Denominação inicial: Grupo Escolar Silveira da Motta
Denominação atual: Biblioteca Municipal Scharffenberg de Quadros
Endereço: Largo Vereador Segismundo Salata / Praça 08 de Janeiro, 120 - Centro
Cidade: São José dos Pinhais
Classificação (Uso): Casa Escolar, Grupo
Período: 1900-1930
Projeto Arquitetônico
Autor: Secretaria de Obras Públicas e Colonização
Data: 1911
Estrutura: padronizado
Tipologia: Bloco único
Linguagem: Eclética
Data de inauguracao: 1912
Situação atual: Edificação existente com alterações
Uso atual: Edifício com uso cultural
Grupo Escolar Silveira da Motta - s/d
Acervo: Museu Paranaense
Entre Páginas e Memórias: A História Silenciosa do Grupo Escolar Silveira da Motta — Guardião de Sonhos em São José dos Pinhais
Na esquina da Praça 8 de Janeiro, sob a sombra generosa das árvores centenárias do Centro de São José dos Pinhais, ergue-se um edifício de paredes brancas e janelas altas que guarda em seus tijolos a memória de gerações. Hoje conhecido como Biblioteca Municipal Scharffenberg de Quadros, este prédio já foi, um século atrás, o Grupo Escolar Silveira da Motta — templo laico onde o saber entrou pela primeira vez nas vidas de filhos de colonos poloneses, ucranianos e italianos que transformaram o planalto paranaense em pátria.
Sua história não começa com sinos badalando ou discursos inflamados. Começa com o ranger de tábuas de pinheiro sendo assentadas em 1911, com o cheiro de tinta fresca nos primeiros cadernos escolares, com o eco dos primeiros passos de crianças descalças cruzando o umbral daquela porta para aprender a soletrar "Pátria" e "Dever". É a história de um sonho republicano que, mesmo distante dos salões de Curitiba, chegou às terras de colonização com a força silenciosa da certeza: nenhuma nação se constrói sem escolas.
O Patrono Esquecido: Joaquim Ignácio Silveira da Motta e a Semente da Instrução Pública
Por trás do nome que batizou a escola está um homem cuja trajetória se confunde com a própria formação do Paraná como província autônoma. Joaquim Ignácio Silveira da Motta (1818–1891) chegou ao então 5º Distrito de São Paulo — futuro Paraná — ainda jovem formado em Direito, trazendo nos olhos o idealismo dos intelectuais do Império.
Em 1851, exercia o cargo de delegado de polícia em Curitiba, mas sua verdadeira paixão revelou-se na política e na educação.
Tornou-se deputado provincial e depois deputado geral, dedicando-se à causa da instrução pública numa época em que escolas eram luxo raro nas vilas do interior.
Silveira da Motta compreendeu antes de muitos que a educação era o alicerce da cidadania — não apenas para os filhos das elites urbanas, mas para todos, inclusive para os imigrantes que chegavam aos milhares ao planalto paranaense carregando malas de sonhos e mãos calejadas pelo trabalho da roça. Sua atuação na difusão da instrução pública na Província do Paraná foi ampla e decisiva, deixando como legado a convicção de que ensinar a ler é libertar.
Quando, décadas após sua morte em 1891, o governo estadual decidiu homenagear sua memória batizando um grupo escolar em São José dos Pinhais com seu nome, estava selando um pacto tácito: aquele prédio seria mais que tijolos — seria um monumento vivo ao direito universal ao saber.
A Chegada dos Colonos: Quando a Terra Precisava de Escolas
No final do século XIX, São José dos Pinhais transformava-se. Após a bem-sucedida experiência da colonização polonesa em Mallet e outras regiões, novas levas de imigrantes — principalmente da Galícia (região hoje dividida entre Polônia e Ucrânia ocidental) — rumavam para as terras altas do planalto, atraídos pela promessa de lotes para cultivo e liberdade religiosa.
Chegavam famílias inteiras falando polski ou ukrayinskyi, trazendo consigo santos bordados em tecidos, sementes de batata e o sonho de que seus filhos teriam um futuro diferente do que tiveram na Europa sob jugos estrangeiros.
Mas havia um problema silencioso: as crianças cresciam entre as roças de batata e os campos de centeio sem saber ler em português. Falavam o dialeto dos pais, rezavam em latim nas missas católicas orientais, mas ignoravam as letras que formavam a língua do país que as acolhera. Nas colônias Marcelino, Murici e outras espalhadas pelo município, as mães polonesas e ucranianas olhavam para os filhos com um misto de orgulho e angústia: orgulho pela força com que trabalhavam na lavoura; angústia pela incerteza de um futuro sem instrução.
Foi nesse contexto que o governo do Paraná, seguindo o modelo republicano de modernização educacional, decidiu erguer grupos escolares — instituições padronizadas que ofereciam ensino primário sistematizado em edifícios projetados pela Secretaria de Obras Públicas e Colonização.
Em 1911, o projeto para São José dos Pinhais foi aprovado: um bloco único de linguagem eclética, com salas amplas, janelas altas para iluminar as carteiras de madeira e um pátio interno onde as crianças brincariam entre lições de caligrafia e tabuada.
1912: O Ano em que o Saber Entrou Pela Porta da Frente
Na manhã de sua inauguração em 1912, o Grupo Escolar Silveira da Motta abriu suas portas para uma cena que se repetiria por décadas: mães de saias longas e lenços coloridos na cabeça entregavam, hesitantes, seus filhos à professora de vestido branco e cabelo preso em coque severo. Muitas não falavam português fluentemente; algumas sequer sabiam escrever seus próprios nomes. Mas todas compreendiam, no silêncio do coração, que aquele momento era um rito de passagem — o instante em que seus descendentes deixavam de ser apenas camponeses para se tornarem cidadãos.
Dentro das salas de aula, a realidade era desafiadora. Crianças de origem polonesa, ucraniana, italiana e brasileira sentavam-se lado a lado, unidas pelo mesmo caderno pautado e pelo mesmo giz rangendo no quadro-negro.
A professora, muitas vezes recém-formada na Escola Normal de Curitiba, enfrentava a tarefa hercúlea de ensinar português a meninos que só conheciam o talian ou o polonês caseiro. Mas havia método: o Código do Ensino do Estado do Paraná e o Programa do Grupo Escolar Modelo, ambos de 1917, estabeleciam rotinas rigorosas — lições de moral e cívica ao amanhecer, caligrafia à tarde, hinos patrióticos antes do recreio.
O edifício, com seu estilo eclético que misturava elementos neoclássicos e traços modernos da época, tornou-se rapidamente o coração pulsante do Centro de São José dos Pinhais. Suas paredes testemunharam primeiras leituras gaguejadas de Os Lusíadas, lágrimas contidas ao aprender que o Brasil era maior que a Europa, risadas ao descobrir que o mapa-múndi guardava oceanos além do Atlântico que seus avós cruzaram. Cada criança que ali estudou levava para casa mais que lições de português e aritmética: levava a semente da identidade brasileira — cultivada com respeito às raízes europeias, mas firmemente plantada na terra paranaense.
A Transformação Silenciosa: Da Escola à Biblioteca
Ao longo das décadas, o mundo mudou ao redor do Grupo Escolar Silveira da Motta. Novas escolas surgiram nos bairros que se expandiam; o ensino primário foi sendo transferido para unidades mais modernas; as crianças de saias curtas e calções substituíram as de vestidos longos e suspensórios. O edifício, porém, resistiu — não como relíquia do passado, mas como guardião de memórias.
Em 10 de novembro de 1940, durante a Cruzada Nacional de Educação liderada pelo governo federal, o prédio renasceu com nova vocação: tornou-se a Biblioteca Pública Municipal Scharffenberg de Quadros.
O nome homenageava a família Scharffenberg de Quadros, cujas raízes na região remontavam ao final do século XIX — Antonio Scharffenberg de Quadros (1881–1953), filho de Antonio Manoel de Quadros e Maria Elisa Scharffenberg, casara-se em 1907 com Robertina Guimarães Cavalcanti e criara família em São José dos Pinhais, integrando-se à elite local que valorizava a cultura e a educação.
Sob a gestão da primeira bibliotecária, Maria Iphygenia de Souza Cortês, a biblioteca iniciou suas atividades com apenas 220 obras — livros doados por famílias tradicionais, volumes trazidos de Curitiba, exemplares resgatados de escolas fechadas.
Mas aos poucos, aquelas estantes vazias foram se enchendo: romances de José de Alencar ao lado de contos poloneses traduzidos; manuais agrícolas para os colonos ao lado de dicionários que ajudavam os jovens a dominar o português; atlas que mostravam ao mesmo tempo a Ucrânia ancestral e o Brasil que agora era pátria.
O Presente que Honra o Passado
Hoje, mais de cem anos após sua construção, o edifício na Praça 8 de Janeiro — Largo Vereador Segismundo Salata, 120 — permanece de pé, embora modificado pelo tempo e pelas necessidades contemporâneas.
Suas paredes, que já ouviram o ranger de giz em quadros-negros, agora abrigam computadores e wi-fi; seus corredores, que ecoaram com os passos apressados de crianças correndo para o recreio, hoje recebem jovens em busca de livros para concursos públicos e idosos que vêm folhear jornais antigos em busca de memórias.
A Biblioteca Scharffenberg de Quadros conta hoje com um acervo de mais de 80 mil livros físicos — número que ultrapassa os 100 mil títulos quando somados os recursos digitais da biblioteca virtual.
Entre janeiro e abril de 2025, registrou 1,835 empréstimos — prova de que, mesmo na era digital, o livro impresso e o espaço físico de leitura continuam vivos.
Mas seu verdadeiro valor não está nos números: está na senhora ucraniana de cabelos brancos que vem toda semana buscar livros em cirílico; no jovem descendente de poloneses que pesquisa a história da Colônia Marcelino para seu trabalho de faculdade; na criança que, pela primeira vez, descobre o prazer de ler escondida entre as estantes.
Legado de Pedra e Papel
O Grupo Escolar Silveira da Motta — hoje Biblioteca Scharffenberg de Quadros — é mais que um edifício histórico. É um testemunho silencioso de como o Paraná se fez nação através da educação. Representa a coragem dos imigrantes que, mesmo sem falar português, insistiram para que seus filhos aprendessem a língua do novo país; a dedicação das professoras que enfrentaram salas multilíngues com paciência de missionárias leigas; a visão dos estadistas como Silveira da Motta que entenderam que escolas são tão fundamentais quanto estradas para unir um território.
Quando caminhamos hoje diante daquele prédio de linguagem eclética no Centro de São José dos Pinhais, devemos ouvir além do silêncio das paredes. Devemos ouvir o eco das primeiras sílabas soletradas por crianças de olhos azuis que nunca tinham visto o mar; o ranger das carteiras de madeira onde meninos de origem polonesa aprenderam a escrever "Brasil" com letra cursiva; o sussurro das páginas viradas por gerações que descobriram, entre capas de papel, que o mundo era maior que a colônia onde nasceram.
Aquele edifício não ensinou apenas a ler e escrever. Ensina, até hoje, que a memória é o solo onde as identidades florescem — e que uma nação se constrói não apenas com tratores e estradas, mas com livros abertos em mesas de madeira simples, sob a luz tênue de lâmpadas a querosene que, um século depois, ainda iluminam o caminho do saber.

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