Pirata Retorna à Flor das Águas: A Busca e Salvatagem do Navio Francês na Baía de Paranaguá
Pirata Retorna à Flor das Águas: A Busca e Salvatagem do Navio Francês na Baía de Paranaguá
Publicado originalmente em 6 de outubro de 1963 | Reportagem de Etienne Arreguy & Hélio Pássos | Fonte: Revista O Cruzeiro
Há mais de três séculos, as águas da Baía de Paranaguá guardam um segredo histórico: os restos de um navio pirata francês, naufragado em 9 de março de 1718, quando uma forte tempestade o arremessou contra as rochas da Ponta da Ilha da Cotinga, região conhecida hoje como parte do patrimônio histórico e natural do litoral do Paraná. Em 1963, essa história começou a vir à tona graças ao trabalho incansável de dois pesquisadores — o advogado e historiador Fernando Bittencourt e o historiador Roberto Lordy, ambos membros do Instituto Geográfico Brasileiro de Santos —, numa das primeiras e mais importantes operações de salvatagem histórica já realizadas no estado.
A trajetória dessa descoberta foi acompanhada de perto pela revista O Cruzeiro, que divulgou o feito em primeira mão: primeiramente em 31 de agosto de 1963, ao anunciar a localização da embarcação, e depois nesta reportagem de outubro, que detalha cada etapa árdua da retirada de artefatos, em um trabalho marcado pela falta de recursos, mas movido por uma determinação inabalável.
Da pesquisa documental à descoberta no fundo do mar
Antes de qualquer mergulho ou operação prática, Bittencourt e Lordy dedicaram meses à investigação em arquivos históricos nacionais e internacionais. Para confirmar a existência do navio, suas características e o local exato do naufrágio, consultaram documentos no Conselho Ultramarino, em Lisboa — órgão que administrava os territórios portugueses na época do Brasil Colônia — e nos Arquivos Históricos de São Paulo, reunindo provas que tornaram possível a busca direcionada na baía paranaense.
Após três tentativas consecutivas, no nono dia de trabalhos, em 30 de julho de 1963, o esforço foi recompensado: a embarcação foi localizada a cerca de 15 metros de profundidade, num "poço" submarino próximo à Ilha da Cotinga, um ponto de águas turbulentas e fundo irregular que havia preservado os restos do navio por mais de 240 anos. A avaliação inicial do escafandrista Juan Rodrigues Miralles, responsável pelos mergulhos, já apontava um detalhe importante: o casco de madeira estava quase totalmente destruído pela ação da água, das correntes e dos organismos marinhos, restando apenas as peças mais pesadas e resistentes — armas, ferragens e objetos metálicos.
Com a confirmação do achado, os pesquisadores viajaram a São Paulo e ao Rio de Janeiro em busca de verbas, equipamentos ou apoio técnico para realizar a retirada do material histórico. No entanto, a resposta foi desanimadora: receberam quase nenhum auxílio oficial ou privado. Mesmo assim, não abandonaram o projeto e retornaram a Paranaguá, decididos a seguir com o trabalho com o que tinham à disposição: vontade, força de trabalho e equipamentos extremamente simples e improvisados.
Uma operação hercúlea com recursos limitados
A salvatagem se tornou um exemplo de superação diante das dificuldades. Sem guindastes marítimos modernos, sem sistemas de mergulho avançados ou infraestrutura adequada, toda a operação dependia de trabalho humano e engenhosidade:
- Homens recrutados pelos próprios pesquisadores movimentavam as manivelas de um guindaste construído com madeira, adaptado para içar peças pesadas do fundo do mar;
- Outros operavam manualmente a bomba de ar que alimentava o escafandro de Miralles, garantindo o suprimento de ar durante os mergulhos;
- Bóias eram lançadas e posicionadas à mão para marcar o local e auxiliar na movimentação dos objetos retirados;
- O barco de apoio era o Santa Vitória, embarcação pequena do porto de Paranaguá, adaptada para receber as peças históricas.
O ritmo era lento, pois cada movimento exigia cuidado redobrado para não danificar os artefatos nem colocar em risco a vida da equipe. Mas a dedicação era total: Bittencourt e Lordy comandavam cada etapa, acompanhados de colaboradores locais que se tornaram fundamentais para o sucesso da missão. Destaque para:
- Janguito: pescador da região, conhecedor profundo das correntes e dos fundos da baía, essencial para navegação e orientação;
- Magafá: chamado de "enciclopédia" por saber todas as histórias, lendas e detalhes da Ilha da Cotinga e da Baía de Paranaguá, fonte de informações orais que complementaram os documentos;
- Nélson Inácio: mestre do barco Santa Vitória, responsável pela segurança da embarcação e também cozinheiro improvisado, que cuidava da equipe durante os dias de trabalho;
- Tenente Acir Bezerra: comandante do Corpo de Bombeiros de Paranaguá, que colaborou com suporte técnico e logístico.
Os tesouros emergem: canhões, sino e a promessa de riquezas
A primeira grande vitória veio com a retirada de um canhão pequeno e duas culatras — peças estruturais que faziam parte do sistema de artilharia do navio. O canhão menor apareceu com a parte superior já corroída pelo tempo e pela água salgada, mas as culatras estavam em estado de conservação surpreendente, inteiras e com detalhes ainda visíveis. Pouco depois, foi a vez de um sino de metal, que chegou à superfície sem o badalo, mas preservado em sua estrutura principal.
Mas o momento mais marcante da reportagem foi a retirada do canhão grande, de quase uma tonelada de peso. Quando içado, o objeto parecia um "monstro marinho": estava completamente coberto de cracas, algas e uma crosta dura e grossa, de cerca de 15 centímetros de espessura, formada por sedimentos e organismos marinhos que se fixaram ao metal ao longo de dois séculos e meio. O esforço foi tão grande que o guindaste de madeira quase não resistiu ao peso, balançando perigosamente antes de colocar a peça a bordo do Santa Vitória.
Uma vez fora da água, o trabalho de limpeza começou: com talhadeiras e martelos, Miralles retirou cuidadosamente camada por camada da crosta, revelando aos poucos a forma original do canhão. O resultado surpreendeu a todos: a peça estava inteira, sem rachaduras ou danos estruturais, e em seu lado traseiro havia um número gravado — até hoje não identificado, que pode ser uma marca de fabricação ou um número de registro da artilharia da época.
O que ainda estava por vir: o tesouro de ouro e prata
Na época da reportagem, apenas quatro peças haviam sido recuperadas, mas a equipe sabia que havia muito mais a encontrar. De acordo com os documentos pesquisados por Bittencourt e Lordy, o navio contava com um total de 14 canhões — o que significava que ainda faltavam 10 peças para serem retiradas do fundo do mar.
Mas o que mais alimentava a esperança dos pesquisadores e a imaginação do público era a possibilidade de encontrar o famoso baú do tesouro: registros históricos indicavam que a embarcação transportava uma arca contendo 240 mil cruzados em ouro e prata, valores que pertenciam ao corsário francês, acumulados em suas viagens e ataques pelo Atlântico Sul. Para Bittencourt e Lordy, encontrar esse tesouro seria a maior recompensa por todo o árduo trabalho, a dedicação e os obstáculos superados.
Legado histórico: entre lenda e realidade
Mais de 60 anos depois dessa reportagem, a história do navio pirata da Ilha da Cotinga continua sendo um dos capítulos mais fascinantes da história marítima do Paraná. Os artefatos recuperados em 1963 se tornaram peças valiosas para entender a presença de corsários e navios estrangeiros na costa sul do Brasil durante o período colonial, um tempo em que a Baía de Paranaguá era rota comercial estratégica e alvo frequente de embarcações que navegavam em busca de riquezas.
A operação liderada por Fernando Bittencourt e Roberto Lordy também marca um marco importante: foi uma das primeiras iniciativas de preservação do patrimônio subaquático do estado, realizada muito antes de existirem leis específicas ou estruturas oficiais para esse tipo de trabalho. Mesmo que o famoso baú com ouro e prata nunca tenha sido encontrado publicamente, a sua história se mantém viva na memória local, nas lendas da Ilha do Mel e da Ilha da Cotinga, e no interesse de pesquisadores, mergulhadores e amantes da história que ainda hoje exploram as águas da "Flor das Águas" — como é conhecida Paranaguá — em busca de vestígios do passado.
Hoje, os canhões e objetos recuperados são testemunhas silenciosas de uma época de navegações, tempestades e aventuras, provando que o mar paranaense guarda não só beleza, mas também uma história rica e cheia de segredos, aos poucos revelada por quem tem coragem de mergulhar e pesquisar.
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