Denominação inicial: Grupo Escolar de Barro Preto
Denominação atual: Colégio Estadual Barro Preto
Endereço: Alameda Bom Pastor, 3000 - Barro Preto
Cidade: São José dos Pinhais
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1951-1955
Projeto Arquitetônico
Autor: Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas
Data: 1948
Estrutura: padronizado
Tipologia: U
Linguagem: Modernista
Data de inauguracao:
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Colégio Estadual Barro Preto em 2015 Fonte: https://www.google.com.br/maps. Acesso em 14 de janeiro de 2018
Entre Formas e Futuros: A História Viva do Grupo Escolar de Barro Preto — Onde o Modernismo Plantou Sonhos nas Terras de Solo Negro
Na Alameda Bom Pastor, número 3000, no bairro Barro Preto de São José dos Pinhais, ergue-se um edifício de linhas limpas e geometria precisa que guarda em seus tijolos uma revolução silenciosa. Enquanto os grupos escolares vizinhos ostentavam telhados de quatro águas e frontões curvos do neocolonial, este prédio — projetado em 1948 e erguido entre 1951 e 1955 — ousou ser diferente. Sua tipologia em "U", suas paredes lisas sem ornamentos, suas janelas horizontais que desafiam a verticalidade tradicional: tudo nele respira modernismo — não como capricho estético, mas como manifesto pedagógico. Aqui, no coração de uma região batizada pelo solo escuro que fecunda as lavouras, o Grupo Escolar de Barro Preto nasceu para ensinar que o futuro não se constrói olhando para trás, mas projetando-se adiante com coragem de quem acredita que cada criança merece uma escola que seja, ela mesma, um poema de esperança.
O Nome da Terra: Barro Preto e a Memória do Solo que Alimenta
Antes de ser bairro, antes de ser rua ou escola, Barro Preto era — e continua sendo — o nome do chão. Nas encostas do planalto paranaense, onde o pinheiro araucária outrora dominava a paisagem, o solo de coloração escura revela sua riqueza mineral: argilas profundas, matéria orgânica acumulada por séculos, terra que bebe a chuva do inverno curitibano e devolve batata, milho e feijão em abundância.
Para os colonos poloneses, ucranianos e italianos que chegaram ao município de São José dos Pinhais — a cidade mais antiga do Paraná, fundada em 1668 com a construção de sua capela dedicada a São José —, aquele solo negro era bênção divina.
Lavravam-no com mãos calejadas, plantavam nele sementes trazidas da Europa, colhiam dele o pão que sustentava famílias inteiras.
O bairro Barro Preto surgiu organicamente ao redor dessas lavouras, onde as casas de madeira e taipa se erguiam próximas às roças, onde o cheiro de terra molhada pela chuva se misturava ao aroma do pão de milho assado no fogão a lenha.
Era uma comunidade de trabalhadores rurais cujos filhos caminhavam quilômetros descalços para frequentar escolas precárias em casas alugadas — até que o Estado, na esteira da revolução educacional iniciada por Manoel Ribas na década de 1930, decidiu que aquele solo fértil merecia também uma escola digna.
1948: O Ano em que o Futuro Ganhou Forma de "U"
Enquanto o mundo ainda curava as feridas da Segunda Guerra Mundial, o Paraná vivia um momento de efervescência cultural e arquitetônica. Em Curitiba, erguia-se o Colégio Estadual do Paraná — projeto modernista de Francisco Basile inaugurado em 1950 — que se tornaria marco da nova linguagem escolar no estado.
A Divisão de Projetos e Edificações da Secretaria de Viação e Obras Públicas, responsável pelos grupos escolares padronizados, compreendeu que a arquitetura não é mero invólucro: é pedagogia em concreto.
Assim, em 1948, nasceu o projeto do Grupo Escolar de Barro Preto — ousado em sua simplicidade. Sua tipologia em "U" criava um pátio interno aberto para o céu, um espaço de convivência protegido onde as crianças brincariam sob a luz natural, longe das paredes cegas que aprisionavam as escolas tradicionais.
Suas janelas horizontais — rasgos longos que corriam paralelos ao chão — não apenas iluminavam as salas com generosidade, mas simbolizavam a horizontalidade democrática: todos iguais diante do saber, sem hierarquias impostas por frontões majestosos ou escadarias imponentes.
A linguagem modernista não era acaso histórico. No pós-guerra, o Brasil redescobria-se como nação em construção, e o modernismo arquitetônico tornou-se expressão desse otimismo: formas puras, materiais honestos, funcionalidade como ética.
Para uma escola rural em São José dos Pinhais — terra de imigrantes que deixaram para trás as velhas estruturas feudais da Europa —, o modernismo representava libertação: a certeza de que seus filhos não precisariam repetir os ciclos de opressão; que podiam, através da educação, inventar um Brasil novo, justo e generoso.
O Cotidiano da Revolução: Quando Crianças de Pés Descalços Entraram num Templo de Linhas Puras
Imaginemos uma manhã de outubro de 1953 — talvez o primeiro dia letivo após a conclusão das obras. O sino toca não pendurado num mastro de madeira, mas fixado na parede lisa de concreto aparente. Crianças de pés descalços — calçados guardados na mochila para não gastar — cruzam o portão em forma de "U" e param, maravilhadas. Nada de colunas torneadas ou frontões ornamentados. Apenas linhas retas que desenham no espaço a promessa de um mundo ordenado pelo saber.
Entre elas está Kazimierz, filho de poloneses que cultivam batata na roça ao lado; Maria, neta de italianos que chegaram fugindo da miséria do Vêneto; Vladimir, neto de ucranianos que rezam em igrejas de cúpulas douradas na Colônia Áurea. Todos diferentes nas línguas que ouvem em casa, mas unidos pelo mesmo espanto diante daquela arquitetura que parece dizer: "Vocês pertencem ao futuro."
A professora — jovem formada na Escola Normal de Curitiba, talvez influenciada pelos ideais de educadores como Anísio Teixeira que pregavam a escola como instrumento de transformação social — recebe-os com um sorriso. A primeira lição não é de português nem de aritmética: é de pertencimento ao novo. "Esta escola é de vocês", diz, apontando para as paredes lisas. "Não há rei nem imperador aqui. Há apenas o saber — e ele é de todos."
Nas salas de aula, a luz entra generosa pelas janelas horizontais, iluminando cadernos pautados onde as crianças copiam, com letra cursiva trêmula, frases como "O Brasil é um país de futuro". No pátio em "U", o recreio é momento de fusão cultural: Kazimierz ensina aos colegas uma cantiga polonesa sobre o ptaszek (passarinho); Maria divide seu biscotto caseiro; Vladimir mostra como se dança a kolomyika ucraniana. Ninguém ri do sotaque do outro. Todos sabem, no silêncio do coração, que estão construindo algo novo: uma pátria feita de muitas terras, muitas línguas, um só destino — e agora, uma escola que ousa ser diferente.
A Memória que Resiste: Do Grupo Escolar ao Colégio Estadual
Ao longo das décadas, o mundo mudou ao redor do Grupo Escolar de Barro Preto. O bairro, outrora cercado por roças de batata e campos de centeio, transformou-se em zona urbana densa; as estradas de terra que ligavam a escola às colônias tornaram-se avenidas asfaltadas; os campos onde as crianças brincavam deram lugar a loteamentos e indústrias. O edifício, porém, resistiu — não como relíquia do passado, mas como guardião ativo da memória educacional do município.
Em algum momento não documentado com precisão nos registros oficiais, a instituição elevou-se de grupo escolar a Colégio Estadual Barro Preto, expandindo sua oferta além do ensino primário para incluir o fundamental e médio.
As salas que outrora acolhiam crianças de 7 a 12 anos passaram a receber adolescentes sonhando com vestibulares e carreiras; o pátio em "U" que viu brincadeiras de roda agora testemunha debates sobre política, ciência e futuro.
O edifício sofreu alterações — janelas ampliadas, instalações elétricas modernizadas, rampas de acessibilidade — mas manteve sua essência modernista.
Suas paredes, que já ouviram o ranger de giz em quadros-negros, hoje ecoam com o ruído de projetores digitais e discussões sobre sustentabilidade. Seus corredores, que um dia viram meninos poloneses aprendendo a escrever "Constituição" pela primeira vez, agora recebem jovens descendentes desses mesmos meninos — agora engenheiros, professores, médicos — que voltam à escola como pais ou avós, trazendo seus netos para que também aprendam num espaço que, mesmo modificado, ainda respira a utopia modernista de um Brasil justo.
Legado de uma Revolução Silenciosa
O Colégio Estadual Barro Preto é mais que um prédio histórico. É um monumento à coragem silenciosa dos arquitetos anônimos que, na década de 1940, ousaram romper com o neocolonial para projetar escolas que falassem de futuro; à resiliência das famílias imigrantes que, mesmo sem falar português fluentemente, insistiram para que seus filhos frequentassem a escola; à visão dos estadistas que entenderam que a arquitetura escolar é política — e que formas puras podem libertar mentes.
Quando caminhamos hoje diante daquele edifício na Alameda Bom Pastor, devemos ouvir além do silêncio das paredes lisas. Devemos ouvir o eco das primeiras sílabas soletradas por crianças de olhos azuis que nunca tinham visto o mar; o ranger das carteiras de madeira onde meninos de origem polonesa aprenderam a escrever "Brasil" com letra cursiva; o sussurro das páginas de cartilhas onde se lia: "O futuro pertence a quem acredita nos sonhos."
Aquele prédio em forma de "U" — braços abertos como a própria pátria acolhedora — não ensinou apenas a ler e escrever. Ensina, até hoje, que a nação brasileira se construiu não apenas nos palácios do Rio de Janeiro ou nas avenidas de São Paulo, mas nas salas de aula modernistas do interior do Paraná, onde filhos de imigrantes descobriram que podiam ser, ao mesmo tempo, poloneses, ucranianos, italianos — e brasileiros por inteiro, habitantes de um futuro que ousaram projetar com linhas retas e corações abertos.
E nisso reside sua imortalidade: não na pedra do alicerce, mas na memória viva de quem sabe que foi naquele grupo escolar modernista, sob o céu aberto do pátio em "U", que o solo negro de Barro Preto — que já alimentava corpos com batata e milho — passou também a alimentar almas com sonhos. E que nenhuma revolução é maior que aquela que acontece silenciosamente, todos os dias, dentro de uma sala de aula onde uma criança descobre, pela primeira vez, que o mundo é seu para transformar.
