artigo de Karin Romanó Santos
UM QUARTEIRÃO LIBANÊS EM CURITIBA
Assad Jorge Schoueiri veio do Líbano para o Brasil em 1915, com cerca de 20 anos.
Letrado, havia estudado em um colégio de padres franceses. Veio com dinheiro suficiente para abrir um comércio e montou uma barbearia em Maceió.
Depois seguiu para Santos, onde conheceu Angel Riskalla Chamoun, também de família libanesa, que se tornaria sua esposa.
Casaram-se e vieram para Curitiba. Aqui, fundaram a Fábrica de Calçados e a Casa Yvonne.
A fábrica funcionava nos fundos da loja, com maquinários, formas e couros importados, como o cromo alemão.
O casal teve quatro filhos, infelizmente três faleceram ainda pequenos, vítimas do sarampo e da escarlatina, doenças terríveis numa época sem vacinas.
A filha Yvonne cresceu cercada de cuidados e afetos e, mais tarde, casou-se com Mário Antônio Perly. Tiveram três filhos. Uma delas é Vera, que me contou essa história.
A casa de dois pavimentos onde Vera nasceu ficava na Rua Presidente Faria, 193, bem atrás da Universidade Federal do Paraná.
No andar de cima moravam os avós, Assad e Angel. O térreo era alugado para o Sr. Collares, da Livraria Universitária, que ali permaneceu por muitos anos.
O terreno era comprido e os fundos davam para a rua Riachuelo. Havia um grande quintal com muitas árvores frutíferas, galinhas e uma pereira que dava frutos saborosos, que a avó Angel distribuía generosamente para toda a família.
Nos fundos do terreno, foi erguido um imóvel de arquitetura eclética, onde mais tarde se instalou o Colégio Metropolitano, cuja fachada e letreiro resistem ao tempo.
A propriedade era integralmente do avô de Vera, Assad Jorge Schoueiri.
Os familiares de Vera moravam e trabalhavam nas redondezas, ocupando os dois lados da Travessa Alfredo Bufren, entre as ruas Presidente Faria e Riachuelo.
Do lado de cá ficavam a Casa Trevo, de calçados, de Mário Chamoun, e a Casa Yara, que vendia armarinhos e anáguas, de Fuad e Salma Achcar.
Do lado de lá ainda resiste um prédio eclético do início do século passado, construído por Miguel Riskalla, que sempre serviu como comércio de couros.
Numa das viagens de navio dos avós para o Líbano, que chegavam a levar seis meses, eles conheceram dois príncipes árabes a bordo.
Quando o navio parou em Beirute, uma multidão aguardava na chegada. Seus avós pensaram que era para recepcionar os príncipes, mas não: a recepção era para eles.
Como a avó Angel era prima de Camille Chamoun, presidente do Líbano na década de 1950, toda a vizinhança e conhecidos da família vieram recepcioná-los no cais do porto.
O pai de Vera - Mário Antônio Perly - tinha o posto São Jorge, nome em homenagem ao avô, bem na esquina do Passeio Público, entre a Carlos Cavalcanti e a Presidente Faria.
Hoje, poucos se lembram de dar a um negócio o nome do pai ou do avô. Um costume simples e bonito que se perdeu no tempo, levado pela pressa dasVera Perly pelo esquecimento das gerações.
A avó Angel Schoueiri tinha o costume de reunir os parentes libaneses no Dia de Reis (06/01).
Fazia uma grande festa com doces árabes — mamoul (semolina com nozes), auermet e comidas árabes, e toda a família se reunia, deliciando-se com os quitutes preparados com carinho.
Talvez o Dia de Reis seja isso: um dia para se encontrar, para partir o doce, para lembrar de onde se veio e de quem veio antes.
A avó Angel sabia disso. Por isso reunia a família. Por isso a festa. Por isso os mamoul.
E para quem ali viveu, como Vera, ao percorrer a pé ou de memória aquelas ruas de Curitiba: Presidente Faria, Riachuelo, a travessa Alfredo Bufren...
...recompõe-se não apenas a geografia de uma infância, mas a alma de um clã: Riskalla, Chamoun, Achcar...
E quem sabe encontrar uma multidão de um quarteirão que um dia foi libanês.
Foto: Yvonne com o pai, Assad Jorge Schoueiri, a esposa Angel Chamoun Schoueiri e o irmão de Yvonne no colo, Salin
Baseado em relato de @veraperly