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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A Escola que Ensina Além do Tempo: Memórias da Casa Escolar Dias da Rocha de Araucária

 Denominação inicial: Casa Escolar Dias da Rocha

Denominação atual: Cartório Cível e Anexos

Endereço: Rua Major Sezino Pereira de Souza, 419 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Secretaria de Obras Públicas e Colonização

Data: 1910

Estrutura: padronizado

Tipologia: Bloco único

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1911

Situação atual: Edificação demolida

Uso atual: Edifício com uso administrativo

Grupo Escolar Dias da Rocha - s/d

Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração) - Pasta 4848

A Escola que Ensina Além do Tempo: Memórias da Casa Escolar Dias da Rocha de Araucária

Nas primeiras décadas do século XX, quando Araucária ainda exalava o perfume da erva-mate e do pinheiro recém-derrubado, e suas ruas de terra guardavam as marcas dos carros de boi que levavam madeira para o porto de Paranaguá, ergueu-se na Rua Major Sezino Pereira de Souza um templo silencioso da esperança: a Casa Escolar Dias da Rocha. Inaugurada em 1911 com o frescor da tinta nas paredes e o brilho do futuro nos olhos das primeiras crianças que cruzaram seu portão, ela não era apenas um prédio — era a promessa de que, mesmo em uma cidade marcada pelo trabalho braçal e pela rusticidade da fronteira agrícola, a palavra escrita, o número calculado e o sonho cultivado teriam seu lugar sagrado.

O Sonho Republicano na Serra do Mar

A história da Casa Escolar Dias da Rocha nasce do ideal republicano que varreu o Brasil após 1889: a convicção de que a nação se construiria não com espadas, mas com cadernos; não com canhões, mas com giz. No Paraná, governadores como Carlos Cavalcanti de Albuquerque transformaram essa visão em política concreta. A Secretaria de Obras Públicas e Colonização, braço executivo desse sonho, desenvolveu um projeto arquitetônico padronizado — não por falta de criatividade, mas por sabedoria pragmática. Enquanto o estado se expandia rumo aos campos de terra roxa do Norte Novo, era necessário erguer escolas com rapidez, solidez e dignidade. Assim nasceram os "grupos escolares" — edifícios de tipologia bloco único, linguagem eclética que misturava elementos neoclássicos às necessidades tropicais, com salas arejadas, pé-direito alto para combater o calor úmido da região e varandas que convidavam ao encontro entre professores e famílias.
Projetada em 1910 e inaugurada no ano seguinte, a Casa Escolar Dias da Rocha encarnava essa filosofia. Suas paredes de alvenaria, suas janelas amplas que deixavam entrar a luz dourada do planalto e seu telhado de telhas coloniais abrigavam mais que salas de aula: abrigavam a transição de uma sociedade rural para uma comunidade consciente de seus direitos e deveres cívicos. Ali, filhos de tropeiros, de imigrantes poloneses que chegavam para trabalhar na extração da erva-mate, e de famílias tradicionais da região aprendiam lado a lado a lição mais revolucionária da República: que todos, independentemente de origem, tinham direito ao saber.

Quem Foi Dias da Rocha? A Memória por Trás do Nome

Embora os registros oficiais do período sejam escassos, o nome "Dias da Rocha" carrega a reverência devida a uma figura que, de alguma forma, marcou a história educacional ou política de Araucária. Em uma época em que escolas recebiam nomes de presidentes da província, educadores pioneiros ou benfeitores locais, é provável que "Dias da Rocha" tenha sido um professor visionário, um político comprometido com a instrução pública ou um cidadão que doou terras ou recursos para a causa da educação. Seu legado não está apenas na placa que um dia adornou a fachada da escola, mas na própria existência do edifício — testemunho silencioso de que alguém, em algum momento, acreditou que as crianças de Araucária mereciam mais que o trabalho nos campos; mereciam o universo contido nos livros.

O Cotidiano Sagrado: Vozes que Ecoaram nos Corredores

Imagine, por um instante, o som que preencheu aquele espaço por décadas:
O ranger da porta de madeira ao amanhecer.
O farfalhar dos cadernos de capa dura.
A voz da professora-diretora ditando "ba, be, bi, bo, bu" enquanto crianças de pés descalços ou sapatos remendados repetiam em coro.
O cheiro de giz e de tinta nanquim misturado ao aroma do café coado na cozinha da escola.
O sino de metal marcando o recreio, quando meninos e meninas corriam para o pátio sob as araucárias que davam nome à cidade.
O silêncio respeitoso durante a lição de história do Brasil — quando se aprendia que a pátria não era apenas um mapa, mas um projeto coletivo.
Naquele bloco único de arquitetura eclética, gerações inteiras aprenderam a ler o mundo. Ali, uma menina filha de imigrantes poloneses descobriu que podia sonhar além da roça. Ali, um menino neto de tropeiros entendeu que a geografia não terminava no rio Iguaçu. Ali, professores com salários modestos mas vocação imensa transformaram analfabetos em cidadãos — e cidadãos em protagonistas de suas próprias histórias.

A Perda Silenciosa: Quando o Prédio Partiu, Mas a Memória Ficou

A história da Casa Escolar Dias da Rocha termina, como tantas histórias de patrimônio brasileiro, com uma nota de tristeza. Em data não registrada com precisão — mas provavelmente nas décadas de expansão urbana do final do século XX —, o edifício foi demolido. No local onde um dia ressoaram vozes infantis e o ranger dos bancos escolares, ergueu-se um edifício administrativo, hoje abrigando o Cartório Cível e Anexos. As paredes que testemunharam primeiras letras foram substituídas por concreto funcional; o pátio onde crianças corriam transformou-se em estacionamento.
Essa demolição não foi um ato de maldade, mas talvez de esquecimento — a crença equivocada de que o novo sempre deve substituir o velho, sem perceber que, ao apagar a materialidade do passado, arriscamo-nos a perder também a memória do que fomos. A Coordenadoria do Patrimônio do Estado, ao guardar na Pasta 4848 fotografias sem data e documentos administrativos, tornou-se guardiã silenciosa dessa ausência. As imagens em preto e branco do "Grupo Escolar Dias da Rocha — s/d" são agora relíquias: janelas para um tempo que não voltará, mas que não deve ser esquecido.

Legado que Não se Demole

Hoje, quem passa pela Rua Major Sezino Pereira de Souza, 419, em Araucária, vê apenas um prédio funcional de uso administrativo. Mas para quem sabe olhar além do concreto, é possível sentir a presença fantasmagórica daquela escola. Nas ruas da cidade, há idosos que um dia sentaram-se em suas carteiras de madeira; há famílias que guardam retratos escolares amarelados com a inscrição "Grupo Escolar Dias da Rocha, 1928"; há professores aposentados que aprenderam a profissão inspirados pelos mestres que ali lecionaram.
A verdadeira Casa Escolar Dias da Rocha nunca foi apenas tijolo e telha. Foi a primeira professora que ensinou uma criança a assinar seu nome. Foi o livro didático repartido por três alunos. Foi o mapa do Brasil desenhado com giz no quadro-negro. Foi a certeza, transmitida de geração em geração, de que a educação é a única herança que nenhum incêndio queima, nenhuma demolição destrói, nenhuma crise econômica rouba.
E assim, mesmo sem paredes que a abriguem, a Casa Escolar Dias da Rocha permanece de pé — não na Rua Major Sezino Pereira de Souza, mas na memória coletiva de Araucária. Nas salas de aula das escolas modernas da cidade, nas universidades frequentadas por descendentes daqueles primeiros alunos, na consciência cívica de uma comunidade que valoriza o saber: ali está ela, intacta, ensinando que o verdadeiro patrimônio não é o que se conserva em pedra, mas o que se transmite em alma.
Que as crianças de hoje, ao cruzarem os portões de suas escolas em Araucária, saibam que pisam em solo sagrado — onde, há mais de um século, outros pés descalços também caminharam em direção à luz do conhecimento. E que o nome "Dias da Rocha" continue ecoando não em placas de bronze, mas na certeza de que cada criança educada é um monumento vivo àqueles que, um dia, acreditaram que o futuro se constrói com livros, não com tijolos.