Mostrando postagens com marcador YAA ASANTEWAA: A RAINHA-MÃE QUE DESAFIOU O IMPÉRIO BRITÂNICO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador YAA ASANTEWAA: A RAINHA-MÃE QUE DESAFIOU O IMPÉRIO BRITÂNICO. Mostrar todas as postagens

sábado, 28 de fevereiro de 2026

YAA ASANTEWAA: A RAINHA-MÃE QUE DESAFIOU O IMPÉRIO BRITÂNICO

 

YAA ASANTEWAA: A RAINHA-MÃE QUE DESAFIOU O IMPÉRIO BRITÂNICO


YAA ASANTEWAA: A RAINHA-MÃE QUE DESAFIOU O IMPÉRIO BRITÂNICO

Única fotografia conhecida da líder ashanti, digitalmente restaurada, revela o rosto da mulher que comandou um exército de milhares de guerreiros contra o colonialismo britânico em 1900

Por Renato Drummond Tapioka Neto
Colorização: Rainhas Trágicas - Mulheres, Guerreiras, Soberanas

I. O ROSTO DA RESISTÊNCIA: UMA IMAGEM QUE SOBREVIVEU AO TEMPO

Ela olha diretamente para a câmera com uma expressão que mistura dignidade, determinação e a sabedoria de quem já enfrentou o impossível. Os olhos profundos parecem carregar o peso de uma nação, mas também a força inabalável de quem nunca se rendeu.
Esta é Yaa Nana Asantewaa, rainha-mãe do povo Ashanti, a única fotografia conhecida da mulher que, em 1900, liderou seu povo contra o Império Britânico na guerra que ficou conhecida como a "Guerra do Trono de Ouro" .
Digitalmente restaurada e colorida, esta imagem centenária nos conecta com uma das figuras mais heroicas da resistência africana contra o colonialismo. Cada detalhe do rosto enrugado pelo tempo, cada linha de expressão, conta a história de uma guerreira que preferiu o exílio à rendição, a prisão à submissão.
Mas quem foi essa mulher extraordinária? E por que sua história continua inspirando movimentos de libertação e feministas em todo o mundo mais de um século depois?

II. RAÍZES REAIS: A MENINA DO CLÃ ASONA

Yaa Nana Asantewaa nasceu na década de 1840 , em um momento crucial da história ashanti. Seu povo havia construído um dos impérios mais poderosos da África Ocidental, com uma organização política sofisticada, um exército formidável e uma cultura rica em tradições.
Ela pertencia à realeza Asona, do clã Besease, no centro do atual Gana, e era membro da linhagem de bancos de Edweso . Seus pais viviam na aldeia de Ampabame, em Kumasi, uma casa ancestral do povo Ashanti que respirava história e tradição.
Desde criança, Yaa Asantewaa demonstrou qualidades excepcionais. Ao lado de seu irmão Kwasi Afrane, ela era considerada uma menina com muitas habilidades, mostrando especial interesse pela agricultura e pela administração local . Enquanto outras meninas de sua idade brincavam, Yaa observava como as decisões eram tomadas, como os recursos eram geridos, como o poder era exercido.
Esse aprendizado precoce seria fundamental para o destino que a aguardava.
Quando Kwasi Afrane subiu ao trono como rei de Edweso, Yaa foi dada em casamento a Owusu Kwabena, sétimo neto do rei Osei Yaw Akoto, que governara Ashanti de 1824 a 1834 . Era um casamento estratégico, unindo linhagens importantes da nobreza ashanti.
Mas Yaa Asantewaa não era uma mulher comum. E o destino lhe reservava um papel que nenhuma rainha-mãe ashanti havia desempenhado antes.

III. RAINHA-REGENTE: O PODER NAS MÃOS DE UMA MULHER

Quando seu marido morreu, Yaa Asantewaa assumiu as rédeas do governo como regente de Ejisu Juaben . Em uma sociedade patriarcal, mesmo entre os ashanti que tinham tradições matrilineares, isso não era comum. Mas Yaa havia provado sua competência ao longo dos anos, e seu povo a respeitava.
Como rainha-regente, ela governou com sabedoria, mantendo a tradição enquanto navegava pelas águas turbulentas de um continente cada vez mais ameaçado pelo imperialismo europeu.
E foi nesse contexto que a tempestade se aproximou.
No final do século XIX, os britânicos haviam consolidado seu controle sobre grande parte da África Ocidental. A Costa do Ouro (atual Gana) era um de seus alvos mais cobiçados, não apenas pelo ouro, mas pela posição estratégica.
Os ashanti, no entanto, nunca haviam sido completamente subjugados. Ao longo do século XIX, travaram várias guerras contra os britânicos, defendendo ferozmente sua independência e sua cultura.
Em 1896, os britânicos finalmente conseguiram capturar o rei ashanti Agyeman Prempeh I, juntamente com outros membros da família real. Eles foram exilados nas ilhas Seychelles, no Oceano Índico, a milhares de quilômetros de sua terra natal .
Parecia o fim da resistência ashanti.
Mas os britânicos haviam subestimado o povo ashanti. E, mais importante, haviam subestimado Yaa Asantewaa.

IV. A GOT D'ÁGUA: "ONDE ESTÁ O TRONO DE OURO?"

Março de 1900. Kumasi, capital do império Ashanti.
O governador britânico Sir Frederick Hodgson havia convocado uma reunião com os líderes ashanti que permaneciam em liberdade. Entre eles estava Yaa Asantewaa, rainha-regente de Ejisu Juaben .
O objetivo de Hodgson era claro: ler os termos de rendição e consolidar de vez o domínio britânico sobre os ashanti.
Mas Hodgson cometeu um erro fatal.
Durante a reunião, o governador apresentou uma série de exigências ofensivas e ameaças à família real, que permanecia confinada nas Seychelles . E então, em um momento de arrogância imperial que selaria seu destino, Hodgson fez a exigência que mudaria tudo:
Ele demandou que o Trono Dourado de Ashanti fosse entregue à rainha Vitória.
O argumento de Hodgson era que, após a capitulação de Agyeman Prempeh I, a soberana inglesa passava a ser a soberana legítima daquela nação .
Mas Hodgson não entendia — ou se recusava a entender — o significado do Trono Dourado para o povo ashanti.
O Sika 'dwa (Trono Dourado) não era apenas um símbolo de poder político. Era o coração espiritual da nação ashanti. Segundo a tradição, ele havia descido do céu no século XVII, trazido pelo sacerdote Okomfo Anokye para o primeiro rei ashanti, Osei Tutu. O trono continha a alma do povo ashanti, e ninguém — nem mesmo o rei — podia sentar-se nele. Era mantido em um local secreto, e apenas em ocasiões cerimoniais especiais era exibido.
Exigir o Trono Dourado não era apenas uma ofensa política. Era uma blasfêmia espiritual. Era uma declaração de guerra.
Quando Hodgson fez essa exigência, um silêncio tenso tomou conta da sala. Os líderes ashanti trocaram olhares de incredulidade e fúria. Como podiam os britânicos ser tão arrogantes? Tão ignorantes? Tão cruéis?
Foi então que Yaa Asantewaa se levantou.

V. O DISCURSO QUE INCENDIOU UMA NAÇÃO

O que Yaa Asantewaa disse naquele dia entrou para a história. Embora existam diferentes versões do discurso, o significado permanece o mesmo: ela convocou seu povo à resistência.
Segundo registros históricos, ela teria dito algo como:
"Se vocês, os homens de Ashanti, não forem à frente, então nós, as mulheres, iremos. Nós lutaremos até a última de nós cair, ao lado de nossos guerreiros."
Era um desafio direto à covardia daqueles que estavam dispostos a se render. Era um chamado às armas. Era a declaração de que a honra de Ashanti valia mais do que a própria vida.
Yaa Asantewaa não estava blefando.
Imediatamente após a reunião, ela começou a organizar a resistência. Reuniu um comando de mais de 5.000 soldados — algumas fontes dizem até 20.000 — e sitiou o Forte Kumasi, onde Hodgson e suas tropas estavam entrincheirados.
Era o início da Guerra do Trono de Ouro (ou Guerra do Tamborete).

VI. A GUERRA DO TRONO DE OURO: SANGUE, CORAGEM E TRAIÇÃO

A guerra que se seguiu foi brutal e desigual.
De um lado, os ashanti, liderados por uma mulher de mais de 60 anos, lutando com armas tradicionais — lanças, arcos e flechas, algumas armas de fogo antigas.
Do outro, o Império Britânico, com seu exército profissional, metralhadoras, artilharia moderna e suprimentos ilimitados.
Yaa Asantewaa e seus guerreiros sitiaram o Forte Kumasi por meses . Os britânicos, presos dentro da fortificação, sofreram com doenças, falta de suprimentos e o calor implacável. Muitos morreram de disenteria e outras enfermidades.
Mas os ashanti também pagaram um preço terrível. As armas de fogo dos imperialistas eram muito superiores, e os guerreiros ashanti caíam em grande número . A valentia não era párea para a tecnologia militar britânica.
O episódio mais brutal do conflito anglo-ashanti ficou conhecido como Guerra do Tamborete ou Trono de Ouro, e se arrastaria por meses . Liderados por Yaa Asantewaa, os ashanti travaram uma luta injusta contra as armas de fogo dos imperialistas, que os impediu de marchar além do Forte Kumasi .
Os britânicos, desesperados, enviaram reforços massivos da Costa do Ouro e de outras colônias. Milhares de soldados adicionais chegaram para quebrar o cerco.
E então veio a traição.
Alguns líderes ashanti, vendo a maré virar, começaram a negociar em segredo com os britânicos. A unidade da resistência começou a se fragmentar.
Finalmente, após meses de luta feroz, os britânicos conseguiram romper o cerco e resgatar Hodgson e suas tropas. Mas o governador, envergonhado e temendo por sua vida, fugiu discretamente da região, nunca mais retornando.
Yaa Asantewaa, no entanto, não se rendeu.
Ela e alguns guerreiros leais recuaram para as florestas, continuando uma resistência de guerrilha. Mas, eventualmente, em 1901, ela foi capturada pelos britânicos.

VII. O EXÍLIO: UMA RAINHA NA PRISÃO

Para Yaa Asantewaa, a captura não significou rendição. Significou o início de uma nova forma de resistência.
Os britânicos, temendo que sua presença continuasse a inspirar rebeliões, decidiram exilá-la nas ilhas Seychelles, no Oceano Índico . Era o mesmo local onde Agyeman Prempeh I e outros membros da família real ashanti estavam presos desde 1896.
Lá, a milhares de quilômetros de sua terra natal, Yaa Asantewaa passou seus últimos anos.
Mas mesmo no exílio, ela nunca perdeu sua dignidade. Nunca se curvou diante de seus captores. Nunca renunciou à sua fé no Trono Dourado e na liberdade de seu povo.
Ela morreu enquanto dormia, em sua cela na prisão de Seychelles, no ano de 1921 . Tinha aproximadamente 80 anos de idade.
Três anos depois, em 1924, Agyeman Prempeh I foi finalmente libertado e pôde retornar a Kumasi . O rei ashanti, uma vez livre, iniciou esforços para a devolução dos restos mortais de todos os prisioneiros Ashanti que morreram em cativeiro, incluindo os da rainha Nana .
Mas os britânicos, ainda temendo o poder simbólico de Yaa Asantewaa, demoraram a conceder o pedido.
Finalmente, em 1930, quase uma década após sua morte, os restos mortais de Asantewaa foram recebidos de volta . Eles foram transportados para sua cidade natal, em Edweso, onde ela jaz até hoje .
Yaa Asantewaa havia voltado para casa.

VIII. O LEGADO: UMA RAINHA PARA TODAS AS GERAÇÕES

Yaa Nana Asantewaa não viveu para ver a independência de Gana, conquistada em 1957. Não viu o fim do colonialismo na África. Mas sua luta plantou as sementes que um dia germinariam.
O heroísmo da rainha-mãe acabou se tornando inspiração para muitos movimentos de lutas anti-imperialistas na segunda metade do século XX . Líderes da independência africana, de Kwame Nkrumah a Patrice Lumumba, encontraram em Yaa Asantewaa um exemplo de resistência inabalável.
Mas seu legado vai além da luta anti-colonial.
Os detalhes sociais de sua vida contribuíram para a organização de muitos movimentos feministas africanos, que viram em Nana um modelo político a ser seguido . Ela provou que as mulheres podiam liderar exércitos, governar nações, desafiar impérios.
Yaa Asantewaa é, assim, uma das figuras centrais do matriarcado, do feminismo e da liberdade dos povos africanos .
Em Gana, seu nome é invocado em momentos de crise e celebração. Escolas, ruas e instituições levam seu nome. A Universidade de Ciência e Tecnologia Kwame Nkrumah, em Kumasi, tem um auditório em sua homenagem. Todos os anos, o povo ashanti realiza cerimônias para lembrar seu sacrifício.
Mas talvez o maior tributo a Yaa Asantewaa seja o fato de que, mais de um século depois, o Trono Dourado de Ashanti ainda não foi entregue aos britânicos. Ele permanece em Ashanti, guardado em segredo, símbolo vivo da resistência de um povo que nunca se rendeu.

IX. AS MULHERES NA LUTA PELA LIBERDADE AFRICANA

Yaa Asantewaa não estava sozinha.
Como ela, muitas mulheres tomaram parte na cruzada pela autonomia do continente africano e, em alguns casos, atuaram inclusive como diplomatas .
Njinga Mbandi, rainha de Angola e do Congo, que resistiu aos portugueses no século XVII. Aquala, a rainha guerreira do Dahomey. As mulheres argelinas que lutaram na guerra de independência contra a França. As mães e esposas que sustentaram as comunidades enquanto os homens estavam nas linhas de frente.
A história oficial muitas vezes apagou essas mulheres, reduzindo-as a notas de rodapé ou personagens secundárias. Mas a verdade é que as mulheres tiveram um papel decisivo na luta contra o imperialismo .
Yaa Asantewaa é, talvez, a mais famosa dessas guerreiras. Mas ela representa milhares de outras cujos nomes foram esquecidos, cujas histórias nunca foram contadas.
É por isso que restaurar e colorir sua fotografia é mais do que um exercício técnico. É um ato de justiça histórica. É dar rosto e cor a uma mulher que o colonialismo tentou apagar. É lembrar ao mundo que a resistência africana teve rosto de mulher.

X. CONCLUSÃO: A RAINHA QUE NUNCA MORREU

Yaa Nana Asantewaa morreu em 1921, mas sua história não terminou ali.
Ela continua viva nas escolas de Gana, onde crianças aprendem sobre sua coragem. Vive nos movimentos feministas africanos, que a reivindicam como pioneira. Vive nos corações daqueles que lutam contra a opressão, seja ela colonial, patriarcal ou econômica.
A fotografia digitalmente restaurada que temos hoje é um elo entre o passado e o presente. É um lembrete de que uma mulher de mais de 60 anos, com roupas tradicionais e armas inferiores, desafiou o maior império que o mundo já conheceu.
E, de certa forma, venceu.
Porque o Império Britânico se foi. As colônias conquistaram sua independência. Mas Yaa Asantewaa permanece — como símbolo, como inspiração, como prova de que a dignidade humana não pode ser conquistada pela força das armas.
Quando olhamos para seu rosto na fotografia restaurada, vemos mais do que uma rainha do passado. Vemos um espelho que nos pergunta: que tipo de resistência somos capazes de oferecer em nosso próprio tempo?
Yaa Asantewaa escolheu a luta. Escolheu o exílio em vez da rendição. Escolheu a honra em vez da comodidade.
E, ao fazer isso, tornou-se imortal.
Que sua memória continue nos inspirando a lutar — não com armas, mas com a força de nossas convicções — por um mundo mais justo, mais livre e mais humano.
Yaa Nana Asantewaa vive!

Fontes e Referências:
Texto original fornecido pelo autor.
Historical records on Yaa Asantewaa and the War of the Golden Stool (1900-1901).

Este artigo é dedicado a todas as mulheres africanas que, como Yaa Asantewaa, lutaram e continuam lutando pela liberdade, dignidade e igualdade de seus povos. Que suas histórias nunca sejam esquecidas.
#yaananaasantewa #queen #rainha #africa #historiadaafrica #rainhastragicas #historia #history #africanqueen #ashanti #warofthegoldenstool #resistencia #feminismo #gana #ghanahistory