Nesse sábado, no dia 25 de julho foi mais um dia de luta e resistência das mulheres negras, são estas que sofrem inúmeras violências, sejam elas psicológicas, emocionais, físicas e sociais. No ano de 1992 na República Dominicana, um encontro de mulheres negras definiu o dia 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, criando uma rede e pressionando a Organização das Nações Unidas a assumir a luta contra as opressões de raça e gênero.
No Brasil, o dia é marcado como Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Um país, onde a mulher preta é a maior vítima de feminicídio, de violências domésticas, obstétricas e da mortalidade materna, além de estar na base da pirâmide social; isto faz com que a comunidade preta se movimente quando uma mulher negra emerge na sociedade, assim como disse a ativista e filósofa norte americana, Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.
Este dia ainda homenageia Tereza de Benguela, um dos nomes esquecidos e invisibilizados pela historiografia nacional, que nos últimos anos passou a ser enaltecido, devido ao engajamento do movimento de mulheres negras e ao resgate de documentos que possam recontar a história nacional e multiplicar as narrativas, revelando outros lados da formação sociopolítica brasileira.
Tereza viveu no século XVIII, juntamente com seu marido José Piolho, o qual comandava o Quilombo do Quariterê no Mato Grosso. Com a morte de seu esposo pelos soldados do Estado, Tereza tornou-se líder do quilombo; com a sua liderança, a comunidade foi resistência durante vinte anos. Rainha Tereza, como todos as chamavam, coordenou um forte sistema de defesa e articulou um parlamento para decidir de forma coletiva as ações do quilombo, este vivia do cultivo de algodão, milho, feijão, mandioca, banana, e da venda do que sobrava de sua produção.
Não se sabe ao certo o motivo de sua morte, as versões são que ela se suicidou após ser capturada por bandeirantes a mando da capitania do Mato Grosso, em meados de 1770, e a outra afirma que a Rainha foi morta e teve a sua cabeça exposta no centro do Quilombo, como forma de aviso. O quilombo se manteve até sua morte, quando foi destruído.
Rainha Tereza de Benguela é sinônimo de força e resistência da mulher preta e precisa ser divulgada e ensinada como parte essencial da formação histórica brasileira, assim como Enedina Alves Marques, a primeira engenheira do Paraná e a primeira engenheira negra do Brasil, esta é responsável por grandes feitos do desenvolvimento social e econômico do Estado.
Enedina se formou em engenharia civil pela faculdade de engenharia, da atual Universidade Federal do Paraná no ano de 1945. Filha de doméstica, foi alfabetizada em colégios particulares juntamente com a filha do patrão de sua mãe, o qual quis que as duas fizessem companhia uma a outra, desta forma, Enedina teve a oportunidade do acesso à educação. A engenheira trilhou um percurso brilhante após a sua formação, logo no primeiro ano pós faculdade, ela se tornou auxiliar de engenharia na Secretaria de Estado de Viação e Obras Públicas, no ano seguinte foi transferida para o Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica. Enedina, ainda, trabalhou no Plano Hidrelétrico do Paraná e atuou no projeto de aproveitamento das águas dos rios Capivari, Cachoeira e Iguaçu.
Foto: Fonte não identificada
Um dos seus maiores feitos como engenheira, foi o projeto e execução da Usina Parigot de Souza, que é a maior central subterrânea do sul do país. A usina não levou seu nome e sim do governador Pedro Viriato Parigot de Souza, que comandava o Estado entre 1971 e 1973. Outras obras que obtiveram a participação de Enedina, foram a Biblioteca Pública do Paraná, o Colégio Estadual do Paraná e a Casa do Estudante Universitário de Curitiba.
Placa em homenagem a Enedina ALves na Universidade Federal do Paraná Foto: Marcos Solivan
O que Tereza de Benguela e Enedina Alves Marques tem em comum é o espírito revolucionário da mulher preta, é a força e a persistência. Que elas possam ser inspirações para todas mulheres negras, que lutam diariamente contra a opressão de gênero e raça. O dia 25 de julho não deve ser usado como dia único, é necessário ter visibilidade social, financeira e emocional todos os dias, queremos todas as mulheres LBTs pretas vivas, dia após dia e livres deste sistema racista, machista e misógino. Viva Rainha Tereza! Viva Enedina!
Fontes: SANTANA, Jorge Luiz. Enedina Alves Marques: a trajetória da primeira engenheira do sul do país na faculdade de engenharia do Paraná (1940 – 1945). Revista Vernáculo, nº 28. Curitiba. 2011
25 de Julho: Quando a Terra Treme com o Passo das Rainhas — Tereza, Enedina e Todas as Mulheres Negras que Reescrevem a História
Todo dia 25 de julho, algo extraordinário acontece: o chão da América Latina e do Caribe treme não com terremoto, mas com memória. É o dia em que mulheres negras erguem a cabeça mais alto, vestem suas roupas mais coloridas, entoam cantos ancestrais e afirmam, com a força de quem nunca deixou de existir mesmo quando apagaram seus nomes dos livros: estamos aqui. Este não é um dia de luto — é um dia de resistência vibrante, de celebração feroz da vida que persiste apesar de tudo. E é também um chamado urgente para que essa celebração não se limite a vinte e quatro horas, mas respire todos os dias do ano.
A data nasceu em 1992, na República Dominicana, quando mulheres negras de toda a região se reuniram no Primeiro Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas. Ali, diante do mar do Caribe e sob o peso de séculos de silenciamento, elas decidiram: bastava de invisibilidade. O 25 de julho tornou-se oficialmente o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha — uma data para tecer redes, pressionar organismos internacionais e, sobretudo, lembrar umas às outras: nossa luta é coletiva, nossa força é ancestral.
No Brasil, a data carrega ainda outro significado sagrado: é o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. E não por acaso escolheram homenagear Tereza — não uma princesa de conto de fadas europeu, mas uma rainha da terra brasileira, cujo nome foi apagado dos manuais escolares por mais de dois séculos.
Rainha Tereza de Benguela: A Líder que Governou com Sabedoria e Coragem
No século XVIII, enquanto a Coroa portuguesa tentava consolidar seu domínio sobre o interior do Brasil, nas matas do atual Mato Grosso florescia o Quilombo do Quariterê — um território livre, construído por pessoas que recusaram a escravidão. Ali vivia Tereza de Benguela, ao lado de seu marido, José Piolho, um dos líderes da comunidade.
Quando José foi assassinado pelas tropas coloniais, algo extraordinário aconteceu: Tereza não se recolheu ao luto passivo esperado das mulheres da época. Ela assumiu o comando. Com inteligência estratégica e autoridade moral, tornou-se a rainha do quilombo — e não uma rainha simbólica. Sob sua liderança, o Quariterê resistiu por vinte anos às investidas dos bandeirantes.
Tereza organizou um sistema de defesa eficiente, mas também criou algo raro para a época: um parlamento quilombola. Nele, homens e mulheres decidiam coletivamente os rumos da comunidade. Enquanto isso, o quilombo prosperava com o cultivo de algodão, milho, feijão, mandioca e banana — parte para consumo próprio, parte para comercialização com povos indígenas e até mesmo com colonos que respeitavam sua autonomia. Era uma economia própria, uma política própria, uma civilização negra em pleno coração do Brasil colonial.
Sua morte, por volta de 1770, é envolta em mistério — e em violência simbólica. Há relatos de que se suicidou após ser capturada; outros afirmam que foi decapitada e teve a cabeça exposta no centro do quilombo como "advertência". O que sabemos com certeza é que, com sua morte, o Quariterê foi destruído. Mas sua memória não.
Hoje, Tereza de Benguela é resgatada não por acaso histórico, mas pela teimosia do movimento de mulheres negras, que vasculhou arquivos, cruzou documentos e recusou-se a aceitar uma história brasileira contada apenas por senhores de engenho. Ela é prova de que a resistência negra sempre foi liderada por mulheres — mesmo quando os livros insistiram em apagá-las.
Enedina Alves Marques: A Engenheira que Moldou o Paraná com Asfalto e Dignidade
Se Tereza ergueu um quilombo com as mãos na terra, Enedina Alves Marques ergueu obras de concreto que até hoje sustentam o Paraná — e o fez num tempo em que mulheres, principalmente negras, eram consideradas "incapazes" de cálculos e projetos.
Filha de uma doméstica em Curitiba, Enedina teve acesso à educação por uma circunstância rara: a filha de sua mãe trabalhava como empregada na casa de uma família abastada, cuja patroa quis que as duas meninas estudassem juntas — "para fazerem companhia". Foi assim, entre generosidade e paternalismo, que Enedina entrou num colégio particular e descobriu seu brilho nos estudos.
Em 1945, formou-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná — tornando-se a primeira engenheira negra do Brasil e a primeira do Paraná. Mas sua jornada não parou na diplomação. No ano seguinte, ingressou na Secretaria de Viação e Obras Públicas; em 1947, transferiu-se para o Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica, onde mergulhou no Plano Hidrelétrico do Paraná — projeto estratégico para o desenvolvimento do estado.
Sua obra-prima? A Usina Parigot de Souza, a maior central hidrelétrica subterrânea do Sul do Brasil, construída nos rios Capivari, Cachoeira e Iguaçu. Enedina não apenas participou do projeto — ela foi fundamental na sua execução técnica. No entanto, a usina levou o nome do governador Pedro Viriato Parigot de Souza, não o dela. Assim como tantas outras mulheres negras na história, seu nome foi apagado da placa inaugural — mas não da memória de quem sabe olhar além do concreto.
Além da usina, Enedina deixou sua marca na Biblioteca Pública do Paraná, no Colégio Estadual do Paraná e na Casa do Estudante Universitário de Curitiba — edifícios que, até hoje, abrigam sonhos de novas gerações. Ela morreu em 1981, quase anônima para o grande público. Mas hoje, graças ao trabalho de historiadores como Jorge Luiz Santana e à luta de coletivos negros, seu nome volta a ecoar nos corredores da UFPR — onde uma placa agora honra sua trajetória.
O Fio que Une Tereza e Enedina: A Revolução Cotidiana da Mulher Negra
O que une uma rainha quilombola do século XVIII e uma engenheira do século XX não é apenas a cor da pele — é a recusa em aceitar os limites impostos pelo racismo e pelo patriarcado. Tereza assumiu o comando quando esperavam que ela se calasse. Enedina entrou numa faculdade de engenharia quando esperavam que ela ficasse na cozinha. Ambas enfrentaram a violência estrutural não com armas, mas com persistência teimosa — a mesma que hoje move professoras, mães, ativistas, artistas e trabalhadoras que levantam antes do sol para sustentar famílias enquanto lutam por dignidade.
Angela Davis tinha razão ao dizer: "Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela". Porque a mulher negra não luta só por si — sua luta desmonta pilares inteiros de opressão. Quando ela exige saúde digna, questiona o racismo obstétrico. Quando exige segurança, denuncia o feminicídio racializado. Quando ocupa espaços de poder, rompe com séculos de exclusão. E quando celebra sua cultura, sua beleza, sua ancestralidade, ela cura feridas coletivas.
Mas não podemos romantizar essa força. A mulher negra não é "forte por natureza" — ela é forte porque foi obrigada a ser. E não deve carregar sozinha o peso da transformação social. O 25 de julho existe para lembrar: nossa luta é de todos. Não basta aplaudir Enedina hoje e esquecê-la amanhã. Não basta homenagear Tereza em discursos e manter escolas onde crianças negras ainda não leem seu nome.
25 de Julho Não é um Dia — É um Compromisso Diário
Este artigo não é um memorial triste. É um convite à alegria consciente — à celebração que sabe que por trás de cada conquista há sangue, suor e resistência. É para as meninas negras que hoje sonham ser engenheiras, professoras, presidentas: vocês têm Tereza e Enedina como ancestrais. Vocês descendem de rainhas.
E é também um chamado: que o 25 de julho não seja o único dia em que enxergamos as mulheres negras. Que as políticas públicas as protejam todos os dias — contra o feminicídio, contra a violência obstétrica, contra a fome. Que as universidades as acolham. Que os museus contem suas histórias. Que os espaços de poder as ouçam — especialmente as mulheres LBTs pretas, cujas vidas são ainda mais ameaçadas por um sistema que as quer invisíveis.
Viva Tereza de Benguela — rainha que governou com sabedoria e morreu com honra. Viva Enedina Alves Marques — engenheira que construiu o Paraná com mãos firmes e sonhos maiores que o preconceito. Viva todas as mulheres negras — vivas, presentes, teimosas, lindas, revolucionárias.
Que cada 25 de julho seja menos uma data de lamento e mais uma explosão de vida — porque enquanto houver uma mulher negra de pé, a esperança não morreu. E enquanto houver quem conte suas histórias, a memória será nossa arma mais poderosa.
— Por todas as Terezas e Enedinas que ainda virão. Por todas que já estão aqui, transformando o mundo em silêncio ou em grito. Nós vemos vocês. Nós honramos vocês. Nós caminhamos com vocês.
Fontes: Santana, Jorge Luiz. "Enedina Alves Marques: a trajetória da primeira engenheira do sul do país na faculdade de engenharia do Paraná (1940–1945)". Revista Vernáculo, nº 28, Curitiba, 2011; Memórias do Movimento Negro Brasileiro; Coletivo Nacional de Mulheres Negras.
A Boca Maldita foi uma confraria organizada por um grupo de homens que se reuniam na antiga Avenida João Pessoa, atual Avenida Luiz Xavier, no centro de Curitiba, para conversar e trocar ideias a respeito do desenvolvimento da cidade e do cenário político nacional. No ano de 1956 este grupo decidiu realizar um jantar de confraternização no Grande Hotel Moderno, a partir desta data, 13 de dezembro, o grupo resolveu tornar-se uma sociedade, a qual era registrada como Sociedade Civil de Direito Privado. Todos os anos, na mesma data, realizou-se este jantar com todos os nominados Cavalheiros da Boca Maldita.
A organização se intitulava como uma das mais livres instituições existentes no país, não sendo apenas um local para encontros, mas também um local que agregava o melhor centro de informações nacional. Ainda se posicionavam como uma instituição democrática pluralista e dedicada às causas e interesses da maioria às reinvindicações das minorias. Cabe se atentar para esta auto declaração, para que se questione a veracidade da dita democracia.
Desta forma, a questão que ainda permanece seria a razão para adotar este nome incomum, Boca Maldita. No entanto, seguindo os posicionamentos expostos a respeito da confraria, pode-se imaginar que a nomenclatura deriva-se dos atos e conversas geradas pelo grupo de homens, em seu jantar de confraternização e nos encontros diários no pequeno trecho da XV de Novembro. Em que estes, declaravam suas opiniões quanto a cidade e quanto a política do país, tanto que o tema da organização era:
“Pode ser gente do bem, pode ser, pode ser gente boa. Na BOCA não tem pode ser, não pois a BOCA não perdoa. A BOCA falou, seu doutor, tá falado, sim senhor. A BOCA pichou, seu doutor, tá pichado.”
Durante toda a existência da confraria, diversas explicações para este nome foram explicitadas. O presidente vitalício, Anfrísio Siqueira, uma vez expôs que: “A expressão Boca Maldita não significa que seus integrantes sejam pessoas malquerentes; ao contrário, foram justamente os inimigos da liberdade de expressão que procuraram torpedear a instituição Boca Maldita. Justamente por ela maldizer a ignorância, as trevas e violência.”
Apesar disto, o presidente em uma entrevista ao Jornal Indústria e Comércio (1994), quando questionado “E por que Boca Maldita?”, respondeu, utilizando uma conversa com um dos cavalheiros, que: “Quando resolvemos dar um nome para a nossa confraria, o Adherbal Fortes de Sá observou que as mulheres evitavam passar naquele trecho da Boca Maldita, onde havia muitos homens e alguns mexiam com elas. ‘Nós somos malditos’, disse o Adherbal, porque as moças não passavam por lá. Aí o nome pegou, virou Boca Maldita.”
É desta forma que a Boca se denominava: Maldita, porque assediavam as mulheres, malditos, porque eram declaradamente machistas e isto ainda acabou sendo propagado de forma visual, quando em 1993 durante o mandato do atual prefeito Rafael Greca, foi colocada uma placa em frente ao antigo Café da Boca, em que expunha outro tema deste grupo: “Não ouço, não falo, não vejo”, que se tornou na realidade “Não ouço as mulheres, não falo com as mulheres, não quero vê-las aqui”. Fonte: Jornal Labora
A confraria que se dizia liberal, democrática e defensora das minorias, excluía as mulheres da possibilidade de participar de qualquer debate político e/ou social existente na Boca. A Curitiba da década de 50, assim como o restante do país via as mulheres como coadjuvantes, no entanto, a instituição permaneceu até meados dos anos 2000 e seu posicionamento ainda era o mesmo. Estes homens eram constantemente questionados sobre a participação feminina, algumas das respostas dos cavalheiros eram:
“Sempre convidamos políticos, profissionais liberais, empresários, pessoas que se destacaram para receber o título. Mulher não entra, porque não tem clima.” Anfrísio Siqueira
“Agora, uma coisa é preciso que se diga: não participam da ‘BocaMaldita’ as mulheres. Não se trata de discriminação. É que todas elas são preservadas dos debates e os homens, longe do machismo, querem admirá-las e exaltá-las sem que precisem sofrer desgaste.” Osmann de Oliveira
“Acredito que não seja ambiente propício para a mulher, ela se sentiria constrangida face a determinados assuntos.” Chaim L. Boiko
“Não existe discriminação. A mulher curitibana, entretanto, é ainda muito preconceituosa e não tem suficiente segurança para frequentar lugares públicos, sem um motivo determinado. As mulheres conversam em casa, nas salas de espera de dentistas, médicos, advogados nas escolas, nos clubes, etc, mas ainda têm certo receio de frequentar cafés e naturalmente a Boca. O tradicionalismo é a nossa marca.” Chaim L. Boiko
“É vedada a entrada da mulher, pois são tratados assuntos mais de âmbito masculino, inclusive, sobre feministas.” Mário Celso Puglielli Cunha
O que ainda se cabe analisar neste contexto é a tentativa das mulheres em serem ouvidas, um grupo de mulheres criou a Boca Rouge, em que seu lema era, se não nos ouvir a boca ruge, no sentido de rugir de leão e também como referência ao batom vermelho rouge, utilizado naquela época. A nova confraria não obteve tanto sucesso quanto a formada pelos homens, com a falta de apoio e a falta de receptividade social.
Em uma abordagem e recorte racial, pode-se pensar que estas mulheres, brancas, ainda tiveram acesso a oportunidade da criação de uma confraria própria para que suas necessidades fossem atendidas, no entanto se analisado onde as outras mulheres, pretas, estavam muito provavelmente em trabalhos domésticos e/ou marginalizados, este acesso era ainda mais limitado e ainda é, a luta feminista não inicia no mesmo patamar para todas.
A discussão racial em uma cidade como disse Boiko, “o tradicionalismo é a nossa marca”, é constante e necessária em um tradicionalismo que é higienista, machista e racista. Transmite o processo de embranquecimento e invisibilidade de um povo o qual não era padrão e europeu. Ao decorrer dos anos, a Boca ainda se mostra, além de machista, um reduto racista, mais uma problemática a ser abordada com outros eventos ocorridos na “capital modelo”.
Fonte: TEMPSKI, Cesar Antonio Mendes Von. TEMPSKI, João Carlos Mendes. Cavalheiros da Boca Maldita. Curitiba. 1994
A Boca Maldita: Entre o Café Fumacento e o Silêncio das Mulheres na Curitiba do Século XX
Há lugares que nascem de encontros casuais e, sem querer, viram símbolos de uma época. Na Curitiba da década de 1950, um pequeno trecho da Rua XV de Novembro — entre as atuais ruas Brigadeiro Franco e São Francisco — tornou-se palco de conversas que moldaram a cidade. Ali, sob toldos de cafés e sob o movimento incessante do centro, reunia-se diariamente um grupo de homens: políticos, jornalistas, empresários, intelectuais. Falavam alto, gesticulavam com as mãos cheias de café e cigarro, debatiam o destino da capital com a convicção de quem acreditava deter a chave do futuro. Era ali, naquela esquina viva, que nascia a lenda da Boca Maldita — um nome que carregaria, por décadas, tanto o peso da influência quanto a sombra da exclusão.
Oficialmente constituída em 13 de dezembro de 1956, após um jantar de confraternização no Grande Hotel Moderno, a Sociedade Civil Boca Maldita transformou encontros informais em instituição registrada. Seus membros, auto-intitulados "Cavalheiros da Boca Maldita", reuniam-se anualmente na mesma data para celebrar o que chamavam de "liberdade de expressão absoluta". E de fato, ali se falava de tudo: do asfaltamento das ruas ao destino da nação, dos escândalos políticos às reformas urbanas. Suas opiniões ecoavam pelos jornais da cidade; um comentário proferido naquela esquina podia derrubar projetos ou erguer carreiras. Não à toa, a Boca tornou-se conhecida como "o melhor centro de informações do país" — um título que revelava tanto seu poder quanto sua contradição.
Mas por que "Boca Maldita"? A pergunta pairou no ar por décadas, gerando versões que iam do poético ao desconfortavelmente revelador. O próprio tema oficial da confraria deixava claro o tom:
"Pode ser gente do bem, pode ser, pode ser gente boa. Na BOCA não tem pode ser, não pois a BOCA não perdoa."
A "maldição" era a palavra solta, a crítica sem freio, a fofoca transformada em força política. O presidente vitalício, Anfrísio Siqueira, defendia que a "maldição" era dirigida à ignorância e à opressão — uma espécie de justiça popular falada. Mas em entrevista ao Jornal Indústria e Comércio (1994), outra origem emergiu, mais crua e reveladora: segundo relato de Adherbal Fortes de Sá, o nome surgiu porque "as mulheres evitavam passar naquele trecho [...] onde havia muitos homens e alguns mexiam com elas. 'Nós somos malditos', disse o Adherbal, porque as moças não passavam por lá."
A frase, dita quase como gracejo, escancarava a realidade: a Boca era um espaço masculino não por acaso, mas por escolha deliberada. E essa escolha carregava consequências.
O Clima que Excluía: Quando "Tradição" Virava Muro
Apesar de se autoproclamar "democrática, pluralista e dedicada às causas das minorias", a Boca Maldita manteve, até seu declínio nos anos 2000, uma regra tácita e inquebrantável: mulheres não participavam. Quando questionados — e foram inúmeras vezes —, os cavalheiros ofereciam justificativas que hoje soam como retratos vivos do machismo estrutural da época:
"Mulher não entra, porque não tem clima." — Anfrísio Siqueira
"Não se trata de discriminação. É que todas elas são preservadas dos debates e os homens, longe do machismo, querem admirá-las e exaltá-las sem que precisem sofrer desgaste." — Osmann de Oliveira
"Ela se sentiria constrangida face a determinados assuntos." — Chaim L. Boiko
"São tratados assuntos mais de âmbito masculino, inclusive, sobre feministas." — Mário Celso Puglielli Cunha
A ironia é cruel: enquanto se discutiam "assuntos masculinos", incluindo feminismo, as próprias mulheres eram mantidas à distância — não por incapacidade, mas por uma "proteção" que nada mais era que infantilização. A Boca não era apenas um clube de homens; era um reduto onde se decidia o destino da cidade sem que metade de sua população tivesse voz. E quando se dizia que "o tradicionalismo é a nossa marca", escondia-se, por trás dessa palavra, um projeto de cidade pensado por e para homens brancos, de classe média ou alta.
A Boca que Rugiu: A Resistência Silenciada
Diante do silêncio imposto, algumas mulheres curitibanas ousaram responder. Nasceu assim a Boca Rouge — nome que brincava com a homofonia entre rouge (batom vermelho, símbolo da feminilidade da época) e rugir (como leoa que não se cala). Seu lema era contundente: "Se não nos ouvirem, a boca ruge". Era um grito de existência num espaço que insistia em negá-las.
Mas a Boca Rouge nunca teve o mesmo eco. Sem o respaldo político, econômico e social que sustentava seus equivalentes masculinos, a iniciativa definhou — não por falta de conteúdo ou necessidade, mas por um ambiente que não estava preparado para ouvir mulheres debatendo política num café do centro. E aqui surge uma reflexão ainda mais urgente: se as mulheres brancas e de classe média já enfrentavam barreiras quase intransponíveis para criar seu próprio espaço de fala, onde estavam as mulheres negras, indígenas, trabalhadoras domésticas? Na Curitiba do "tradicionalismo higienista" — que celebrava a imigração europeia enquanto apagava outras presenças —, essas vozes estavam duplamente silenciadas: pelo gênero e pela raça.
A Boca Maldita, portanto, não foi apenas machista. Foi também um espelho do racismo estrutural de uma cidade que se vendia como "capital modelo", mas cuja ideia de civilização estava ancorada num ideal branco, europeu e masculino. Suas paredes invisíveis excluíam não só mulheres, mas toda uma parcela da população que não se encaixava na narrativa oficial da curitibanidade.
O Legado: Entre a Memória e a Lição
Hoje, a Boca Maldita existe mais na memória do que na prática. Os cafés da XV mudaram de donos e aposentaram os debates acalorados de outrora. Mas seu nome permanece — gravado na toponímia afetiva da cidade, celebrado em livros como o de Cesar e João Carlos Mendes von Tempski (1994), e ainda invocado por quem sente saudade de um tempo em que "as coisas eram decididas ali mesmo, na calçada".
Contudo, é urgente olhar para esse passado sem nostalgia ingênua. A Boca Maldita foi, sim, um fenômeno social relevante — mas sua relevância não apaga seu caráter excludente. Ao contrário: torna ainda mais necessário perguntar: que cidade construímos quando decidimos sem ouvir todas as vozes?
A história da Boca Maldita não deve ser apagada — deve ser contada com honestidade. Como alerta. Como lembrete de que "tradição" nunca pode ser desculpa para exclusão. E como homenagem silenciosa àquelas que, mesmo sem espaço na calçada, continuaram a sonhar com uma Curitiba onde todas as bocas — inclusive as que rugem — têm direito a falar, ser ouvidas e transformar a cidade.
Pois uma cidade só é verdadeiramente democrática quando suas esquinas acolhem todos os passos — inclusive os das mulheres que um dia foram ensinadas a desviar delas.
Fontes consultadas: Tempski, Cesar Antonio Mendes von & Tempski, João Carlos Mendes. "Cavalheiros da Boca Maldita". Curitiba, 1994; Jornal Labora; acervo histórico do Jornal Indústria e Comércio.
Após a chegada dos Imigrantes Italianos a Curitiba, os interesses da comunidade Italiana fizeram com que surgisse a ideia de um movimento associativo.
Este movimento acabou resultando na criação da Sociedade Italiana Dimutuo Scorso Giuseppe Garibaldi, cuja função foi de servir como escola para os filhos de imigrantes italianos.
Fundada em 1 de julho 1883, a construção da Sede começou apenas em 1887, com uma obra projetada por Ernesto Guaita. Como não possuíam local para tal construção o governo provincial doou um terreno localizado no Alto do São Francisco. Quatro anos depois da sua fundação e em 1904 o edifício foi concluído. Sua fachada só foi concluída em 1932 pelo arquiteto Joao de Mio o qual a desenvolveu em um estilo Neoclássico.
Foto tirada em 01/05/1900 por Adolpho Volk.
O Palácio Garibaldi teve papel importante em vários momentos históricos da cidade, como por exemplo sendo sede do I Congresso Estadual do movimento operário paranaense, em 1906.
Em 1943, com a Segunda Guerra Mundial, a sociedade foi desapropriada pelo governo, em razão do Brasil ter declarado guerra à Itália, devolvendo-a para a comunidade após vinte anos, em 1962. Durante essas duas décadas a sede foi ocupada por várias instituições, sendo elas: Liga da Defesa Nacional, Centro de Letras do Paraná, Centro de Cultura Feminina, Academia de Letras e Tribunal de Justiça do Estado.
Depois de retomado o edifício, em 1962, passa a se chamar “Sociedade Beneficente Garibaldi”.
Em 1988 foi tombado pelo patrimônio histórico e artístico do Paraná. Mesmo depois de devolvida a comunidade Italiana, O Palácio Garibaldi estava em péssimas condições de uso, impossibilitando qualquer tipo de uso, já que até suas fundações estavam comprometidas, apresentando grande perigo. Apenas em 1994 foi aprovada a sua Obra de Restauro completa feita por uma iniciação privada com apoio do atual prefeito na época, Rafael Greca.
Hoje, o Palácio encontra-se totalmente restaurado, preservando a sua história e representando a cultura italiana paranaense, tanto por dentro quanto por fora.
Além da sua arquitetura refletir um outro tempo, conta também sobre a imigração italiana e a importância desse prédio para a história de Curitiba a todos que o visitam.
A entrada é franca e livre, qualquer cidadão pode ir visitar o Palácio de Segunda a Domingo dentro de seus horários de funcionamento. Também realiza eventos privados e públicos, permitindo ser apropriado pela comunidade, uma vez que a ela mesmo pertence.
Palácio Garibaldi: O Coração Italiano que Ensina, Acorda e Dança no Centro de Curitiba
Há edifícios que são apenas pedra e cal. E há outros que são feitos de sonhos, de hinos cantados em dialeto vêneto, de carteiras escolares rangendo sob os dedos de crianças que aprendiam português com sotaque de Belluno e Trento. O Palácio Garibaldi pertence a esta segunda categoria: não é um monumento parado no tempo, mas um coração pulsante que, há mais de 140 anos, bate no compasso da história curitibana com a cadência alegre de uma tarantela.
Tudo começou com um desejo simples, mas profundamente humano: o de preservar raízes enquanto se plantavam novas. Após a chegada em massa dos imigrantes italianos a Curitiba — homens e mulheres que deixaram vinhedos e montanhas dos Apeninos para enfrentar o frio da terra paranaense — nasceu um movimento associativo vibrante. Não se tratava apenas de nostalgia; era necessidade prática e afeto coletivo. Como garantir que os filhos não perdessem a língua dos avós? Como manter viva a memória de Giuseppe Garibaldi, o herói que unificara a Itália e cujo nome soava como liberdade em todos os cantos da diáspora?
Assim, no dia 1º de julho de 1883, nascia oficialmente a Sociedade Italiana Dmutuo Soccorso Giuseppe Garibaldi — "socorro mútuo", pois era disso que se tratava: união para erguer, proteger e educar. E a educação seria sua primeira missão sagrada: transformar o sonho em escola, onde os pequenos brasileirinhos de origem italiana aprendessem a ler, escrever e honrar suas duas pátrias.
Mas para abrigar tantos sonhos, era preciso um lar de verdade. O governo provincial, reconhecendo a importância da iniciativa, doou um terreno generoso no Alto de São Francisco — região que hoje respira história a cada esquina. Em 1887, as primeiras pás tocaram a terra sob projeto do engenheiro Ernesto Guaita, outro filho da Itália que deixaria sua marca na cidade. A construção avançou devagar, com o cuidado de quem assenta não apenas tijolos, mas esperanças. E em 1904, após longos anos de dedicação coletiva, o edifício ergueu-se majestoso — não como palácio ainda, mas como templo do encontro.
A fotografia de Adolpho Volk, registrada em 1º de maio de 1900, captura aquele momento de transição: andaimes ainda envolvem a estrutura, mas já se percebe a imponência do que viria a ser. E a beleza não parou por aí. Em 1932, o arquiteto João de Mio emprestou ao prédio sua fachada definitiva, desenhada em elegante estilo neoclássico — colunas que dialogam com o céu, simetria que fala de ordem e harmonia, e um frontão que parece abraçar quem passa. Era o toque final de uma obra coletiva que atravessava gerações.
Mas o Garibaldi nunca foi apenas um prédio bonito. Foi palco de história viva. Em 1906, suas salas acolheram o I Congresso Estadual do Movimento Operário Paranaense — operários, tipógrafos, ferroviários reunidos debaixo de um teto italiano para sonhar com direitos, com justiça, com dignidade. Era ali, entre quadros de Garibaldi e mapas da Itália, que se forjava o futuro do trabalho no Paraná.
A história, porém, reservaria uma prova de fogo. Com a Segunda Guerra Mundial e a declaração de guerra do Brasil à Itália em 1943, o clima mudou. O Garibaldi, símbolo de italianidade, foi desapropriado pelo governo. Por vinte longos anos, suas portas se fecharam à comunidade que o erguera. Transformou-se em sede da Liga da Defesa Nacional, do Centro de Letras do Paraná, da Academia de Letras, até mesmo do Tribunal de Justiça. Ironia da história: um templo do povo operário italiano serviu à burocracia estatal enquanto seus fundadores assistiam, impotentes, à distância.
Mas a alma de um lugar assim não se apaga. Em 1962, a chave foi devolvida. A sociedade renasceu com novo nome — Sociedade Beneficente Garibaldi — mas com o mesmo coração. Tombado pelo patrimônio histórico do Paraná em 1988, o edifício, porém, agonizava: fundações comprometidas, paredes rachadas, telhado ameaçando desabar. Era um gigante ferido no centro da cidade.
Até que veio a redenção. Em 1994, graças a uma iniciativa privada corajosa e ao apoio decisivo do então prefeito Rafael Greca, o restauro completo foi aprovado. Não foi apenas conserto — foi ressurreição. Ladrilhos hidráulicos recuperaram seu brilho, a escadaria de acesso voltou a convidar passos leves, os salões internos recuperaram sua dignidade com afrescos e detalhes que contam a saga da imigração.
Hoje, o Palácio Garibaldi não é museu empoeirado. É vida. De segunda a domingo, de portas abertas e entrada franca, recebe curitibanos e turistas para um mergulho afetivo na história. Nas paredes, fotos em preto e branco mostram rostos de imigrantes de bigode cerrado e olhos cheios de esperança. Nos corredores, o eco de passos se mistura à memória de crianças aprendendo a soletrar "Brasil" e "Itália" na mesma lousa. E nos salões nobres, eventos culturais, casamentos, exposições e saraus transformam o passado em presente vivo — porque patrimônio só existe quando é habitado.
O Palácio Garibaldi nos ensina algo precioso: que a memória não é estática. É feita de mãos que constroem, de vozes que cantam Bella Ciao entre um gole de vinho e outro, de netos que ouvem histórias de nonno enquanto passeiam sob seus teto. É a prova de que, mesmo quando a guerra tenta apagar identidades, a cultura resiste — teimosa, generosa, acolhedora.
Que cada visitante que cruza seu portal leve consigo mais que uma foto: leve a certeza de que Curitiba é feita destes encontros. Do italiano que trouxe a polenta, do português que trouxe o fado, do alemão que trouxe a cerveja, do negro que trouxe o samba — todos tecendo, juntos, a alma desta cidade.
E no coração desse tecido, ergue-se, orgulhoso e acolhedor, o Palácio Garibaldi: não como ruína, mas como convite. Venha. Entre. Sente-se um instante. Escute o silêncio que fala mais alto que qualquer apito de trem. E saiba: você está em casa.
— Em homenagem a todos os imigrantes que transformaram saudade em raiz, e sonho em pátria.