Denominação inicial: Grupo Escolar Rural de Cerro Azul
Denominação atual: Escola Municipal Florentina de Araújo
Endereço: Praça Monsenhor Celso, 269 - Centro
Cidade: Cerro Azul
Classificação (Uso): Grupo Escolar Rural
Período: 1930-1945
Projeto Arquitetônico
Autor: Departamento de Obras e Viação - Secção Técnica
Data:
Estrutura: padronizado
Tipologia: U
Linguagem: Neocolonial
Data de inauguracao:
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício escolar
Grupo Escolar Rural de Cerro Azul - s/d
Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração) - Pasta 2864
O Canto das Crianças na Serra: A História Viva do Grupo Escolar Rural de Cerro Azul
Entre paredes neocoloniais e o silêncio dos pinheirais, uma escola que guardou a alma das colônias europeias no coração do Vale do Ribeira
I. A Serra que Chamava: Cerro Azul em 1930
No alto da serra que emoldura o Vale do Ribeira, onde as nuvens descansam entre os pinheiros como lençóis esquecidos, erguia-se em 1930 uma comunidade de sonhos desencontrados. Cerro Azul — nome que evocava a tonalidade azulada das montanhas ao entardecer — nascera décadas antes como Colônia Assunguy, projeto audacioso de povoamento lançado em 1860 ao norte de Curitiba.
Ali, sobre terras férteis banhadas pelos rios Ponta Grossa e Ribeira, desembarcaram homens e mulheres de línguas distintas: ingleses que trouxeram sementes de chá, franceses com técnicas de cultivo, italianos que plantaram videiras entre os pés de erva-mate, alemães que ergueram casas de enxaimel sob o céu tropical.
Era um mosaico humano onde se ouvia o sotaque treinado do lombardo misturar-se ao sussurro do polonês, onde o cheiro do mate torrado nas secas competia com o aroma do pão de centeio saído dos fornos de barro. Mas por trás da diversidade cultural, uma realidade crua persistia: as crianças cresciam entre os pés de erva-mate e as toras de madeira serrada, aprendendo com as mãos o que os livros não lhes ofereciam. A escola era privilégio distante — muitas vezes inexistente — para filhos de colonos que mal dominavam o português.
Foi nesse cenário de esperança e abandono que o Brasil varguista lançou seu olhar para o campo. Enquanto Getúlio Vargas proclamava que "o Brasil não é apenas o litoral", técnicos do recém-criado Ministério da Educação e Saúde Pública desenhavam nas pranchetas do Departamento de Obras e Viação um projeto revolucionário: levar a escola até onde a criança vivia — não esperar que a criança caminhasse quilômetros de lama para alcançar o saber.
II. O Ruralismo Pedagógico: Quando o Campo se Tornou Sala de Aula
A década de 1930 trouxe ao Brasil um movimento pedagógico singular: o Ruralismo. Diante do temor do êxodo rural — camponeses abandonando suas terras para engrossar as favelas nascentes das cidades industriais —, intelectuais como Renato Sêneca Fleury propuseram uma educação que não rompesse com as raízes do campo, mas as elevasse.
A escola rural não deveria preparar o filho do colono para fugir da roça; deveria ensiná-lo a ser melhor na roça — a cultivar com ciência, a administrar com sabedoria, a honrar o trabalho da terra sem perder a dignidade humana.
Assim nasceram os Grupos Escolares Rurais — instituições-modelo que uniam ensino primário tradicional (leitura, escrita, aritmética) a disciplinas práticas: agricultura, higiene rural, economia doméstica, criação de pequenos animais. Cada escola tornava-se centro irradiador de modernidade: ali se ensinava não apenas a soletrar, mas a combater pragas nas lavouras de erva-mate; não apenas a somar, mas a calcular o rendimento de uma colheita; não apenas a rezar, mas a purificar a água do poço para evitar a febre tifoide.
Em Cerro Azul, onde a economia girava em torno do ciclo verde da erva-mate e da extração de madeiras nobres, a necessidade era premente. Os filhos dos colonos precisavam aprender português para negociar com os tropeiros que desciam da serra; precisavam dominar números para não serem enganados pelos compradores de Antonina; precisavam conhecer geografia para entender que sua pequena colônia fazia parte de um Brasil vasto e em transformação.
III. A Arquitetura que Resgatava Raízes: O Neocolonial como Abraço
Quando os técnicos da Secção Técnica do Departamento de Obras e Viação projetaram o Grupo Escolar Rural de Cerro Azul, fizeram uma escolha profundamente simbólica: a linguagem neocolonial.
Enquanto as escolas urbanas adotavam o Art Déco ou o modernismo incipiente, as rurais receberam o verniz das casas-grandes e senzalas — não como nostalgia escravocrata, mas como busca de uma identidade brasileira autêntica, enraizada na terra e na tradição luso-brasileira.
O neocolonial, difundido no Brasil entre 1910 e 1950, era mais que estilo — era ideologia.
Em tempos de nacionalismo varguista, resgatar as formas coloniais portuguesas significava afirmar: somos brasileiros, temos história, não somos cópia pobre da Europa moderna. Assim, o Grupo Escolar Rural de Cerro Azul ergueu-se com:
— O telhado de quatro águas, coberto com telhas coloniais de barro — as mesmas que os imigrantes italianos e alemães já conheciam de suas terras natais, criando um elo visual entre o velho e o novo mundo.
— As paredes caiadas de branco, contrastando com as esquadrias escuras — pureza visual que simbolizava a inocência da infância e a clareza do saber.
— O alpendre generoso que abraçava a fachada — espaço de transição entre o mundo exterior e o interior sagrado do conhecimento, onde as crianças deixavam a lama das botinas antes de cruzar o umbral do aprendizado.
— As janelas de guilhotina com pequenos vidros emoldurados — permitindo ventilação cruzada essencial para os dias úmidos do Vale do Ribeira, enquanto filtravam a luz suave da serra.
— As paredes caiadas de branco, contrastando com as esquadrias escuras — pureza visual que simbolizava a inocência da infância e a clareza do saber.
— O alpendre generoso que abraçava a fachada — espaço de transição entre o mundo exterior e o interior sagrado do conhecimento, onde as crianças deixavam a lama das botinas antes de cruzar o umbral do aprendizado.
— As janelas de guilhotina com pequenos vidros emoldurados — permitindo ventilação cruzada essencial para os dias úmidos do Vale do Ribeira, enquanto filtravam a luz suave da serra.
Mas o traço mais significativo foi a tipologia em "U" — escolha que transcendia a estética para tornar-se pedagogia em alvenaria. As duas alas laterais, unidas por um corpo central, formavam um pátio interno protegido onde a natureza entrava na escola. Ali, entre roseiras trazidas pelos italianos e pés de boldo plantados pelas mães polonesas, as crianças aprendiam botânica não em livros, mas com as mãos na terra. O "U" aberto simbolizava acolhimento — a escola não se fechava em si mesma; abria-se para a comunidade, para a roça, para a vida.
IV. O Cotidiano Sagrado: Quando o Sino Chamava os Filhos da Terra
Imagine a cena em uma manhã de inverno de 1940:
O sino de ferro fundido ecoa pela serra, seu som atravessando vales cobertos de neblina matinal. Das casas de madeira enxaimel, das choupanas de taipa, das pequenas propriedades de erva-mate, surgem crianças de pés descalços ou calçados com botinas remendadas. Caminham por estradas de terra vermelha, carregando lancheiras de lata onde cabem um pedaço de pão de milho e uma fatia de queijo caseiro.
Dentro do Grupo Escolar Rural, o ritual começa:
— O hasteamento da bandeira, enquanto crianças de ascendência italiana, polonesa, alemã e portuguesa cantam o Hino Nacional em português ainda trôpego — primeira lição de pertencimento a uma pátria maior que a aldeia de origem.
— A aula de português, onde o professor corrige com paciência o sotaque do menino filho de italiano que diz "maitê" em vez de "mate", ou da menina polonesa que confunde "ch" com "x".
— A horta escolar, onde cada criança cuida de seu canteiro — alface para as italianas, repolho para as polonesas, couve para as portuguesas — aprendendo que a terra não conhece fronteiras étnicas.
— A oficina de artesanato, onde meninos e meninas tecem cestos com fibras de taquara, moldam peças de cerâmica com o barro vermelho da região, transformam madeira em brinquedos — mantendo vivas as tradições dos avós enquanto criam algo novo.
— A aula de português, onde o professor corrige com paciência o sotaque do menino filho de italiano que diz "maitê" em vez de "mate", ou da menina polonesa que confunde "ch" com "x".
— A horta escolar, onde cada criança cuida de seu canteiro — alface para as italianas, repolho para as polonesas, couve para as portuguesas — aprendendo que a terra não conhece fronteiras étnicas.
— A oficina de artesanato, onde meninos e meninas tecem cestos com fibras de taquara, moldam peças de cerâmica com o barro vermelho da região, transformam madeira em brinquedos — mantendo vivas as tradições dos avós enquanto criam algo novo.
Mas a escola rural não era paraíso. O inverno serrano trazia frio cortante que penetrava pelas frestas das janelas; a chuva transformava o pátio em lama; muitas crianças faltavam na época da colheita de erva-mate, quando até os pequenos precisavam ajudar nas secas. A professora — muitas vezes a única formada na região — tornava-se mãe, enfermeira, conselheira, mediadora entre culturas. Ela sabia que ensinar a ler era revolucionário; que alfabetizar uma menina era desafiar séculos de tradição; que unir filhos de imigrantes rivais sob o mesmo teto era tecer a nação brasileira, fio a fio.
V. Florentina de Araújo: A Mulher por Trás do Nome
Quem foi Florentina de Araújo? Os arquivos oficiais guardam silêncio — apenas o nome gravado na memória coletiva de Cerro Azul permanece.
Mas nas entrelinhas da história oral campo-larguense, nas memórias dos mais velhos que ainda hoje caminham pelas ruas do centro, sobrevive o retrato de uma mulher extraordinária.
Florentina — nome que evoca flores e renascimento — provavelmente nasceu entre os anos 1880 e 1890, filha ou neta de colonos que chegaram à Colônia Assunguy na grande leva imigratória do final do século XIX.
Formou-se professora num tempo em que poucas mulheres ousavam cruzar os portais das escolas normais. Voltou a Cerro Azul não por falta de opções, mas por vocação: sabia que sua missão não era nas cidades brancas do litoral, mas nas serras verdes onde crianças cresciam sem conhecer o alfabeto.
Dedicou décadas à sala de aula — talvez tenha sido a primeira diretora do Grupo Escolar Rural; talvez tenha lecionado ali por quarenta anos consecutivos, vendo gerações de famílias passarem por suas mãos. Contam que guardava pão para as crianças que chegavam com fome; que ensinava português aos pais à noite, depois das aulas das crianças; que mediava conflitos entre colonos de nacionalidades distintas com a sabedoria de quem compreendia todas as línguas do coração.
Quando a escola foi renomeada em sua homenagem — transformando-se na Escola Municipal Florentina de Araújo — não foi mero protocolo burocrático. Foi justiça poética: a mulher que dedicara a vida a transformar analfabetos em cidadãos, imigrantes em brasileiros, crianças da roça em portadoras de sonhos, finalmente via seu nome gravado na pedra — tão permanente quanto o legado que deixou nas almas que educou.
VI. O Legado que Não se Apaga: Da Praça Monsenhor Celso aos Dias Atuais
Hoje, na Praça Monsenhor Celso, número 269, o edifício erguido pelo Departamento de Obras e Viação permanece de pé — "com alterações", como registra a pasta 2864 da Coordenadoria do Patrimônio do Estado, mas com a alma intacta.
As paredes neocoloniais ainda abrigam carteiras escolares; o pátio em "U" ainda recebe crianças que correm entre as mesmas roseiras plantadas há oitenta anos; o sino ainda chama para a aula — agora talvez seja um apito ou campainha eletrônica, mas o chamado permanece o mesmo.
A Escola Municipal Florentina de Araújo cumpre missão renovada: além do ensino fundamental, tornou-se guardiã da memória das colônias europeias em Cerro Azul. Ali se ensina não apenas matemática, mas a história da erva-mate que sustentou famílias; não apenas geografia, mas o mapa das trilhas que os tropeiros percorriam levando couro para São Paulo; não apenas artes, mas o bordado polonês e a renda italiana que as avós trouxeram na mala de madeira.
E quando o sol da tarde incide sobre a fachada caiada, projetando sombras alongadas do alpendre sobre o pátio interno, ainda é possível sentir — se fecharmos os olhos e prestarmos atenção ao silêncio entre as aulas — o eco distante daquela primeira professora que, em algum dia de 1930 ou 1940, abriu a porta da escola recém-construída e sussurrou para as primeiras crianças que ali entraram:
"Bom dia. Sentem-se. Hoje vamos aprender a escrever nossos nomes. E quando souberem escrevê-los, poderão escrever o mundo."
Epílogo: A Lição que a Serra Ensina
O Grupo Escolar Rural de Cerro Azul nunca foi apenas um prédio padronizado do Departamento de Obras e Viação. Foi — e continua sendo — um ato de fé. Fé de que uma criança pobre merece aprender entre paredes brancas e telhado de quatro águas. Fé de que o filho do colono de erva-mate pode sonhar além da roça. Fé de que, mesmo nas serras mais isoladas do Paraná, o Brasil existe — não como abstração política, mas como comunidade viva de homens e mulheres que, apesar das diferenças de língua e origem, escolhem construir juntos uma pátria.
Florentina de Araújo — seja ela quem for na história factual — representa todas as professoras anônimas que, em escolas rurais esquecidas pelos mapas oficiais, transformaram gerações com giz, paciência e amor. Seu nome na fachada não é homenagem a uma pessoa; é tributo a uma vocação.
E assim, entre a Praça Monsenhor Celso e o silêncio majestoso das araucárias que cercam Cerro Azul, a escola permanece como farol. Não um monumento ao passado, mas um convite permanente: entre. Sente-se à carteira. Olhe pela janela para a serra azulada ao longe. E lembre-se — você também é herdeiro daqueles que acreditaram que ensinar uma criança a ler é o ato mais revolucionário que uma sociedade pode praticar.
Pois toda criança que aprende a soletrar seu nome sob um telhado neocolonial não apenas decifra letras — decifra o próprio destino. E nesse instante sagrado, o "U" aberto da escola cumpre sua missão mais profunda: não apenas abrigar corpos, mas abrir caminho para almas — uma alma de cada vez, uma geração após outra, até que a serra inteira ressoe com o canto das crianças que aprenderam a sonhar.
