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terça-feira, 1 de setembro de 2026

João Leite da Silva Ortiz: Bandeirante Paulista, Fundador do Curral del Rei e Guardião das Minas de Goiás

 

João Leite da Silva Ortiz
Nascimentodécada de 1670
Morte9 de dezembro de 1730
Recife
CidadaniaBrasil
Ocupaçãopovoador, vigilante, bandeirantes, explorador
Obras destacadasCurral del-Rei

João Leite da Silva Ortiz foi um bandeirante paulista e corredor da África. É reconhecido pela fundação do arraial do Curral del Rei, do qual originou-se Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, e pela descoberta de ouro em Goiás com seu sogro Bartolomeu Bueno da Silva, o moço. Foi guarda-mor das Minas de Goiás. Era filho de Estevão Raposo Bocarro com Maria de Abreu Pedroso Leme e irmão do também célebre Bartolomeu Pais de Abreu.

Pedro Taques de Almeida Pais Leme, famoso historiador brasileiro do século XVIII e genealogista, era sobrinho de Silva Ortiz. Por esse motivo, este nome aparece em muitos relatos de história da colonização do Brasil, do início da Capitania de Minas Gerais e da Capitania de Goiás, da formação dos primeiros povoados e vilas provedoras de alimentos e outros produtos para as regiões auríferas de Minas Gerais, como o caso de Curral d'El-Rei.[1][2]

História

Silva Leme descreve sua família no volume II página 470 (título Lemes) da sua Genealogia Paulistana.[1]

Casou com Isabel Bueno da Silva, filha de Bartolomeu Bueno da Silva, o moço, nascido em 1670, descobridor das minas de Goiás, e de sua mulher Joana de Gusmão, filha de Baltasar de Godói Moreira e de Violante de Gusmão.[1]

Acompanhou o sogro nas minas, como sócio e futuro sucessor. Descobertas as minas, instalou-se com fazenda no lugar a que deu o nome Cercado, fundando um arraial que denominou Curral D'El-Rei, numa sesmaria que lhe foi concedida em 1711 por Antônio Coelho de Carvalho. Ali viveu e enriqueceu.[3]

Em 1725, sendo então João Leite delas guarda-mor, houve movida perseguição do novo governador Anôtnio da Silva Caldeira Pimentel a Leite e seu irmão o capitão Bartolomeu Pais, para nulificar os privilégios e mercês que de direito e por contrato tinham.

Resolveu João partir para Portugal, expôr pessoalmente ao Rei seus direitos e fazê-lo ciente dos desmandos do novo governador e do descaminho dos reais quintos por parte de seu cúmplice Sebastião Fernandes do Rego.

Partiu para alcançar a frota na Bahia, mas já tinha saído; embarcou para Pernambuco, com aplausos de todas as pessoas gradas, mas o ódio do governador o acompanhou e morreu envenenado em 1730 pelo padre Matias Pinto, que dele se fizera muito amigo e o acompanhava desde São Paulo, mas que não passava de um agente do governador Caldeira Pimentel.[3]

Eram seus cunhados o coronel Bartolomeu Bueno da Silva, morto em 1776; Joana de Gusmão, casada com o capitão Inácio Dias Pais; Baltazar de Godoi Bueno de Gusmão, guarda-mor das minas de Vilas Boas; Rosa Bueno de Gusmão, casada com Bento Pais de Oliveira; Francisco Bueno da Silva; Leonor Bueno da Silva, casada com Domingos Rodrigues do Prado; Escolástica de Gusmão, que em 1726 na Parnaiba casou com Luis Pedroso Furquim, filho do famoso Capitão Antônio Furquim da Luz.[1]

Referências

  1.  Silva Leme, Luiz Gonzaga (1904). Genealogia paulistana 1ª ed. [S.l.]: Duprat & comp.
  2. Paes Leme, Pedro Taques de Almeida (1980). Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica. 33-35. Belo Horizonte: Itatiaia
  3.  Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, Francisco de Assis Carvalho Franco

João Leite da Silva Ortiz: Bandeirante Paulista, Fundador do Curral del Rei e Guardião das Minas de Goiás

João Leite da Silva Ortiz insere-se na galeria dos mais notáveis bandeirantes paulistas do período colonial, destacando-se como desbravador, administrador e figura central na fundação de importantes núcleos de povoamento no Brasil central. O seu nome e o seu legado estão indissociavelmente ligados à história da colonização das regiões auríferas de Minas Gerais e de Goiás, bem como à génese da atual capital mineira, Belo Horizonte.

Nascido no seio de uma família de proeminência na capitania de São Paulo, era filho de Estevão Raposo Bocarro e de Maria de Abreu Pedroso Leme, além de irmão do célebre capitão Bartolomeu Pais de Abreu. A importância da sua estirpe familiar e o seu próprio percurso ficaram registados na historiografia colonial, sendo amplamente documentados por seu sobrinho, o prestigiado genealogista e historiador setecentista Pedro Taques de Almeida Pais Leme, e compilados por Luís Gonzaga da Silva Leme no segundo volume da monumental Genealogia Paulistana.

Alianças Familiares e a Expedição a Goiás

A trajetória de Silva Ortiz ganhou um novo rumo ao unir-se em matrimónio com Isabel Bueno da Silva. Ela era filha de Bartolomeu Bueno da Silva, o Moço — o famoso bandeirante descobridor das minas de Goiás — e de Joana de Gusmão.

Atuando inicialmente como sócio e braço direito do sogro, João Leite integrou as ousadas entradas rumo ao interior do continente em busca de metais preciosos. A participação ativa nas descobertas auríferas em terras goianas consolidou o seu prestígio político e administrativo, culminando na sua nomeação para o cargo de guarda-mor das Minas de Goiás, uma posição de enorme relevância fiscal e militar na estrutura colonial da época.

A Fundação de Curral del Rei

Com o avanço da exploração mineira e a necessidade de abastecer as regiões produtoras de ouro com géneros alimentícios e gado, João Leite fixou residência nas proximidades das rotas comerciais.

  • A Concessão da Sesmaria: Em 1711, obteve formalmente uma sesmaria concedida pelo governador Antônio Coelho de Carvalho.

  • O Arraial do Cercado: Instalou-se na região e estabeleceu uma fazenda à qual deu o nome de Cercado.

  • A Génese de Belo Horizonte: No seio dessa propriedade agrícola e pastoril, fundou o arraial que denominou Curral D'El-Rei (posteriormente grafado como Curral del Rei).

Ali viveu, prosperou e acumulou grande fortuna, criando um ponto logístico fundamental para a sustentabilidade económica da capitania mineira. Séculos mais tarde, seria exatamente a partir deste primitivo arraial fundado por Silva Ortiz que se ergueria a cidade de Belo Horizonte, inaugurada em 1897 como a nova capital de Minas Gerais.

Conflitos Políticos e o Trágico Fim

A prosperidade e os privilégios granjeados por João Leite e pela sua família tornaram-se alvo de disputas de poder na colônia. Em 1725, o recém-empossado governador de Goiás, Antônio da Silva Caldeira Pimentel, iniciou uma rigorosa perseguição política a Silva Ortiz e ao seu irmão, o capitão Bartolomeu Pais de Abreu, com o objetivo claro de anular as mercês e os privilégios contratuais que lhes assistiam por direito.

Diante dos abusos de poder e das acusações de desvio dos quintos reais por parte do governador e do seu aliado Sebastião Fernandes do Rego, Silva Ortiz tomou uma decisão drástica: embarcar para o Reino para expor pessoalmente a situação perante o próprio Rei de Portugal.

O trajeto até à metrópole foi marcado por peripecias e pela constante vigilância dos seus opositores:

  1. Dirigiu-se à Bahia para alcançar a frota real, mas esta já havia partido.

  2. Seguiu viagem rumo a Pernambuco, onde foi acolhido com honras e aplausos pelas figuras gradas da terra.

  3. No entanto, o braço da perseguição política perseguiu-o implacavelmente.

João Leite da Silva Ortiz acabou por morrer envenenado em 1730. O crime foi perpetrado pelo padre Matias Pinto, indivíduo que se fizera passar por seu amigo íntimo e o acompanhara desde São Paulo, mas que agia secretamente como agente a serviço do governador Caldeira Pimentel.

Legado Familiar

A descendência e a rede de alianças da família Bueno da Silva e Pais de Abreu moldaram a elite colonial do Brasil central. Eram cunhados de João Leite figuras de proeminência regional, tais como:

  • O coronel Bartolomeu Bueno da Silva (falecido em 1776).

  • Baltazar de Godoi Bueno de Gusmão, que também exerceu o cargo de guarda-mor das minas de Vilas Boas.

  • Joana de Gusmão, casada com o capitão Inácio Dias Pais.

  • Leonor Bueno da Silva, unida a Domingos Rodrigues do Prado.

  • Escolástica de Gusmão, cuja união em 1726, na Parnaíba, com Luís Pedroso Furquim — filho do célebre capitão Antônio Furquim da Luz —, estreitou ainda mais os laços entre as principais estirpes de desbravadores do período colonial brasileiro.