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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Sob as Linhas Geométricas do Sonho: A História do Grupo Escolar Rocha Pombo, Farol de Esperança nas Encostas da Serra do Mar

 Denominação inicial: Grupo Escolar Rocha Pombo

Denominação atual: Colégio Estadual Rocha Pombo

Endereço: Avenida Felizardo Gomes da Costa, 130

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Secção Tecnnica

Data: 1935

Estrutura: 

Tipologia: U

Linguagem: 


Data de inauguracao: 31 de março de 1939

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Grupo Escolar Rocha Pombo - s/d

Acervo: Coordenadoria do Patrimônio do Estado da SEAD (Secretaria de Estado da Administração) - Pasta 5035

Sob as Linhas Geométricas do Sonho: A História do Grupo Escolar Rocha Pombo, Farol de Esperança nas Encostas da Serra do Mar

Na Avenida Felizardo Gomes da Costa, número 130, no coração do centro histórico de Antonina, ergue-se desde 31 de março de 1939 um monumento silencioso à resistência da educação. Seu traçado em forma de U abraça o espaço como mãos protetoras; suas linhas retas e geométricas, típicas da linguagem Art Déco, desafiam o tempo com elegância discreta . Este é o prédio que abrigou o Grupo Escolar Rocha Pombo — hoje Colégio Estadual Rocha Pombo —, uma construção que nasceu não apenas de concreto e tijolo, mas da necessidade urgente de iluminar mentes em tempos sombrios, de semear futuro onde a economia definha e o horizonte se fecha.

O Homem por Trás do Nome: Rocha Pombo, o Historiador que Sonhou o Paraná

Para entender a profundidade simbólica daquela denominação, é preciso viajar até Morretes, cidade vizinha de Antonina, onde em 4 de dezembro de 1857 nascia José Francisco da Rocha Pombo
periodicos.puc-campinas.edu.br
. Filho das mesmas encostas da Serra do Mar que abrigariam sua escola-homenagem décadas depois, Rocha Pombo foi muito mais que um historiador: foi um arquiteto da memória paranaense. Professor desde jovem, jornalista abolicionista fervoroso, poeta de alma lírica e autor de uma História do Brasil em dez volumes que se tornaria referência nacional
grokipedia.com
, ele dedicou a vida a tecer a narrativa de um povo que ainda buscava sua identidade.
Em 1933, quando faleceu no Rio de Janeiro, Rocha Pombo deixara um legado imenso: não apenas livros, mas a convicção de que conhecer a própria história é o primeiro passo para construir um futuro digno. Por isso, quando o governo paranaense decidiu batizar uma nova escola em Antonina com seu nome, não escolheu um mero político ou burocrata — escolheu um educador, um intelectual que acreditara, até o último suspiro, no poder transformador das letras e da memória
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. A homenagem era duplamente significativa: Rocha Pombo nascera na região, e sua obra celebrara as raízes luso-brasileiras que formaram cidades como Antonina.

Antonina em 1935: Entre o Crepúsculo do Porto e o Alvorecer da Educação

Quando a Secção Técnica do Paraná elaborou o projeto arquitetônico em 1935 , Antonina vivia um momento de transição dolorosa. Durante o auge do ciclo da erva-mate, entre 1880 e 1920, a cidade fora o quarto porto mais movimentado do Brasil, com docas repletas de terços de couro carregados de folhas verdes rumo ao Prata
www.portosdoparana.pr.gov.br
. Mas com a construção da ferrovia que ligava Curitiba diretamente a Paranaguá em 1930, o porto de Antonina entrou em declínio acelerado. Famílias que prosperaram com o comércio viram seus negócios definhar; jovens começaram a migrar para Curitiba ou São Paulo em busca de oportunidades.
Foi nesse contexto de incerteza econômica que surgiu a necessidade de uma escola moderna. Enquanto o porto silenciava, a educação precisava falar mais alto — oferecer às crianças de Antonina não apenas o saber das letras, mas a esperança de um caminho alternativo à decadência. O Grupo Escolar Rocha Pombo nasceu assim: como resposta à crise, como aposta no futuro quando o presente parecia desmoronar.

A Arquitetura do Sonho: Quando o Art Déco Chegou à Beira-Mar

O projeto da Secção Técnica revelou sensibilidade rara. Enquanto as escolas tradicionais do século XIX eram edifícios sóbrios e quase monásticos, o novo Grupo Escolar adotou a linguagem Art Déco — estilo que simbolizava, na década de 1930, a modernidade, o progresso e a confiança no futuro
www.teses.usp.br
. Suas linhas geométricas, seus volumes limpos e sua tipologia em U não eram meramente estéticos: respondiam a uma nova concepção pedagógica.
O formato em U criava um pátio interno protegido — espaço de recreio seguro onde as crianças podiam correr sob a sombra das amendoeiras, longe do movimento das ruas. As janelas amplas permitiam a entrada generosa da luz natural, essencial numa época sem iluminação elétrica confiável. Os corredores ventilados aproveitavam as brisas que descem da serra até a baía, tornando o ambiente agradável mesmo nos dias quentes de verão paranaense. Cada detalhe arquitetônico — desde a proporção das salas até a localização dos sanitários — seguia princípios higienistas e pedagógicos que definiam os Grupos Escolares como modelo de ensino no Brasil desde o início do século XX
periodicos.ufrn.br
.
Em 31 de março de 1939, sob um céu de nuvens rasgadas típico do litoral paranaense, o sino tocou pela primeira vez. Meninos e meninas — filhos de estivadores desempregados, de comerciantes em dificuldades, de famílias que resistiam ao êxodo — cruzaram o portão com cadernos novos e uniformes remendados. Ali aprenderiam não apenas a ler e escrever, mas também higiene, canto orfeônico, noções de cidadania — disciplinas que formavam o "homem novo" idealizado pelo Estado Novo, mas que, na prática, davam dignidade a quem pouco tinha
www.editorarealize.com.br
.

As Salas de Aula que Viram História: Entre o Silêncio do Porto e o Barulho das Carteiras

Imagine a cena: manhã de inverno de 1942. Do lado de fora, o porto de Antonina está quase silencioso — apenas alguns barcos pesqueiros balançam na baía. Do lado de dentro, o ranger das carteiras de madeira, o cheiro de giz fresco, a voz da professora ditando: "Antonina é uma cidade do litoral paranaense, fundada em 1714..." Nas paredes, mapas do Brasil ainda mostram fronteiras que mudariam com o tempo; retratos de Getúlio Vargas e da bandeira nacional lembram que aquelas crianças são brasileiras, parte de uma nação que, apesar das dificuldades locais, segue em frente.
Naquelas salas, sentaram-se gerações inteiras de antoninenses. Alguns se tornariam professores e voltariam para ensinar ali mesmo; outros partiriam para Curitiba, formar-se-iam em medicina ou direito, mas jamais esqueceriam o cheiro do pátio molhado pela chuva da serra. A escola tornou-se o verdadeiro porto da cidade — não mais para exportar erva-mate, mas para exportar sonhos, para lançar ao mundo jovens preparados para enfrentar qualquer tempestade.

A Metamorfose: Do Grupo Escolar ao Colégio Estadual

Ao longo das décadas, o prédio testemunhou transformações profundas. Nos anos 1950 e 1960, enquanto Antonina buscava reinventar-se como destino turístico ecológico, a escola adaptou-se às novas demandas educacionais. O ensino primário deu lugar ao ginásio; depois, ao colegial. O nome mudou oficialmente para Colégio Estadual Rocha Pombo, mas a essência permaneceu: o compromisso com a formação integral do ser humano.
Hoje, o edifício apresenta alterações inevitáveis do tempo — pinturas renovadas, instalações modernizadas, adaptações para acessibilidade . Mas quem observa com atenção percebe os traços originais da arquitetura Art Déco nas molduras das janelas, na simetria da fachada, na própria estrutura em U que continua abraçando o pátio central. O prédio é um documento vivo da história educacional paranaense — parte de um conjunto de construções escolares que a Secção Técnica ergueu pelo estado, transformando a arquitetura em ferramenta de política pública
bdtd.ibict.br
.

Epílogo: O Legado que Não se Cala

Mais de oitenta anos após sua inauguração, o Colégio Estadual Rocha Pombo continua de portas abertas na Avenida Felizardo Gomes da Costa. Seus corredores ainda ecoam com o riso das crianças; suas salas ainda acolhem professores dedicados que, como Rocha Pombo um século atrás, acreditam que educar é o ato mais revolucionário que existe.
A história desta escola é, na verdade, a história de Antonina em miniatura: uma narrativa de queda e ressurreição, de perda e reconstrução, de crise transformada em oportunidade. Quando o porto calou-se, a escola falou mais alto. Quando a economia definhou, a educação floresceu. E assim permanece até hoje — não como monumento museológico, mas como organismo vivo, pulsante, que diariamente renova a promessa feita em 1939: a de que, mesmo nas encostas mais íngremes da história, sempre haverá espaço para o sonho, para o conhecimento, para a esperança.
Entre o mar e a serra, sob as linhas geométricas do Art Déco, o Rocha Pombo permanece de pé — não como ruína romântica do passado, mas como farol aceso no presente, lembrando a cada geração que, quando tudo parece desmoronar, a educação é o único porto que nunca fecha, a única embarcação que nunca afunda, o único território que jamais se perde. E assim seguirá, enquanto houver crianças dispostas a aprender e professores dispostos a ensinar — eternamente, como as águas da baía que beijam suas margens desde antes dos homens chegarem.