona graças ao trabalho incansável de dois pesquisadores — o advogado e historiador Fernando Bittencourt e o historiador Roberto Lordy, ambos membros do Instituto Geográfico Brasileiro de Santos —, numa das primeiras e mais importantes operações de salvatagem histórica já realizadas no estado.
A trajetória dessa descoberta foi acompanhada de perto pela revista O Cruzeiro, que divulgou o feito em primeira mão: primeiramente em 31 de agosto de 1963, ao anunciar a localização da embarcação, e depois nesta reportagem de outubro, que detalha cada etapa árdua da retirada de artefatos, em um trabalho marcado pela falta de recursos, mas movido por uma determinação inabalável.

Da pesquisa documental à descoberta no fundo do mar

Antes de qualquer mergulho ou operação prática, Bittencourt e Lordy dedicaram meses à investigação em arquivos históricos nacionais e internacionais. Para confirmar a existência do navio, suas características e o local exato do naufrágio, consultaram documentos no Conselho Ultramarino, em Lisboa — órgão que administrava os territórios portugueses na época do Brasil Colônia — e nos Arquivos Históricos de São Paulo, reunindo provas que tornaram possível a busca direcionada na baía paranaense.
Após três tentativas consecutivas, no nono dia de trabalhos, em 30 de julho de 1963, o esforço foi recompensado: a embarcação foi localizada a cerca de 15 metros de profundidade, num "poço" submarino próximo à Ilha da Cotinga, um ponto de águas turbulentas e fundo irregular que havia preservado os restos do navio por mais de 240 anos. A avaliação inicial do escafandrista Juan Rodrigues Miralles, responsável pelos mergulhos, já apontava um detalhe importante: o casco de madeira estava quase totalmente destruído pela ação da água, das correntes e dos organismos marinhos, restando apenas as peças mais pesadas e resistentes — armas, ferragens e objetos metálicos.
Com a confirmação do achado, os pesquisadores viajaram a São Paulo e ao Rio de Janeiro em busca de verbas, equipamentos ou apoio técnico para realizar a retirada do material histórico. No entanto, a resposta foi desanimadora: receberam quase nenhum auxílio oficial ou privado. Mesmo assim, não abandonaram o projeto e retornaram a Paranaguá, decididos a seguir com o trabalho com o que tinham à disposição: vontade, força de trabalho e equipamentos extremamente simples e improvisados.

Uma operação hercúlea com recursos limitados

A salvatagem se tornou um exemplo de superação diante das dificuldades. Sem guindastes marítimos modernos, sem sistemas de mergulho avançados ou infraestrutura adequada, toda a operação dependia de trabalho humano e engenhosidade:
  • Homens recrutados pelos próprios pesquisadores movimentavam as manivelas de um guindaste construído com madeira, adaptado para içar peças pesadas do fundo do mar;
  • Outros operavam manualmente a bomba de ar que alimentava o escafandro de Miralles, garantindo o suprimento de ar durante os mergulhos;
  • Bóias eram lançadas e posicionadas à mão para marcar o local e auxiliar na movimentação dos objetos retirados;
  • O barco de apoio era o Santa Vitória, embarcação pequena do porto de Paranaguá, adaptada para receber as peças históricas.
O ritmo era lento, pois cada movimento exigia cuidado redobrado para não danificar os artefatos nem colocar em risco a vida da equipe. Mas a dedicação era total: Bittencourt e Lordy comandavam cada etapa, acompanhados de colaboradores locais que se tornaram fundamentais para o sucesso da missão. Destaque para:
  • Janguito: pescador da região, conhecedor profundo das correntes e dos fundos da baía, essencial para navegação e orientação;
  • Magafá: chamado de "enciclopédia" por saber todas as histórias, lendas e detalhes da Ilha da Cotinga e da Baía de Paranaguá, fonte de informações orais que complementaram os documentos;
  • Nélson Inácio: mestre do barco Santa Vitória, responsável pela segurança da embarcação e também cozinheiro improvisado, que cuidava da equipe durante os dias de trabalho;
  • Tenente Acir Bezerra: comandante do Corpo de Bombeiros de Paranaguá, que colaborou com suporte técnico e logístico.

Os tesouros emergem: canhões, sino e a promessa de riquezas

A primeira grande vitória veio com a retirada de um canhão pequeno e duas culatras — peças estruturais que faziam parte do sistema de artilharia do navio. O canhão menor apareceu com a parte superior já corroída pelo tempo e pela água salgada, mas as culatras estavam em estado de conservação surpreendente, inteiras e com detalhes ainda visíveis. Pouco depois, foi a vez de um sino de metal, que chegou à superfície sem o badalo, mas preservado em sua estrutura principal.
Mas o momento mais marcante da reportagem foi a retirada do canhão grande, de quase uma tonelada de peso. Quando içado, o objeto parecia um "monstro marinho": estava completamente coberto de cracas, algas e uma crosta dura e grossa, de cerca de 15 centímetros de espessura, formada por sedimentos e organismos marinhos que se fixaram ao metal ao longo de dois séculos e meio. O esforço foi tão grande que o guindaste de madeira quase não resistiu ao peso, balançando perigosamente antes de colocar a peça a bordo do Santa Vitória.
Uma vez fora da água, o trabalho de limpeza começou: com talhadeiras e martelos, Miralles retirou cuidadosamente camada por camada da crosta, revelando aos poucos a forma original do canhão. O resultado surpreendeu a todos: a peça estava inteira, sem rachaduras ou danos estruturais, e em seu lado traseiro havia um número gravado — até hoje não identificado, que pode ser uma marca de fabricação ou um número de registro da artilharia da época.

O que ainda estava por vir: o tesouro de ouro e prata

Na época da reportagem, apenas quatro peças haviam sido recuperadas, mas a equipe sabia que havia muito mais a encontrar. De acordo com os documentos pesquisados por Bittencourt e Lordy, o navio contava com um total de 14 canhões — o que significava que ainda faltavam 10 peças para serem retiradas do fundo do mar.
Mas o que mais alimentava a esperança dos pesquisadores e a imaginação do público era a possibilidade de encontrar o famoso baú do tesouro: registros históricos indicavam que a embarcação transportava uma arca contendo 240 mil cruzados em ouro e prata, valores que pertenciam ao corsário francês, acumulados em suas viagens e ataques pelo Atlântico Sul. Para Bittencourt e Lordy, encontrar esse tesouro seria a maior recompensa por todo o árduo trabalho, a dedicação e os obstáculos superados.

Legado histórico: entre lenda e realidade

Mais de 60 anos depois dessa reportagem, a história do navio pirata da Ilha da Cotinga continua sendo um dos capítulos mais fascinantes da história marítima do Paraná. Os artefatos recuperados em 1963 se tornaram peças valiosas para entender a presença de corsários e navios estrangeiros na costa sul do Brasil durante o período colonial, um tempo em que a Baía de Paranaguá era rota comercial estratégica e alvo frequente de embarcações que navegavam em busca de riquezas.
A operação liderada por Fernando Bittencourt e Roberto Lordy também marca um marco importante: foi uma das primeiras iniciativas de preservação do patrimônio subaquático do estado, realizada muito antes de existirem leis específicas ou estruturas oficiais para esse tipo de trabalho. Mesmo que o famoso baú com ouro e prata nunca tenha sido encontrado publicamente, a sua história se mantém viva na memória local, nas lendas da Ilha do Mel e da Ilha da Cotinga, e no interesse de pesquisadores, mergulhadores e amantes da história que ainda hoje exploram as águas da "Flor das Águas" — como é conhecida Paranaguá — em busca de vestígios do passado.
Hoje, os canhões e objetos recuperados são testemunhas silenciosas de uma época de navegações, tempestades e aventuras, provando que o mar paranaense guarda não só beleza, mas também uma história rica e cheia de segredos, aos poucos revelada por quem tem coragem de mergulhar e pesquisar.

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Maria Felipa de Oliveira: A Heroína Negra da Independência do Brasil

 

Maria Felipa de Oliveira: A Heroína Negra da Independência do Brasil


Maria Felipa de Oliveira: A Heroína Negra da Independência do Brasil

No dia 2 de julho, quando o Brasil celebra a expulsão definitiva das tropas portuguesas da Bahia, em 1823, uma data que representa um marco fundamental na consolidação da nossa independência, é indispensável lembrar de personagens que, apesar de sua importância histórica, permaneceram por muito tempo à margem dos livros didáticos e dos relatos oficiais. Entre essas figuras, destaca-se Maria Felipa de Oliveira, conhecida como a heroína negra da Independência do Brasil — uma mulher cuja trajetória mistura memória coletiva, tradição oral, simbolismo e uma força que se tornou referência de resistência.

Origens e contexto: quem foi Maria Felipa?

Natural da Ilha de Itaparica, litoral da Bahia, Maria Felipa nasceu já liberta, numa época em que a escravidão ainda era a base da organização social e econômica do Brasil Colônia e, posteriormente, do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. A respeito de sua ascendência, relatos tradicionais afirmam que ela era descendente de povos africanos trazidos ao Brasil, originários da região que os cronistas da época chamavam de “Sudão” — uma denominação ampla que englobava diferentes etnias e nações do continente africano, hoje correspondentes a áreas de países como Nigéria, Gana, Mali e Senegal.
Sua profissão era a de marisqueira: ela coletava moluscos, crustáceos e outros recursos do mangue e do mar, uma atividade que exigia esforço físico intenso, contato diário com o ambiente costeiro e um conhecimento profundo das marés, dos caminhos da ilha e dos movimentos do litoral. Essa rotina moldou a sua imagem: as descrições que chegaram até nós a retratam como uma mulher alta, corpulenta e de grande resistência física — características desenvolvidas ao longo de anos de trabalho braçal, que também se tornaram símbolos de sua capacidade de lutar.
Um ponto fundamental sobre a sua trajetória é a ausência de documentos escritos contemporâneos aos fatos que lhe são atribuídos. Não existem registros de nascimento, cartas, relatos oficiais de autoridades ou documentos administrativos que mencionem Maria Felipa durante o período da Independência. Toda a sua história foi preservada ao longo de gerações por meio da narrativa oral — a transmissão de memórias, feitos e tradições de pais para filhos, de morador para morador da Ilha de Itaparica. Essa característica levou, ao longo do tempo, a debates entre historiadores: enquanto alguns questionam a veracidade exata de cada detalhe dos acontecimentos, outros defendem que a sobrevivência de seu nome e de sua história por séculos é, por si só, uma prova da sua relevância real para a comunidade e para o movimento de independência.

A luta na Bahia: o papel de Maria Felipa e de seu grupo

O processo de Independência do Brasil não se encerrou com o Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822. Na Bahia, a resistência portuguesa foi forte e prolongada, e a luta se estendeu até julho de 1823, quando as tropas lusas foram finalmente expulsas do território baiano — razão pela qual o dia 2 de julho é uma data tão importante para a história e a cultura do estado, celebrada com festas, desfiles e manifestações que relembram o esforço de todos os que participaram da campanha.
Nesse cenário de conflitos, Maria Felipa se destacou como líder de um grupo formado por cerca de 200 mulheres, com origens e condições sociais muito diversas: havia mulheres indígenas, caboclas, negras libertas e também mulheres que ainda viviam em condição de escravidão, todas unidas pelo desejo de ver a Bahia livre do domínio português. Essa união é um dado histórico de enorme valor, pois mostra que a luta pela independência não foi um movimento restrito a elites, militares ou homens brancos — ela contou com a participação ativa de grupos marginalizados, que viam na emancipação política também uma possibilidade de mudança na sua própria realidade de vida.
As ações atribuídas a Maria Felipa e ao seu grupo são marcadas por criatividade, coragem e conhecimento do território:
  • Ataque às embarcações: A principal façanha registrada na tradição oral é a queima de várias embarcações portuguesas ancoradas ou navegando nas águas próximas à Ilha de Itaparica. Ao destruir navios, barcos e suprimentos inimigos, elas reduziram drasticamente o poderio naval das tropas portuguesas, dificultando o transporte de soldados, armas e mantimentos, e contribuindo decisivamente para o enfraquecimento da ocupação lusa na região.
  • Combate corpo a corpo: Além das ações na água, as mulheres também participaram de lutas em terra. Um detalhe que se tornou lendário é o uso de folhas de cansanção — uma planta nativa do Brasil que causa irritação, ardor e inchaço na pele ao contato — como arma de combate. Com essas folhas, elas atacaram os soldados portugueses, surrando-os e incapacitando-os de lutar, transformando um elemento natural do seu ambiente em uma ferramenta de resistência.
Essas ações demonstram uma estratégia inteligente: ao conhecerem cada canto da ilha, cada recurso disponível e cada ponto fraco do território, elas conseguiram enfrentar um exército estruturado e armado com o que tinham à disposição, provando que a força de vontade e o conhecimento local são armas tão poderosas quanto as armas de fogo ou as espadas.

A presença na cultura e nas obras literárias

Como não há documentos oficiais, a maior parte das informações estruturadas sobre Maria Felipa chegou até nós por meio de obras literárias e artísticas, escritas séculos depois dos acontecimentos. Dois autores foram fundamentais para preservar e difundir a sua história:
  • Ubaldo Osório Pimentel: Escritor e historiador baiano, dedicou-se a registrar as tradições e memórias da Ilha de Itaparica, incluindo a trajetória de Maria Felipa nos seus trabalhos, baseado no que ouviu de moradores antigos da região.
  • Xavier Marques: Um dos maiores nomes da literatura baiana e brasileira, autor de obras como O Sargento Pedro, romance que retrata o período da Independência na Bahia. Nesse livro, ele apresenta Maria Felipa como uma personagem central, retratando sua liderança, sua coragem e o seu papel na luta.
É importante destacar que essas obras são, em sua essência, narrativas ficcionais ou baseadas em memórias populares, e não relatos históricos rigorosamente documentados. Por isso, elas carregam interpretações, detalhes imaginados e elementos da cultura da época em que foram escritas — o que explica por que há pequenas variações nos relatos conforme o autor ou a fonte consultada. Mesmo assim, essas obras foram fundamentais para não deixar que o seu nome e a sua história caíssem no esquecimento, levando a heroína da Ilha de Itaparica para leitores de todo o Brasil.
Além da literatura, Maria Felipa também se tornou musa de artistas plásticos, que ao longo dos anos tentaram imaginar a sua aparência, as suas roupas e o seu jeito de ser: em pinturas, desenhos e esculturas, ela é quase sempre representada com roupas simples, adequadas ao trabalho de marisqueira, com postura firme e expressão de determinação. Na cultura popular, cantigas, folias, cantos e manifestações folclóricas também a louvam, transformando-a em um símbolo presente na vida cotidiana da Bahia.

Reconhecimento oficial: de memória popular a Heroína da Pátria

Por muito tempo, a história de Maria Felipa ficou restrita à tradição da Bahia e aos círculos de estudos da cultura negra e da história das mulheres. Mas, nas últimas décadas, movimentos de valorização da história marginalizada, de reconhecimento da contribuição negra para a formação do Brasil e de visibilidade para as mulheres na história conseguiram levar o seu nome ao cenário nacional.
O marco mais importante desse processo aconteceu em 26 de julho de 2018, quando foi sancionada a Lei Federal nº 13.697, que declarou Maria Felipa de Oliveira como Heroína da Pátria Brasileira. Essa lei incluiu o seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, guardado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília — o espaço máximo de honraria para personagens que contribuíram de forma fundamental para a construção, a defesa e o desenvolvimento do país.
Esse reconhecimento tem um significado que vai além de uma simples homenagem: ele representa o reconhecimento de que a Independência do Brasil não foi feita apenas por líderes políticos ou militares, mas também por pessoas comuns, mulheres, negros, indígenas, trabalhadores e moradores do litoral ou do interior, que lutaram com o que tinham. Ele também coloca em destaque a participação das mulheres negras — um grupo que, durante séculos, foi apagado dos relatos oficiais, mas que teve um papel indispensável em todos os momentos decisivos da nossa história.

Maria Felipa hoje: símbolo e legado

Mais do que uma figura histórica, Maria Felipa de Oliveira se tornou um símbolo poderoso:
  • Da resistência feminina: Ela representa a capacidade das mulheres de se organizar, liderar e lutar, mesmo em contextos de desigualdade, discriminação e poucos direitos.
  • Da contribuição negra: Sua história mostra como os povos africanos e seus descendentes foram fundamentais para a formação do Brasil, não apenas pela força de trabalho, mas também pela participação política, cultural e militar.
  • Da memória como patrimônio: Ela nos ensina que a história não está apenas nos documentos escritos: ela está nas vozes das pessoas, nas tradições, nos costumes e na memória coletiva que passa de geração em geração.
Hoje, o seu nome é lembrado em escolas, ruas, praças, projetos sociais e movimentos culturais em todo o Brasil. Na Ilha de Itaparica, o seu legado é ainda mais vivo: ela é uma das figuras mais importantes da identidade local, e a sua história é contada para crianças e jovens como exemplo de coragem, orgulho e pertencimento.

Em um momento em que o Brasil busca compreender melhor a sua própria história, valorizar todos os seus personagens e corrigir as distorções dos relatos oficiais, Maria Felipa de Oliveira se torna cada vez mais necessária. Ela nos lembra que a independência foi uma conquista coletiva, que a liberdade é construída com luta e que as mulheres negras são, e sempre foram, parte fundamental da nossa nação.