O ENCONTRO GELADO DE DUAS GIGANTES: QUANDO SISSI E VITÓRIA SE CRUZARAM NA ILHA DE WIGHT
O ENCONTRO GELADO DE DUAS GIGANTES: QUANDO SISSI E VITÓRIA SE CRUZARAM NA ILHA DE WIGHT
Por Renato Drummond Tapioca Neto
O verão de 1874 prometia ser um marco na história da realeza europeia. Duas das mulheres mais famosas, poderosas e fotografadas do século XIX estavam prestes a se encontrar face a face na tranquila Ilha de Wight, ao sul da Inglaterra. De um lado, a Rainha Vitória, a "Viúva de Windsor", que governava o maior império que o mundo já vira. Do outro, a Imperatriz Elisabeth da Áustria, a lendária "Sissi", conhecida por sua beleza etérea e seu espírito indomável.
O que poderia ter sido um encontro fraternal entre monarcas transformou-se, no entanto, em um episódio marcado por formalidades gélidas, críticas veladas e um profundo desencontro de personalidades. Através de cartas, diários e relatos de testemunhas oculares, podemos reconstruir os detalhes dessa visita histórica que, longe de gerar amizade, revelou o abismo existente entre duas visões de mundo irreconciliáveis.
A CHEGADA INESPERADA NA ILHA DE WIGHT
Por volta de 1873, a Imperatriz Sissi começou a planejar uma viagem à Grã-Bretanha. Seu objetivo não era político, mas pessoal: ela desejava conhecer a Rainha Vitória. Acompanhada de sua filha mais nova, a Arquiduquesa Maria Valéria, Sissi partiu da Áustria e chegou à Inglaterra no verão de 1874.
Em 2 de agosto, a comitiva imperial fixou residência no Castelo de Steephill, uma construção histórica na Ilha de Wight (infelizmente demolida na década de 1960). A escolha do local não foi aleatória: estava nas proximidades de Osborne House, a residência de veraneio favorita da Rainha Vitória. A expectativa era de que a proximidade geográfica facilitasse encontros frequentes e cordiais.
No entanto, a notícia da chegada de Sissi pegou a corte inglesa de surpresa. A Rainha Vitória, que vivia em um luto prolongado desde a morte do Príncipe Albert em 1861, não estava preparada para receber uma visita tão espontânea. O encontro, quando finalmente ocorreu, não fluíram conforme o desejado pela etiqueta real, sendo marcado por um tratamento glacial, embora estritamente cortês.
A CRÍTICA REAL: A OPINIÃO DE VITÓRIA SOBRE SISSI
Embora as duas soberanas se tratassem com o respeito devido às suas coroas, a impressão pessoal foi menos lisonjeira. A Rainha Vitória, conhecida por seu julgamento direto em correspondências privadas, não ficou impressionada com a famosa beleza da imperatriz austríaca.
Em uma carta enviada à sua filha, a Princesa Real Vitória (esposa do Imperador Frederico III da Alemanha), que também estava na Ilha de Wight na ocasião, a Rainha desabafou:
"A imperatriz insiste em me ver hoje. Todos nós estamos desapontados. Eu não posso chamá-la de uma grande beldade. Ela possui uma bela pele, um porte magnífico, pequenos olhos perfeitos e um nariz não tão perfeito assim. Eu devo dizer que ela fica muito melhor 'in grande tenue' [com seus trajes de Estado], quando ela pode ser admirada com seus belos cabelos, que são o seu atributo. Eu acho que Alix [a princesa de Gales] é muito mais bonita que a imperatriz" (apud HAMMAN, 1986, p. 218).
Para Vitória, a beleza de Sissi parecia depender demasiado de seus trajes cerimoniais e de seus famosos cabelos longos, não resistindo a uma análise mais crítica no dia a dia. A comparação com a Princesa de Gales (Alexandra da Dinamarca), considerada um dos ícones de beleza da época, demonstrava o padrão rígido da rainha inglesa.
A ESTRANHEZA DE SISSI: A PERSPECTIVA DA CORTE INGLESA
Do lado inglês, os hábitos da imperatriz austríaca também causaram estranheza. A Princesa Vitória (a filha da rainha), que esteve presente na chegada de Sissi com Maria Valéria, relatou à mãe o comportamento excêntrico da convidada:
"A imperatriz da Áustria também veio aqui ontem – ela não aceitou quaisquer dos refrescos que lhes oferecemos. Mas depois disso nós ouvimos que ela foi para um hotel em Snowdon e jantou por lá, o que achamos muito estranho. Ela não estava na sua melhor aparência, e acredito que sua beleza desapareceu um bocado desde o último ano, embora ela ainda continue linda! Tampouco estava vestida de forma agradável. […] mas a imperatriz é mais impressionante do que qualquer dama que eu já conheci. A bela imperatriz é uma pessoa muito estranha, tanto quanto sua programação diária permite. Na maior parte da manhã ela fica dormindo no sofá. Ela almoça por volta das 4 e caminha bastante sozinha a noite toda e nunca por menos de três horas, ficando furiosa quando alguma coisa é planejada. Ela não quer ver ninguém ou ser vista em qualquer lugar" (apud HAMMAN, 1986, p. 218).
O relato pintava o retrato de uma mulher reclusa, notívaga e avessa às convenções sociais que a Rainha Vitória, ironicamente, também prezava, embora por motivos diferentes (luto versus liberdade).
O RELATO DA PRÓPRIA IMPERATRIZ: "O DIA MAIS FATIGANTE"
Devido à conhecida timidez e misantropia da imperatriz, sua passagem pela Inglaterra foi motivo de preocupação na corte austríaca. Sissi, no entanto, demonstrou gentileza superficial para com John Brown, o criado escocês favorito da Rainha Vitória, talvez vendo nele um espírito similarly independente.
Em correspondência enviada ao marido, o Imperador Francisco José, Sissi descreveu sua única visita oficial à Osborne House como "o dia mais fatigante de toda a sua viagem":
"A rainha foi muito gentil, não disse nada de desagradável, mas não me é simpática. O príncipe de Gales mostrou-se amável, bonito e surdo como uma porta; a princesa herdeira, que reside a uma hora e meia da mãe, portou-se como sempre. Têm uma casa muito pequena, mas graciosa, e demoram-se ainda aqui. Amanhã ela virá visitar-me. Eu fui sempre muito cortês, o que parece ter surpreendido a todos. Mas agora chega. Dão-se perfeitamente conta de que quero ficar em paz, e evitam pôr-me em embaraços…" (apud CORTI, p. 158).
Para sua mãe, a Duquesa Ludovika, Sissi foi mais direta, confessando que "algumas coisas me aborreceram". Quando a Rainha Vitória, tentando ser hospitaleira, fez um novo convite para tentar causar uma melhor impressão, a imperatriz recusou através de uma carta polida, na qual dizia que a rainha ficaria satisfeita por ser poupada daquele "enfado".
O SEGUNDO ENCONTRO: UM CHOQUE DE ESTILOS
Todavia, houve um segundo encontro entre as duas soberanas no dia 11 de agosto. Desta vez, havia uma testemunha privilegiada: a sobrinha da imperatriz, Marie Louise von Larisch-Wallersee, que deixou para a posteridade um registro vívido das vestimentas de ambas, revelando muito sobre suas personalidades naquele momento.
Segundo Larisch-Wallersee, Elisabeth usava um vestido de veludo azul escuro com acabamento de pele, uma criação sofisticada da Rue de la Paix em Paris. Seu chapéu era descrito como "um caso requintado carregado com penas iridescentes suavemente cintilantes". Sissi mantinha sua busca incessante pela elegância e juventude.
Já a descrição da Rainha Vitória era menos favorável. Larisch anotou que a rainha era uma mulher pequena e "um pouco gorda", não poupando comentários mordazes à sua vestimenta de luto perpétuo: "um vestido volumoso de seda preta parcialmente coberto por um lenço indiano agressivo". Para completar, Vitória usava um "enorme chapéu branco de viúva", que se elevava sobre sua cabeça.
O contraste visual era emblemático: de um lado, a imperatriz que fugia das responsabilidades em busca de beleza e liberdade; do outro, a rainha que se aprisionara voluntariamente nas roupas e rituais do luto eterno.
LEGADO DE UM ENCONTRO FRUSTRADO
O encontro de 1874 entre Sissi e Vitória permanece como um dos episódios mais curiosos da história monárquica europeia. Duas mulheres que dominaram o imaginário popular de suas nações, que compartilhavam o peso da coroa e tragedies pessoais, não conseguiram encontrar terreno comum.
Vitória viu em Sissi uma mulher excêntrica e talvez vaidosa demais. Sissi viu em Vitória uma figura rígida e pouco simpática. Ambas preferiam a solidão à companhia uma da outra. Enquanto Vitória encontrava conforto em sua viuvez estática em Osborne, Sissi buscava refúgio em suas caminhadas noturnas e fugas constantes.
Esse episódio nos lembra que, por trás dos títulos e das joias, as monarcas eram humanas, com preferências, preconceitos e limitações pessoais. O "encontro do século" acabou sendo apenas mais um dia fatigante nos diários de viagem de uma imperatriz que nunca se sentiu verdadeiramente em casa em lugar algum.
Fontes e Referências Históricas:
Este artigo foi baseado em correspondências reais da Rainha Vitória, cartas da Imperatriz Elisabeth e memórias de contemporâneos, incluindo obras de Corti e Hamman.
Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem: Cena gerada por I.A., de como teria sido o primeiro encontro de Sissi e Vitória em Osborne House, em 1874.
Imagem: Cena gerada por I.A., de como teria sido o primeiro encontro de Sissi e Vitória em Osborne House, em 1874.
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