Jacob BERTINATTO Nascido em 1873 - Italia Falecido a 26 de maio de 1952 (segunda-feira), com a idade de 79 anos
Jacob Bertinatto: O Silêncio do Imigrante que Plantou Raízes entre Dois Mundos
Em algum lugar do Vêneto italiano — talvez nas colinas de Treviso, onde as videiras se enrolam nos mourões como memórias teimosas —, no ano de 1873, um menino veio ao mundo com o nome de Jacob Bertinatto. Ninguém registrou com pompa seu nascimento; não houve sinos badalando nas torres das igrejas nem banquetes nas praças de pedra. Mas naquele momento, sob o sol da Itália que beijava campos de oliveiras e vinhedos, iniciava-se uma jornada que atravessaria oceanos e transformaria para sempre o destino de uma linhagem. Jacob nasceu numa terra onde o pão era amassado com as mãos calejadas dos avós e onde o futuro, para muitos jovens de sua geração, parecia tão distante quanto as nuvens no horizonte.
A Partida: Quando a Terra Mãe Não Bastava Mais
A década de 1880 mergulhou o norte da Itália numa crise silenciosa. As terras do Vêneto, exauridas por décadas de cultivo intensivo e divididas entre herdeiros em sucessões intermináveis, já não sustentavam os sonhos dos filhos. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, o Brasil abria os braços — ou assim prometiam os folhetos coloridos distribuídos por agentes de imigração — oferecendo lotes de terra vermelha, clima generoso e a ilusão de um recomeço. Para Jacob, então com pouco mais de dez anos, a decisão não foi sua: foi tomada pelos pais, que, como milhares de italianos, venderam o pouco que tinham, embrulharam santinhos de Santo Antônio em panos brancos e rumaram para o porto de Gênova.
A travessia do Atlântico foi uma provação de semanas a bordo de navios superlotados, onde o cheiro de enjoo se misturava ao sal do mar e ao medo silencioso de nunca mais ver a terra natal. Jacob, menino de olhos escuros e mãos pequenas demais para o trabalho que o aguardava, aprendeu ali sua primeira lição de adulto: a sobrevivência exige engolir o choro. Quando avistaram o litoral do Rio Grande do Sul, em meados da década de 1880, não havia ouro nas ruas nem terra pronta para a colheita — havia apenas mato cerrado, o desafio das primeiras roças e a promessa de que, com trabalho, um dia haveria pão na mesa.
O Refúgio Gaúcho: Entre Pinheirais e Esperanças
A família Bertinatto fixou-se no interior do Rio Grande do Sul, numa região onde italianos, alemães e luso-brasileiros teciam uma nova identidade sulina. Jacob cresceu entre o cheiro de pinheiro e o sotaque marcante dos talian — o dialeto vêneto que se misturava ao português como vinho ao sangue. Aprendeu cedo a manejar o machado para derrubar árvores, a plantar milho em fileiras retas, a construir casa de taipa com barro e pedra. Suas mãos, antes delicadas de criança, transformaram-se em mapas de cicatrizes e calos — cada marca uma história não contada.
Foi nesse mundo de roça e resistência que Jacob conheceu Madalena Ballin — mulher de olhar sereno e mãos que sabiam transformar farinha em pão, lágrimas em canções de ninar. Casaram-se ainda jovens, unindo-se não por paixões românticas descritas em novelas, mas pelo entendimento profundo de que, naquela terra distante, o amor verdadeiro era dividir o mesmo pão duro, aquecer os pés do outro nas noites frias de inverno gaúcho e erguer juntos paredes que resistissem às chuvas torrenciais.
Nona: A Filha que Carregaria Seu Nome
No domingo, 9 de junho de 1901, Madalena deu à luz uma menina — a primeira e talvez única filha do casal. Batizaram-na Maria Thereza, mas na intimidade da família ela seria sempre Nona — apelido carinhoso que, em italiano, significa "avó", talvez um presságio inconsciente de que aquela criança um dia seria matriarca de uma linhagem. Jacob, aos vinte e oito anos, segurou nos braços a filha recém-nascida e viu, pela primeira vez, algo além da sobrevivência diária: viu continuidade. Viu futuro.
Naquela casa simples do interior gaúcho, Jacob ensinou a Nona o que aprendera com seu próprio pai: que homem de verdade não é aquele que ergue a voz, mas aquele que ergue o telhado quando chove; que dignidade não se mede em moedas, mas na honestidade do trabalho; que raiz não é onde se nasce, mas onde se planta o coração. Enquanto Madalena ensinava à filha a costurar e rezar, Jacob mostrava-lhe como reconhecer a terra fértil pelo cheiro, como plantar feijão na lua certa, como respeitar a floresta que lhes dava madeira e sombra.
A Nova Fronteira: Rumo ao Paraná
Por volta de 1920, quando Nona já era uma jovem mulher de vinte anos, os ventos do destino sopraram novamente. O Rio Grande do Sul, outrora terra de promessas, começava a mostrar seus limites para as novas gerações. Enquanto isso, o Paraná emergia como nova fronteira — Curitiba crescia, os Campos Gerais ofereciam lotes mais acessíveis, e falava-se de uma terra onde o pinheiro araucária erguia-se como catedral natural. Jacob, agora com quase cinquenta anos, enfrentou sua segunda grande migração: deixar para trás a terra onde criara raízes por quarenta anos para buscar novo horizonte para a filha.
A viagem de carroça ou trem até Curitiba foi árdua — dias de estradas esburacadas, noites dormindo em barracas às margens do caminho, o coração apertado pela saudade do pampa gaúcho. Mas Jacob não reclamou. Carregava consigo, além das poucas trouxas de pertences, a certeza de que imigrante não tem o luxo da nostalgia: tem apenas o dever de seguir em frente.
Em Curitiba, já não era mais o jovem colono que desbravara matas no RS. Era um homem maduro, de cabelos grisalhos e costas curvadas pelo trabalho, mas seus braços ainda sabiam erguer paredes, suas mãos ainda reconheciam a terra boa. Estabeleceram-se numa região ainda rural da cidade — talvez próximo ao Atuba ou nas cercanias do Guabirotuba — onde italianos e alemães construíam, lado a lado, uma nova pátria.
O Casamento de Nona: A Alegria de um Pai
No sábado, 6 de fevereiro de 1926, Jacob viveu um dos momentos mais plenos de sua existência. Sua filha Nona, agora com vinte e quatro anos, casava-se com Augusto August Ferdinand Wilhelm Stubert — homem de origem alemã cujo nome longo carregava a história de outra diáspora. Na igreja simples de Curitiba, Jacob, aos cinquenta e três anos, entregou a filha ao noivo com um abraço silencioso que dizia mais que mil palavras: "Cuide dela como eu cuidei. Honre-a como eu honrei sua mãe. Faça dela feliz."
Naquele dia, Jacob compreendeu que sua missão como pai estava cumprida. Tinha atravessado oceanos, desbravado matas, suportado fome e frio — tudo para que sua filha tivesse o direito de escolher seu caminho. Ao ver Nona sorrir ao lado de Augusto, Jacob sentiu que valera a pena cada noite de insônia na travessia do Atlântico, cada calo nas mãos, cada saudade engolida da Itália que nunca mais veria.
Os Últimos Anos: Guardião das Memórias
Jacob viveu mais vinte e seis anos após o casamento de Nona. Viu nascer seu neto Miguel Jacob "Tetéco" Stubert — nome que carregava sua própria herança como homenagem viva. Nas tardes de inverno curitibano, sentava-se na varanda da casa simples, observando o neto brincar no terreiro, e contava histórias em talian que o menino não compreendia totalmente, mas ouvia com reverência. Falava do Vêneto que mal lembrava — das montanhas nevadas, das igrejas de pedra, do cheiro do mosto fermentando nas adegas — mas falava sobretudo do mar que cruzara, da coragem dos pais, da força de Madalena.
Madalena partiu antes dele — a data exata perdeu-se no tempo, como tantos detalhes da vida dos humildes — deixando Jacob viúvo numa casa onde o silêncio era mais alto que os ruídos da cidade que crescia ao redor. Mas ele não se queixou. Continuou levantando cedo, cuidando da horta, indo à missa aos domingos. Sua vida tornara-se um ritual de memória: cada gesto repetido era uma prece silenciosa aos antepassados; cada olhar para as araucárias era um diálogo com a terra que, aos poucos, se tornara mãe.
O Adeus: 26 de Maio de 1952
Na segunda-feira, 26 de maio de 1952, Jacob Bertinatto fechou os olhos para sempre em Curitiba, aos setenta e nove anos. Partiu como vivera: sem alarde, com dignidade silenciosa. Seu corpo foi enterrado na terra paranaense que acolhera seu sonho tardio — a mesma terra onde plantara batatas, onde ensinara o neto a reconhecer as estações pelo canto dos pássaros, onde chorara a morte da esposa com lágrimas secas, guardadas para as noites solitárias.
Não deixou testamento, nem fortuna, nem nome gravado em ruas ou monumentos. Mas deixou algo mais duradouro: a semente de uma identidade. Deixou em Nona a força das mulheres italianas; deixou em Tetéco o orgulho de ser filho de duas terras; deixou na história silenciosa de Curitiba a marca invisível de quem ajudou a construir a cidade com mãos calejadas e coração resiliente.
Legado do Silêncio
Jacob Bertinatto representa uma geração inteira de imigrantes cujos nomes não constam nos livros de História, mas cujo suor está nas fundações das cidades brasileiras. Ele foi um dos milhares de italianos que, entre 1870 e 1920, transformaram o Sul do Brasil numa extensão simbólica do Vêneto, da Lombardia, do Trentino — não pela imposição de sua cultura, mas pela fusão silenciosa com o que encontraram aqui.
Sua vida ensina-nos que grandeza não reside na fama, mas na fidelidade ao dever; que heroísmo não é gesto espetacular, mas persistência diária diante da adversidade; que pátria não é apenas onde se nasce, mas onde se planta o futuro dos filhos.
Hoje, quando caminhamos pelas ruas arborizadas de Curitiba e sentimos o cheiro da terra molhada pela chuva de inverno, podemos imaginar Jacob caminhando devagar rumo à feira, o chapéu de palha protegendo a cabeça grisalha, as mãos cruzadas atrás das costas como quem carrega o peso suave de uma vida inteira bem vivida. Ele não está morto. Está vivo em cada descendente que carrega seu nome; em cada gesto de trabalho honesto herdado de geração em geração; no silêncio respeitoso com que os paranaenses de origem italiana ainda hoje honram seus antepassados.
Jacob Bertinatto partiu aos setenta e nove anos. Mas sua jornada — do Vêneto ao Rio Grande do Sul, do pampa às araucárias — continua ecoando no coração de quem entende que as raízes mais fortes são aquelas plantadas com lágrimas, regadas com suor e colhidas em silêncio. E nisso reside sua imortalidade: não na pedra do túmulo, mas na memória viva de quem sabe de onde veio — e por isso sabe quem é.
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Casamento(s) e filho(s)
- Casado com Madalena BALLIN tiveram
Maria Thereza (Nona) BERTINATTO 1901-1972
Fotos e Registos de Arquivo

Jacob Bertinatto

Jacob Bertinatto

Magdalena BALLIN
1873
Nascimento
19019 jun.
28 anos
Nascimento de uma filha
19266 fev.
53 anos
Casamento de uma filha
195226 maio
79 anos


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