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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Entre o Mar e a Serra: A História Viva da Escola Brasílio Machado, Guardiã de Memórias em Antonina

 Denominação inicial: Escola de Antonina, depois Brasílio Machado

Denominação atual: Centro Estadual de Educação Profissional Dr. Brasílio Machado

Endereço: Rua Conselheiro Alves de Araújo, 279-329

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor:

Data: 

Estrutura: singular

Tipologia: Bloco único

Linguagem: 


Data de inauguracao: 15 de agosto de 1885

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Escola Brasílio Machado em 1917 Fonte: REVISTA DO POVO. Anno 2, n° 12. Curitiba, 7 de novembro de 1917

Entre o Mar e a Serra: A História Viva da Escola Brasílio Machado, Guardiã de Memórias em Antonina

No coração do centro histórico de Antonina, sob a sombra protetora da Serra do Mar e com o murmúrio distante da Baía dos Tigres como trilha sonora eterna, ergue-se desde 15 de agosto de 1885 um testemunho silencioso da coragem civilizatória: o prédio que abriga o Centro Estadual de Educação Profissional Dr. Brasílio Machado. Suas paredes, marcadas pelo tempo e pelas transformações, guardam mais do que tijolos e argamassa — guardam o eco de vozes infantis que atravessaram gerações, o ranger de carteiras de madeira, o cheiro de giz e de esperança que perfumou cada sala de aula por quase cento e quarenta anos.

O Berço de uma Cidade que Respirava o Mundo

Para compreender a magnitude daquela inauguração em agosto de 1885, é preciso mergulhar na alma de Antonina no século XIX. Fundada oficialmente em 1714 a partir das catas de ouro nas encostas da serra, a cidade tornara-se, ao longo do século XIX, um dos portos mais movimentados do Brasil
www.antonina.com
. Enquanto Curitiba ainda era uma vila isolada no planalto, Antonina pulsava com o ritmo frenético dos navios que aportavam para levar o "ouro verde" — a erva-mate que representava 85% das exportações paranaenses
www.scielo.br
. Na década de 1880, a cidade chegaria a ser o quarto porto em movimentação do país, com docas repletas de terços de couro carregados de folhas secas rumo ao Prata e ao Chile
www.facebook.com
.
Foi neste cenário de prosperidade e cosmopolitismo que nasceu a necessidade de uma escola pública digna. As crianças dos comerciantes portugueses, dos estivadores italianos, dos tropeiros luso-brasileiros e dos descendentes de antigos garimpeiros precisavam de um lugar onde pudessem aprender as letras, os números e os valores da cidadania. E assim, no auge da efervescência portuária, ergueu-se na Rua Conselheiro Alves de Araújo — artéria central da cidade — um edifício de linguagem eclética, com linhas sóbrias e proporções harmoniosas, destinado a abrigar a instrução primária da população local
www.memoriaurbana.com.br
.

Homenagem a um Visionário: O Legado de Brasílio Machado

O nome escolhido para batizar a instituição não foi casual. Brasílio Augusto Machado de Oliveira, nascido em São Paulo em 4 de setembro de 1848, assumira a presidência da província do Paraná em 22 de agosto de 1884
pt.wikipedia.org
. Advogado, professor e político de rara sensibilidade para as questões educacionais, Machado governou durante um período crucial — os últimos anos do Império, quando o Paraná ainda engatinhava como província autônoma e lutava para construir sua infraestrutura básica.
Durante seu mandato, enfrentou desafios monumentais: a escassez de recursos, a imensidão territorial mal comunicada, e a urgência de criar escolas que formassem cidadãos para uma nação em transformação. Em 1885, ao avaliar o estado da instrução pública, lamentou publicamente que "a escola normal, tal como está constituída, não preenche as exigências do ensino"
legado.moodle.ufsc.br
, demonstrando consciência aguda das limitações do sistema educacional da época — e, ao mesmo tempo, o desejo de superá-las.
Quando deixou o cargo em 21 de agosto de 1885, dias antes da inauguração da escola de Antonina, seus esforços já haviam frutificado. A Casa Escolar que abriu as portas em 15 de agosto daquele ano — com apenas duas salas de aula, mas com a grandeza de um propósito — recebeu seu nome como justa homenagem a quem compreendera que sem educação não há progresso verdadeiro
palavradobo.blogspot.com
. Machado faleceria em São Paulo em 5 de março de 1919, mas seu legado permaneceria vivo nas paredes daquela escola à beira-mar.

As Primeiras Carteiras: Infância em Tempos de Transformação

Imagine a cena: manhã de 15 de agosto de 1885. O sino da escola toca pela primeira vez, ecoando pelas ruas de paralelepípedos onde ainda se ouve o apito dos vapores no porto. Meninos e meninas — alguns descalços, outros com sapatos remendados — entram timidamente no prédio de fachada eclética, com seus arcos suaves e janelas amplas que deixavam entrar a luz dourada do litoral paranaense. Nas paredes, mapas do Império do Brasil ainda exibiam fronteiras que logo mudariam com a Proclamação da República em 1889.
Ali, sob o teto de madeira envernizada, aprenderam a soletrar o alfabeto em cartilhas de capa dura, a traçar letras com pena de aço mergulhada em tinteiro de porcelana, a recitar poesias de Castro Alves e a resolver problemas de aritmética que os preparariam para trabalhar nos escritórios do porto ou nas lojas do comércio local. A escola não era apenas um lugar de ensino — era um porto de memórias, onde se teciam os fios invisíveis que uniriam gerações.

A Fotografia de 1917: Um Instante Congelado no Tempo

Trinta e dois anos após sua fundação, em 1917, a escola já havia testemunhado transformações profundas. O Brasil era uma república jovem e conturbada; Antonina, embora ainda importante, começava a ver seu protagonismo portuário ser gradualmente assumido por Paranaguá. Foi nesse ano que uma fotografia capturou a fachada do prédio — imagem publicada na Revista do Povo, periódico curitibano de 7 de novembro daquele ano
www.memoriaurbana.com.br
.
Na foto em preto e branco, vemos o edifício com sua elegância discreta: paredes caiadas, janelas simétricas, talvez algumas crianças paradas na porta com uniformes simples. Não há sorrisos exuberantes — a fotografia da época exigia pose séria — mas nos olhos daqueles meninos e meninas percebe-se a centelha da curiosidade, o brilho de quem descobre o mundo através das letras. Essa imagem, hoje rara e preciosa, é um elo material com o passado — prova viva de que a escola resistiu às intempéries do tempo, às crises econômicas que assolaram Antonina no século XX, e à própria evolução da educação brasileira.

Do Primário ao Profissional: A Metamorfose de um Sonho

Ao longo das décadas, a escola acompanhou as transformações do Paraná. Nas primeiras décadas do século XX, continuou como instituição de instrução primária, formando gerações que viveriam a industrialização incipiente, as migrações internas e as duas guerras mundiais. Nas décadas de 1960 e 1970, quando Antonina enfrentou um período de relativo ostracismo econômico após a decadência do porto
www.canalrural.com.br
, a escola manteve-se como farol de estabilidade em meio às dificuldades.
A grande virada ocorreu nas primeiras décadas do século XXI, quando o Estado do Paraná retomou com vigor a educação profissional como política pública
www.educacao.pr.gov.br
. A velha Casa Escolar transformou-se no Centro Estadual de Educação Profissional Dr. Brasílio Machado, adaptando suas estruturas para oferecer ensino médio integrado a cursos técnicos — formando jovens não apenas para o saber, mas para o fazer, para o trabalho digno e criativo.
Hoje, o prédio na Rua Conselheiro Alves de Araújo, número 279-329, apresenta alterações fruto do tempo e das necessidades contemporâneas
www.memoriaurbana.com.br
. Algumas paredes foram reforçadas, novas instalações elétricas e hidráulicas foram incorporadas, mas a essência permanece: o mesmo espaço que acolheu crianças do Império agora forma adolescentes para os desafios do século XXI. É a segunda escola mais antiga em atividade no Paraná
www.destinolitoral.com.br
, um patrimônio vivo que respira educação todos os dias.

Epílogo: O Sussurro das Gerações

Quem caminha hoje pelas salas do CEEP Brasílio Machado sente algo difícil de explicar: uma presença. Não é fantasma, nem superstição — é a memória coletiva sedimentada em cada tábua do assoalho, em cada parede que ouviu lições de história, em cada janela que testemunhou o pôr do sol sobre a baía enquanto professores explicavam frações ou conjugavam verbos.
Mais de trezentas mil crianças e jovens já passaram por ali desde 1885. Alguns tornaram-se médicos, outros pescadores; alguns seguiram para Curitiba ou São Paulo, outros permaneceram em Antonina, cuidando da cidade que os viu crescer. Todos, porém, levam consigo um pedaço daquela escola — o cheiro de tinta fresca nos cadernos novos, o gosto do lanche compartilhado no recreio, a emoção do primeiro livro lido sozinho.
A Escola Brasílio Machado não é apenas um edifício. É um rio subterrâneo de histórias que corre sob os pés de quem ali estuda hoje. É a prova de que, mesmo quando portos se calam e economias se transformam, a educação permanece como o bem mais precioso que uma comunidade pode legar às gerações futuras. Entre o mar e a serra, Antonina guarda em seu coração esta joia rara: uma escola centenária que, como as águas da baía, nunca deixou de fluir, nunca deixou de acolher, nunca deixou de ensinar.
E assim continuará — enquanto houver crianças dispostas a aprender e professores dispostos a ensinar, o legado de Brasílio Machado permanecerá vivo, não em estátuas de bronze, mas nos olhos brilhantes de quem descobre, pela primeira vez, o poder transformador das palavras.