quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Entre Páginas e Memórias: A História Silenciosa do Grupo Escolar Silveira da Motta — Guardião de Sonhos em São José dos Pinhais

 Denominação inicial: Grupo Escolar Silveira da Motta

Denominação atual: Biblioteca Municipal Scharffenberg de Quadros

Endereço: Largo Vereador Segismundo Salata / Praça 08 de Janeiro, 120 - Centro

Cidade: 

Classificação (Uso): 

Período: 

Projeto Arquitetônico

Autor: Secretaria de Obras Públicas e Colonização

Data: 1911

Estrutura: padronizado

Tipologia: Bloco único

Linguagem: 


Data de inauguracao: 1912

Situação atual: Edificação existente com alterações

Uso atual: Edifício com uso cultural

Grupo Escolar Silveira da Motta - s/d

Acervo: Museu Paranaense

Entre Páginas e Memórias: A História Silenciosa do Grupo Escolar Silveira da Motta — Guardião de Sonhos em São José dos Pinhais

Na esquina da Praça 8 de Janeiro, sob a sombra generosa das árvores centenárias do Centro de São José dos Pinhais, ergue-se um edifício de paredes brancas e janelas altas que guarda em seus tijolos a memória de gerações. Hoje conhecido como Biblioteca Municipal Scharffenberg de Quadros, este prédio já foi, um século atrás, o Grupo Escolar Silveira da Motta — templo laico onde o saber entrou pela primeira vez nas vidas de filhos de colonos poloneses, ucranianos e italianos que transformaram o planalto paranaense em pátria.
Sua história não começa com sinos badalando ou discursos inflamados. Começa com o ranger de tábuas de pinheiro sendo assentadas em 1911, com o cheiro de tinta fresca nos primeiros cadernos escolares, com o eco dos primeiros passos de crianças descalças cruzando o umbral daquela porta para aprender a soletrar "Pátria" e "Dever". É a história de um sonho republicano que, mesmo distante dos salões de Curitiba, chegou às terras de colonização com a força silenciosa da certeza: nenhuma nação se constrói sem escolas.

O Patrono Esquecido: Joaquim Ignácio Silveira da Motta e a Semente da Instrução Pública

Por trás do nome que batizou a escola está um homem cuja trajetória se confunde com a própria formação do Paraná como província autônoma. Joaquim Ignácio Silveira da Motta (1818–1891) chegou ao então 5º Distrito de São Paulo — futuro Paraná — ainda jovem formado em Direito, trazendo nos olhos o idealismo dos intelectuais do Império.
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Em 1851, exercia o cargo de delegado de polícia em Curitiba, mas sua verdadeira paixão revelou-se na política e na educação.
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Tornou-se deputado provincial e depois deputado geral, dedicando-se à causa da instrução pública numa época em que escolas eram luxo raro nas vilas do interior.
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Silveira da Motta compreendeu antes de muitos que a educação era o alicerce da cidadania — não apenas para os filhos das elites urbanas, mas para todos, inclusive para os imigrantes que chegavam aos milhares ao planalto paranaense carregando malas de sonhos e mãos calejadas pelo trabalho da roça. Sua atuação na difusão da instrução pública na Província do Paraná foi ampla e decisiva, deixando como legado a convicção de que ensinar a ler é libertar.
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Quando, décadas após sua morte em 1891, o governo estadual decidiu homenagear sua memória batizando um grupo escolar em São José dos Pinhais com seu nome, estava selando um pacto tácito: aquele prédio seria mais que tijolos — seria um monumento vivo ao direito universal ao saber.

A Chegada dos Colonos: Quando a Terra Precisava de Escolas

No final do século XIX, São José dos Pinhais transformava-se. Após a bem-sucedida experiência da colonização polonesa em Mallet e outras regiões, novas levas de imigrantes — principalmente da Galícia (região hoje dividida entre Polônia e Ucrânia ocidental) — rumavam para as terras altas do planalto, atraídos pela promessa de lotes para cultivo e liberdade religiosa.
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Chegavam famílias inteiras falando polski ou ukrayinskyi, trazendo consigo santos bordados em tecidos, sementes de batata e o sonho de que seus filhos teriam um futuro diferente do que tiveram na Europa sob jugos estrangeiros.
Mas havia um problema silencioso: as crianças cresciam entre as roças de batata e os campos de centeio sem saber ler em português. Falavam o dialeto dos pais, rezavam em latim nas missas católicas orientais, mas ignoravam as letras que formavam a língua do país que as acolhera. Nas colônias Marcelino, Murici e outras espalhadas pelo município, as mães polonesas e ucranianas olhavam para os filhos com um misto de orgulho e angústia: orgulho pela força com que trabalhavam na lavoura; angústia pela incerteza de um futuro sem instrução.
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Foi nesse contexto que o governo do Paraná, seguindo o modelo republicano de modernização educacional, decidiu erguer grupos escolares — instituições padronizadas que ofereciam ensino primário sistematizado em edifícios projetados pela Secretaria de Obras Públicas e Colonização.
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Em 1911, o projeto para São José dos Pinhais foi aprovado: um bloco único de linguagem eclética, com salas amplas, janelas altas para iluminar as carteiras de madeira e um pátio interno onde as crianças brincariam entre lições de caligrafia e tabuada.

1912: O Ano em que o Saber Entrou Pela Porta da Frente

Na manhã de sua inauguração em 1912, o Grupo Escolar Silveira da Motta abriu suas portas para uma cena que se repetiria por décadas: mães de saias longas e lenços coloridos na cabeça entregavam, hesitantes, seus filhos à professora de vestido branco e cabelo preso em coque severo. Muitas não falavam português fluentemente; algumas sequer sabiam escrever seus próprios nomes. Mas todas compreendiam, no silêncio do coração, que aquele momento era um rito de passagem — o instante em que seus descendentes deixavam de ser apenas camponeses para se tornarem cidadãos.
Dentro das salas de aula, a realidade era desafiadora. Crianças de origem polonesa, ucraniana, italiana e brasileira sentavam-se lado a lado, unidas pelo mesmo caderno pautado e pelo mesmo giz rangendo no quadro-negro.
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A professora, muitas vezes recém-formada na Escola Normal de Curitiba, enfrentava a tarefa hercúlea de ensinar português a meninos que só conheciam o talian ou o polonês caseiro. Mas havia método: o Código do Ensino do Estado do Paraná e o Programa do Grupo Escolar Modelo, ambos de 1917, estabeleciam rotinas rigorosas — lições de moral e cívica ao amanhecer, caligrafia à tarde, hinos patrióticos antes do recreio.
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O edifício, com seu estilo eclético que misturava elementos neoclássicos e traços modernos da época, tornou-se rapidamente o coração pulsante do Centro de São José dos Pinhais. Suas paredes testemunharam primeiras leituras gaguejadas de Os Lusíadas, lágrimas contidas ao aprender que o Brasil era maior que a Europa, risadas ao descobrir que o mapa-múndi guardava oceanos além do Atlântico que seus avós cruzaram. Cada criança que ali estudou levava para casa mais que lições de português e aritmética: levava a semente da identidade brasileira — cultivada com respeito às raízes europeias, mas firmemente plantada na terra paranaense.

A Transformação Silenciosa: Da Escola à Biblioteca

Ao longo das décadas, o mundo mudou ao redor do Grupo Escolar Silveira da Motta. Novas escolas surgiram nos bairros que se expandiam; o ensino primário foi sendo transferido para unidades mais modernas; as crianças de saias curtas e calções substituíram as de vestidos longos e suspensórios. O edifício, porém, resistiu — não como relíquia do passado, mas como guardião de memórias.
Em 10 de novembro de 1940, durante a Cruzada Nacional de Educação liderada pelo governo federal, o prédio renasceu com nova vocação: tornou-se a Biblioteca Pública Municipal Scharffenberg de Quadros.
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O nome homenageava a família Scharffenberg de Quadros, cujas raízes na região remontavam ao final do século XIX — Antonio Scharffenberg de Quadros (1881–1953), filho de Antonio Manoel de Quadros e Maria Elisa Scharffenberg, casara-se em 1907 com Robertina Guimarães Cavalcanti e criara família em São José dos Pinhais, integrando-se à elite local que valorizava a cultura e a educação.
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Sob a gestão da primeira bibliotecária, Maria Iphygenia de Souza Cortês, a biblioteca iniciou suas atividades com apenas 220 obras — livros doados por famílias tradicionais, volumes trazidos de Curitiba, exemplares resgatados de escolas fechadas.
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Mas aos poucos, aquelas estantes vazias foram se enchendo: romances de José de Alencar ao lado de contos poloneses traduzidos; manuais agrícolas para os colonos ao lado de dicionários que ajudavam os jovens a dominar o português; atlas que mostravam ao mesmo tempo a Ucrânia ancestral e o Brasil que agora era pátria.

O Presente que Honra o Passado

Hoje, mais de cem anos após sua construção, o edifício na Praça 8 de Janeiro — Largo Vereador Segismundo Salata, 120 — permanece de pé, embora modificado pelo tempo e pelas necessidades contemporâneas.
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Suas paredes, que já ouviram o ranger de giz em quadros-negros, agora abrigam computadores e wi-fi; seus corredores, que ecoaram com os passos apressados de crianças correndo para o recreio, hoje recebem jovens em busca de livros para concursos públicos e idosos que vêm folhear jornais antigos em busca de memórias.
A Biblioteca Scharffenberg de Quadros conta hoje com um acervo de mais de 80 mil livros físicos — número que ultrapassa os 100 mil títulos quando somados os recursos digitais da biblioteca virtual.
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Entre janeiro e abril de 2025, registrou 1,835 empréstimos — prova de que, mesmo na era digital, o livro impresso e o espaço físico de leitura continuam vivos.
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Mas seu verdadeiro valor não está nos números: está na senhora ucraniana de cabelos brancos que vem toda semana buscar livros em cirílico; no jovem descendente de poloneses que pesquisa a história da Colônia Marcelino para seu trabalho de faculdade; na criança que, pela primeira vez, descobre o prazer de ler escondida entre as estantes.

Legado de Pedra e Papel

O Grupo Escolar Silveira da Motta — hoje Biblioteca Scharffenberg de Quadros — é mais que um edifício histórico. É um testemunho silencioso de como o Paraná se fez nação através da educação. Representa a coragem dos imigrantes que, mesmo sem falar português, insistiram para que seus filhos aprendessem a língua do novo país; a dedicação das professoras que enfrentaram salas multilíngues com paciência de missionárias leigas; a visão dos estadistas como Silveira da Motta que entenderam que escolas são tão fundamentais quanto estradas para unir um território.
Quando caminhamos hoje diante daquele prédio de linguagem eclética no Centro de São José dos Pinhais, devemos ouvir além do silêncio das paredes. Devemos ouvir o eco das primeiras sílabas soletradas por crianças de olhos azuis que nunca tinham visto o mar; o ranger das carteiras de madeira onde meninos de origem polonesa aprenderam a escrever "Brasil" com letra cursiva; o sussurro das páginas viradas por gerações que descobriram, entre capas de papel, que o mundo era maior que a colônia onde nasceram.
Aquele edifício não ensinou apenas a ler e escrever. Ensina, até hoje, que a memória é o solo onde as identidades florescem — e que uma nação se constrói não apenas com tratores e estradas, mas com livros abertos em mesas de madeira simples, sob a luz tênue de lâmpadas a querosene que, um século depois, ainda iluminam o caminho do saber.

Jacob BERTINATTO Nascido em 1873 - Italia Falecido a 26 de maio de 1952 (segunda-feira), com a idade de 79 anos

  Jacob BERTINATTO Nascido em 1873 - Italia Falecido a 26 de maio de 1952 (segunda-feira), com a idade de 79 anos

Jacob Bertinatto: O Silêncio do Imigrante que Plantou Raízes entre Dois Mundos

Em algum lugar do Vêneto italiano — talvez nas colinas de Treviso, onde as videiras se enrolam nos mourões como memórias teimosas —, no ano de 1873, um menino veio ao mundo com o nome de Jacob Bertinatto. Ninguém registrou com pompa seu nascimento; não houve sinos badalando nas torres das igrejas nem banquetes nas praças de pedra. Mas naquele momento, sob o sol da Itália que beijava campos de oliveiras e vinhedos, iniciava-se uma jornada que atravessaria oceanos e transformaria para sempre o destino de uma linhagem. Jacob nasceu numa terra onde o pão era amassado com as mãos calejadas dos avós e onde o futuro, para muitos jovens de sua geração, parecia tão distante quanto as nuvens no horizonte.

A Partida: Quando a Terra Mãe Não Bastava Mais

A década de 1880 mergulhou o norte da Itália numa crise silenciosa. As terras do Vêneto, exauridas por décadas de cultivo intensivo e divididas entre herdeiros em sucessões intermináveis, já não sustentavam os sonhos dos filhos. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, o Brasil abria os braços — ou assim prometiam os folhetos coloridos distribuídos por agentes de imigração — oferecendo lotes de terra vermelha, clima generoso e a ilusão de um recomeço. Para Jacob, então com pouco mais de dez anos, a decisão não foi sua: foi tomada pelos pais, que, como milhares de italianos, venderam o pouco que tinham, embrulharam santinhos de Santo Antônio em panos brancos e rumaram para o porto de Gênova.
A travessia do Atlântico foi uma provação de semanas a bordo de navios superlotados, onde o cheiro de enjoo se misturava ao sal do mar e ao medo silencioso de nunca mais ver a terra natal. Jacob, menino de olhos escuros e mãos pequenas demais para o trabalho que o aguardava, aprendeu ali sua primeira lição de adulto: a sobrevivência exige engolir o choro. Quando avistaram o litoral do Rio Grande do Sul, em meados da década de 1880, não havia ouro nas ruas nem terra pronta para a colheita — havia apenas mato cerrado, o desafio das primeiras roças e a promessa de que, com trabalho, um dia haveria pão na mesa.

O Refúgio Gaúcho: Entre Pinheirais e Esperanças

A família Bertinatto fixou-se no interior do Rio Grande do Sul, numa região onde italianos, alemães e luso-brasileiros teciam uma nova identidade sulina. Jacob cresceu entre o cheiro de pinheiro e o sotaque marcante dos talian — o dialeto vêneto que se misturava ao português como vinho ao sangue. Aprendeu cedo a manejar o machado para derrubar árvores, a plantar milho em fileiras retas, a construir casa de taipa com barro e pedra. Suas mãos, antes delicadas de criança, transformaram-se em mapas de cicatrizes e calos — cada marca uma história não contada.
Foi nesse mundo de roça e resistência que Jacob conheceu Madalena Ballin — mulher de olhar sereno e mãos que sabiam transformar farinha em pão, lágrimas em canções de ninar. Casaram-se ainda jovens, unindo-se não por paixões românticas descritas em novelas, mas pelo entendimento profundo de que, naquela terra distante, o amor verdadeiro era dividir o mesmo pão duro, aquecer os pés do outro nas noites frias de inverno gaúcho e erguer juntos paredes que resistissem às chuvas torrenciais.

Nona: A Filha que Carregaria Seu Nome

No domingo, 9 de junho de 1901, Madalena deu à luz uma menina — a primeira e talvez única filha do casal. Batizaram-na Maria Thereza, mas na intimidade da família ela seria sempre Nona — apelido carinhoso que, em italiano, significa "avó", talvez um presságio inconsciente de que aquela criança um dia seria matriarca de uma linhagem. Jacob, aos vinte e oito anos, segurou nos braços a filha recém-nascida e viu, pela primeira vez, algo além da sobrevivência diária: viu continuidade. Viu futuro.
Naquela casa simples do interior gaúcho, Jacob ensinou a Nona o que aprendera com seu próprio pai: que homem de verdade não é aquele que ergue a voz, mas aquele que ergue o telhado quando chove; que dignidade não se mede em moedas, mas na honestidade do trabalho; que raiz não é onde se nasce, mas onde se planta o coração. Enquanto Madalena ensinava à filha a costurar e rezar, Jacob mostrava-lhe como reconhecer a terra fértil pelo cheiro, como plantar feijão na lua certa, como respeitar a floresta que lhes dava madeira e sombra.

A Nova Fronteira: Rumo ao Paraná

Por volta de 1920, quando Nona já era uma jovem mulher de vinte anos, os ventos do destino sopraram novamente. O Rio Grande do Sul, outrora terra de promessas, começava a mostrar seus limites para as novas gerações. Enquanto isso, o Paraná emergia como nova fronteira — Curitiba crescia, os Campos Gerais ofereciam lotes mais acessíveis, e falava-se de uma terra onde o pinheiro araucária erguia-se como catedral natural. Jacob, agora com quase cinquenta anos, enfrentou sua segunda grande migração: deixar para trás a terra onde criara raízes por quarenta anos para buscar novo horizonte para a filha.
A viagem de carroça ou trem até Curitiba foi árdua — dias de estradas esburacadas, noites dormindo em barracas às margens do caminho, o coração apertado pela saudade do pampa gaúcho. Mas Jacob não reclamou. Carregava consigo, além das poucas trouxas de pertences, a certeza de que imigrante não tem o luxo da nostalgia: tem apenas o dever de seguir em frente.
Em Curitiba, já não era mais o jovem colono que desbravara matas no RS. Era um homem maduro, de cabelos grisalhos e costas curvadas pelo trabalho, mas seus braços ainda sabiam erguer paredes, suas mãos ainda reconheciam a terra boa. Estabeleceram-se numa região ainda rural da cidade — talvez próximo ao Atuba ou nas cercanias do Guabirotuba — onde italianos e alemães construíam, lado a lado, uma nova pátria.

O Casamento de Nona: A Alegria de um Pai

No sábado, 6 de fevereiro de 1926, Jacob viveu um dos momentos mais plenos de sua existência. Sua filha Nona, agora com vinte e quatro anos, casava-se com Augusto August Ferdinand Wilhelm Stubert — homem de origem alemã cujo nome longo carregava a história de outra diáspora. Na igreja simples de Curitiba, Jacob, aos cinquenta e três anos, entregou a filha ao noivo com um abraço silencioso que dizia mais que mil palavras: "Cuide dela como eu cuidei. Honre-a como eu honrei sua mãe. Faça dela feliz."
Naquele dia, Jacob compreendeu que sua missão como pai estava cumprida. Tinha atravessado oceanos, desbravado matas, suportado fome e frio — tudo para que sua filha tivesse o direito de escolher seu caminho. Ao ver Nona sorrir ao lado de Augusto, Jacob sentiu que valera a pena cada noite de insônia na travessia do Atlântico, cada calo nas mãos, cada saudade engolida da Itália que nunca mais veria.

Os Últimos Anos: Guardião das Memórias

Jacob viveu mais vinte e seis anos após o casamento de Nona. Viu nascer seu neto Miguel Jacob "Tetéco" Stubert — nome que carregava sua própria herança como homenagem viva. Nas tardes de inverno curitibano, sentava-se na varanda da casa simples, observando o neto brincar no terreiro, e contava histórias em talian que o menino não compreendia totalmente, mas ouvia com reverência. Falava do Vêneto que mal lembrava — das montanhas nevadas, das igrejas de pedra, do cheiro do mosto fermentando nas adegas — mas falava sobretudo do mar que cruzara, da coragem dos pais, da força de Madalena.
Madalena partiu antes dele — a data exata perdeu-se no tempo, como tantos detalhes da vida dos humildes — deixando Jacob viúvo numa casa onde o silêncio era mais alto que os ruídos da cidade que crescia ao redor. Mas ele não se queixou. Continuou levantando cedo, cuidando da horta, indo à missa aos domingos. Sua vida tornara-se um ritual de memória: cada gesto repetido era uma prece silenciosa aos antepassados; cada olhar para as araucárias era um diálogo com a terra que, aos poucos, se tornara mãe.

O Adeus: 26 de Maio de 1952

Na segunda-feira, 26 de maio de 1952, Jacob Bertinatto fechou os olhos para sempre em Curitiba, aos setenta e nove anos. Partiu como vivera: sem alarde, com dignidade silenciosa. Seu corpo foi enterrado na terra paranaense que acolhera seu sonho tardio — a mesma terra onde plantara batatas, onde ensinara o neto a reconhecer as estações pelo canto dos pássaros, onde chorara a morte da esposa com lágrimas secas, guardadas para as noites solitárias.
Não deixou testamento, nem fortuna, nem nome gravado em ruas ou monumentos. Mas deixou algo mais duradouro: a semente de uma identidade. Deixou em Nona a força das mulheres italianas; deixou em Tetéco o orgulho de ser filho de duas terras; deixou na história silenciosa de Curitiba a marca invisível de quem ajudou a construir a cidade com mãos calejadas e coração resiliente.

Legado do Silêncio

Jacob Bertinatto representa uma geração inteira de imigrantes cujos nomes não constam nos livros de História, mas cujo suor está nas fundações das cidades brasileiras. Ele foi um dos milhares de italianos que, entre 1870 e 1920, transformaram o Sul do Brasil numa extensão simbólica do Vêneto, da Lombardia, do Trentino — não pela imposição de sua cultura, mas pela fusão silenciosa com o que encontraram aqui.
Sua vida ensina-nos que grandeza não reside na fama, mas na fidelidade ao dever; que heroísmo não é gesto espetacular, mas persistência diária diante da adversidade; que pátria não é apenas onde se nasce, mas onde se planta o futuro dos filhos.
Hoje, quando caminhamos pelas ruas arborizadas de Curitiba e sentimos o cheiro da terra molhada pela chuva de inverno, podemos imaginar Jacob caminhando devagar rumo à feira, o chapéu de palha protegendo a cabeça grisalha, as mãos cruzadas atrás das costas como quem carrega o peso suave de uma vida inteira bem vivida. Ele não está morto. Está vivo em cada descendente que carrega seu nome; em cada gesto de trabalho honesto herdado de geração em geração; no silêncio respeitoso com que os paranaenses de origem italiana ainda hoje honram seus antepassados.
Jacob Bertinatto partiu aos setenta e nove anos. Mas sua jornada — do Vêneto ao Rio Grande do Sul, do pampa às araucárias — continua ecoando no coração de quem entende que as raízes mais fortes são aquelas plantadas com lágrimas, regadas com suor e colhidas em silêncio. E nisso reside sua imortalidade: não na pedra do túmulo, mas na memória viva de quem sabe de onde veio — e por isso sabe quem é.


Jacob BERTINATTO
  • Nascido em 1873 - Italia
  • Falecido a 26 de maio de 1952 (segunda-feira), com a idade de 79 anos
3 ficheiros disponíveis

 Casamento(s) e filho(s)

 Fotos e Registos de Arquivo

Jacob Bertinatto

Jacob Bertinatto

Jacob Bertinatto

Jacob Bertinatto

Magdalena BALLIN

Magdalena BALLIN


1873

Nascimento

 
Italia
19019 jun.
28 anos

Nascimento de uma filha

195226 maio
79 anos

Morte


Descendentes de Jacob BERTINATTO