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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Sob o Signo da Renovação: A História do Ginásio Estadual de Antonina e o Legado de Moysés Lupion nas Encostas da Serra

 Denominação inicial: Ginásio Estadual de Antonina

Denominação atual: Colégio Estadual Moysés Lupion

Endereço: Avenida Conde Matarazzo, 980 - Penha

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Departamento de Edificações

Data: 1948

Estrutura: padronizado

Tipologia: E

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1952

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício escolar

Ginásio Estadual de Antonina - s/d

Acervo: Colégio Estadual Moysés Lupion

Sob o Signo da Renovação: A História do Ginásio Estadual de Antonina e o Legado de Moysés Lupion nas Encostas da Serra

Na Avenida Conde Matarazzo, número 980, no bairro Penha de Antonina, ergue-se desde 1952 um edifício que carrega em suas paredes a memória de um tempo de esperança. Seu traçado em forma de "E" — tipologia padronizada pelo Departamento de Edificações do Paraná — não é mero acaso arquitetônico: é símbolo de abertura, de braços estendidos para acolher gerações inteiras de jovens que ali descobririam o poder transformador do conhecimento . Este é o prédio que abrigou o Ginásio Estadual de Antonina, hoje Colégio Estadual Moysés Lupion — uma construção nascida nos escombros da Segunda Guerra Mundial, erguida com o sonho de que a educação pudesse ser a âncora de um futuro mais justo para os filhos daquela cidade portuária em transformação.

O Alvorecer do Pós-Guerra: Quando Antonina Precisava Renascer

Para compreender a magnitude daquele projeto iniciado em 1948, é preciso mergulhar na alma ferida de Antonina no final da década de 1940. A cidade que fora, décadas antes, o quarto porto mais movimentado do Brasil — com docas repletas de terços de couro carregados de erva-mate rumo ao Prata — via seu protagonismo econômico desmoronar sob o peso da modernização. A ferrovia que ligava Curitiba diretamente a Paranaguá, inaugurada em 1930, selara o destino do porto antoninense: navios cada vez mais raros, estivadores sem trabalho, famílias que migravam em busca de novas oportunidades .
Mas 1945 trouxe ao mundo um sopro de renovação. Com o fim da guerra, o Brasil redescobria sua vocação para o progresso. No Paraná, o cenário político se reconfigurava: após o Estado Novo, a redemocratização abria espaço para novos líderes. E foi neste contexto de transição que surgiu a figura de Moysés Wille Lupion de Troia — contador, empresário madeireiro nascido em Jaguariaíva em 25 de março de 1908, que em 12 de março de 1947 assumiria o governo do estado com um projeto ousado: modernizar o Paraná através da educação, da infraestrutura e da valorização do interior
pt.wikipedia.org
.

Moysés Lupion: O Governador que Acreditou nas Cidades do Interior

Moysés Lupion não era um político tradicional. Filho de um padeiro espanhol, João Lupion de Troya, e de Carolina Döepfer Wille, construíra sua fortuna na indústria madeireira dos Campos Gerais — conhecia de perto as dificuldades das cidades do interior, sabia que seu desenvolvimento dependia de investimentos reais, não apenas de retórica
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. Quando assumiu o governo em 1947, encontrou um estado com apenas alguns ginásios estaduais espalhados pelas principais cidades, deixando centenas de municípios sem acesso ao ensino secundário — etapa crucial para quem sonhava com universidade ou carreira pública
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.
Sua resposta foi contundente: entre 1947 e 1951, seu governo lançou um ambicioso programa de expansão da rede escolar estadual. O Departamento de Edificações, braço técnico do governo, passou a projetar e construir ginásios padronizados em dezenas de cidades — edifícios funcionais, de estrutura racional, tipologias eficientes como o formato em "E" que permitia melhor ventilação e iluminação naturais . Antonina, apesar de seu declínio portuário, não foi esquecida. Em 1948, o projeto do Ginásio Estadual de Antonina saía das pranchetas do Departamento de Edificações — um gesto de reconhecimento à importância histórica da cidade e à necessidade de oferecer aos seus jovens um caminho alternativo à decadência econômica.

A Avenida Conde Matarazzo: Entre a Glória Industrial e a Esperança Educacional

A escolha do endereço não foi casual. A Avenida Conde Matarazzo, no bairro Penha, carrega em seu nome a memória de Francesco Matarazzo — o "Conde" italiano que no início do século XX transformara Antonina num verdadeiro império industrial. Suas instalações portuárias, armazéns e até uma residência suntuosa na cidade simbolizavam o auge do cosmopolitismo antoninense
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. Embora o complexo Matarazzo já estivesse em decadência na década de 1940, a avenida mantinha seu prestígio como artéria de ligação entre o centro histórico e os bairros residenciais em expansão.
Construir ali o novo ginásio era simbolicamente poderoso: onde outrora prosperara o comércio da erva-mate e a indústria do Conde, agora floresceria o comércio das ideias. O bairro Penha, área residencial tranquila aos pés da Serra do Mar, oferecia o ambiente ideal para uma instituição de ensino — afastada do burburinho do centro, mas próxima o suficiente para ser acessível aos estudantes de todas as classes sociais
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.

A Inauguração de 1952: O Dia em que Antonina Voltou a Sonhar

Em 1951, Moysés Lupion deixava o governo para assumir uma cadeira no Senado Federal — mas seu legado educacional permanecia em construção. A obra do ginásio avançava sob a nova administração estadual, e finalmente, em 1952, as portas se abriram para receber os primeiros estudantes .
Imagine a cena: manhã de outono paranaense. O sino toca pela primeira vez naquele prédio de linhas sóbrias e funcionais. Jovens de quinze, dezesseis anos — filhos de comerciantes em dificuldades, de antigos estivadores desempregados, de professores primários, de pequenos agricultores das encostas da serra — cruzam o portão com cadernos de capa dura e uniformes impecáveis. Nas salas de aula, carteiras duplas de madeira envernizada aguardam os casais de estudo; quadros-negros reluzentes esperam o primeiro traço de giz.
Ali aprenderiam latim e francês, história do Brasil e geografia universal, álgebra e física — disciplinas que os preparariam não apenas para o vestibular, mas para compreender o mundo em transformação. Naqueles corredores, meninos e meninas (ainda em regime de coeducação parcial, típico da época) descobririam autores como Euclides da Cunha e José de Alencar, debateriam sobre a Revolução Francesa e sonhariam com carreiras que pareciam distantes demais para filhos de uma cidade em crise
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.

A Segunda Gestão de Lupion e a Consolidação do Legado

Em 1956, Moysés Lupion retornava ao Palácio Iguaçu para um segundo mandato como governador (1956-1961). Desta vez, encontrou um estado transformado — e entre as mudanças, dezenas de ginásios estaduais funcionando em cidades que antes sequer sonhavam com ensino secundário público
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. O Ginásio de Antonina já era uma realidade consolidada, formando sua primeira turma de concluintes que seguiriam para Curitiba, São Paulo ou até mesmo para o exterior em busca de universidade.
Foi durante ou após essa segunda gestão que a escola recebeu oficialmente o nome de seu patrono — Colégio Estadual Moysés Lupion — homenagem justa a quem compreendera que sem educação não há desenvolvimento verdadeiro, que sem escolas não há futuro para as cidades do interior
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. Lupion, que faleceria no Rio de Janeiro em 29 de agosto de 1991, jamais imaginaria que seu nome ecoaria por décadas nos corredores daquela escola à beira-mar — mas seu legado permaneceria vivo em cada aluno formado, em cada professor que ali dedicou a vida à docência.

As Transformações do Tempo: Entre a Preservação e a Modernização

Ao longo das décadas, o prédio testemunhou as transformações profundas da educação brasileira. Nos anos 1960 e 1970, com a reforma universitária e a expansão do ensino médio, o ginásio adaptou-se para oferecer também o colegial. Na década de 1990, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, transformou-se definitivamente em colégio estadual, incorporando novas disciplinas, novas metodologias, novas tecnologias .
Hoje, o edifício apresenta alterações inevitáveis do tempo — pinturas renovadas, instalações elétricas modernizadas, adaptações para acessibilidade. Mas quem observa com atenção percebe os traços originais da tipologia em "E": os corredores que formam os três braços da letra, o pátio central que abriga momentos de recreio, a simetria funcional que caracterizava a arquitetura escolar padronizada do Departamento de Edificações . O prédio é um documento vivo da política educacional paranaense do pós-guerra — testemunha silenciosa de que, mesmo em tempos de crise econômica, investir em educação é investir no futuro.

Epílogo: O Legado que Permanece Vivo

Mais de setenta anos após sua inauguração, o Colégio Estadual Moysés Lupion continua de portas abertas na Avenida Conde Matarazzo. Seus corredores ainda ecoam com o riso dos adolescentes; suas salas ainda acolhem professores dedicados que, como os pioneiros de 1952, acreditam que educar é o ato mais revolucionário que existe.
A história desta escola é, na verdade, a história de Antonina em miniatura: uma narrativa de queda e ressurreição, de perda econômica transformada em ganho cultural, de crise convertida em oportunidade. Quando o porto calou-se definitivamente, a escola falou mais alto. Quando as famílias partiram em busca de trabalho, a instituição permaneceu como âncora de identidade e pertencimento.
E assim seguirá — não como monumento museológico do passado, mas como organismo vivo, pulsante, que diariamente renova a promessa feita em 1952: a de que, mesmo nas encostas mais íngremes da história, sempre haverá espaço para o sonho, para o conhecimento, para a esperança. Entre o mar e a serra, sob as linhas sóbrias da arquitetura padronizada, o Moysés Lupion permanece de pé — não como ruína romântica, mas como farol aceso no presente, lembrando a cada geração que a educação é o único porto que nunca fecha, a única embarcação que nunca afunda, o único território que jamais se perde.
E enquanto houver jovens dispostos a aprender e professores dispostos a ensinar, o legado de Moysés Lupion continuará vivo — não em estátuas de bronze, mas nos olhos brilhantes de quem descobre, pela primeira vez, que o saber é a chave para transformar não apenas a própria vida, mas também o destino de uma cidade inteira.