Denominação inicial: Projecto de casa para o Snr. José Beggi.
Denominação atual:
Categoria (Uso): Residência e Comércio
Subcategoria: Residência Econômica
Endereço: Rua Fernando Amaro
Número de pavimentos: 1
Área do pavimento: 95,00 m²
Área Total: 95,00 m²
Técnica/Material Construtivo: Alvenaria de Tijolos
Data do Projeto Arquitetônico: 27/02/1917
Alvará de Construção: Talão Nº 687; N° 998/1917
Descrição: Projeto Arquitetônico para construção de casa para residência e comércio.
Situação em 2012: Demolido
Imagens
1 - Projeto Arquitetônico.
Referências:
CHAVES, Eduardo Fernando. Projecto de Casa para o Snr. José Beggi à Rua Fernando Amaro. Planta do pavimento térreo, corte e fachada frontal apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
1 - Projeto Arquitetônico.
Acervo: Arquivo Público Municipal de Curitiba.
José Beggi e a Casa de Tijolos que Sonhou na Rua Fernando Amaro:
Um Retrato da Simplicidade Urbana em Curitiba (1917)
Em plena Primeira Guerra Mundial, enquanto o mundo se despedaçava em trincheiras e alianças, em Curitiba um modesto cidadão chamado José Beggi dava início a um projeto profundamente humano: construir uma casa onde pudesse viver com sua família e, ao mesmo tempo, sustentá-la com o trabalho de seu próprio comércio. Era fevereiro de 1917. A cidade ainda respirava os ares de uma vila em transição, marcada por ruas de terra, bondes puxados a burro e uma arquitetura que misturava tradição lusitana, influências germânicas e o pragmatismo do cotidiano.
Assinado pelo arquiteto Eduardo Fernando Chaves, o “Projecto de casa para o Snr. José Beggi” revela, em suas linhas sóbrias, o retrato de uma classe trabalhadora que, com esforço e dignidade, buscava se firmar no tecido urbano da capital paranaense.
Uma Casa-Econômica, Mas Cheia de Propósito
Com apenas 95 metros quadrados em um único pavimento, a construção projetada para José Beggi enquadra-se na categoria de residência econômica com uso misto — um modelo arquitetônico essencial à formação dos bairros centrais de Curitiba nas primeiras décadas do século XX. Localizada na Rua Fernando Amaro, provavelmente em um trecho ainda em desenvolvimento, a casa era pensada para maximizar funcionalidade sem abrir mão da decência.
A planta do térreo, conservada em microfilme digitalizado, mostra uma distribuição clara: a frente voltada para a rua abrigava o comércio — talvez uma pequena mercearia, oficina ou armarinho — com acesso direto do passeio público. Nos fundos ou lateral, acessórios como cozinha, banheiro e área de serviço garantiam o mínimo necessário à vida doméstica. O projeto também incluía corte e fachada frontal, revelando preocupação com a estética, ainda que dentro dos limites do econômico.
Tijolos, Trabalho e Permanência
A escolha pela alvenaria de tijolos como técnica construtiva era, na época, um sinal de intenção de permanência. Diferente das construções de madeira — mais rápidas e baratas, mas vulneráveis ao fogo e à deterioração —, o tijolo representava solidez, investimento e futuro. José Beggi não estava apenas erguendo um abrigo; estava plantando raízes.
O alvará de construção, emitido sob o Talão nº 687 e registro nº 998/1917, confirma a legalidade e o engajamento do proprietário com as normas urbanas emergentes. Em uma época em que muitas construções ainda eram feitas sem fiscalização formal, o fato de Beggi ter buscado o alvará demonstra respeito pela cidade e por suas leis, além de uma consciência cívica rara entre pequenos proprietários da época.
Desaparecida, Mas Não Esquecida
Infelizmente, assim como o prédio de Marinha Dias de Paiva, a casa de José Beggi não resistiu ao tempo. Registrada como demolida até 2012, sua ausência física é um lembrete doloroso do quanto Curitiba perdeu ao negligenciar seu patrimônio modesto — aquele que não chama atenção por esplendor, mas que carrega, em cada detalhe, a história real de seus habitantes comuns.
Não há fotografias do edifício em pé. Apenas o projeto arquitetônico, preservado em uma única prancha com planta, corte e fachada, sobrevive como testemunha. E é nesse documento técnico que encontramos a alma do projeto: a geometria humilde, as proporções equilibradas, a integração entre rua e residência.
José Beggi: O Herói Anônimo da Cidade
Hoje, quase nada se sabe sobre a vida pessoal de José Beggi — sua origem, profissão, família ou destino. Mas seu nome, gravado no projeto e no alvará, é suficiente para devolvê-lo à história. Ele pertence à geração de homens e mulheres que, com as próprias mãos, ergueram Curitiba não com monumentos, mas com casas de esquina, portas abertas e balcões de atendimento.
Sua residência-comércio era mais do que um imóvel: era um microcosmo da economia de bairro, um espaço de trocas, cuidados e sobrevivência. Era ali que o pão era vendido, a encomenda entregue, a conversa fiada ao fim do dia. Era ali que a cidade realmente acontecia.
Memória em Tijolos Invisíveis
Embora a casa tenha sido demolida, seu legado permanece nos arquivos, nas ruas que ainda guardam o traçado antigo, e na memória coletiva daqueles que entendem que a grandeza de uma cidade está também em seus edifícios simples.
Que José Beggi seja lembrado não como um nome esquecido em um microfilme, mas como símbolo de todos os cidadãos que, com pouco, fizeram muito. Porque construir uma casa — mesmo pequena, mesmo econômica — é sempre um ato de esperança.
Referência Arquivística:
CHAVES, Eduardo Fernando. Projecto de Casa para o Snr. José Beggi à Rua Fernando Amaro. Planta do pavimento térreo, corte e fachada frontal apresentados em uma prancha. Microfilme digitalizado.
“Nem toda grandeza precisa de torres. Às vezes, basta um tijolo, um balcão e a coragem de começar.”
