
Anúncio de venda dos apartamentos do Edifício Brasílio de Araujo, em 1963.
Página do livro Morar nas alturas! A verticalização de Curitiba entre 1930 e 1960. Para saber mais acesse a página deste trabalho no site Memória Urbana: https://www.memoriaurbana.com.br/morar-nas-alturas/.
Edifício Brasílio de Araújo: A Consolidação do Morar Moderno em Curitiba (1963)
Introdução
O ano de 1963 representava um momento de ebulição e transformação profunda para a cidade de Curitiba. No âmbito da arquitetura e do urbanismo, a capital paranaense vivenciava a consolidação de um novo padrão de vida verticalizada. O anúncio de venda dos apartamentos do Edifício Brasílio de Araújo, lançado neste período, não é apenas uma peça publicitária; é um documento histórico que encapsula as aspirações de uma classe média em ascensão, as inovações tecnológicas da construção civil e as estratégias de mercado de uma época marcada pela instabilidade econômica e pela fé no progresso.
Promovido pelo renomado incorporador Jayme Canet Jr., o edifício surgia como a continuação de uma série de sucessos anteriores, prometendo não apenas moradia, mas um estilo de vida sofisticado e familiar no coração nobre da cidade.
O Incorporador: Jayme Canet Jr. e a Tradição de Sucesso
No topo do anúncio, a assinatura manuscrita de Jayme Canet Jr. destaca-se com uma afirmação de autoridade e confiança: "Repetindo o extraordinário negócio que foi a compra dos apartamentos dos Edifícios Bourbon e Sumatra, oferece-lhes MAIS ESTA EXCELENTE OPORTUNIDADE".
Esta referência não era casual. Os Edifícios Bourbon e Sumatra eram empreendimentos anteriores de grande sucesso, o que servia como um "selo de garantia" para o comprador. Canet Jr. estabelecia-se assim como um nome de confiança no mercado imobiliário curitibano, alguém que entregava o que prometia e cujos investimentos anteriores haviam valorizado. Essa estratégia de marketing, baseada no histórico do incorporador, visava mitigar os riscos percebidos pelos compradores em um período de construção na planta.
Localização Estratégica: O Coração Nobre de Curitiba
O mapa simplificado apresentado no anúncio situa o empreendimento em uma das áreas mais valorizadas de Curitiba: a Praça Oswaldo Cruz (conhecida popularmente como Praça Ozório).
As referências viárias deixam clara a posição privilegiada:
- Rua Comendador Araújo
- Avenida João Pessoa
- Rua Vicente Machado
- Rua Visconde de Nácar
Esta região, conhecida como o "Centro Cívico" ou a alta elite residencial da época, afastava-se do comércio popular da Rua XV de Novembro, oferecendo um ambiente mais arborizado, tranquilo e distinto. Estar próximo à Praça Ozório significava residir em um bairro planejado, com ruas mais largas e uma atmosfera de exclusividade. O anúncio destaca que o terreno possuía 1.953 m², com 30 metros de frente para a Rua Visconde de Nácar, o que garantia uma imponência volumétrica ao edifício.
Conceito Arquitetônico: "Exclusivamente Familiar"
Um dos pontos mais interessantes do anúncio é a especificação: "Exclusivamente familiar (sem lojas)".
Na arquitetura urbana da época, era comum que os edifícios misturassem uso residencial e comercial, com lojas ocupando o térreo e a sobreloja. Ao eliminar as lojas, o Edifício Brasílio de Araújo propunha um conceito de privacidade e silêncio. O térreo seria dedicado integralmente aos moradores e às áreas de lazer, sem o fluxo de estranhos ou o barulho característico do comércio de rua. Isso reforçava o caráter de "refúgio urbano" para as famílias.
O projeto é atribuído ao arquiteto André Masini, e a construção ficou a cargo da Técnica e Industrial de Mari Ltda., indicando uma divisão profissionalizada de tarefas entre o desenho arquitetônico e a execução da obra.
Inovações e Áreas de Lazer: O Nascimento do Condomínio Clube
O anúncio detalha uma série de amenidades que eram consideradas luxuosas e modernas para 1963, antecipando o conceito de "condomínio clube" que se popularizaria nas décadas seguintes:
- Salão de Festas Monumental: O texto destaca um "salão de festas decorado e mobiliado, com mais de 200m²". Para os padrões da época, um espaço privativo de convivência deste tamanho dentro de um edifício residencial era algo extraordinário, permitindo que os moradores realizassem grandes eventos sem sair de casa.
- Foco na Infância: Havia um "salão infantil cuidadosamente decorado" e um "play-ground ao ar livre, na térrea". Isso revela uma mudança cultural significativa: o edifício passava a ser projetado pensando não apenas no adulto trabalhador, mas na criança e na família nuclear.
- Lazer Adulto: Um "salão de jogos" complementava as opções de lazer, oferecendo espaço para reuniões sociais informais.
- Conforto e Espera: As "salas de espera, junto aos elevadores" demonstram um cuidado com a circulação e a etiqueta social, evitando aglomerações nos corredores dos apartamentos.
A Tecnologia da Construção e Segurança
A imagem principal do anúncio mostra o edifício em fase avançada de estruturação (concreto aparente), com a data da foto registrada como 10-01-62. Isso permitia ao comprador ver a "ossatura" do prédio, transmitindo transparência e segurança sobre o andamento da obra.
Outra imagem, no canto superior direito, mostra a fachada já com acabamento, indicando a estética moderna do empreendimento: linhas retas, varandas sucessivas e uma estética funcionalista.
O anúncio especifica detalhes técnicos importantes:
- 4 Elevadores Atlas: A marca "Atlas" era sinônimo de qualidade e durabilidade. Ter quatro elevadores para um edifício desta altura garantia agilidade no transporte vertical.
- Revestimento: Os elevadores seriam "revestidos de fórmica", um material moderno, higiênico e fácil de limpar, muito em voga no design de interiores dos anos 60.
- Tipologia: Os apartamentos contavam com 2 e 3 dormitórios, o formato padrão para famílias de classe média da época.
O Contexto Econômico: A Garantia do "Preço Fixo"
Talvez o ponto mais crucial do anúncio, quando lido sob a ótica da história econômica do Brasil, seja a promessa: "Preço fixo, inteiramente sem reajustamentos".
O ano de 1963 foi um dos mais turbulentos da história republicana brasileira. O país vivia sob o regime parlamentarista, com alta inflação, instabilidade política (governo João Goulart) e tensões sociais que culminariam no golpe militar de 1964. Em um cenário onde a moeda se desvalorizava rapidamente e os preços mudavam da noite para o dia, oferecer um "preço fixo" era um argumento de venda poderosíssimo.
Além disso, o anúncio garantia "Entrega em dia certo: 31 de julho de 1963". Essa pontualidade contratual, com multa por atraso especificada (Cr$ 30.000,00 mensais por apartamento), reforçava a seriedade do incorporador em um mercado onde atrasos de obras eram (e ainda são) comuns.
Estratégia Comercial e Vendas
A comercialização estava a cargo da Comissária Galvão Ltda., uma corretora de imóveis estabelecida na Av. João Pessoa, 75. O anúncio demonstra uma agressividade comercial moderna para a época:
- Visita à Obra: "Venha ver pessoalmente seu apartamento. Dado o adiantado da obra, você poderá escolher, no próprio prédio, seu apartamento." Isso permitia que o cliente visualizasse a vista real e a posição do sol, algo impossível de fazer apenas com plantas baixas.
- Horários Estendidos: O estande de vendas atendia "diariamente... até as 22 horas, inclusive aos domingos". Essa flexibilidade visava captar o comprador trabalhador, que só tinha tempo livre no final do dia ou no fim de semana.
- Facilidades: A menção a "Condições bem facilitadas" sugeria um financiamento próprio ou parcelamento direto que contornava as dificuldades de crédito da época.
O Legado do Edifício Brasílio de Araújo
O Edifício Brasílio de Araújo permanece até hoje como um marco na paisagem da Praça Ozório em Curitiba. Ele representa a transição definitiva da casa de rua para o apartamento de luxo como o ideal habitacional da elite curitibana.
Sua construção reflete o otimismo tecnológico dos anos 60, onde o concreto armado e os elevadores rápidos permitiam novas formas de viver em comunidade vertical. As áreas de lazer coletivas anunciadas em 1963 prenunciavam a importância que a vida em condomínio teria nas décadas futuras, transformando o edifício não apenas em um local de dormitório, mas em um espaço completo de vivência social, lazer e segurança para a família.
Em suma, o anúncio de 1963 do Edifício Brasílio de Araújo é um retrato fiel de uma Curitiba que queria crescer, se modernizar e oferecer conforto e status a seus cidadãos, mesmo em meio às incertezas de um país em transformação.
Nenhum comentário:
Postar um comentário