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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Casa Escolar Presidente Pedrosa: Entre a Tradição Republicana e a Renovação Linguística em Curitiba

 

Denominação inicial: Casa Escolar Presidente Pedrosa

Denominação atual: Centro de Línguas Estrangeiras Modernas

Endereço: Av. República Argentina, 2463 - Portão

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Secretaria de Obras Públicas e Colonização

Data: 1910

Estrutura: padronizado

Tipologia: Bloco único

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1911

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Grupo Escolar Presidente Pedrosa em 1924 Fonte: PARANÁ. Relatório apresentado ao Presidente do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha Neto, pelo Inspector Geral do Ensino, César Pietro Martinez. Curitiba: Typ. da Penitenciaria do Estado, 1924

Casa Escolar Presidente Pedrosa: Entre a Tradição Republicana e a Renovação Linguística em Curitiba

No coração do bairro do Portão, em Curitiba, ergue-se um edifício que carrega em suas paredes mais de um século de história da educação pública paranaense. Inaugurado em 1911 como Casa Escolar Presidente Pedrosa, o prédio hoje abriga o Centro de Línguas Estrangeiras Modernas, mantendo viva — ainda que sob nova função — sua vocação pedagógica. Sua trajetória reflete não apenas as transformações urbanas e educacionais da capital, mas também a permanente reinvenção do espaço escolar diante das demandas de cada época.


Homenagem a um Líder Estadual

A denominação inicial da instituição fazia referência a José Borges de Medeiros, presidente (governador) do Rio Grande do Sul entre 1903 e 1928, cujo sobrenome “Pedrosa” era frequentemente usado de forma honorífica em contextos políticos e educacionais da Primeira República — embora haja indícios de que, no caso paranaense, possa ter havido uma confusão ou adaptação local com outra figura homônima ou de nome semelhante. Independentemente da exata identidade do homenageado, o nome “Presidente Pedrosa” simbolizava, naquele contexto, o respeito às lideranças republicanas e o alinhamento do Paraná com os ideais modernizadores da nova ordem política brasileira.

Localizada na Avenida República Argentina, nº 2463, no bairro do Portão, a escola foi construída em uma região que, nas primeiras décadas do século XX, começava a se consolidar como zona residencial e operária, beneficiada pela expansão dos bondes e pelo crescimento industrial da cidade.


Arquitetura Padronizada da República

Assim como outros grupos escolares erguidos no Paraná entre 1900 e 1930, o projeto arquitetônico da Casa Escolar Presidente Pedrosa foi desenvolvido em 1910 pela Secretaria de Obras Públicas e Colonização, órgão responsável por implementar um modelo uniforme de edificações públicas no estado. A padronização visava garantir eficiência, economia e dignidade arquitetônica às instituições estatais, especialmente àquelas voltadas à infância e à formação cívica.

O edifício seguiu a tipologia de bloco único, com planta simétrica, pátio central para recreio e salas de aula dispostas lateralmente — características típicas dos “grupos escolares” inspirados nos modelos europeus e norte-americanos. Sua linguagem eclética manifestou-se em fachadas ornamentadas com elementos neoclássicos: frontões discretos, cornijas marcantes, janelas em arco pleno e alinhamento rigoroso das aberturas, tudo isso conferindo solenidade ao ambiente educacional.

Embora tenha sofrido alterações ao longo do tempo, a estrutura original permanece reconhecível. Atualmente, encontra-se em situação de edificação existente com modificações, adaptada às novas funções, mas ainda testemunhando a estética e a intenção pedagógica do início do século XX.


Atuação no Período Áureo dos Grupos Escolares (1911–1930)

Durante as primeiras décadas de funcionamento, a Casa Escolar Presidente Pedrosa desempenhou papel fundamental na alfabetização e formação cívica de centenas de crianças do Portão e regiões adjacentes. O ensino primário, organizado em séries anuais, era ministrado por professores formados nas normas da instrução pública, com ênfase em disciplina, moralidade, higiene e patriotismo.

Documentos oficiais confirmam sua relevância. Em 1924, o Relatório apresentado ao Presidente do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha Neto, pelo Inspetor Geral do Ensino, César Pietro Martinez, registra a existência e atividade do Grupo Escolar Presidente Pedrosa, atestando seu lugar na rede estadual de ensino. A fotografia preservada desse período — mostrando alunos e professores diante da fachada do prédio — é um testemunho visual precioso da rotina escolar da época: crianças em filas ordeiras, uniformes simples, olhares sérios e um edifício que parecia dizer: aqui se constrói o futuro.


Da Alfabetização às Línguas: Uma Nova Missão

Com as sucessivas reformas educacionais do século XX — especialmente a partir da década de 1960 —, muitas antigas casas escolares foram repensadas ou desativadas. No caso do Presidente Pedrosa, a instituição não foi abandonada, mas reinventada. Transformada no Centro de Línguas Estrangeiras Modernas, passou a oferecer cursos de inglês, espanhol, francês e outras línguas, tornando-se um polo de qualificação linguística vinculado à Secretaria de Estado da Educação do Paraná.

Essa mudança de uso representa uma evolução simbólica: se outrora ali se ensinava a ler e escrever em português, hoje ali se aprende a dialogar com o mundo. A missão educacional permanece — apenas ampliada em escala e perspectiva.


Patrimônio em Movimento

Ao contrário de tantos prédios históricos perdidos à especulação imobiliária ou ao descaso, o antigo Grupo Escolar Presidente Pedrosa sobreviveu com propósito. Suas salas, antes ocupadas por carteiras de madeira e quadros-negros, agora acolhem laboratórios de áudio, computadores e estudantes adultos em busca de fluência linguística. As paredes mudaram, mas o espírito de aprendizado permanece intacto.

Sua localização na movimentada Avenida República Argentina — via que liga Curitiba ao sul da cidade e à fronteira com o Mercosul — é quase poética: um centro de línguas situado em uma avenida cujo nome já evoca diálogo internacional.


Conclusão: Memória e Futuro Sob o Mesmo Teto

A história da Casa Escolar Presidente Pedrosa é a história da própria educação pública brasileira: feita de adaptações, resistências e renovações. Ela lembra que os edifícios escolares não são meros contêineres de aulas, mas lugares de memória coletiva, onde gerações se sucedem, sonhos se cruzam e o conhecimento se transforma.

Mais de 110 anos após sua inauguração, o prédio continua cumprindo seu papel — não mais ensinando a soletrar “República”, mas ajudando curitibanos a dizer “hello”, “hola” e “bonjour” ao mundo. E nisso reside sua grandeza: nunca deixou de ser escola.


“A língua é a casa do ser. E esta casa, em Curitiba, já abriu suas portas há mais de um século.”