quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A Boca Maldita: Entre o Café Fumacento e o Silêncio das Mulheres na Curitiba do Século XX

 A Boca Maldita foi uma confraria organizada por um grupo de homens que se reuniam na antiga Avenida João Pessoa, atual Avenida Luiz Xavier, no centro de Curitiba, para conversar e trocar ideias a respeito do desenvolvimento da cidade e do cenário político nacional. No ano de 1956 este grupo decidiu realizar um jantar de confraternização no Grande Hotel Moderno, a partir desta data, 13 de dezembro, o grupo resolveu tornar-se uma sociedade, a qual era registrada como Sociedade Civil de Direito Privado. Todos os anos, na mesma data, realizou-se este jantar com todos os nominados Cavalheiros da Boca Maldita.

A organização se intitulava como uma das mais livres instituições existentes no país, não sendo apenas um local para encontros, mas também um local que agregava o melhor centro de informações nacional. Ainda se posicionavam como uma instituição democrática pluralista e dedicada às causas e interesses da maioria às reinvindicações das minorias. Cabe se atentar para esta auto declaração, para que se questione a veracidade da dita democracia.

Desta forma, a questão que ainda permanece seria a razão para adotar este nome incomum, Boca Maldita. No entanto, seguindo os posicionamentos expostos a respeito da confraria, pode-se imaginar que a nomenclatura deriva-se dos atos e conversas geradas pelo grupo de homens, em seu jantar de confraternização e nos encontros diários no pequeno trecho da XV de Novembro. Em que estes, declaravam suas opiniões quanto a cidade e quanto a política do país, tanto que o tema da organização era:

“Pode ser gente do bem, pode ser,
pode ser gente boa.
Na BOCA não tem pode ser, não
pois a BOCA não perdoa.
A BOCA falou, seu doutor,
tá falado, sim senhor.
A BOCA pichou, seu doutor,
tá pichado.”

 Durante toda a existência da confraria, diversas explicações para este nome foram explicitadas. O presidente vitalício, Anfrísio Siqueira, uma vez expôs que: “A expressão Boca Maldita não significa que seus integrantes sejam pessoas malquerentes; ao contrário, foram justamente os inimigos da liberdade de expressão que procuraram torpedear a instituição Boca Maldita. Justamente por ela maldizer a ignorância, as trevas e violência.”

Apesar disto, o presidente em uma entrevista ao Jornal Indústria e Comércio (1994), quando questionado “E por que Boca Maldita?”, respondeu, utilizando uma conversa com um dos cavalheiros, que: “Quando resolvemos dar um nome para a nossa confraria, o Adherbal Fortes de Sá observou que as mulheres evitavam passar naquele trecho da Boca Maldita, onde havia muitos homens e alguns mexiam com elas. ‘Nós somos malditos’, disse o Adherbal, porque as moças não passavam por lá. Aí o nome pegou, virou Boca Maldita.”      

É desta forma que a Boca se denominava: Maldita, porque assediavam as mulheres, malditos, porque eram declaradamente machistas e isto ainda acabou sendo propagado de forma visual, quando em 1993 durante o mandato do atual prefeito Rafael Greca, foi colocada uma placa em frente ao antigo Café da Boca, em que expunha outro tema deste grupo: “Não ouço, não falo, não vejo”, que se tornou na realidade “Não ouço as mulheres, não falo com as mulheres, não quero vê-las aqui”.
Fonte: Jornal Labora

A confraria que se dizia liberal, democrática e defensora das minorias, excluía as mulheres da possibilidade de participar de qualquer debate político e/ou social existente na Boca. A Curitiba da década de 50, assim como o restante do país via as mulheres como coadjuvantes, no entanto, a instituição permaneceu até meados dos anos 2000 e seu posicionamento ainda era o mesmo. Estes homens eram constantemente questionados sobre a participação feminina, algumas das respostas dos cavalheiros eram:

“Sempre convidamos políticos, profissionais liberais, empresários, pessoas que se destacaram para receber o título. Mulher não entra, porque não tem clima.”
Anfrísio Siqueira

“Agora, uma coisa é preciso que se diga: não participam da ‘BocaMaldita’ as mulheres. Não se trata de discriminação. É que todas elas são preservadas dos debates e os homens, longe do machismo, querem admirá-las e exaltá-las sem que precisem sofrer desgaste.”
Osmann de Oliveira

“Acredito que não seja ambiente propício para a mulher, ela se sentiria constrangida face a determinados assuntos.”
Chaim L. Boiko

“Não existe discriminação. A mulher curitibana, entretanto, é ainda muito preconceituosa e não tem suficiente segurança para frequentar lugares públicos, sem um motivo determinado. As mulheres conversam em casa, nas salas de espera de dentistas, médicos, advogados nas escolas, nos clubes, etc, mas ainda têm certo receio de frequentar cafés e naturalmente a Boca. O tradicionalismo é a nossa marca.”
Chaim L. Boiko

“É vedada a entrada da mulher, pois são tratados assuntos mais de âmbito masculino, inclusive, sobre feministas.”
Mário Celso Puglielli Cunha

O que ainda se cabe analisar neste contexto é a tentativa das mulheres em serem ouvidas, um grupo de mulheres criou a Boca Rouge, em que seu lema era, se não nos ouvir a boca ruge, no sentido de rugir de leão e também como referência ao batom vermelho rouge, utilizado naquela época. A nova confraria não obteve tanto sucesso quanto a formada pelos homens, com a falta de apoio e a falta de receptividade social.

Em uma abordagem e recorte racial, pode-se pensar que estas mulheres, brancas, ainda tiveram acesso a oportunidade da criação de uma confraria própria para que suas necessidades fossem atendidas, no entanto se analisado onde as outras mulheres, pretas, estavam muito provavelmente em trabalhos domésticos e/ou marginalizados, este acesso era ainda mais limitado e ainda é, a luta feminista não inicia no mesmo patamar para todas.

A discussão racial em uma cidade como disse Boiko, “o tradicionalismo é a nossa marca”, é constante e necessária em um tradicionalismo que é higienista, machista e racista. Transmite o processo de embranquecimento e invisibilidade de um povo o qual não era padrão e europeu. Ao decorrer dos anos, a Boca ainda se mostra, além de machista, um reduto racista, mais uma problemática a ser abordada com outros eventos ocorridos na “capital modelo”.

Fonte:
TEMPSKI, Cesar Antonio Mendes Von. TEMPSKI, João Carlos Mendes. Cavalheiros da Boca Maldita. Curitiba. 1994

A Boca Maldita: Entre o Café Fumacento e o Silêncio das Mulheres na Curitiba do Século XX

Há lugares que nascem de encontros casuais e, sem querer, viram símbolos de uma época. Na Curitiba da década de 1950, um pequeno trecho da Rua XV de Novembro — entre as atuais ruas Brigadeiro Franco e São Francisco — tornou-se palco de conversas que moldaram a cidade. Ali, sob toldos de cafés e sob o movimento incessante do centro, reunia-se diariamente um grupo de homens: políticos, jornalistas, empresários, intelectuais. Falavam alto, gesticulavam com as mãos cheias de café e cigarro, debatiam o destino da capital com a convicção de quem acreditava deter a chave do futuro. Era ali, naquela esquina viva, que nascia a lenda da Boca Maldita — um nome que carregaria, por décadas, tanto o peso da influência quanto a sombra da exclusão.
Oficialmente constituída em 13 de dezembro de 1956, após um jantar de confraternização no Grande Hotel Moderno, a Sociedade Civil Boca Maldita transformou encontros informais em instituição registrada. Seus membros, auto-intitulados "Cavalheiros da Boca Maldita", reuniam-se anualmente na mesma data para celebrar o que chamavam de "liberdade de expressão absoluta". E de fato, ali se falava de tudo: do asfaltamento das ruas ao destino da nação, dos escândalos políticos às reformas urbanas. Suas opiniões ecoavam pelos jornais da cidade; um comentário proferido naquela esquina podia derrubar projetos ou erguer carreiras. Não à toa, a Boca tornou-se conhecida como "o melhor centro de informações do país" — um título que revelava tanto seu poder quanto sua contradição.
Mas por que "Boca Maldita"? A pergunta pairou no ar por décadas, gerando versões que iam do poético ao desconfortavelmente revelador. O próprio tema oficial da confraria deixava claro o tom:
"Pode ser gente do bem, pode ser,
pode ser gente boa.
Na BOCA não tem pode ser, não
pois a BOCA não perdoa."
A "maldição" era a palavra solta, a crítica sem freio, a fofoca transformada em força política. O presidente vitalício, Anfrísio Siqueira, defendia que a "maldição" era dirigida à ignorância e à opressão — uma espécie de justiça popular falada. Mas em entrevista ao Jornal Indústria e Comércio (1994), outra origem emergiu, mais crua e reveladora: segundo relato de Adherbal Fortes de Sá, o nome surgiu porque "as mulheres evitavam passar naquele trecho [...] onde havia muitos homens e alguns mexiam com elas. 'Nós somos malditos', disse o Adherbal, porque as moças não passavam por lá."
A frase, dita quase como gracejo, escancarava a realidade: a Boca era um espaço masculino não por acaso, mas por escolha deliberada. E essa escolha carregava consequências.

O Clima que Excluía: Quando "Tradição" Virava Muro

Apesar de se autoproclamar "democrática, pluralista e dedicada às causas das minorias", a Boca Maldita manteve, até seu declínio nos anos 2000, uma regra tácita e inquebrantável: mulheres não participavam. Quando questionados — e foram inúmeras vezes —, os cavalheiros ofereciam justificativas que hoje soam como retratos vivos do machismo estrutural da época:
"Mulher não entra, porque não tem clima."
— Anfrísio Siqueira
"Não se trata de discriminação. É que todas elas são preservadas dos debates e os homens, longe do machismo, querem admirá-las e exaltá-las sem que precisem sofrer desgaste."
— Osmann de Oliveira
"Ela se sentiria constrangida face a determinados assuntos."
— Chaim L. Boiko
"São tratados assuntos mais de âmbito masculino, inclusive, sobre feministas."
— Mário Celso Puglielli Cunha
A ironia é cruel: enquanto se discutiam "assuntos masculinos", incluindo feminismo, as próprias mulheres eram mantidas à distância — não por incapacidade, mas por uma "proteção" que nada mais era que infantilização. A Boca não era apenas um clube de homens; era um reduto onde se decidia o destino da cidade sem que metade de sua população tivesse voz. E quando se dizia que "o tradicionalismo é a nossa marca", escondia-se, por trás dessa palavra, um projeto de cidade pensado por e para homens brancos, de classe média ou alta.

A Boca que Rugiu: A Resistência Silenciada

Diante do silêncio imposto, algumas mulheres curitibanas ousaram responder. Nasceu assim a Boca Rouge — nome que brincava com a homofonia entre rouge (batom vermelho, símbolo da feminilidade da época) e rugir (como leoa que não se cala). Seu lema era contundente: "Se não nos ouvirem, a boca ruge". Era um grito de existência num espaço que insistia em negá-las.
Mas a Boca Rouge nunca teve o mesmo eco. Sem o respaldo político, econômico e social que sustentava seus equivalentes masculinos, a iniciativa definhou — não por falta de conteúdo ou necessidade, mas por um ambiente que não estava preparado para ouvir mulheres debatendo política num café do centro. E aqui surge uma reflexão ainda mais urgente: se as mulheres brancas e de classe média já enfrentavam barreiras quase intransponíveis para criar seu próprio espaço de fala, onde estavam as mulheres negras, indígenas, trabalhadoras domésticas? Na Curitiba do "tradicionalismo higienista" — que celebrava a imigração europeia enquanto apagava outras presenças —, essas vozes estavam duplamente silenciadas: pelo gênero e pela raça.
A Boca Maldita, portanto, não foi apenas machista. Foi também um espelho do racismo estrutural de uma cidade que se vendia como "capital modelo", mas cuja ideia de civilização estava ancorada num ideal branco, europeu e masculino. Suas paredes invisíveis excluíam não só mulheres, mas toda uma parcela da população que não se encaixava na narrativa oficial da curitibanidade.

O Legado: Entre a Memória e a Lição

Hoje, a Boca Maldita existe mais na memória do que na prática. Os cafés da XV mudaram de donos e aposentaram os debates acalorados de outrora. Mas seu nome permanece — gravado na toponímia afetiva da cidade, celebrado em livros como o de Cesar e João Carlos Mendes von Tempski (1994), e ainda invocado por quem sente saudade de um tempo em que "as coisas eram decididas ali mesmo, na calçada".
Contudo, é urgente olhar para esse passado sem nostalgia ingênua. A Boca Maldita foi, sim, um fenômeno social relevante — mas sua relevância não apaga seu caráter excludente. Ao contrário: torna ainda mais necessário perguntar: que cidade construímos quando decidimos sem ouvir todas as vozes?
A história da Boca Maldita não deve ser apagada — deve ser contada com honestidade. Como alerta. Como lembrete de que "tradição" nunca pode ser desculpa para exclusão. E como homenagem silenciosa àquelas que, mesmo sem espaço na calçada, continuaram a sonhar com uma Curitiba onde todas as bocas — inclusive as que rugem — têm direito a falar, ser ouvidas e transformar a cidade.
Pois uma cidade só é verdadeiramente democrática quando suas esquinas acolhem todos os passos — inclusive os das mulheres que um dia foram ensinadas a desviar delas.

Fontes consultadas: Tempski, Cesar Antonio Mendes von & Tempski, João Carlos Mendes. "Cavalheiros da Boca Maldita". Curitiba, 1994; Jornal Labora; acervo histórico do Jornal Indústria e Comércio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário